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Volume 1- Número 9- Ano III (Jan/Fev/Mar de 2000)
Adequação em Diálise
José Luís Bevilacqua

Adequação: ato de adequar, ajustamento, adaptação.
 Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa - 2ª edição.

Introdução:

Difícil tarefa essa de adequar, ajustar, adaptar, através da terapia renal substitutiva a função normal dos rins e vemos que a eficácia dos métodos existentes deixam muito a desejar1. Pelo fato de ser tão pouco o que temos a oferecer parece óbvio que devamos oferecer o máximo possível.

Desde 1990, quando B. Teehan2 demonstrou que pacientes em diálise peritoneal com KT/V inferior a 1,7 apresentavam mortalidade 2,5vezes superior quando comparados aos com KT/V maior que 1,7, tornou-se obrigatório avaliação da adequação do tratamento dialítico em Diálise Peritoneal Ambulatorial Contínua (DPAC), tanto em dose quanto em qualidade da diálise oferecida.

Assim, alguns conceitos novos foram introduzidos quanto à quantidade de diálise oferecida, como:-

Diálise Mínima:- quantidade de diálise suficiente paraalcançar um determinado alvo na evolução. ( Sobrevida, morbidade, hospitalização, qualidade de vida).

Diálise Ótima:- quantidade acima da qual não havia melhora alguma na evolução.

Para avaliarmos se a dose de diálise oferecida está adequada ou não, podemos lançar mão de parâmetros clínicos e bioquímicos.

Parâmetros Clínicos:-

A presença ou não de sintomas como:- insônia, alterações gustativas, náuseas e vômitos, fraqueza, que são sintomas relacionados ao síndrome urêmico, acompanhado ou não, de um equilibrado balanço hídrico e de bom controle da pressão arterial nos indicam um tratamento dialítico adequado ou não.

Parâmetros Bioquímicos:-

Dosagem de albumina sérica, hematócrito, índice creatinina / altura e avaliação da massa muscular magra (atualmente chamada massa corpórea livre de edema e gordura) são os mais utilizados e destes apenas a dosagem da albumina sérica tem mostrado correlação com mortalidade de pacientes.

Baseado nos parâmetros citados acimaKhanna e outros 3, em 1990 propuseram a primeira sistematização para se avaliar a adequaçãoda diálise oferecida, criando o que denominou de “Nurse score”, quebaseava-se na pontuação para avaliação de sintomas e de dados laboratoriais. Assim, avaliava a presença e intensidade dos seguintes sintomas:- insônia, fraqueza, anorexia, alterações gustativas, náuseas, vômitos, além do balanço hídrico, e controle da pressão arterial e se os mesmos fossem intensos e frequentes recebiam pontuação 1, pouco frequentes, 2 pontos e caso não se manifestassem, 3 pontos para cada um deles; podendo assim variar de 8 a 24 pontos.

Para os dados decorrentes de avaliação laboratorial a pontuação era dada conforme a tabela abaixo:-

1 ponto2 pontos3 pontos

Albumina (g/dl)< 3,03,0 - 3,4> 3,4

Ht (%) - sem EPO< 2020 - 24> 24

Creat./Altura>0,100,08 - 0,10<0,08

Massa musc. magradiminuídaestávelideal

Procede-se então, à somatória dos pontos e teremos a classificação da adequação da diálise em :- inadequada (< 23 pontos ), marginal (23 a 29 pontos) e adequada (29 a 36 pontos).Esta é a maneira mais simples e fácil de se realizar em qualquer unidade de diálise, a avaliação de adequação do tratamento dialítico oferecido e se mostrou bastante confiável em seus resultados. A maior dificuldade que essa avaliação apresenta é que o aparecimento de determinados sintomas só ocorrem após algum tempo sob tratamento dialítico inadequado, o que pode levar a um comprometimento das condições gerais do paciente. 

