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Transplante
Renal no Brasil: Para Onde Estamos Caminhando ?
Dr. Vilber Antonio de
Oliveira Bello
Coordenador Clínico do TRansplante Renal do Hospital de Base do Distrito
Federal
No
ano passado o Brasil foi elevado a um honroso segundo lugar no "ranking"
mundial em número de transplantes renais realizados, ficando atrás, somente
dos EUA. Graças ao esforço da comunidade médica envolvida e do associativismo
dos pacientes, aliado a um governo sensível aos apelos de ambos, estamos
vencendo obstáculos.
A política governamental
tem sido dirigida a uma melhor remuneração do sistema, além da implementação
de instrumentos organizacionais e operacionais que melhoraram o fluxo dos
transplantes no nosso país . Destacam-se um conjunto de leis e normas e a criação
do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) , com implantação das Centrais de
Notificação, Captação e Distribuição de órgãos (CNCDO).
Há
vários anos tínhamos a convicção de que para aumentar o número de
procedimentos, precisávamos de uma captação organizada e efetiva.
Neste sentido, quando da realização, em Brasília, do V Congresso da
ABTO, em 1997, destacamos a Captação de Órgãos como tema central, além de
organizarmos o primeiro curso com a intenção de estimular a formação de
coordenadores de captação de órgãos, com a participação de médicos da
Organização Nacional de Transplantes (ONT) da Espanha. A partir daquele
momento , coincidentemente ou não, o sistema começou a se estruturar.
Entretanto
nem tudo são flores. É importante que se faça uma pausa para reflexão.
Estamos mesmo no caminho certo ? Ou será que houve desvios.
Temo
que, ao analisarmos os números fornecidos pela ABTO, o panorama não seja tão
favorável. Estes números demonstram que realmente houve um aumento
significativo no número de transplantes realizados.
No entanto, sua avaliação crítica mostra que tal incremento decorreu,
principalmente, do crescimento de transplantes com doador vivo. O aumento do número
de transplantes com doador cadáver foi, proporcionalmente, inferior (tabelas
disponíveis no "site" da ABTO http://www.abto.com.br.
Paralelamente, vemos que os transplantes com doador vivo não relacionado
têm ganhado espaço e vêm se tornando cada vez mais freqüentes, tanto
na comunidade internacional como em nosso meio.
Aqueles que os defendem baseiam-se nos bons resultados obtidos a curto
prazo, devido a uma melhor eficácia dos novos medicamentos imunossupressores e
os advogam como uma opção para diminuir a demanda reprimida de transplantes,
decorrente da escassez da oferta de órgãos.
Entretanto,
nossa realidade é muito diferente da de outros países em que já ocorreu o
esgotamento da capacidade de se aumentar a captação de órgãos de doador cadáver.
Ao analisarmos nossos números, detectamos que a nossa estrutura de captação
está longe de atingir a sua plena capacidade operacional. Na verdade, mal começamos ...!
Vejo
com muita preocupação a realização de transplantes intervivos não
relacionados, especialmente em um país como o nosso, onde desigualdades sócio-econômico-culturais
são tão acentuadas. Afinal de
contas, estamos buscando uma Política de Transplantes que se baseie na captação
adequada e na justa distribuição dos órgãos, ou queremos uma “Política de
Doação entre Vivos” que, como todos nós imaginamos, nem sempre é altruísta
? Mesmo entre doadores relacionados, em alguns casos, não seria a doação mais
fruto de uma pressão familiar do que de um espírito de desprendimento, altruísmo
e abnegação ?
Acredito
que cabe aqui uma pausa para reflexão e discussão entre toda a comunidade
envolvida em transplantes. O debate
já está aberto.
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