|
Continuação da página anterior Alan:
Eu queria que você falasse pra gente como é que você
viu a transformação da diálise de uma ciência
médica para um ato de procedimento, quer dizer, o nefrologista virando
um dialisador. Dr.
Chabo: Eu não faço crítica a isso, mas entendo
que isso engessa você um pouco. Essa sensação eu tive
também quando fiz CTI, depois de sete anos de CTI, você fica
meio hipertrofiado achando que é um pouco de Deus. De repente você
se questiona, se não está só tratando de macro-problemas.
Quanto à diálise, éramos pequenos inicialmente, mas
com a demanda tudo foi crescendo, crescendo, e chegamos a ter 25 máquinas
simultâneas.Começamos
a permanecer no local só para atender as intercorrência. Mas
aquilo exigia permanência, você não podia fazer outra
coisa aí eu senti um pouco circunscrito...ficar só fazendo
diálise. Como eu não saí pra fazer nenhum empreendimento
empresarial legítimo, meus amigos fizeram, me convidaram mas eu
não me senti animado porque eu me conhecia. Não quero ganhar
dinheiro com isso. A diálise inicial era uma aventura com resultado
magnífico: ver doentes que morriam tão precocemente, as crianças
com insuficiência renal que já estavam fadadas pra morrer,
e se recuperarem... a diálise modificou este padrão. Isso
no inicio era excitante, era multidisciplinar, era encantador. A monotonia
atual resultou na nefrologia de um único procedimento: diálise. Horácio:
Eu cheguei por volta de 75 e encontrei já o serviço de hemodiálise
engatinhando. Quando foi que passou a surgir o programa de hemodiálise
regular? Dr.
Chabo: O Programa de diálise regular foi em 66, começo
de 66. A gente já levava em 68, dois anos depois, os primeiros trabalhos
pra Congresso. Evidente que São Paulo já fazia diálise
certo? E antes de nós ou tanto quanto nós, já tinha
um paranaense, oMolinari que tinha
sido discípulo de Scribnner. Adir Milenar era um urologista e se
transformou num nefrologista, também já estava fazendo diálise.
Chegamos a fazer em certo momento aproximadamente 2.500 sessões
de diálise por mês. Sebastião:
Quando o senhor chegou aqui no Rio em 1961, 62, se tornou médico
residente do Servidores, o interessante é que em 64 nós temos
o golpe militar no Brasil. Qualera
seu pensamento nessa época? Dr.
Chabo: Na realidade, no Rio de Janeiro, minha atuação
enquanto residente foi exclusivamente no hospital, eu peguei essa repressão,
eu paguei essa punição por conta do meu antecedente estudantil,
eu era um homem ligado ao movimento estudantil. Fui dirigente estudantil
em Pernambuco Sebastião:
Lá em Pernambuco? Dr.
Chabo: Em Pernambuco eu militava no movimento estudantil e conhecia
o Arraies. O Arraies era prefeito nessa época, depois foi eleito
governador mas eu já estava aqui no Rio. Alan:
Aí você veio pro Rio e parou de fazer política, você
ficou um tempo como residente Dr.
Chabo: É. Eu achei que era absolutamente necessário parar
com a política enquanto era residente. Fui tão obstinado
que acabei sendo eleito, junto com o o Aderílio Rios, residentes
honorários do hospital. Na verdade, eu paguei um preço pela
minha atuação no movimento estudantil em Pernambuco, mas
aqui no Rio de Janeiro confesso que eu vivia dedicado à resid6encia
médica. Era de manhã, de tarde, de noite, saindo muito pouco
para outras atividades...entendeu? Morava ao lado do Servidor do Estado.
Eu estava alcançável as 24 horas do dia...quando você
chegava atrasado, era uma rua de calçamento entre minha residência
e o hospital, o pessoal brincava: “iiih rapaz você atrasou muito”.
Como você vê,paguei
o preço de minha atividade estudantil que é a pergunta que
você fez. Sebastião:
O senhor foi preso quando? Dr.
Chabo: Eu fui preso, está no Jornal do Brasil, antes do mês
de março. Sebastião:
A prisão do senhor se deu somente em função da suas
atividades quando estudante? Dr.
Chabo: Foi. Em função da atividade estudantil e denúncias
delações de todos os tempos. Sebastião:
Realmente o que o senhor fazia para ser preso então? Dr.
Chabo: Só trabalhar, trabalhava diuturnamente...só trabalhando. Sebastião:
Mas não tinha nenhuma atividade considerada subversiva? Dr.