Outros parâmetros bioquímicos, pouco mais sofisticados, que de rotina se utilizamsão os que se seguem:

- KT/V, taxa de catabolismo protéico normalizada (atualmente denominada taxa de aparecimento do nitrogênio protéico - PNA), depuração renal e peritoneal de creatinina e de uréia e cálculo da massa muscular magra a partir da excreção de creatinina, além da relação dialisato : plasma de uréia e de creatinina. Os problemas encontrados para se realizar avaliação utilizando os parâmetros citados acima são principalmente custo, laboratório de análises com algum grau de sofisticação e principalmente a falta de valores definidos cientificamente como alvo a ser alcançado além da falta de padronização em fórmulas para cálculo dos referidos parâmetros. Assim, só para exemplificar, podemos calcular o V (volume de distribuição da uréia) do KT/V por 4 fórmulas distintas, já o cálculo do nPNA pode ser realizado por nada mais, nada menos que 8 fórmulas diferentes.

Recentemente (setembro de 1997) a National Kidney Foundation, através da publicação Dialysis Outcome Quality Initiative (DOQI)4 propôs os seguintes valores como alvo para os parâmetros de adequação em DPAC:-

a. KT/V maior ou igual a 2,0

b. nPCR maior ou igual a 0,9 g/Kg/dia

c. depuração peritoneal de uréia > 70 l./sem./1,73 m2

d. depuração peritoneal de creatinina > 60 l./sem./1,73 m2

e. Massa muscular magra > 63%.

Para se ter uma idéia de como tem variado os valores propostos por grandes comitês de avaliação de adequação em diálise peritoneal podemos citar que em novembro de 1993 o National Institute of Health americano propunha como KT/V mínimo 1,7, em janeiro de 1996 o estudo CANUSA5 propunha KT/V igual ou maior que 2,1, o DOQI (setembro de 1997), já citado, propôs KT/V maior que 2,0 e depuração total (renal mais peritoneal) de creatinina superior a 60 litros por semana. Já a Renal Association junto ao Royal College of Physicians of London propuseram em novembro de 1997, KT/V maior que 1,7 e depuração total de creatinina superior a 50 litros por semana como alvo6.

Apesar de toda polêmica existente, da ausência de padronização de fórmulas, da utilização da depuração peritoneal de creatinina como sendo igual à renal (emml/min.), até a falta de comprovação, em alguns estudos, de redução da morbi-mortalidade nos pacientes portadores de Insuficiência Renal Crônica submetidos a DPAC baseado no valor do KT/V e da depuração total de creatinina, necessitamos avaliar rotineiramente a dose de diálise oferecida, pois sabemos tratar-se de pacientes complexos e graves, como pode ser demonstrado pela baixa expectativa de vida de um paciente portador de IRC em fase dialítica. Um paciente de 49 anos iniciando tratamento dialítico tem uma expectativa de vida de 6,8 anos, comparado aos 29,8 anos de expectativa de vida da população geral (dados dos Estados Unidos da América) 7. Portanto, evitar que esses pacientes se mantenham em tratamento dialítico com dose abaixo da necessária, evitando o aparecimento de sintomas e sinais que no mínimo aumentarão o desconforto dos pacientes, é uma necessidade.

Para minimizar os sintomas relacionados ao síndrome urêmico, que por vezes acaba por levar à piora do estado nutricional, bem como um início tormentoso em tratamento dialítico o DOQI propõe o que resolveram chamar de “início saudável”: 

- iniciar tratamento dialítico quando KT/V renal semanal < 2,0 ou nPNA abaixo de 0,8 g/Kg/dia espontaneamente.

O que pode prorrogar o início do tratamento dialítico:-

* peso corpóreo livre de edema - estável ou aumentando

* nPNA maior ou igual a 0,8 g/Kg/dia

* ausência completa de sinais e sintomas atribuíveis a uremia.

KT(renal)/V semanal maior ou igual a 2,0 corresponde a:

- Depuração renal de uréia = 7 ml/min/1,73 m2

- Depuração renal de creatinina = 9 a 14 ml/min/1,73 m2

- Taxa de filtração glomerular = 10,5 ml/min/1,73 m2.

