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![]() Entrevista que revela a sensibilidade de quem lutou toda a vida para reconhecer o trabalho médico. Durante os anos de chumbo da nossa história política, o Dr. Chabo comandou, no Rio de Janeiro, uma das maiores greves da nossa categoria. A entrevista foi feita em 11 de maio de 2000, 10:30 h da manhã. Participaram do bate-papo o Dr. Horácio Falcão, o Dr. Alan Castro, além do editor da Med OnLine. Editor Horácio:
Gostaria que o Chabo comentasse o binômio médico-político,
político-médico. Existem incompatibilidades nestas duas atribuições? Dr.
Chabo: Eu acho que vocês estão me prestando uma homenagem
mais do que eu mereço. Mas essa sua pergunta é pertinente.
Eu sempre tive muito cuidado ao longo de minha militância política
de não perder meu referencial médico, pois tenho exemplo
de bons profissionais que ao se enveredarem na militância político
partidária se perderam, perderam o saber e perderam a experiência.Essa
prática exige um trabalho regular, constante e consegui exatamente
isso, não sem dificuldades. Minha militância é a política
de resistência democrática e tive algumas dificuldades por
causa disso. Lembro, por exemplo, que após o nosso primeiro transplante
de rim aqui no Rio ( e o primeiro da América Latina ) em abril de
64, um mês depois eu estava preso. Eu esperava receber um cumprimento
e acabei na cadeia onde passei 30 dias preso. Eu era um garoto, solteiro
ainda eesse sobressalto passei a
ter desde cedo. Era recém-formado em 60, lia muito, e também
procurava me informar a respeito da minha profissão mas sempre era
chamado para emitir opiniões políticas, aqui, acolá,
e acabo a fazer parte de um processo nacional de engajamento no movimento
sindical brasileiro. A seguir sou eleito presidente do sindicato dos médicos
do Rio de Janeiro e aí realmente me desorganizou um pouco como médico.
Novamente, fui preso em 81 pois estava fazendo uma greve contra o governo
( e era ilegal ), fui enquadrado na lei de Segurança Nacional, e
sem poder atender o consultório, os nefrologistas do Rio, colegas
meus, se revesaram pra atender minha clientela no consultório pois
comecei a passar a ter dificuldades financeiras. MOL:Dificuldades
financeiras? Dr.
Chabo: Sim....sempre fui uma pessoa que nunca exercitei a aventura
de ganhar dinheiro...mas essa minha profissão deu-me muita alegria
e poucos bens materiais...não reclamo disso não!...dá
pra viver, mas na época eu precisava, pois tinha sido demitido do
serviço público, e aí as pessoas foram me ajudar no
consultório, faziam meu consultório porque eu estava preso
e essa solidariedade me calou fundo e nunca esquecerei disso! MOL:
Medicina e política sindical...como conciliava suas leituras médicas? Dr.
Chabo:Em um determinado momento
passei a organizar um movimento sindical no Brasil e vocês podem
imaginar o que significater que
viajar esse país de ponta a ponta, sendo solicitado a fazê-lo...desorganiza
sua vida familiar e profissional.... mas eu, as vezes,pegava
separatas de revistas importantes e botava na pasta de viajem pra me consolar
com a perda das discussões de casos clínicos etc. Evidente
que sem a atividade clínica, temia muito ficar limitado e brincava
muito comigo mesmo dizendo:“esse
cidadão como médico é um bom advogado” (risos gerais).
Sempre procurei me atualizar como médico pois sabia que a atividade
sindical era finita. MOL:
Ocupou muitos cargos? Dr.
Chabo: Fui presidente da Federação Nacional dos Médicos,
fui do Conselho Regional de Medicina, sempre lutando pela boa qualidade
da prática médica, sempre lutando pelas questões de
saúde nesse país, escrevendo, falando e dando minha contribuição
possível na ocasião. Mas o mundo dá muitas voltas,
retornei ao trabalho de novo, exercendo as atividades médicas a
partir de 91 no Servidor do Estado.Tive
que voltar devagar, já não era a criança de 64 e voltava
ao trabalho em extrema dificuldade, o hospital estava sendo praticamente
desativado, um hospital de 800 leitos estava reduzido a 120, faltando tudo,
uma dessas desorganizações graves que são feitas exatamente
pra demolir o que funcionava bem nesse país. Sebastião:O
senhor é nascido onde, em qual data, formado em qual faculdade? Alan
Castro: E acrescento à pergunta: porque a opção nefrologia? Dr.
Chabo: Eu nasci no Recife em 1935. Na cidade do Recife, pernambucano,
e meus pais são árabes. Sou formado pela Faculdade de Ciências
Médicas de Pernambuco, Universidade Estadual de Pernambuco em 60.
Vim para o Rio de Janeiro em 61, fazer pós-graduado e entrei como
residente no Servidor do Estado. Sebastião:
Filho de pai e mãe árabes? Dr.
Chabo: Isso. Pai e mãe árabes. Dr.
Sebastião: E são em quantos irmãos? Dr.