Chabo: Nada, nada, nada, nenhuma atividade Sebastião:
E a denúncia veio de onde? Dr.
Chabo: Evidente que o clima no Rio de Janeiro ficou irrespirável,
né, uma situação em 64 de caça as caça
as bruxas e tal. Quem lembrava de alguma pessoa lembrava de outra e assim
por diante. Como o Servidor era um hospital muito referenciado, diziam
que havia um comunista ali...acusaram me de ser comunista e fomos presos Sebastião:
Mas houve uma denúncia formal? Dr.
Chabo: Dizem que sim. Até se comentou que teria sido um colega
do hospital que havia listado alguns nomes e como eu era mais novo, com
menos tempo de vida no hospital, ele queria mostrar que o hospital também
reprimia, era pra mostrar serviço, diziam que era pra isso... Horácio:
Só foi você? Dr.
Chabo: Só fui eu. Agora do Rio de Janeiro foi o Carlos Gentile
de Melo fazendo companhia, um grande cara o Gentile Melo, um grande sanitarista,
tava preso comigo. Ficamos presos juntos. Alan:
E aí como é que foi? O Hospital se mobilizou? Você
ficou quanto tempo preso? Dr.
Chabo: Fiquei preso 30 dias. Fiquei no Dops, na rua da Relação.
Fui pro Caetano de Faria onde estava meu amigo Mário Lago, conheci
o Mário lá...grande Mário Lago. No meio de figuras
tão importantes você assume que é preso-político
mesmo, ... o hospital me deu grande ajuda, o Leal ia até lá
e ficava indignado...o Betram. Sebastião:
Quem era o diretor dos Servidores na época? Dr.
Chabo: O diretor era o doutor....64...deixe me pensar... não,
Aloízio não era diretor não...Sílvio foi em
66...depois eu chego lá, a data, até porque eu tive outra
prisão curiosa. Sebastião:
Então o senhor ficou 30 dias preso? Dr.
Chabo: 30 dias preso. Horácio:
E te trataram bem? Dr.
Chabo: Muito bem. Porque o Aloízio Sales é...parece que
era Aloízio Sales o diretor na época, mandou Gastão
Veloso (que é um ortopedista primoroso) e irmão do major
Veloso de Jacarecanga pedir ao Borel, o chefe do Dops e um grande repressor,
autorização para entrar lá e me ver. Tive essa sorte
e tal. Sebastião:
Foi torturado? Dr.
Chabo: Não. Tortura física não. Tortura foi mais
psicológica, da incerteza, do destrato e do desrespeito. Tive a
sorte que o carcereiro era funcionário do Hospital e me conhecia
e vivia pedindo me desculpas a toda hora e ficava com medo de mostrar publicamente
que me conhecia. Falava comigo a sos, e se explicava do temor de ser acusado
de estar privilegiando esse ou aquele preso. Sebastião:
Essas figuras suspeitas que o denunciaram ainda circulam por aí? Dr.
Chabo: Alguns...um dos suspeitos de delação, anos depois,
meio arrogante, negou tudo. Disse que não denunciou, mas torceu
para outro ser preso e esse outro não era eu. (NR: todo mundo
pasmo com as preferências do delator).Como
vocês podem ver, de certa forma, havia muita gente prestando serviço
à repressão. O que aconteceu no hospital comigo, me desorganizou
um pouco. Ser suspenso das suas atividades da noite para o dia. Nessa época,
eu tive o primeiro incidente com o Teobaldo. Eu era um residente, muito
ligado a ele, e ele ficou um pouco nervoso com isso e veio me chamar a
atenção. Não gostei porque eu sempre fui muito cortez
... e não gostei do dedo dele no meu nariz. Revidei e disse para
não me tratar assim (sempre tive uma cara mais madura e mais velha
que aparentava), que exigia um certo respeito. Fui transferido pro Hospital
Alexandre Lemem, paguei esse preço, tive que sair dos Servidores. Sebastião:
Isso depois do senhor ser liberado? Dr.
Chabo: É. E depois que cheguei no hospital ainda tive que responder
a 3 inquéritos administrativos. Sebastião:
Quem foi o responsável pela sua libertação? Dr.
Chabo: Foi a própria não razão de ser da minha
prisão. Falta de provas e tal. Tem uma notícia da minha prisão,
aí no Correio da Manhã, que diz que todos os meus antecedentes
eram da UNE de alguns anos antes. Eu fui buscado em Recife por causa da
minha atuação estudantil e amizade com Arraies, mas não
estava mais lá, daí me encontraram no Rio de Janeiro, residente
no Servidores. Sebastião:
Quando o senhor saiu da prisão, foi transferido imediatamente para
outro hospital? Dr.