Após iniciado o tratamento dialítico dever-se-ia manter os pacientes dentro do seguintes parâmetros:-

1. KT/V maior ou igual a 2,0

2. Depuração semanal de creatinina maior ou igual a 60 l/semana/1,73 m2

3. Massa muscular magra > 63%

4. SGA superior a 5 pontos.

Assim, após avaliação clínica e laboratorial inicial, devemos lançar mão do cálculo do KT/V total semanal, bem como da depuração total de creatinina semanal com periodicidade que será sugerida posteriormente, utilizando as fórmulas apresentadas no apêndice.

Mesmo com todas as controvérsias e diferentes sistemáticas existentes devemos pela sua importância e pioneirismo realizar análise sucinta do Estudo CANUSA publicado no Journal of American Society of Nephrology em janeiro de 1996.

Características:-

- estudo prospectivo de pacientes sucessivos

- 14 centros do Canadá e EUA 

- 680 pacientes com 3 anos de seguimento (09/1990 a 12/1993)

- 90 óbitos, 137 transplantes, 118 falhas de técnica

- 15 deixaram tratamento dialítico

- 55,4% desnutridos - 4,29% com desnutição severa

Objetivos:

1. avaliar a relação da adequação com mortalidade, falha da técnica e dias de

hospitalização.

2. avaliar a relação do estado nutricional com mortalidade, falha da técnica e

dias de hospitalização.

- parâmetros utilizados para avaliar a adequação dialítica, o estado nutricional 

e a evolução do paciente:

- Adequação:- KT/V total semanal de uréia, depuração total semanal de 

creatinina e beta 2 microglobulina sérica

- Nutrição:- Albumina sérica, avaliação global subjetiva (SGA) e taxa de 

catabolismo protéico e percentual de massa muscular magra.

- Evolução:- mortalidade, sobrevida da técnica e hospitalização

Resultados:-

- aumento de 0,1 no KT/V semanal - reduziu risco relativo (RR) de morte em 5%

- aumento de 5 l/semana/1,73m2 na depuração creatinina - reduziu o RR de morte em 7%

Conclusões:-

1.com KT/V semanal > 2,1 e depuração de creatinina > 70 l/semana/1,73 m2

- expectativa de sobrevida em 2 anos de 78%

2.VariávelRR

Idade (por ano)1,03

DM insulino dep.1,45

Doença cardiovascular2,09

Tratamento nos EUA1,93

3. pacientes com melhor estado nutricional apresentaram mortalidade e taxa 

de internações menores.

Críticas:-

1. não é um ensaio randomizado controlado.

- estudo de observação sem intervenção

- a variação dos parâmetros de adequação deveu-se a redução da FRR

2. todos pacientes iniciando DPAC no estudo, portanto com FRR maior.

3. função renal residual X depuração pequenos solutos

Veremos agora como proceder ao realizar a primeira prescrição em DPAC e como avaliar a dose de diálise.

Ao realizarmos a primeira prescrição de um paciente temos que obrigatoriamente levar em consideração 4 importantes fatores:-

1. Função Renal Residual (FRR):- pois cada mililitro/minuto de depuração de uréia representa cerca de 0,3 no valor do KT/V, assim como, cada mililitro/minuto de depuração de creatinina representa 10 litros por semana na depuração total de creatinina. Dessa maneira um paciente com taxa de filtração glomerular ao redor de 6 ml/min, praticamente alcança os alvos para adequação, ao contrário do paciente que não possui função renal residual e que dependendo de sua estrutura física impedirá que se chegue aos valores alvo da dose de diálise oferecida.

2. Superfície corpórea:- é o segundo fator importante a ser analisado pois, pacientes sem função renal residual e com superfície corpórea superior a 1,73 m2 necessitam de volumes maiores que a clássica prescrição inicial de 4 trocas de 2.000 ml/dia. Nolph1 sugere em publicação no ASAIO Journal de 1996 que pacientes com peso entre 52 e 63 Kg possam realizar trocas com bolsa de 2 litros, enquanto que aqueles com peso entre 63 e 74 Kg devam utilizar bolsas de 2,5 litros e os com peso superior a 74 Kg., bolsas de 3 litros.