Chabo: Éramos
cinco. Restam dois, só eu e minha irmã. Sebastião:
O senhor é o mais velho? Dr.
Chabo: Era o mais novo dos homens, o mais velho já faleceu.
Tenho só uma irmã, pouco mais nova do que eu, somos dois
remanescentes. Estou aqui no Rio desde então, fiquei aqui, casei,
tive filhos e também perdas enormes....perdi um filho há
cerca de 3 anos e meio, num acidente médico, espasmo grave...morreu
em casa, em seguida perdi minha mulher com 49 anos. Sebastião:
Há menos de um ano? Dr.
Chabo: Menos de um ano. Sebastião:
Eu gostaria que o senhor falasse um pouco mais das perdas do seu filho
e sua esposa... como foi esse trauma? Dr.
Chabo: Meu filho morreu no dia 15 de março de 97 Sebastião:
Foi um acidente? Dr.
Chabo: Não, ele era asmático. Asmático, ele
fez um bronco-espasmo e morreu comigo em casa Sebastião:
Ele tinha quantos anos? Dr.
Chabo: 25. Com toda a minha experiência de CTI ele não
podia ter tido aquilo em casa e...teve! Na minha frente e da minha mulher.
Ele ia sair de carro, ele tinha parado de estudar, era um garoto muito
bom e tal mas tinha feito uma opção de vida e estava empresariando
um grupo de músicos...a personalidade dele nada tinha a ver com
Dr. Chabo... ele tinha um pequeno empreendimento, o carrinho dele com a
namorada dele, a noiva dele -Aninha- que era psicóloga. Um garoto
ótimo...mas eu não tive tempo de escutar meu filho e isso
eu lamento muito (bastante emocionado) Sebastião:
O senhor lamenta a falta de tempo devido a sua grande atividade pública?
O senhor mudaria isso hoje se tivesse a oportunidade? Dr.
Chabo: Eu tentaria mudar... é um preço que homens
com muitas atividades públicos pagam né?Ficar
em dedicação exclusiva ao trabalho acaba tendo seu preço....
mas acho que dá pra você se dividir melhor. Até porque
os jovens na faixa etária que ele se encontrava, tem os seus próprios
interessese muitas vezes não
dá pra você conciliar. Muitas vezes, quando ele era pequeno
eu conseguia fazer isso... mas depois, na faixa etária que se encontrava,
dava uma certa distância dos pais. Éramos amigos, senti que
ele tinha um certo orgulho de mim, de ver o pai ser uma pessoa em evidência
nos aspectos políticos...ele era muito discreto e não tinha
vergonha de ser filho do Dr. Chabo, aquele que já tinha sido preso...Quando
fui presoele era pequeno e na escola
(Centro Educacional da Lagoa) o pessoal fazia uma certa pressão
sobre ele....Bom garoto... Eu sempre dizia a ele que “seu pai não
tem patrimônio pra deixar pra você como uma casa e tal, mas
eu gostaria que você tivesse um diploma e fosse formado”. Minha conversa
com meus filhos sempre foi assim.... mas com ele não deu pra concluir
a conversa...ele nos deixou...e minha esposa sofreu muito com isso e onze
meses depois ela morreu... morreu em janeiro de 98, menos de 1 ano... Sebastião:
Menos de 1 anos depois. Sebastião:
Foi em 98 Dr.
Chabo: Em 98. Pra continuar vivendo, esse trabalho aqui me ajudou
muito. Quer
dizer, eu tinha aposentado no Servidor do Estado e tem uma característica
importante....você se aposenta no serviço público e
não volta no hospital a não ser visita. Eu tenho que trabalhar
em algum lugar. Não tinha mais idade nem pra fazer concurso. Tinha
meu consultório mas eu não sou um homem assim de ficar longe
de hospital, minha formação foi toda essa, eu sou um médico
de hospital que faz consultório e aí vim pra cá, me
convidaram pra, me contrataram como médico, depois me fizeram chefe
da clínica médica, depois diretor, eu sou diretor dessa entidade,
mas estou me afastando agora porque estou assumindo a Secretaria Estadual
de Saúde. Não posso fugir daqui, esse lugar me acolheu com
muito carinho. Hospital de 300 anos, antiga Santa Casa e tal, hospital
de 300 e tantos anos e hoje como toda instituição privada
(aqui, é ordem do Carmo), teve só está tendo dificuldade,
como todo hospital.
Sebastião:
Tem outros filhos? Dr.
Chabo: Tenho. Duas filhas. Uma casada me deu uma neta, Ana Gabriela,
ela faz fonoaudióloga. Eu tenho uma adolescente, está fazendo
intercâmbio nos Estados Unidos, em Atlanta. Sebastião:
O senhor mora atualmente sozinho? Dr.
Chabo: É, moro sozinho, mas minha filha está chegando
agora. Eu e ela somente. Sebastião:
O senhor veio do Recife e chegou no Rio após a formatura. Estava
querendo fazer exatamente o que? Dr.