Chabo: Não, depois. Eu voltei para o hospital e começou
um roteiro de inquérito, com figuras exóticas do exército
brasileiro. Lembro de um coronel chamadoMartineli,
famoso Martineli, chamado coronel linha dura...ele amontoava as pessoas
no IAPI, ali na rua Almirante Barroso...eles convocavam você as 7:00
da manhã, convoca-se assim sob pena da lei e tal, você chega
as 7: 00 da manhã e ficava sentado lá, você é
médico, ficava lá de 7:00 da manhã sem comer, sem
beber e quando chegava 18 horas dizia estarmos liberados e que aguardássemos
nova convocação. Um desrespeito que durou dias e dias...,
tortura era essa, incerteza e tal, alguns saíam de lá preso,
que era pra mostrar que você poderia sair preso também. Horácio:
Você voltou a ser preso tempos depois? Dr.
Chabo: Fui mas por outra razão. Quem tem pecado nessa história
nunca deixou de cometê-lo, mas, eu vou dizer porque foi. Eu volto
para o hospital, respondo a uma série de inquérito mas havia
uma expectativa muito desagradável de ser demitido do serviço
público. Eu já era servidor público, podia perder
o emprego, mas isso não me assustava, não queria era ser
preso. Mas havia o risco por causa do Ato Institucional que pairava no
ar e permitia o desligamento sumario de servidores públicos ligados
a atividades contrarias ao golpe. Sebastião:
E o senhor não era filiado a nenhum partido? Dr.
Chabo: Não. Não. Era assim simpatizante, mas nunca militei.
Mesmo assim era rotulado de comunista. Defender a Petrobrás, defender
a política nacionalista, eram bandeiras comunistas. Não te
deixavam alternativas, ou você estava de um lado ou de outro. Conheci
muita gente de esquerda que não tinha nada de perigosa e ficou rotulada
como comunista. No final dos inquéritos nada foi apurado, mas era
uma coisa desrespeitosa, ninguém sofria agressão a não
ser agressão moral, tipo um policial gritando pra você: “aqui
todo mundo afina” dizendo isso e mostrando o cassetete e te olhando nos
olhos. Nessas horas, mandava a prudência que você não
provocasse seu interpelante, seu interrogador. Você deveresponder
educadamente, a gente fica aflito nessa hora....Aí a segunda prisão
se dá por um ato humanitário. Por causa do socorro ao Betinho. Sebastião:
Quanto tempo depois? Dr.
Chabo: Dois anos depois, 66. O Sílvio Moreira era o diretor,
o Presidente da república ainda era Castelo Branco, o Geizel era
o chefe da casa militar. Betinho era meu companheiro de UNE, Hebert José
de Souza, foi contemporâneo meu e a gente era muito católico....o
fato é que depois Betinho, (que era matriculado no Servidor do Estado
por causa da hemofilia dele), necessitou de uma transfusão urgente.
Armamos todo um esquema para poder ajuda-lo e assim que ele chegou, vindo
do Uruguai-São Paulo-Rio, a policia federal chegou junto. Quem olhava
ele era o Petuchelle, hematologista que cuidava dele com muito carinho.A
amizade entre os dois era muito grande, tanto que o Betinho dedica um livro
dele, Hiroshima, ao Petuchelle. Todos aqueles que participaram, e eu participei,
do socorro vermelho (que é a linguagem que a gente usava), foram
presos em seguida.
Sebastião:
E era uma atividade as claras? Dr.
Chabo: As claras. Sebastião:
Todo mundo sabia Dr.
Chabo: Assim que ele termina a transfusão dele, é preso
e logo simultaneamente, eu também sou preso porque eu tinha antecedente
político. Lembraram que em 64 eu já tinha sido preso. O Betinho
é preso e eu vou pra delegacia, para o Dops, no Gae, naquela época,
eu não quis narrar essas coisas muito desagradáveis, nesse
local onde só tem capacidade para 3 ou 4 pessoas, tinha nessa época,
tanta gente que não podíamos dormir sentados, a gente tinha
que ficar em pé, fazendo rodízio, todos, médicos,
senhores, doutores, ferroviário,ficávamos
em pé, sempre em pé para podermos dormir. Horácio:
E quanto tempo durou isso? Dr.
Chabo: Dois
dias porque depois esvaziou alguma coisa, depois a gente voltou a sentar,
podia sentar, fazia rodízio, 2 dias, aí você podia
sentar, deitar com colchonetes só foi uns 10 dias depois. Sebastião:
E outra prisão? Dr.