3. Ultrafiltração:- importante de ser avaliada, especialmente em pacientes com débito urinário em 24 horas inferior a 400 ml., para que se possa prescrever o número de trocas hipertônicas e ter-se um balanço hídrico adequado

4. Tipo de Transporte de Membrana:- último fator a ser levado em conta, tem sua importância especialmente para os pacientes que apresentam membrana peritoneal como alto ou como baixo transportador, sendo que em geral esses dois tipos acabam por serem transferidos para outra modalidade dialítica. Felizmente eles são minoria, como podemos ver no estudo publicado por Blake1 sobre avaliação do tipo de membrana em 806 pacientes, divididos em 3 grupos conforme suas superfícies corpóreas (< 1,70, entre 1,70 e 2,0 e > 2,0 m2).

Felizmente nos 3 grupos entre 83 e 85% dos pacientes encontram-se nos grupos de transportador médio-alto e médio-baixo.

A membrana peritoneal, pode ser de 4 diferentes tipos de transportadores:- alto, médio-alto, médio-baixo e baixo, com já mostrado. O transportador alto caracteriza-se por realizar rapidamente as trocas através da membrana peritoneal, resultando assim em excelente diálise, em contra-partida, em má ultrafiltração, que pode dependendo do grau necessitar sua transferência para diálise com cicladora. Já no transportador baixo, temos como resultado excelente ultrafiltração e diálise insuficiente, o que poderá indicar a transferência dos portadores desse tipo de membrana peritoneal para hemodiálise . Como sabemos, para caracterizarmos o tipo de membrana peritoneal de nossos pacientes, necessitamos realizar o “Teste de Equilíbrio Peritoneal” (“PET Test) introduzido por Twardowsky 9. Caso não seja possível realizar o “PET test”, podemos lançar mão de uma regra prática que é a seguinte: 

- após pelo menos 10 horas durante a noite com bolsa a 1,5% na cavidade, realizar às 08:00 hs. em ponto troca de bolsa, colocando solução a 4,25% na cavidade e após exatamente 4 horas drena-la e medir o volume drenado. Em se tendo cateter bem locado e funcionante, se tivermos drenagem inferior a 2.400 ml. ,quase que certamente estaremos diante de um transportador alto e da mesma forma se o volume drenado ultrapassar 2.850 ml., poderemos estar diante de um transportador baixo. Este simples teste não substitui o “PET test”, onde temos inclusive a relação dialisato : plasma (D/P) de creatinina que nos permite simular resultados de parâmetros.

Para conhecer qual a nossa realidade, realizamos estudo prospectivo de 65 pacientes consecutivos (12/91 a 03/98) 1 para se avaliar qual era o padrão de dose de diálise oferecido quando realizávamos prescrição empírica de 4 trocas ao dia com bolsas de 2.000 ml. O que encontramos é que se o KT/V alvo for 1,8 estaremos acertando na dose em 75,4% e se o KT/V alvo for 2,0 estaremos acertando em 61,5% e naqueles em que não conseguimos alcançar a dose alvo foi porque os pacientes apresentavam-se com superfície corpórea superior a 1,73 m2 e/ou função renal residual ausente.

A partir de que se constate dose inadequada de diálise através do KT/V ou da depuração semanal de creatinina, a primeira providência a ser tomada é de aumentar o volume de troca das bolsas (para 2.500ml. por exemplo) e este aumento do volume pode ser feito de maneira progressiva, iniciando-se pela bolsa da noite. Caso não se atinja o alvo desejada após o aumento de volume em todas astrocas, passaremos a aumentar o número de trocas e aqui caso isto seja uma conduta definitiva, necessitamos de ter como perspectiva a possibilidade de contar com um dispositivo para troca automática noturna, pois é muito difícil manter aderência do paciente realizando 5 trocas ao dia, o que irá representar um aumento de 1460 para 1835 trocas ao ano e como cada troca consome em média 35 minutos, teremos uma redução do tempo útil disponível ao paciente bem como aumentamos em 25% a chance de erro durante a troca.

