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Volume 1- Número 9- Ano III (Jan/Fev/Mar de 2000)
Cibermedicina,uma perspectiva:
Dr. Horacio Arruda Falcão

Ex-Professor de Nefrologia da UFRJ, Fellow em
Nefrologia pelo Massachusetts General Hospital, Fellow do American College of Physicians (FACP)


Sob este termo define-se toda e qualquer informação médica obtida através da Internet. A cibermedicina é também conhecida como a responsável pela transição de inúmeras informações e serviços médicos para dentro do computador. Bem mais abrangente que a telemedicina - a transmissão de dados médicos pelos modernos hardware via Internet -, a cibermedicina inclui todas as facetas, interativas ou não, da medicina pelo ciberespaço. 
A revolução nos hábitos de divulgação e obtenção de informações médicas está apenas começando. Globalmente, a Internet propicia a oportunidade de disseminar informações até então tidas como tabus no meio médico.A crescente tendência, de buscar orientação sobre qualquer assunto relacionado com a saúde via ciberespaço, não tem limite. Não podemos prever o endpoint que limitará o ser humano a este acesso. 
Tanto para médicos como para pacientes e o público em geral, a disponibilidade de qualquer assunto ligado à área médica, acrescida da interatividade proporcionada pelo correio eletrônico, será certamente uma poderosa aliada na manutenção da saúde, na prevenção de doenças, no diagnóstico de enfermidades e no tratamento de doentes. A Internet, em todas as suas formas, produzirá impactos profundos na medicina do futuro.

Como a Medicina é uma especialidade fundamentada na disseminação de informações - principalmente por meio de livros e revistas, além da divulgação dos resultados de pesquisas e descobertas de novos e modernos métodos de diagnósticos e tratamentos -, com a Internet ela alcançou um avanço tecnológico surpreendente. Em segundos e minutos pode-se ter acesso às mais recentes informações sobre determinada enfermidade ou medicamento. Economiza-se um tempo enorme sobre aquele gasto no processo antigo de esperar semanas, e até meses, pelas revistas e livros enviados pelo correio. Por vezes salvam-se vidas.

Recentemente, um paciente desenganado com leucemia aguda descobriu em consulta à Internet que uma universidade americana tinha um medicamento experimental para a sua doença. Comunicou-se com o médico por e-mail, tomou um avião, fez o tratamento e sobreviveu!O fato é que o leque de serviços médicos atualmente prestados pela Internet, já é imenso e tende a crescer cada vez mais, com a entrada de melhores e mais sofisticados programas de alta definição de voz e vídeo.

Conceitualmente, como dissemos, a cibermedicina engloba todas as facetas interativas da Medicina no ciberespaço. Dentre elas, destacamos:

·o correio eletrônico, e-mail - que permite a rápida troca de informações entre médicos do mundo inteiro, por meio de listas de discussão;

·as salas de chat - que possibilitam diálogos interativos entre médicos e pacientes;

·os sistemas de busca eletrônica – que pesquisam resultados de exames de laboratório para leigos e pacientes, disponibilizando orientações e informações médicas em tempo real;

·a solicitação de compra de medicamentos;

·a divulgação e o marketing de produtos médicos;

·e a própria telemedicina, além das recentes videoteleconferências...

Certamente, muito do que o conceito cibermedicina especifica hoje ainda está para ser inventado.

A Medicina está sendo muito beneficiada pela Internet. Estamos presenciando o quanto ela pode ajudar na busca por novos conhecimentos - pelos médicos que avidamente procuram artigos bibliográficos em sites, por recentes pesquisas que podem ser acessadas, seu andamento, atualizado on-line em segundos e que poedm ser impressas imediatamente. Para o médico praticante, os sites mais procurados e que fazem mais sucesso, são aqueles que pesquisam informações bibliográficas sobre sua especialidade, bem como as já famosas listas de discussão que envolvem médicos do mundo inteiro, com trocas vitais de informações entre si, atingindo regiões remotas do Mundo.

Os conhecidos sites de busca são também enormemente utilizados. Com isto consegue-se manter atualizado o médico que trabalha em regiões longínquas - como áreas rurais ou reservas indígenas -, e aquele em serviço durante guerras ou expedições especiais e espaciais. A rapidez com que as informações médicas podem ser colocadas em um CD-ROM e despachadas para qualquer parte do mundo, tende a nivelar os conhecimentos entre os médicos.

