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Volume 1- Número 9- Ano III (Jan/Fev/Mar de 2000)
Notícias 
Dia 24/09/2000

Abertura

Hoje foi aberto o XX Congresso Brasileiro de Nefrologia com a participação de cerca de 2000 congressistas. Na cerimônia de abertura, o presidente do congresso, Dr. José Bruno de Almeida, enfatizou a luta da Nefrologia para crescer como especialidade numa época em que o sistema de saúde está em crise e sem uma definição do seu futuro. Ele também mostrou os perigos da sub-especialização dentro da nefrologia, que fez com que houvesse uma diminuição de trabalhos científicos no congresso em áreas importante da nefrologia, como por exemplo a hipertensão arterial.

O representante da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Dr. João Moreira, falou sobre a comemoração dos 40 anos da Sociedade Brasileira de Nefrologia, mostrando partes de um vídeo que narra a história da sociedade, e que estará disponível em breve.

Teve a palavra o representante do Ministério da Saúde, o Dr. Beltrame, que solicitou a colaboração da sociedade para que seja feita uma avaliação dos serviços de nefrologia do Brasil com vistas a otimizar a atuação da especialidade. Ele reconheceu que existe uma demanda reprimida de pacientes necessitando terapia substitutiva da função renal e que os pagamentos dos serviços está aquém do necessário, para um funcionamento ideal dos centros de nefrologia.

Finalmente, foi instituído oficialmente o prêmio Oswaldo Luís Ramos com um belo discurso do Prof. Aluízio Costa e Silva, que relevou as qualidades grande nefrologista e educador que nos deixou em maio do ano passado.

Resumido por: Sergio Fernando Ferreira

DISCURSO PRONUNCIADO PELO DR. ALUIZIO DA COSTA E SILVA EM MEMORIA DO PROFESSOR OSWALDO RAMOS

NATAL, 24/09/2000

Que as minhas primeiras palavras sejam de agradecimento aSociedade Brasileira de Nefrologia, na pessoa do seu presidente, Dr. João Moreira, pelo convite para pronunciaralgumas palavras em memoria do prof.Oswaldo Luiz Ramos. Faço-o com o melhor de minhas emoções e feliz pôr lembrar de um grande e maravilhoso amigo. 
Oswaldo foi um dos maiores lideres contemporâneos da medicina e da nefrologia brasileiras, na Segunda metade deste século.

Desfrutei da oportunidade de, pôr 35 anos, conviver com esse personagem singular, possuidor de característicasincomuns de líder, estadista, humanista eintelectual.Sua erudição extrapolava o campo bio-médico, fomentandouma convivência, rica em polemicas, pedagogias e controvérsias,polarizando os presentes em torno desuas concepções inteligentes, combatividade e idéias impregnadas de lucidez.Taiselementoso definiam como um intelectual. Entretanto sob o ponto de vista político era um estadistainserido na academia.

Desempenhava suas atividadesde maneira consciente, mas era também guiado pela intuição, principalmente no planejamento a longo prazo, nas táticas e estratégias para atingir os alvos pre-estabelecidos.  Conhecia profundamente a arte da negociação, sem mentir ou ironizar. A franqueza, as vezes contundente, não atrapalhava, ao contrário, construía pontes eviabilizava progressos porqueseus propósitos eram honestos e possuidores das melhores intenções. 

A avaliação positiva do trabalho de Oswaldo na ex Escola Paulista de Medicina, nos últimosanos, é peremptória. Foram quatrodécadas de extremo labor, nos campos da capacitação, treinamento e produção científica, bem como nas atividadesmédico-assistenciais, para os pobres atendidos nas dependências do Hospital São Paulo.Para viabilizar tais ações e metastambém dispunha da competência psicológica. 

Gerenciava os conflitos entre pessoas e grupos, de modo a transformar antagonismos em aumento de produtividade, com maximização dos resultados, em beneficio da comunidade nefrologicadentro e fora da Escola Paulista de Medicina. Como político entretanto, cometia erros na sua auto avaliação. Considerava-se um conservador embora não o fosse. 

Convivemos intensamente durante as suas constantes relações com as instituições de governo.Eraclaro o seu totalvinculo com acoisa pública, o seu compromissocom a assistênciaa saúdedos pobres, com aeducação e com o ensino . Colocavasempre suas atividades privadas em segundo plano, quando convocado a exercer as tarefas públicas em Brasília e noutras cidades e estados. 

