José
Roberto Coelho da Rocha
Ex-Professor
Assistente da Universidade Federal do Rio de
Janeiro-RJ
Professor deNefrologia, Instituto de Pos-Graduação
Médica
Carlos Chagas e Chefe do Servico de Nefrologia, Hospital da
Beneficência
Portuguesa, RJ.
Durante
séculos a Medicina sofreu modificações modernizadoras,
que a tornaram cada vez mais prática e metodológica. Dos
tempos dos pajés, magos e adivinhadores, passando por embusteiros
e charlatães, chegamos à era da Medicina mais científica,
mais organizada e altamente tecnológica.
A
maioria destas modificações foi introduzida com o intuito
de aprimorar os métodos de diagnóstico e tratamento
das doenças, os dois itens básicos da Ciência Médica.
Outras,
no entanto, visaram mais os métodos de aplicação
desta ciência, procurando alterar as raízes da Medicina, criando
assim uma nova maneira de encarar os fatos médicos, proporcionando
profundas e permanentes mudanças nos atos diagnósticos e
terapêuticos.
Nos séculos passados, o conhecimento da fisiologia, da patologia,
dos agentes produtores de doenças, etc, aboliram pouco a pouco o
caráter mágico da Medicina, tirando-a do reino da fantasia
e colocando-a no seu devido lugar :
Ciência complexa e extensa que procura solucionar o que entendemos
serem duas das maiores tragédias humanas: a restauração
da saúde e o prolongamento da vida.
Dentre estas modificações metodológicas, talvez a
mais importante, até agora, tenha sido a introdução
do conceitode Medicina Interna, pelos alemães ( Innerer Medizin
), nas primeiras décadas do século XX. Sabidamente, o que
a Medicina Interna faz é valorizar, a partir dos estudos anátomopatológicos
desenvolvidos pela escola alemã, a versão fisiopatológica
das doenças : o conceito de mecanismos de doenças,
ou seja a sucessão de fatos patológicos e suas repercussões
no funcionamento dos órgãos, que levam ao aparecimento de
uma determinada doença, com seus sinais e sintomas característicos.
Com a Medicina Interna, as doenças passaram a ser entidades racionais,
com começo, meio e fim baseados em fenômenos fisiopatológicos,
portanto previsíveis, a partir de eventos indutores – às
vezes ainda mal identificados – mas perfeitamente compreensíveis.
Acima de tudo, a Medicina Interna significou a introdução
da lógica científica nos processos clínicos de
abordagem das doenças, recusando os princípios empíricos
que dominavam a Medicina, uniformizando a manipulação da
propedêutica e, principalmente,da terapêutica, com amplos benefícios
para médicos e pacientes.
Um outro benefício paralelo, mas de enorme importância, desta
forma de Medicina, foi o desenvolvimento natural de uma enorme gama de
métodos experimentais, laboratoriais, “in vivo” e “in
vitro”, ou ainda “in anima nobile”, fundamentais para
o completo entendimento dos mecanismos produtores de doença e, portanto,
absolutamente necessários para a correta aplicação
dos princípios de diagnóstico e tratamento da Medicina Interna.
Como
consequência natural destes progressos, temos visto uma verdadeira
inundação de relatos e publicações médicas,
da mais variada natureza, versando sobre os mais diferentes aspectos da
prática médica, o que torna, senão impossível,
extremamente difícil o acompanhamento, pelo clínico, dos
avanços conquistados quase que diariamente pela Medicina. E ainda,
para complicar, muitos relatos são frequentemente paradoxais e até
mesmo francamente contraditórios, dificultando ainda mais a tomada
de decisões, tanto para pesquisadores como para médicos de
“beira de leito”.
Esta
enorme confusão estabelecida por nós mesmos reflete-se intensamente
sobre a saúde pública, criando gastos gigantescos, morbidade
desnecessária e índices de mortalidade inaceitáveis.Então,
em 1972 o epidemiologista britânico Archie Cochrane, em um livro
considerado revolucionário ( Effectiveness and Efficiency. Random
Reflections on Health Services ), criticou o que tem sido chamado de nossagrande
ignorância coletiva, e mais tarde ( 1979 ) escreveu:
“
É realmente muito deplorável que a nossa profissão
ainda não tenha organizado um resumo crítico, por especialidade
ou sub-especialidade, adaptado periodicamente, de todos os ensaios clínicos
randomizados relevantes “.
Com
estas palavras, Cochrane lançava o embrião de uma idéia
revolucionária : a Medicina Baseada em Evidência.
Embora
vagarosamente, esta idéia floresceu até que em 1992 um Cochrane
Centre foi inaugurado em Oxford e mais tarde, em 1993, em uma reunião
promovida pela NY Academy of Sciences, 77 participantes de vários
países fundaram a Cochrane Collaboration dando início
à realização de reuniões anuais, chamadas de
Cochrane
Colloquia
A Cochrane
Collaboration pode ser vista, portanto, como uma organização
internacional cujo intuito é o de ajudar as pessoas a tomarem decisões
“bem informadas” ( “educadas” ) sobre cuidados com saúde, utilizando
a preparação, a manutenção e o fácil
acesso à revisões sistemáticas sobre os efeitos
de intervenções em assuntos ligados à saúde.
Desde
seu início, a Cochrane Collaboration foi construída
sobre nove princípios :
1.
colaboração
2.
aproveitar o entusiasmo dos participantes
3.
evitar duplicação
4.
reduzir preconceitos
5.
manter-se atualizada
6.
assegurar relevância
7.
assegurar acesso
8.
melhorar continuamente a qualidade do trabalho
9.
Continuidade
Os
principais produtos finais da Cochrane Collaboration são
os Cochrane Reviews, preparados e mantidos sob a responsabilidade
de “grupos de revisão de colaboradores internacionais”, cobrindo
as áreas mais importantes da saúde. É importante assinalar
que os membros destes grupos – interessados em gerar evidências atualizadas
e relevantes no que tange à prevenção, tratamento
e reabilitação de problemas de saúde – podem ser pesquisadores,
profissionais de saúde, consumidores, etc.
Cada
grupo colaborador necessita preparar um plano de como pode contribuir para
os objetivos da Collaboration, consultando-se com um ou mais dos
Cochrane
Centers já criados.
Hoje
em dia existem inúmeros Cochrane Centers, a maioria na Europa e
na América do Norte ( USA e Canada ). China, África e América
do Sul ( Brasil ), também já fazem parte desta colaboração
internacional.
O
centro brasileiro, dirigido pelo Prof. Alvaro Atallah fica em São
Paulo, e tem endereço eletrônico : http://www.epm.br/cochrane/.
Embora escrito principalmente em inglês, o “site” apresenta muitas
informações úteis e importantes, em português,
para quem estiver interessado no assunto.