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Dinah
Borges de Almeida
Nós nefrologistas, como os demais médicos, que temos a ciência como uma das bases e a ética como bússola da atividade profissional, estamos vivendo um misto de entusiasmo, esperança, insegurança, apreensão e indignada frustração. Acredito que cada geração de nefrologistas esteja experimentando estas sensações em graus variados de intensidade. Espero que, nas que estão no início de sua atividade profissional , predomine o entusiasmo e a esperança embora, certamente, a insegurança não esteja ausente. Para mim que sou de uma geração que vivenciou, como médica, grande parte do século vinte, todas estas percepções estão muito vivas e discuti-las e expô-las se torna um imperativo daquela função que nós ocidentais estamos desprezando e que precisamos reaprender a exercer, a função que os velhos indígenas não se eximem de cumprir, isto é, de depositários e transmissores da memória ( vide entrevista com Marcos Terena, na Revista “Caros Amigos “ , abril de 2000.) O conhecimento científico não para de se expandir e especificamente na área da nefrologia , nexos procurados pelos pesquisadores , durante todo o século que termina , entre o que se observa experimentalmente e a aplicação clínica começam a ser estabelecidos ou vislumbrados. A Nefrologia foi uma especialidade que conseguiu , nos últimos 50 anos, um feito memorável: os métodos dialíticos e o transplante renal conseguiram aumentar a expectativa de vida do paciente com insuficiência renal terminal de zero para 15, 20, 30 anos. No entanto, todo nefrologista sabe quanto sofrimento e insegurança ainda estão envolvidos nesta sobrevida. Embora na área de transplantes existam perspectivas revolucionárias como, por exemplo, as entrevistas no trabalho de Rogers e colaboradores, publicado no Kidney International de julho de 98, e as técnicas e os cuidados dialíticos não cessem de se aprimorar, conseguir diagnosticar precocemente as lesões renais e curar (porque não?) ou prevenir a evolução para a insuficiência renal terminal serão os grandes desafios para os nefrologistas, daqui para frente. O panorama científico indica que esses objetivos poderão ser alcançados mais cedo do que imaginamos. Assim para citar apenas alguns exemplos, quem poderia imaginar que seria possível, um dia, impedir a progressão para insuficiência renal do rim policístico e, no entanto, é para isto que apontam os resultados obtidos por Sweeney Jr. e colaboradores, publicados no Kidney International de janeiro último. Como não enfrentar hoje em dia com mais animo e esperança os problemas de um paciente com nefropatia diabética agora que um conjunto de condutas derivadas de observações experimentais e ensaios clínicos mostram que é possível deter a evolução para insuficiência renal. São, talvez, a nefropatia diabética e a hipertensão arterial os melhores exemplos do grande benefício que a associação dos estudos epidemiológicos , experimentais que chegam ao nível da biologia celular e molecular e dos ensaios clínicos e terapêuticos podem trazer, não só para a compreensão dos mecanismos de lesão envolvidos nas diferentes nefropatias, mas também para seu efetivo controle. A epidemiologia que, em grande parte do século que finda, parecia ser pertinente apenas às doenças infecciosas e parasitárias foi, paulatinamente se ocupando das doenças nefrológicas e contribuindo , de forma fundamental, para a compreensão das repercussões da hipertensão arterial e de seu controle na saúde individual e de populações. Igualmente contribuiu para a valorização da proteinúria não só como sinal de lesão renal e de lesão vascular em geral mas também por si só , fator de agravamento das lesões renais. O legado de todo um século de intensos e diversificados trabalhos experimentais, cujos resultados pareciam desproporcionalmente numerosos em relação às poucas e de pouca eficácia condutas clínicas, deles derivadas começam a apontar para os mecanismos efetores finais da lesão, em inúmeras doenças renais. É verdade que, para citar uma grande exceção, a despeito do grande número de modelos experimentais de glomerulonefrites exaustivamente estudados, na maior parte delas os fatores desencadeantes permanecem totalmente desconhecidos, o que não permite ainda vislumbrar a definição de medidas curativas; mas estes mesmos estudos , ao se aproximarem da determinação do “efetor “ou “efetores finais “ das lesões , apontam mecanismos de controle dessas doenças. Ao lado do panorama científico, contribui para o entusiasmo e a esperança a velocidade com que se processa a difusão dos conhecimentos; os mais atuais e recentes não são mais de acesso rápido exclusivo dos nefrologistas das Universidades ou das grandes cidades, podem chegar ao mesmo tempo a todos. No entanto, são esse avanço científico e a facilidade de difusão do conhecimento algumas das causas, embora não as principais, da insegurança referida no início deste artigo. A velocidade do avanço científico acentua , no médico em atividade , a sensação de defasagem permanente em relação ao conhecimento gerado. A facilidade de difusão do conhecimento, na medida em que transmite praticamente instantaneamente este conhecimento não permite o cotejamento com outros resultados, a crítica abalizada dos trabalhos, condições essenciais para a consistência das conclusões e das condutas que delas podem derivar. Daí a importância de iniciativas como as do Medical British Journal que permite aos usuários da Internet acesso gratuito a suas publicações, nas