Chabo: Essa foi diferente, essa foi 4 dias e foi interessante. Coincidiu
com véspera de natal. O Betinho tinha sido preso também e
eu entrei lá e fiz uma advertência: “o senhor Hebert José
de Souza, professor, ele é hemofílico, não sei se
vocês sabem, ele está sangrando pelo tubo digestivo, pode
morrer aqui se não for ajudado”, Eles ficaram preocupados, libertaram
o Betinho e me deixaram preso no lugar dele. Eu fui preso por culpa dele,
denunciei que ele podia morrer ali, o Boreti tinha enfartado, e estava
o inspetor Vasconcelos no lugar dele. Vasconcellos era um inspetor menos
truculento mas tinha sofrido um murro de um líder comunista e tava
com o queixo quebrado. Imagino que ele estava com raiva de comunista mesmo!
Preso, véspera de nata, ia ficar mesmo lá e emendar o natal
com o resto da semana toda. Estava eu e um contrabandista português
... Agora estava vazia a cela do Dops. Aí entrou uma figura em cena,
a quem eu devo hoje a maior atenção. Ela era, naquela época
uma importante secretária do hospital, poderosíssima! Hoje
figura proeminente do mundo social e muito bonita. Vamos chamá-la
Conceição (NR: nome fictício). Acontece que a irmã
de Conceição era amiga de um alto escalão da ditadura
que acabou até fazendo de um senador muito amigo de Conceição,
um Governador nomeado de um de nossos Estados. Tinha grande influência!
Conceição quando soube da minha prisão, liga pra Golberi,
Golberi liga pro Geizel e Geizel manda me soltar, pois era o chefe da casa
militar. Eu saí, véspera de Natal, graças a Conceição
que me ajudou. Betinho em seguida vai pro México porque não
estava em condição de ficar aqui, ele retorna em 79, 80. Alan:
Como é que você entrou no movimento sindical, de residente,
staff, voltou a ser o grande líder sindical. Dr. Chabo: Eu fazia parte dessa sociedade angustiada, intimidada entendeu? E como os tempos eram difíceis, era uma cidade intimidada. Era uma cidade intimidada, cidade com medo, eu ainda era solteiro nessa ocasião, então a gente começou a pensar como retomar o sindicato dos médicos. O sindicato dos médicos era dirigido por empresários, eu vou dizer o nome dele, falecido, ele é dono do Protocol, Luiz Saldanha Felipe da Gama Muriel, esse sobrenome, parente do almirante Saldanha da Gama e era muito conservador e era presidente do sindicato. Por volta de 60, 70, eu já era sindicalizado, mas o sindicato não tinha atividade...Certa ocasião fui levar o Saraiva, colega nosso, de esquerda, gauchão, para se sindicalizar e ouvimos do presidente do sindicato: meu filho, porque você quer sindicalizar ... vai pra casa! Sebastião:
O presidente do sindicato disse isso? (gargalhadas gerais) Dr. Chabo: O presidente do sindicato. Vá pra sua casa!. Sebastião:
O Muriel? Dr.
Chabo: Sim, o Muriel, presidente do Sindicato. Ele esquece isso mas
eu nunca esqueci. Por volta de 76, 77, o ambiente vai se descomprimindo
um pouco, a sociedade começa a se movimentar e aí a gente
decide a retomar o sindicato, mas eu não podia participar ostensivamente
porque era um cara que já tinha tido prisão, e isso dificultava
um pouco. Então eu e mais 3 pessoas, eu saíamos e entravamosnos
plantões médicos, me apresentava, sentava e ia discutir a
situação nossa, o salário e tal, muito tempo, paciência
.... Alguns olhavam me com desdenho, outros não, nós estamos
tentando refazer o movimento sindical. Você é sindicalizado?
Não?, É importante você ser sindicalizado e tal e coisa
era dita desse tipo. Pois bem, a conversa evidentementeera
cansativa porque era individual. Reunir pessoas ainda era muito... Horácio:
...muito ousado... Dr.
Chabo: A gente entrava nos plantões, no hospital da rede pública
e privada, isso rendeu frutos e na eleição (acho que foi
em 77), a gente ganhou a parada. Ganha as eleições e o presidente
do sindicato seria Fiquel, o grande Mugel Fiquel... Alan:
... Ele era do Hospital dos Servidores? Dr.