Os potenciais benefícios da cibermedicina são vários (fig1). O mais objetivo é a criação de um mercado internacional altamente eficiente de informações de serviços médicos, com o intuito de, cada vez mais, melhorar o atendimento aos pacientes. 

O acesso instantâneo às informações médicas - como informações,orientações e esclarecimentos -, a economia de deslocamentos às salas de espera dos consultórios e as compras de medicamentos on-line, em muito facilitarão a vida dos pacientes. Os medicamentos podem chegar a suas residências em questões de minutos. 

Adicione-se a estes benefícios um sem número de serviços de apoio como arquivos de pacientes compartilhados e computadorizados, marcação de consultas em tempo real, recebimento de resultados de exames, aviso automático das próximas consultas via e-mail e a consulta pela Internet ao prontuário eletrônico do paciente por meio de senha específica.Descobertas e novidades sobre novas vacinas e medicamentos pertinentes, poderão ser repassadas imediatamente ao paciente-alvo. Avisos sobre novos equipamentos, além de cursos de atualização à distância para profissionais da área de saúde por ciber-universidades, nos deixam com uma grande incógnita sobre os limites com que teremos de nos deparar.

Recentemente, a atualização médica continuada também passou a ser bastante utilizada por sistemas de educação médica via Web. São sites que permitem aos profissionais de Saúde que não dispõem de tempo para freqüentar aulas em instituições tradicionais de ensino, fazerem cursos de aperfeiçoamento. Estes e outros programas têm de seguir o modelo pedagógico especificado pelo Ministério da Educação (MEC) para ensino à distância.Existem também sites específicos sobre realização de Congressos e Simpósios em que o médico pode se inscrever, agendar reservas de avião e hotéis.Enfim, um mundo novo que com o aperfeiçoamento dos programas de alta definição de som e imagem nos torna virtualmente presentes a um Congresso que está sendo realizado na Europa, por exemplo. Da nossa casa, da nossa cadeira, por meio da nossa televisão!

Como dissemos, o uso do correio eletrônico está revolucionando as comunicações entre os seres humanos.Hoje já é possível enviar e-mails pelos telefones celulares - a Internet sem fio(conhecida como WAP)Com o rápido desenvolvimento dos aparelhos que podem se comunicar com a Internet sem fio, abre-se um leque atemorizador do que virá pela frente e de que modo vamos usá-los. 

Não está longe de termos uma cibervideoteca onde teremos acesso a videocirurgias, videoteleconferências, radioimagens em terceira dimensão e ao alcance dos telefones celulares, entre outros. Já surgiram os celulares de 3a geração – banda larga – que podem transmitir dados em velocidade 40 vezes superior à atual, podendo continuar a falar, acessar a Internet, ver imagens e trocar correspondência eletrônica on-linepelos quatro cantos do mundo.

Estima-se que a cibermedicina será uma “indústria” de bilhões de dólares -embora poucos dos seus produtos estejam atualmente difundidos no mundo -principalmente pela venda virtual de medicamentos e equipamentos médicos. Começamos a ver algumas das sementes do futuro.

Algumas das páginas pesquisadas revelam que a home-page doHealthon já é uma das pioneiras, nos EUA, na integração de processamento eletrônico de queixas e dados de pacientes, informações sobre medicamentos, troca de informações entre médicos, hospitais, seguradoras, companhias farmacêuticas e de equipamentos em geral . Uma grande comunidade médica em rede 24 horas por dia e sete dias na semana!

Inúmeros sites dedicam-se a divulgar informações clínicas relevantes, recentes e modernas, o andamento de pesquisas sobre enfermidades e novos medicamentos. Oferecem ainda um espaço para compra e venda de livros e software em CD-ROM, além de orientar para a realização de diagnósticos diferenciais. Outro serviço é a atualização médica constante e personalizada, remetida periodicamente ao endereço eletrônico do paciente. Já existem revistas também eletrônicas criadas especialmente para a Internet. Alguns exemplos de páginas com estes serviços são a Clínica Mayo, a do Dr. Koop, a WebMD. 