quais sempre constam análises críticas sobre as últimas teorias, sobre os “ consensos “, sobre os ensaios terapêuticos, etc.. Os serviços universitários, os órgãos de representação e associação dos médicos e em especial dos nefrologistas precisam multiplicar as formas de fazer chegar aos médicos em atividade essas análises críticas e as maneiras criteriosas de atualização. Adicionalmente, essas iniciativas podem impedir que os médicos sejam presa da propaganda enganosa de inúmeros laboratórios farmacêuticos, propaganda freqüentemente travestida de artigo científico. A respeito do poder desses laboratórios basta recordar que os editores da mais prestigiada revista de clínica -- The New England Journal of Medicine admitiram que , nos últimos anos, recusaram centenas de artigos científicos porque seus autores não tinham apoio de laboratórios de prestígio, como informado pelo The New York Times e transcrito pela Folha de São Paulo. A principal fonte de insegurança advém das formas que adquiriu o exercício profissional. A Medicina e, em conseqüência, a Nefrologia têm , desde seus primórdios, no “outro “, o homem doente e na promoção de sua saúde ou no alívio de seu sofrimento sua motivação absoluta, o respeito a esta motivação sempre garantiu ao médico sua satisfação profissional e o apreço de seus contemporâneos. Ultimamente , entretanto, na medida em que os médicos passam a ser pagos por “ empresas de saúde “ , empresas que transformam a doença e o sofrimento em fontes de lucro, o médico passa a ser compelido a se adequar a esse objetivo - o “ lucro “ ; é obrigado a suprimir exames subsidiários necessários, dias de internação, tipos de medicação e procedimentos terapêuticos, em detrimento do exercício ético de sua profissão, o que violenta sua consciência profissional, gerando insatisfação e insegurança. Os médicos de minha geração têm um motivo adicional de indignação e frustração. Vimos, no início de nossas carreiras, quão penosa a situação dos pobres que dependiam da boa vontade dos médicos que os atendiam voluntária e gratuitamente em seus consultórios ou nos ambulatórios e enfermarias de “ indigentes “ das Santas Casas de Misericórdia e de outros hospitais filantrópicos. Embora a resposta individual da esmagadora maioria dos médicos fosse exemplar, o próprio nome que era dado a esses doentes - “ indigentes “ e aos locais em que eram atendidos expressam o grau de inadequação do atendimento e da humilhação a que eram submetidos. Paulatinamente, em decorrência das transformações da sociedade impulsionadas por aqueles que consideram a saúde o “ bem primordial do homem “ , fomos vendo e participando da instalação e ampliação do atendimento público à saúde ; programas de erradicação das endemias, de vacinação com cobertura universal da população alvo , centros de saúde garantindo atenção primária, hospitais públicos sendo construídos, os filantrópicos sendo ressarcidos pelo atendimento prestado, a multiplicação dos hospitais universitários fornecendo atenção terciária, tudo isto transformando , na prática , a saúde em DIREITO dos cidadãos, como garante a Constituição de 1988. Na última década, havia um longo caminho a percorrer, grandes parcelas da população ainda desassistidas , insuficiências, imperfeições e desvios a sanar. Mas avançava-se em direção à garantia plena do direito acima referido. Nos últimos anos da década, assistimos à tentativa de desmonte do serviço público de saúde. Redução das verbas para o setor, com o conseqüente ressurgimento de endemias erradicadas no início do século, redução dos postos de atenção primária, descredenciamento voluntário de hospitais filantrópicos por falta de pagamento, hospitais universitários , por imperativos econômicos , criando serviços pagos e as famosas “ duplas portas “. Tudo isto culminando com “ensaios “ lançados na imprensa por assessores palacianos, propondo a redefinição do conceito “saúde para todos “, no sentido de reduzi-lo ao atendimento primário a apenas parcela da população. O atendimento à saúde ou será abrangente e para todos ou não será mais um direito. São estes , em resumo, os motivos de entusiasmo, esperança, insegurança e indignada frustração a que me referi, no início do artigo. Predominam, no entanto, os motivos de entusiasmo e esperança porque estes só tendem a aumentar enquanto que os de insegurança e frustração são conjunturais e passíveis de reversão e superação . Os sinais de que haverá uma reversão estão aí bem visíveis. As conquistas dos médicos e da sociedade ocorreram no meio de dificuldades aparentemente tão intransponíveis como as atuais. Os Conselhos Regionais e Federal, os órgãos de representação coletiva dos médicos continuam defendendo preceitos éticos e a dignidade dos médicos. Os parlamentares conseguiram aprovar na Câmara dos Deputados, ainda com resistências do Senado, a Lei que vincula percentual fixo das receitas públicas para a “Saúde “. Os integrantes das universidades públicas paulistas saem vitoriosos de um movimento que, mais do que de reivindicação salarial , foi de defesa dessas mesmas universidades. Paralelamente a tudo isto, assiste-se aqui e a nível mundial os primeiros sinais de que o modelo econômico hegemônico, causa da brutal exclusão de grande parcela da humanidade e causa de nossa regressão social começa a ser questionado. E, finalmente , não é verdade que , para a novíssima geração de nefrologistas , também vale o ditado : “ Não está morto quem peleia “, como disse Gustavo Kuerten ?
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