Aviso Importante
1997-2006

A importância do diagnóstico do stress na urgência hipertensiva em mulheres 

Flávia Urbini dos Santos, Marilda E. Novaes Lipp (1).


1: O presente artigo é  um recorte da Dissertação de Mestrado em Psicologia, defendida pela primeira autora, sob a orientação da segunda,  no  Programa de Pós Graduação em Psicologia da PUC – Campinas, com o título de “A relação entre eventos estressores e urgência hipertensiva em mulheres”.

 

Introdução

 As urgências hipertensivas e as emergências hipertensivas são igualmente denominadas crises hipertensivas e são caracterizadas por uma elevação rápida, intensa e sintomática da pressão arterial, podendo ou não lesionar órgãos-alvo. Podem ou não envolver risco de morte imediato ou potencial (Santello, & Praxedes, 2003). Quando o paciente se encontra em emergência hipertensiva, e se considerado  em estado grave e/ou agudo, deve ser internado em um centro de tratamento intensivo, com o monitoramento da pressão arterial de forma contínua e cuidadosa (Eberunos, 1985). Dependendo da possibilidade ou não de lesionar órgãos-alvo, a crise hipertensiva pode-se manifestar como urgência ou emergência hipertensiva. No caso de urgência hipertensiva, ela é considerada uma das situações de alerta da hipertensão arterial não controlada (Liberman, 2001). As urgências hipertensivas são elevações da pressão arterial diastólica 120-130mmHg sem evidências de lesão de órgãos-alvo em curto prazo, sendo necessária uma redução gradual da pressão arterial em 24-48 horas para que ocorra a recuperação e a readaptação do paciente.


A emergência hipertensiva caracteriza-se por elevação importante da pressão arterial diastólica de 120 -130mmHg, ou qualquer valor que possa trazer danos de órgão-alvo, sendo necessária uma redução imediata em minutos ou horas. Essa redução não precisa necessariamente ser a índices normais, mas sim a índices que possam afastar risco de morte e impedir o agravamento ou deteriorização de órgão-alvo (Borges, 2003).


São poucos os estudos realizados sobre a incidência e a prevalência de crise hipertensiva, o que torna mais difícil a identificação e a prevenção de conseqüências mais graves. Em 2002, foi realizado um estudo no Hospital da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto que indicou que vários pacientes que chegam à unidade de emergência recebem o diagnóstico inapropriado de crise hipertensiva e, conseqüentemente, recebem medicações excessivas e também desnecessárias, o que aumenta os altos índices de mortalidade. Uma das principais causas dessa realidade está na falta de critérios que excluam ou incluam a pessoa dentro do que é considerada uma crise hipertensiva (Nobre, Chauchar, Viana, Pereira, & Lima,2002).


Em 2000 foi realizado um estudo retrospectivo com a análise de prontuários médicos em pacientes atendidos no setor de emergência do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, com o objetivo de avaliar a prevalência, o quadro clínico e as lesões orgânicas envolvidas em crises hipertensivas. Apesar dos poucos dados relativos a essa complicação, encontrou-se que entre 20% e 30% da população brasileira atendida nesse setor sofre dessa síndrome. Com relação à prevalência das crises hipertensivas, a urgência foi encontrada em dois terços dos casos avaliados. Os fatores de risco, tais como tabagismo e diabetes, também tiveram destaque nos pacientes com crise hipertensiva (um quarto e um quinto respectivamente). As estações do ano que apresentaram maior ocorrência de crises foram o outono e o inverno no período da manhã.  As mulheres foram as que apresentaram maior freqüência de crise principalmente nas urgências hipertensivas. As queixas mais comuns nos pacientes com urgência hipertensiva foram cefaléia e tontura (Martin, Higashiama, Garcia, Luizon, & Cipullo, 2004).


Em 2001, Liberman conduziu um estudo com uma amostra de 70 pacientes de ambos os sexos atendidos na urgência hipertensiva no Pronto- Socorro do Hospital e Maternidade Albert Sabin na cidade de Campinas, com o objetivo de avaliar a qualidade de vida desses pacientes através do questionário SF-36. Os pacientes com urgência hipertensiva demonstraram valores menores nos domínios vitalidade e saúde mental, sendo as variáveis que mais interferiram na qualidade de vida o distúrbio do sono e as pessoas do sexo feminino, e as variáveis que influenciaram mas com menor intensidade foram renda e escolaridade, os não empregados, os conscientes e em tratamento da hipertensão arterial, os diabéticos, aqueles com comorbidades, e os que relataram nervosismo. Notou-se que as pessoas que estavam com o diagnóstico do stress sentiam-se mais doentes, mais pessimistas, o que revela a fundamental importância na identificação de pessoas com stress para o tratamento e prevenção da urgência hipertensiva (Liberman,2001).


O modo como as pessoas lidam com as situações do cotidiano é influenciado e determinado por diferentes aspectos, mas aquelas que aprenderam ou desenvolveram habilidades para trabalhar com o stress no decorrer da  vida em geral  têm maiores chances de expressar assertivamente suas emoções e, conseqüentemente, menores chances de favorecer o surgimento da crise hipertensiva (Castro & Scatena,2004).


