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UNICAMP - 1000 Transplantes
Renais
Gentil Alves Filho


Em 1983 iniciamos contatos com a Disciplina
de Urologia e com os Departamentos de Patologia Clínica e Anatomia
Patológica sobre a viabilidade da realização do procedimento
de transplante renal no antigo hospital da Faculdade de Ciências
Médicas da Unicamp.
O prédio do antigo hospital (Santa Casa de Misericórdia
de Campinas) construído no século XVIII, é localizado
na região central de Campinas e rodeado por palmeiras imperiais.
Os leitos da Enfermaria Clínica eram divididos entre as várias
especialidades do Departamento de Clínica Médica. Foi nesta
enfermaria que vi pela primeira vez um quadro de "neve urêmica".
Na ocasião fomos convocados pela Chefia do Departamento de Cirurgia
que alegou, entre outros motivos, o fato dos colchões das enfermarias
encontrarem-se rasgados, não havendo condições mínimas
da manutenção de um pós operatório naquelas
dependências. Aleguei, na época, que os colchões dos
leitos ocupados pela Nefrologia, no mínimo, eram remendados com
esparadrapo. Primeira luta, e com meus argumentos consegui o primeiro
aliado.
Solicitamos ao Superintendente do hospital um quarto separado para que
pudessemos realizar o pós operatório. Também não
havia, na época, legislação que normatizasse o procedimento
e, juntamente com a Urologia redigimos um documento com "10 Princípios"
que procuramos obedecer até hoje. Em um deles afirmamos que não
realizaríamos transplante com doador vivo não relacionado.
Após várias reuniões com a Urologia chegamos à
conclusão de que não teríamos Caciques e sim um Responsável
Clínico e um Responsável Cirúrgico e que nós
seríamos os clínicos dos Urologistas e eles nossos cirurgiões.
Fizemos também um compromisso que, somente após o décimo
transplante reavaliaríamos se continuaríamos ou não.
O primeiro transplante renal da Unicamp foi realizado em 10 de janeiro
de 1984, com doador vivo, que apresentou trombose da artéria renal.
O primeiro transplante com doador cadavérico foi realizado em 1986
e, imediatamente após a suspensão do suporte ventilatório
do doador, a médica anestesista teve uma crise de pânico.
Foi constituída uma comissão de sindicância interna
do Departamento de Medicina Legal sobre a acusação de eutanásia.
Na época, a USP e a EPM já realizavam transplantes com doador
cadavérico e possuíam critérios institucionais de
diagnóstico de morte encefálica que foram por nós
utilizados. Após uma reunião, de cerca de 3 horas e muita
adrenalina, fomos absolvidos e conseguimos novos e importantes aliados.
Em 1987 mudamos para o atual hospital (no campus da Universidade) e conseguimos
uma enfermaria de Nefrologia com 18 leitos que alavancou o nosso programa.
Desde então o número de transplantes vem crescendo ano a
ano, com altos e baixos, porém, sempre com um aumento progressivo
do número de transplantes com doador cadavérico. Logo, a
partir de 1991, e em todos os anos subsequentes, a maioria passou a ser
com doador cadavérico. Até 30 de novembro de 2001, hoje,
foram realizados 98 procedimentos (70% deles com rins provenientes de
doadores cadavéricos).
O pós operatório imediato foi sempre realizado na UTI do
hospital e, quando na enfermaria, o paciente é acompanhado por
um médico residente do segundo ano, assessorado por um residente
do terceiro ano e visitas diárias de todos os docentes da Disciplina
de Nefrologia.
O aumento do número de transplantes se deveu principalmente ao
aumento do número de tx com rins de doadores cadavéricos.
A conscientização dos médicos começa a ser
realizada já no segundo ano de graduação de Medicina
com uma aula sobre morte encefálica, ministrada por nós
durante o curso da Medicina Legal.
Desde o início dos anos 90 o hospital criou uma central de captação
de órgãos hoje OPO-Campinas que, por força de lei,
é ligada diretamente à Superintendência e à
Diretoria Clínica. Frequentemente realizamos na cidade campanhas
incentivando a importância da doação de órgãos.
Também trabalham conosco duas Nefrologistas contratadas, que com
os 2 médicos da OPO e 4 Urologistas, todos eles ex residentes.
Todo procedimento segue sempre um protocolo que é constatemente
atualizado.
O ambulatório da Nefrologia possui 9 consultórios destinados,
no período da manhã, exceto às quintas feiras, aos
cerca de 600 transplantados renais em acompanhamento. Ambulatórios
específicos para avaliação de candidatos ao transplante
com doador vivo e com doador cadavérico são realizados semanalmente.
Constantemente realizamos protocolos (Fase II e III de investigação
científica) com novos medicamentos imunossupressores, de diferentes
indústrias farmacêuticas que, além de proporcionar
novos conhecimentos, geram recursos para investimentos no laboratório
de pesquisa, na infra estrutura da Disciplina, e no financiamento de viagens
para congressos e eventos científicos.
Esta intensa atividade de transplantes sacrificou, em muito, a enfermaria
de Nefrologia e constantemente a maioria dos seus leitos é ocupada
por pacientes transplantados. No próximo ano iremos inaugurar uma
enfermaria de transplantes de órgãos (Rim e Fígado)
com 12 leitos, que deverá liberar um pouco mais os leitos para
a Nefrologia.
Como perspectiva futura temos como meta , a manutenção da
atividade atual e o aumento da produtividade científica.
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