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Volume 1- Número 9- Ano III (Jan/Fev/Mar de 2000)
Medicina Baseada em Evidências e os "Centros Cochrane"
José Roberto Coelho da Rocha
Ex-Professor Assistente da Universidade Federal do Rio de
Janeiro-RJ Professor deNefrologia, Instituto de Pos-Graduação
Médica Carlos Chagas e Chefe do Servico de Nefrologia, Hospital da
Beneficência Portuguesa, RJ. 

Durante séculos a Medicina sofreu modificações modernizadoras, que a tornaram cada vez mais prática e metodológica. Dos tempos dos pajés, magos e adivinhadores, passando por embusteiros e charlatães, chegamos à era da Medicina mais científica, mais organizada e altamente tecnológica. 

A maioria destas modificações foi introduzida com o intuito de aprimorar os métodos  de diagnóstico e tratamento das doenças, os dois itens básicos da Ciência Médica.


Outras, no entanto, visaram mais os métodos de aplicação desta ciência, procurando alterar as raízes da Medicina, criando assim uma nova maneira de encarar os fatos médicos, proporcionando profundas e permanentes mudanças nos atos diagnósticos e terapêuticos.

Nos séculos passados, o conhecimento da fisiologia, da patologia, dos agentes produtores de doenças, etc, aboliram pouco a pouco o caráter mágico da Medicina, tirando-a do reino da fantasia e colocando-a no seu devido lugar :

Ciência complexa e extensa que procura solucionar o que entendemos serem duas das maiores tragédias humanas: a restauração da saúde e o prolongamento da vida.

Dentre estas modificações metodológicas, talvez a mais importante, até agora, tenha sido a introdução do conceitode Medicina Interna, pelos alemães ( Innerer Medizin ), nas primeiras décadas do século XX. Sabidamente, o que a Medicina Interna faz é valorizar, a partir dos estudos anátomopatológicos desenvolvidos pela escola alemã, a versão fisiopatológica das doenças : o conceito de mecanismos de doenças, ou seja a sucessão de fatos patológicos e suas repercussões no funcionamento dos órgãos, que levam ao aparecimento de uma determinada doença, com seus sinais e sintomas característicos.

Com a Medicina Interna, as doenças passaram a ser entidades racionais, com começo, meio e fim baseados em fenômenos fisiopatológicos, portanto previsíveis, a partir de eventos indutores – às vezes ainda mal identificados – mas perfeitamente compreensíveis.

Acima de tudo, a Medicina Interna significou a introdução da lógica científica nos processos clínicos de abordagem das doenças, recusando os princípios empíricos que dominavam a Medicina, uniformizando a manipulação da propedêutica e, principalmente,da terapêutica, com amplos benefícios para médicos e pacientes.

Um outro benefício paralelo, mas de enorme importância, desta forma de Medicina, foi o desenvolvimento natural de uma enorme gama de métodos experimentais, laboratoriais, “in vivo” e “in vitro”, ou ainda “in anima nobile”, fundamentais para o completo entendimento dos mecanismos produtores de doença e, portanto, absolutamente necessários para a correta aplicação dos princípios de diagnóstico e tratamento da Medicina Interna.

Como consequência natural destes progressos, temos visto uma verdadeira inundação de relatos e publicações médicas, da mais variada natureza, versando sobre os mais diferentes aspectos da prática médica, o que torna, senão impossível, extremamente difícil o acompanhamento, pelo clínico, dos avanços conquistados quase que diariamente pela Medicina. E ainda, para complicar, muitos relatos são frequentemente paradoxais e até mesmo francamente contraditórios, dificultando ainda mais a tomada de decisões, tanto para pesquisadores como para médicos de “beira de leito”.

Esta enorme confusão estabelecida por nós mesmos reflete-se intensamente sobre a saúde pública, criando gastos gigantescos, morbidade desnecessária e índices de mortalidade inaceitáveis.Então, em 1972 o epidemiologista britânico Archie Cochrane, em um livro considerado revolucionário ( Effectiveness and Efficiency. Random Reflections on Health Services ), criticou o que tem sido chamado de nossagrande ignorância coletiva, e mais tarde ( 1979 ) escreveu:

É realmente muito deplorável que a nossa profissão ainda não tenha organizado um resumo crítico, por especialidade ou sub-especialidade, adaptado periodicamente, de todos os ensaios clínicos randomizados relevantes “.

Com estas palavras, Cochrane lançava o embrião de uma idéia revolucionária : a Medicina Baseada em Evidência.

Embora vagarosamente, esta idéia floresceu até que em 1992 um Cochrane Centre foi inaugurado em Oxford e mais tarde, em 1993, em uma reunião promovida pela NY Academy of Sciences, 77 participantes de vários países fundaram a Cochrane Collaboration dando início à realização de reuniões anuais, chamadas de Cochrane Colloquia

A Cochrane Collaboration pode ser vista, portanto, como uma organização internacional cujo intuito é o de ajudar as pessoas a tomarem decisões “bem informadas” ( “educadas” ) sobre cuidados com saúde, utilizando a preparação, a manutenção e o fácil acesso à revisões sistemáticas sobre os efeitos de intervenções em assuntos ligados à saúde.

Desde seu início, a Cochrane Collaboration foi construída sobre nove princípios :

1. colaboração
2. aproveitar o entusiasmo dos participantes
3. evitar duplicação
4. reduzir preconceitos
5. manter-se atualizada
6. assegurar relevância
7. assegurar acesso
8. melhorar continuamente a qualidade do trabalho
9. Continuidade

Os principais produtos finais da Cochrane Collaboration são os Cochrane Reviews, preparados e mantidos sob a responsabilidade de “grupos de revisão de colaboradores internacionais”, cobrindo as áreas mais importantes da saúde. É importante assinalar que os membros destes grupos – interessados em gerar evidências atualizadas e relevantes no que tange à prevenção, tratamento e reabilitação de problemas de saúde – podem ser pesquisadores, profissionais de saúde, consumidores, etc.
Cada grupo colaborador necessita preparar um plano de como pode contribuir para os objetivos da Collaboration, consultando-se com um ou mais dos Cochrane Centers já criados.

Hoje em dia existem inúmeros Cochrane Centers, a maioria na Europa e na América do Norte ( USA e Canada ). China, África e América do Sul ( Brasil ), também já fazem parte desta colaboração internacional.

O centro brasileiro, dirigido pelo Prof. Alvaro Atallah fica em São Paulo, e tem endereço eletrônico : http://www.epm.br/cochrane/. Embora escrito principalmente em inglês, o “site” apresenta muitas informações úteis e importantes, em português, para quem estiver interessado no assunto.


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