Chabo: Fazer uma especialização em clínica
médica Sebastião:
E onde foi? Dr.
Chabo: Foi no Hospital Servidor do Estado. Sebastião:
Com quem o senhor fez? Dr.
Chabo: O serviço era com Teobaldo Viana, que era o chefe
da clínica médica, e o chefe do meu setor nessa ocasião
era Jaime Landmann. Sebastião:
E o senhor estava com quantos anos? Dr.
Chabo: Eu tinha 26 anos. Vinte e seis anos. Idade boa. O Teobaldo
Viana organizou no Rio de Janeiro uma residência médica que
acolhia muita gente do interior de todo o Brasil. O rim funcionava no 4o
andar, exatamente na clínica médica, e nos passávamos
por lá num esquema de rodízio...acabei me interessando pela
Nefrologia por causa da diálise que achava muito interessante. Na
residência já existia um pernambucano, o Santino Horácio:
Quem trouxe esse rim artificial para o Hospital dos Servidores? E quando
você chegou ele já estava funcionando? Dr. Chabo: Já estava sim. Quem trouxe esse primeiro aparelho foi Alberto Gentile e Prof. Teobaldo Viana. Eles foram para Boston, foram para Haward praticaram e treinaram por lá, e no final, compraram esse aparelho. Alan
Castro: E essa residência do Servidor foi a primeira do Brasill em
Nefrologia ou já tinha em São Paulo? Dr.
Chabo: Já tinha em São Paulo. Embora eu não
tivesse muita informação a respeito dela. Alias eu posso
elogiar os paulistas sem ofender os cariocas, tal como o José Barros
Magaldi, que era pessoa símbolo, e era amigo da gente, mas nem todo
nefrologista de São Paulo era amigo da gente, havia uma certa diferença
entendeu?, A visão de São Paulo sempre foi uma visão
prática. Tipo: se eu sou bom eu tenho serviço e vou ganhar
dinheiro com isso... aqui no Rio ainda é muito de rede pública,
a gente não ganhava dinheiro com isso. Se é um defeito ou
não, uma virtude ou não, o fato é que eu me formei
no serviço público e devolvi ao serviço público
o que ele me ensinou. Não ser empresário foi uma opção
de vida. Eu não montei meu serviço de diálise, mas
tive o privilégio de treinar muito desses colegas que hoje tem seu
serviço organizado. No Ceará, em Sergipe, alguns pernambucanos
outros do Rio Grande do Sul como é o Biernart. Alan
Castro: Biernart fez residência aqui? (NR: João Carlos Biernat,
ex presidente da ABCDT) Dr.
Chabo: Biernart fez residência aqui. A Residência aqui
era muito boa. Para cá drenavam muitos pacientes de todo Brasil...,
Na época, lembro me de um doente chegando com insuficiência
renal aguda, mordido de cobra, de Goiás. Essa situação
me fascinou muito, até porque o médico gosta muito de desafio,
até porque não era interesse pecuniário, ..... tive
uma visão multi disciplinada da atividade médica tirou me
um pouco desse ar de que eu resolvo tudo e passei a ver que eu não
fazia tudo, embora você com 26 anos, recém-formado, você
tá mil, mas eu percebi que não podia tudo. Nesse setor da
nefrotinha Luiz Carlos Leal, um
colega precioso por quem eu preso muito e, meu amigo, o Bedran, ... o Santino,
de saudosa memória, João Pedro Zezini saudosa memória,
falecido, Wanderlube. Eu faço uma ressalva aqui, o Landmann já
era professor da Faculdade de Ciências Médicas, catedrático,
era um homem talentoso e Ladmann tinha uma qualidade muito interessante...ele
usava os seus assistentes como assistentes mesmo! Então nós
passamos a ganhar dinheiro não no hospital mas fora do hospital,
isso é uma coisa curiosa. Landmann tinha uma clientela muito boa.
Ele internava a clientela dele e mandava a gente acompanhar. Ele apresentava
a gente e confiava no nosso acompanhamento. Quanto aos honorários,
eu via como ele cobrava caro!!! Nas diálises que fazíamos,
ele sempre dizia:“o que o cirurgião
cobrou eu cobro 3 vezes mais”. Isso eu não poderia reclamar porque
ele sempre nos remunerou dignamente. Landiman era um cara muito atualizado,
já era professor, já tinha feito a cátedra dele e
tinha ideais mais práticos que os outros professores. A gente fez
tudo em diálise que se pode fazer, diálise pleural e até
diálise salivar! Todos:
Salivar? Dr.
Chabo:Diálise salivar.
A gente aspirava, não deixava o cara engolir, aspirava a língua...o
resultado era muito precário, mas num lugar onde não tenha
nada....... Eu estou dizendo isso como curiosidade, mas a gente fez isso,
diálise pleural era uma excepcionalidade. o Landmann sacudia o setor,
ele produzia muito, jogava as idéias, a gente discutia com o Bedram
que era sempre muito sensato. Alan:
mas então a escolha da nefrologia como especialidade...
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