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Istênio F Pascoal Doutor
em Nefrologia pela Universidade de São Paulo
“Para
ser um médico competente não é preciso ser brilhante,
mas é necessário ser meticuloso e diligente.A
boa prática médica supõe um balanço entre a
tediosa reiteração de listas de diagnósticos e o sexto
sentido da intuição”. Estes
conceitos sintetizam bem as idéias de Jerome Groopman em seu livroSecond
Opinions: Stories of Intuition and Choice in the Changing World of Medicine,
recentemente publicado.Um dos mais
renomados cirurgiões pediátricos da atualidade nos Estados
Unidos, Groopman conduz os leitores a uma instigante reflexão sobre
as possibilidades e os limites do médico e da medicina em seu país.E
nós, como estamos ? Durante
a formação médica o aluno é preparado para
o exercício pleno e autônomo de sua profissão.Desde
o vestibular até a admissão em um concurso público,
passando pelas provas curriculares da graduação e pela seleção
à residência médica, a avaliação de conhecimentos
é feita de forma individual, ainda que o treinamento seja desenvolvido
coletivamente.A lógica do
ensino médico é, assim, forjar a competência pessoal. Nossa
prática clínica, entretanto, comporta dois modos distintos
de atuação: o exercício compartilhado e o exercício
individual
da medicina. O primeiro se faz em grupos constituídos em serviços/hospitais
públicos ou privados.O segundo
é exercido a partir do consultório pessoal. No
exercício compartilhado, a origem habitual do paciente são
instâncias preliminares de atenção à saúde
ou outros grupos médicos abrigados na mesma estrutura hospitalar.Neste
modelo, as decisões geralmente são baseadas na opinião
coletiva de vários médicos, somando-se capacidades e
experiências.Entretanto, a
ausência de atenção e compromisso personalizados a
longo prazo, entre o médico e o paciente, expõe o último
à multiplicidade, dispersão e eventual conflito de opiniões
e condutas. Na
prática individual, o médico geralmente é indicado
por um colega ou, o que é mais frequente, por sugestão de
outro paciente.Configura-se, aí,
um atendimento que nasce com a valorização pessoal do médico,
mas exige, em contrapartida, grande capacidade resolutiva e responsabilidade
direta.A sorte do paciente depende,
ao menos inicialmente, do discernimento e da habilidade de um único
indivíduo. Estas
definições acima não traduzem necessariamente virtudes
ou defeitos de cada uma das formas de atendimento.São
características, simplesmente.Muitos
médicos, senão a maioria, trabalham nas duas estruturas e
as expectativas de seus pacientes se amoldam ao distinto papel que eles
desempenham.Dispondo de atenção
individual, o paciente se relaciona mais intensamente com seu médico
do que no relacionamento difuso do atendimento institucional. Com a universalização e democratização da informação, tornou-se possível ao médico de consultório acompanhar, com a velocidade da luz, as principais evoluções conceituais e operacionais da medicina.Embora a experiência clínica seja um processo dependente da aquisição contínua e cumulativa de vivências e conhecimentos, já não há mais monopólios do saber, sejam institucionais ou pessoais. Depois
de alguns anos de treinamento, prática clínica e investigação
científica exclusivamente em ambientes universitários, nos
últimos quatro anos tenho me dedicado progressiva e predominantemente
ao consultório.Contudo, adepto
e habituado às discussões clínicas na convivência
anterior, aproveitei as possibilidades da internet,
então
emergente, para submeter os casos clínicos mais controversos à
apreciação de aproximadamente 400 colegas, assinantes da
ger-nefrologia,
uma lista eletrônica idealizada e mantida pela Regional Carioca da
Sociedade Brasileira de Nefrologia.De
Agosto/96 a Agosto/99 apresentei meia centena de casos, com diagnósticos
diferentes, oriundos de minha atividade clínica individual.Houve
expressiva troca de idéias, opiniões e experiências
neste processo, naturalmente algumas concordando, outras complementando
e ainda outras discordando das condutas já adotadas, à semelhança
do que ocorre em uma discussão à beira do leito ou em um
anfiteatro.Ao rever todas estas
discussões recentemente, deparei-me com uma curiosa constatação:
poucas vezes segui uma recomendação diversa daquela que já
havia adotado, por mais que compreendesse as sugestões e estivesse
receptivo a elas.Minhas condutas,
adequadas ou equivocadas, já eram resultado de análise, reflexão,
intuição e convencimento clínico em um nível
tal que limitavam modificações, ainda que possivelmente necessárias
ou convenientes.Se aqueles pacientes
fossem institucionais,
alguns deles seguramente teriam sido tratados
diferentemente.Prá melhor,
ou não. As
duas formas de atividade clínica não constituem opções
excludentes, nem complementares.São
formatos distintos, com ideologias diferentes, mas, cada uma a seu modo,
podem concorrer com a mesma chance de sucesso ou de fracasso terapêuticos.Opinião
contraditória ?Talvez, mas
já a tenho há algum tempo. Quando
eu era Residente, dois dos meus mais estimados e admirados preceptores
tinham opiniões opostas sobre essa mesma questão.O
primeiro, fechara o consultório, depois de alguns poucos anos de
prática, para ficar vinculado apenas a um grande hospital público,
por entender que o atendimento clínico individualizado implicava
riscos demasiados ao paciente, restrito que está a decisões
de um único sujeito.O outro
preceptor, ao contrário, aguardava a aposentadoria do mesmo hospital
público para se dedicar exclusivamente ao consultório, por
entender que apenas ali exerceria a profissão na plenitude de seus
conhecimentos e de sua responsabilidade.Na
época, eu não conseguia tomar partido entre aquelas duas
posições antagônicas.Sem
saber bem porque, achava que ambos tinham razão.Hoje,
passados quinze anos e tendo vivenciado os dois lados, não acho
mais.Tenho certeza.
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