Outras home-pages inovadoras virão sem dúvida prestar outros serviços. Pesquisarão preços de procedimentos cirúrgicos eletivos, tais como cirurgias plásticas, cardíacas, de hérnias e colocação de prótese femoral.Hoje o paciente já tem a opção de pesquisar médicos, orçamentos, além de inúmeras outras variáveis e ao final definir a opção desejada considerando fatores como, por exemplo, o currículo do profissional e o preço que for mais conveniente ao seu bolso!

No que se refere a consultas on-line, parece que os psicólogos largaram na frente.São os chamados telepsicólogos, que dão consultas através da Internet, por meio de um canal de conversa (chat) privado, cobrando alguns atéR$40,00/hora.Isto é somente a ponta do iceberg.

O internauta já pode realizar um “check-up” pela rede, que funciona do seguinte modo: o paciente responde ao questionário médico de um programa especializado.O próprio programa depois sugere os exames que o paciente deverá fazer.Depois de realizados, o ciberpaciente somente terá que digitar os resultados de volta na página da Internet. Este site remeterá ao paciente seus comentários, orientações e diagnósticos, pedindo, possivelmente, exames complementares ou sugerindo ao paciente procurar o especialista mais adequado para o seu problema e o mais próximo de sua residência !

Hoje existem três maneiras diferentes de usar a Cibermedicina como fonte de troca de informações médicas:

 

1 - Correio Eletrônico (e-mail): 

(A)Listas de discussão entre médicos;
(B)Troca de correspondências entre médicos ou médicos e pacientes; 
(C)Respostas às perguntas mais freqüentes (FAQ); 
(D)Resultados de Laboratórios dos pacientes;

(E)Marcação de consultas;

(G)Informações aos pacientes (novas vacinas, medicamentos).

(H)Divulgação de novas Home Pages

2 - Internet propriamente dita: 

(A)Pesquisas bibliográficas (revistas, monografias, dados diversos);
(B)Educação Médica online;
(C)Orietação Médica online;

(D)Telemedicina;

(E)Compra de medicamentos;

(F)Compra e venda de equipamentos médicos;

(G)Grupos de suporte (associações de pacientes);

(H)Informações sobre (curriculo) médicos;

(I)Oferta e procura de emprego;

(J)Pesquisa de orçamento de procedimentos médicos;

(K)Videoteleconferências;

(L)Videoteca (radio-imagens e procedimentos cirúrgicos);

(M)Marketing médico e de produtos;

(N)Sitesde matérias médicos – nutrição, fisioterapia, psicólogos;

....e mais, muito mais...

3 – CD-ROM: 

(A)Usar interativamente como livros e atualizações de conhecimento;
(B)Usar para software de medicina;
(C)Gravação de vídeos e imagens para palestras e aulas.

Um dos problemas que podemos prever na relação médico / paciente no ciberespaço, é a identificação de quem está do “outro lado” do computador.Pela Internet, fica difícil certificar-se de que a pessoa do outro lado é um médico licenciado, especialista ou não e se ele está capacitado a tirar dúvidas e orientar eticamente o paciente. Uma das alternativas é ter este site “acreditado” por organizações médicas mundiais, atribuindo-lhe um selo de confiabilidade. Senão, poderá ocorrer uma onda de aproveitadores e cibercharlatães.

Da mesma maneira, teremos de nos certificar se o paciente é verdadeiro ou não.Exemplificando, uma pessoa que solicita um opiáceo é obrigatoriamente um paciente terminal. No entanto, será difícil discerni-lo de um dependente de drogas. Por isto não se vende medicamentos por enquanto controlados pela rede. 

Outra situação comum no futuro, será o paciente chegar ao consultório carregado de informações adquiridas na Internet, exigindo explicações mais detalhadas, mais específicas ou até tratamentos mais modernos e atuais de sua enfermidade. Não queremos entrar na qualidade de informações que o paciente trará pois, por enquanto (para ele), tudo o que está na rede é verdadeiro. Não existem ainda instruções de como proceder no caso de divulgação de informações médicas incorretas ou falsas. Ainda não está regulamentada a responsabilidade civil na Internet.Mas nem por isso afastaríamos a hipótese de vermos, em breve, médicos praticando medicina (quase que) exclusivamente no ciberespaço.Nesta lógica, certamente que a advocacia não perderá a oportunidade de criar uma especialidade voltada diretamente para a Internet:o ciberadvogado.