A prevalência de pacientes com urgência hipertensiva no pronto-socorro é alta, mas as características clínicas desses pacientes são pouco estudadas, assim como a influência do stress e de outros fatores psicológicos que podem ou não contribuir para o fracasso do controle da hipertensão (Liberman,2001). O estudo mais aprofundado dos diferentes aspectos que podem interferir no desencadeamento da urgência hipertensiva é fundamental para o desenvolvimento de medidas que modifiquem o alto índice de pessoas que chegam ao pronto-socorro com esse diagnóstico. Levantou-se a hipótese de que o stress emocional poderia estar associado ao desenvolvimento de urgências hipertensivas.


Os seres humanos constantemente enfrentam pressões; conseqüentemente o corpo sofre exigências, sem, contudo, demonstrar problemas maiores. No entanto existem pressões que podem provocar um desgaste físico e emocional muito grande, gerando um cansaço duradouro e levando ao processo denominado stress (Mota, 2003).


Lipp e Malagris (1995) definiram o stress como uma reação do organismo, com componentes físicos e/ou psicológicos, desencadeada pelas alterações psicofisiológicas que ocorrem quando uma pessoa se confronta com uma situação que a irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo que a faça imensamente feliz.


Selye (1974) sugeriu que o organismo sempre procura uma adaptação ao evento estressor, necessitando de muita energia adaptativa, e desenvolveu o conceito trifásico do stress, que pode se manifestar tanto no físico quanto no psicológico da pessoa. Os estágios são assim definidos:


Fase de  alarme: é considerado o estágio inicial do stress, no qual o organismo se prepara para reagir por meio da fuga ou da luta. Conhecido também como “eustress” ou reação saudável do stress, pois o indivíduo consegue diante de um estímulo enfrentá-lo e posteriormente retornar à homeostase, ou seja, utiliza-o a seu favor.


Fase de resistência: caracteriza-se pela busca de adaptação pelo organismo e os sintomas iniciais do stress desaparecem dando lugar a dois sintomas que nem sempre são identificados: sensação de desgaste generalizado sem uma causa específica e dificuldade com a memória. O organismo encontra-se com maior desgaste, o que o torna propenso a piorar ou a desenvolver algum quadro sintomatológico e ao aparecimento de manifestações psicossociais, tais como medo, isolamento social, roer unhas, oscilação do apetite, impotência sexual, dúvida quanto a si próprio, sensibilidade emotiva excessiva, entre outros (Lipp, 1984). Nesse estágio, se o estressor for eliminado, o processo de stress termina. Porém se o organismo não conseguir enfrentar adequadamente o estressor e ele permanecer, inicia-se um novo estágio denominado exaustão.


Fase de exaustão: caracteriza-se pela permanência de estímulos estressantes, o que desencadeia uma falha na capacidade adaptativa do organismo, tornando-o propenso a doenças. Embora bastante grave, não é irreversível, desde que afete unicamente partes do corpo (Selye, 1956). Nesse estágio encontram-se sintomas que se assemelham aos do estágio inicial do stress (alerta), porém sua magnitude é mais intensa já que a doença provavelmente já está instalada. O corpo que se encontra em desgaste intenso pode desencadear até mesmo a morte de acordo com as doenças que podem ocorrer (Lipp, 2003). Essas doenças sofrem influência da predisposição de cada indivíduo, assim como aspectos da sua história de vida e saúde, que incluem idade, condições ambientais, dentre outros.

Fase de quase-exaustão: esse estágio se caracteriza por um enfraquecimento da pessoa que não está mais conseguindo resistir e se adaptar à situação. As doenças começam a aparecer, porém não tão graves quanto no estágio de exaustão. Embora a pessoa apresente um desgaste, consegue executar suas tarefas até certo ponto, o que difere da exaustão em que a pessoa não consegue na maioria das vezes trabalhar e se concentrar (Lipp, 2000). O indivíduo muitas vezes sente um imenso cansaço e em outras consegue produzir por sentir-se bem e tranqüilo (Lipp, 2003).


O stress envolve um processo psicológico e o que o define é a percepção do indivíduo sobre a situação (Lazarus & Folkman, 1984).
Uma mesma situação pode ser interpretada de diferentes maneiras e essa interpretação irá depender dos recursos de enfrentamento e da interpretação dada ao fato pela pessoa. As cognições (pensamentos, sentimentos, valores, crenças e atitudes) irão influenciar a resposta comportamental do indivíduo (Range, 1995).


Lipp (2005) demonstrou que o stress social é capaz de gerar aumentos pressóricos significativos em situações experimentais e Lipp, Bignotto Justo e Gomes de Matos (2006) demonstraram que a reatividade cardiovascular pode variar de acordo com o teor da interação social na qual a pessoa está engajada. Segundo as V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2006) a elevação da pressão pode ter estar associada com situações estressantes que  geram  reatividade cardiovascular, sendo o treino do controle do stress uma das medidas não farmacológicas úteis tanto no controle do stress como na adesão de pacientes às medidas terapêuticas medicamentosas e não medicamentosas. Devido à possível associação entre stress e aumentos pressóricos significativos, objetivou-se averiguar se as urgências hipertensivas possuem em sua gênese a influencia do stress emocional. A escolha por pacientes com urgência e não emergência hipertensiva se deve ao fato de ser possível conduzir uma avaliação psicológica desses pacientes, apesar de estarem com elevações da pressão arterial, diferente da emergência hipertensiva durante a qual, geralmente, pela gravidade que o paciente se encontra, isto não seria viável.

 

 

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