
A importância do diagnóstico do stress na urgência hipertensiva em mulheres
Flávia Urbini dos Santos, Marilda E. Novaes Lipp (1).
1: O presente artigo é um recorte da Dissertação de Mestrado em Psicologia, defendida pela primeira autora, sob a orientação da segunda, no Programa de Pós Graduação em Psicologia da PUC – Campinas, com o título de “A relação entre eventos estressores e urgência hipertensiva em mulheres”.
Discussão
O diagnóstico do stress em 80% das participantes é um forte indício da importância da avaliação da presença de stress nos pacientes com urgência hipertensiva e, em especial, em mulheres. Mulheres estas que se estressavam por diferentes fatores, mas principalmente pelo fato de que haviam adoecido, e que permaneciam mentalmente revivendo o problema de modo repetitivo. O que vem ao encontro aos estudos de Lazarus e Folkman (1984) de que o stress envolve um processo psicológico que envolve a percepção do indivíduo sobre a situação. Assim como argumenta Rangé (1995) uma mesma situação pode ser interpretada de diferentes maneiras e essa interpretação depende da visão de mundo mantida pela pessoa. As cognições (pensamentos, sentimentos, valores, crenças e atitudes) são fatores determinantes para a reação do stress e da resposta comportamental do indivíduo.
As participantes eram mulheres que tinham muita dificuldade em expressar seus próprios sentimentos, tinham muita dificuldade em discriminar o que estava gerando a crise naquele momento. Não reconheciam a influencia do próprio estado emocional no desencadeamento de urgência hiperetensiva. Apesar de inúmeras pesquisas já realizadas, ainda há divergência quanto a definir o stress como causa ou fator desencadeante de doenças e os dados do presente estudo devem ser interpretados com cautela, não só pelo número limitado de participantes, mas também por se tratar de um trabalho que dependeu da memória das respondentes para o relato dos eventos estressores que ocorreram nos últimos 6 meses.
Levando em consideração que 40% das participantes encontravam na fase de resistência e 35% na fase de quase exaustão, e que tinham um diagnóstico prévio de hipertensão arterial, pode-se compreender o desencadeamento da urgência hipertensiva, já que diante de um fator estressante a probabilidade de se desenvolver uma doença a qual se tem vulnerabilidade é maior (Everly & Lating, 2002). O fato de que as participantes não praticavam atividade física, não se alimentavam adequadamente, não realizavam nenhuma técnica de relaxamento, e não conseguiam se desligar dos problemas tanto seus como de seus familiares leva a se pensar que o quadro de stress apresentado não só era o produto da presença de estressores em suas vidas, mas também, se devia à não existência de estratégias de enfrentamento do stress no repertório comportamental das respondentes. O nível de stress depende, de acordo com Lipp (2005), não só da presença de estressores, mas principalmente, da habilidade da pessoa para lidar com o seu significado, ou seja, das estratégias de coping que elaconhece e utiliza em momentos de tensão ou conflito. Quando o stress ultrapassa a resistência do ser humano e ele não possui os meios necessários para lidar com a situação, o resultado pode ser o enfraquecimento do organismo e o conseqüente aparecimento das doenças geneticamente programadas ou adquiridas no percurso da vida (Lipp, 2005).
Apesar das limitações deste estudo, principalmente no que se refere ao tamanho da amostra e ao fato de se depender do auto-relato das participantes quanto a eventos pregressos, deve-se lembrar que 80% das mulheres avaliadas com urgência hipertensiva relataram a presença de eventos estressantes em suas vidas ocorrido nos últimos 6 meses e apresentaram um nível muito alto de stress. Estudos com amostras mais amplas devem ser conduzidos a fim de se averiguar se de fato existe uma associação entre stress e crises hipertensivas. É importante enfatizar a necessidade do desenvolvimento de programas para mulheres de classe sócio-cultural menos privilegiada que as possam ajudar a adquirirem estratégias de enfrentamento de stress, como por exemplo o treino do controle do stress enfatizado nas V diretrizes Brasileiras de hipertensão (2006).
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