Chabo: Não, ele era chefe do serviço de neurologia, mas
o Fiquel por ser judeu e polonêsqueimaram
o nome dele. Alan:
Ficou então o René Jaime? Dr. Chabo: Ficou todo mundo! Era o movimento de renovação médica,Eu por fora, eu era só massa, eu era só ativista sindical, sem mandato sindical. Os tempos são 77, 78 e aparece Rocco que é uma figura emblemática, que é um colega, professor que foi assassinado de modo estúpido, recentemente. O Rocco é tirado da cátedra pra ser presidente do sindicato, pois tínhamos pensado em um nome que transcendesse as limitações do sindicalismo. Não podia ser um sindicalista barbudo, nem ferrabrás, tinha que ser um cara professoral e tal, um cara, grande colega, grande médico e a primeira solução foi Rocco que, por pressões da cátedra, renuncia ao sindicato. Quem assume é o vice-presidente João Carlos Serra, que é uma figura conhecida do Rio de Janeiro, coordenador do INAMPS, professor também, ortopedista e tal. Mas o João Carlos Serra, veja as contradições, entra também no PP do Tancredo Neves, que era o partido do Chagas Freitas que era visceralmente hostilizado aqui. Chagas Freitas foi eleito 2 vezes indiretamente. Foi o cara mais fisiológico que já teve nesta cidade. João Carlos, ao fazer isso, desestruturou o esquema do RENEM MAIS. O RENEM MAIS era uma frente de esquerda com comunistas de várias matizes, petistas estavam se formando, mas já havia o PT esvoaçado que era ex-comunista com raiva dos comunistas, só quem viveu nesta área é que sabe disso e essa frente resolveu combater duramente o João Carlos. Essas forças estavam chamando ele de chaguista, (é como chamar de malufista em São Paulo), nessa confusão foram me buscar no meu consultório, pelo meu perfil e tal....fui categórico e disse: “não, eu não quero” mas fui numa convenção e acabei indicado. Antes pedi permissão para minha mulher. Na época já estava casado nessa ocasião, eu me casei em 72. Fui eleito em pleito apertado, porque era chamado de chaguista e tal Sebastião:
Quem era o outro candidato? Dr.
Chabo: O outro candidato era meu amigo Miguel Olímpio. Miguel
Olímpio, que já tinha sido presidente do sindicato em 66,
ele tinha um perfil de esquerda, era meu conhecido UNE e aí eu fui
eleito. Fui eleito em 80, a posse se dá em janeiro de 81, eram 3
anos de mandato e aí eu chego, me sento, faço um discurso
e noto que não era bem aquilo não, o sindicato já
tinha um peso qualitativo muito importante, era um sindicato de muita luta,
já tinha tirado aquele viés patronal. Eu assumo o sindicato
em janeiro prometendo lutar, melhorar condições de trabalho,
atendimento a população e melhor salário. Comecei
então a articular uma greve, fazendo o mesmo trabalho de formiga
já feito anteriormente nas clinicas e plantões. O presidente
do sindicato era sempre uma figura respeitada, mas não era muito
conhecida, eu chegava, e a pergunta era quase sempre: “o que esse cara
quer?.. já foi eleito, o que ele quer aqui?..” Respondia que queria
conversar com vocês, a respeito da nossa dificuldade econômica,
eu comecei incendiar essa história toda e a fazer isso pessoalmente.
Era janeiro, mês de férias, mandei minha mulher com as crianças
pra praia, lá pra Araruana onde tenho uma casa e fiquei aqui 30
dias com tempo todo livre. Eu passava o dia todinho nos hospitais públicos
conversando com os médicos, com 2, 3, 4. 5, 6, 7, isso durante dois
meses. Em março, na primeira assembléia que a gente convocou,
encheu a ABI com quase 1.000 pessoas, um fenômeno. Estava num momento
histórico em que aquilo teria que ser feito por mim ou por outro,
porque é isso que acontece na sociedade.Em
um certo momento aparece uma pessoa que interpreta as tendências
e sentimentos gerais e acaba encaminhando-os. Fazia política pra
entender que a sociedade estava sendo ultrajada, sacrificada e eu queria
que o dinheiro público fosse servido mesmo, não pra negócio,
mas para o pagamento digno dos profissionais da saúde e o atendimento
de qualidade. O médico não era responsável por desvios
nem fraudes e esse era o discurso de todos nós idealistas, alguns
de nos mudamos, mas eu não, eu fiquei a mesma coisa! Então
a gente começa a fazer isso e termina num ato muito importante que
foi decretar uma greve para o Rio de Janeiro. Sebastião:
Estado e município?
|