Um dos maiores problemas a ser equacionado, é de como será remunerado este cibermédico.Já estão surgindo os chamados e-cards, que confirmam por via eletrônica a compra do serviço solicitado e garantem qualquer despesa realizada pelo cliente; os cartões de crédito tradicionais estão se adaptando contra as clonagens; outras opções compreenderiam remunerações pelo Seguro de Saúde ou por depósitos bancários posteriormente remetidos via fax.

O paciente que não ficar satisfeito com o médico, imitará a crescente tendência, comum em outros países, de buscar uma segunda opinião pela rede.Existem hoje até sites para o cibercondríaco, como o da Healthanxiety, que lhes permitem manterem-se atualizados.

Estamos notando também uma salutar tendência entre as companhias farmacêuticas.Através de suas home-pages aproximam-se de médicos e pacientes, prestando-lhes informações gerais sobre os medicamentos e seus efeitos colaterais, objetivando reduzir erros medicamentosos e, consequentemente, os riscos de sofrerem processos legais.

Outras especialidades correlacionadas à medicina também mantêm bons sites dentre os quais destacamos:

·Nutrição e Dietas, que informam sobre alimentações balanceadas e calóricas;

·Orientação sobre fisioterapia e condicionamento físico, alertando sobre a necessidade da prática adequada de esportes;

·Ótimos sites de psicologia, alguns com consultas on-line;

·Sites de grupos de suporte de pacientes com enfermidades específicas etc.

Enfim, uma gama enorme de sites-serviços coligados, visando promover informações à população, com reflexos diretos na disseminação da Medicina Preventiva que, como sabemos, será a tônica do início do século XXI.

Na realidade, a tecnologia da cibermedicina está na sua infância. O e-commerce, o e–service, o m-commerce (m de telefone móvel), assim como os hardware que os apóiam - scanners, monitores, olho mágico, e as webcams -, estão se desenvolvendo muito rapidamente. Vários tipos de equipamentos médicos, como o eletrocardiograma on-line, aparelhos de medir pressão arterial e oxímetros on-line, estão dando impulso considerável ao Home Care e alavancando tremendamente um dos já mencionados ramos da cibermedicina – atelemedicina –, que será um tremendo aliado no diagnóstico e tratamento dos pacientes. 

Um dos terrenos mais promissores na troca de informações e conhecimentos entre médicos e pacientes, médicos e médicos, além de médicos e instituições, será o das videoteleconferências.Começando a ser usada por instituições de saúde de diferentes cidades e países, esta tecnologia será em breve, com o advento da Internet sem fio via telefones celulares, um outro campo superevolucionário. 

Mantendo-se esta taxa de desenvolvimento e introdução de novas tecnologias, tanto na Internet quanto na medicina, rapidamente ingressaremos no mundo novo do século XXI.Nele, os futuros cibermédicos terão a oportunidade de examinar seus pacientes à distância e carregarão seu consultório virtual numa mala de médico – um protótipo atual no formato de uma maleta pesa apenas 10kgs. Este consultório de emergência reúne equipamentos como o estetoscópio de alta definição, o eletrocardiograma online e uma sonda ecográfica que, acoplados a um laptop, colhem e fornecem informações e diagnósticos da própria casa do paciente ou de onde ele estiver para Centros Médicos especializados. Estes aparelhos transmitem dados vitais do paciente de boa qualidade pela Internet, com praticidade suficiente para qualquer leigo poder se conectar de onde estiver com um médico em qualquer lugar do mundo e remeter suas informações.

É preciso cuidado com o entusiasmo das inúmeras novidades. Por causa delas, alguns aspectos legais e éticos devem ser equacionados à medida que a tecnologia avança. Na medida em que os usuários passem a usar este sistema, as relações médico-pacientes começarão a desafiar as tradicionais e conservadoras leis vigentes que tratam de questões éticas sobre a qualidade da prestação e da confidencialidade do serviço médico oferecido.

Caberá ao médico do futuro uma constante atualização de informática para se manter conectado ao mundo da cibermedicina.O domínio deste campo permitirá ao cibermédico um aprimoramento mais eficaz e rápido no aprendizado de sua especialidade, bem como o conhecimento dos modernos meios de diagnósticos e tratamentos disponíveis no ciberespaço, com o intuito de, cada vez mais, aperfeiçoar sua prática médica.

Dr. Horacio Arruda Falcão, médico


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