O esforço acadêmico que desenvolvia em favor da nefrologia era incansável,assemelhando-se a uma missão religiosa. Escolhiaosauxiliarescom elevado senso de isenção, valorizando antes de tudo as qualidades intelectuais e éticas. Note-se que promoveu a transição sucessória do serviço com habilidade de umlíder de estado maior, verificando-se que após sua aposentadoria e ulterior falecimento permaneceu o crescimento exponencial da instituição. 

Um dado pôr exemplo : a FUNDAÇÃO OSWALDO RAMOSno último anoclassificou-se como o serviço que realizou omaiornúmero de transplantes renais no mundo. O Oswaldo aparentemente impulsivo, bravo, coexistia com o Oswaldoafetivo e generoso. Afirmava que não obstante o seu espirito combativo e ímpeto competidor, recusava sentimentos como ociúme, a inveja e o ódio. Disse-me certa vez que “o ódio era o instrumento dos tolos e destruidor para quem o praticava”. 

Na sua visão universalista recusava acultura institucional provinciana e ufanista e, na sua concepção de um Brasil federativo, estimulou a democratização e a difusão do conhecimento que fermentava e fervia nos corredores e laboratórios da Escola Paulista de Medicina.

Veja-se quantos pós-graduados, ocupam espaços profissionais e acadêmicos em centros nefrológicos de todas regiões do Brasil: do Amapá ao Rio Grande do Sul, como aqui no Rio Grande do Norte, na figura do Professor José Bruno de Almeida, presidente deste Congresso de Nefrologia.

Em Brasília a nefrologia da Escola Paulista de Medicina deixou sua marca através dos inúmeros pos-graduandos que completaram a residência, mestrado e doutorado. Todos ocupam posições de muito prestígio nas áreasacadêmica, publica e privada. Alguns desenvolvendo intensa atividade de pesquisa ao nível internacional, produzindo impacto no indice internacional de citações. 

A obra maior de Oswaldo foi evidentemente, a semeadura de uma prole científica. A produção de filhos científicos qualificados, que hoje exercem oefeito multiplicador do seu mentor. Seu trabalho, sua influencia, serão perenizados pela ação destes filhos, netos e bisnetoscientíficos, que ao reproduzir o ideal oswaldiano no trabalho e na ética, garantirão sua imortalidade.

Sim, porque a imortalidade não se garante apenas pela dispersão de nossos genes, mas também de nossas idéias. Era um homemde muita fortuna nas amizades. Seu grande companheiro, Horacio Ajzen, eminência não tão parda, porem discreta e homem dotado de inteligência muito arguta e sutil. Oswaldo e Horacio eram o verso e o reverso, o par e o impar, os simétricos. 

Este discurso certamente não existiria, caso faltasse esse irmão siamês deOswaldo. Maior fortuna aindaOswaldo herdou com o amor de Vera, sua companheira, pessoa de rara beleza humana. Vera recatada e habilmente construiu o equilíbrio, a sustentação que permitiu o sucesso do seu amado. O frágil coração do Oswaldo nutriu-se do coração de Vera que a este deu vida e sobrevida.

Antes de encerrar as minhas palavras gostaria de apresentar dois slides: 

No primeiro citando a pertinente opinião sobre Oswaldo Ramos explicitada no capítulo de agradecimentode umaTese de Mestrado-SLIDE PÔR FAVOR

“O professor Oswaldo Luiz Ramos foi o principal responsavelpela execução desse estudo . A sua participação consciente e plena de propriedade, esta impressa ao longo de todo este trabalho. Também nos ensinou , pelo exemplo, a lição de que inteligência é síntese e que a captura do essencial um gesto de sabedoria.” 

E finalmente revivenciando a beleza do poema do seu filho Nando, pronunciado na cerimonia do ultimo adeus aoOswaldo:

SLIDE PÔR FAVOR 

Oswaldo Luiz Ramos (1928 – 1999)

"A PRESENÇA AUSENTE 

A MEMÓRIA SEM FIM 

RISOS OUVIDOS E SONHOS HAVIDOS

CONCORREM COM O SILÊNCIO

DESAFIAM A NOITE FRIA 

E FALAM AO CORAÇÃO 

IRRIGANDO DE VIDA A ESCURIDÃO"

NANDO




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