Por vezes, se o problema é apenas aumentar a ultrafiltração diária, podemos passar a realizar a troca com bolsa hipertônica durante o dia e não à noite como foi muito comum no passado, e deixando-a na cavidade por um período não superior a 4 horas, uma vez que sabemos ser de 150 a 180 minutos o tempo de cavidade que produz maior ultrafiltração.

A pergunta que se faz então, é quando realizar as avaliações da adequação de diálise? 

Em nossa Unidade de Diálise utilizamos o seguinte protocolo:-

1. após 30 a 40 dias do início em D.P.A.C.

- coleta de urina e efluente de 24 hs - simultaneamente.

- dosagem de uréia e creatinina na urina

- dosagem de uréia, creatinina e proteínas no efluente

2. realização do “PET test” completo

3. digitação programa de computador para os cálculos (Internet - www.hdcn.com)

4. análise de mudanças que se fizerem necessárias

5. realizar SGA

6. repetir avaliações a cada 4 a 6 meses

- vigiar função renal residual e demais parâmetros 

Pelo que vimos até o momento a função renal residual desempenha um importante papel na adequação do tratamento dialítico e ela deve ser preservada a todo custo evitando-se o uso de drogas nefrotóxicas como alguns antibióticos, os anti-inflamatórios não hormonais, contrastes iodados, analgésicos e outras. Além de todo esforço para preservar a função renal residual devemos também monitorizá-la de tempos em tempos pois a sua redução é a regra e estudos mostram que em média no início do tratamento a FRR é responsável por 28% do valor do KT/V, por no máximo 14% do valor do KT/V ao final do segundo ano de tratamento e nunca é superior a 8% ao final do quarto ano em DPAC. Assim, a causa de, em muitas vezes, haver piora dos valores do KT/V e da depuração de creatinina semanal está relacionada à perda da FRR, que precisa ser compensada com o aumento de volume das bolsas e/ou aumento do número de trocas. De maneira prática, consideramos que pacientes com débito urinário diário inferior a 200 ml/dia apresentem FRR igual a zero.

Quando durante o seguimento começamos a notar que algo não vai bem, percebe-se o aparecimento ou piora de hipervolemia como devemos proceder ?

O fluxograma abaixo permite que façamos uma avaliação detalhada do problema e possamos concluir por uma perda aparente ou verdadeira de ultrafiltração, cujas condutas terapêuticas são bastante diferentes. 

Precisamos também estar atentos para reavaliar precocemente as mudanças introduzidas para se ter certeza de que os alvos estão sendo alcançados.

Outro aspecto que deve ser levado em conta quando buscamos diálise adequada, é o nutricional. Assim, se partirmos da premissa que adequação associada a nutrição é que levará a evolução favorável, torna-se necessário proceder-se também à avaliação nutricional.

O estado nutricional é conceitualmente importante porque a desnutrição leva sempre a:-

a. prejuízo da qualidade de vida

- aumento da morbi-mortalidade

- maior número de internações

- mais suscetível a infecções

- anemia mais severa

- fraqueza generalizada

b.cicatrização deficiente

c. disfunção cardiovascular.

Além disso, há uma elevada incidência de desnutrição em pacientes portadores de Insuficiência Renal Crônica em fase dialítica, como podemos comprovar pelo dados da literatura citados abaixo:-

Desnutrição:- ocorre em 18 a 56% dos pacientes em diálise - 33 a 40% em média.

Young et al. 10 - estudo multicêntrico internacional

224 pacientes - desnutrição - 32,6% leve a moderadae 8% severa

Fenton11 - 118 pacientes

- 42% desnutridos nos 3 primeiros meses de tratamento

- com mais de 3 meses de tratamento - 18% desnutridos

Enia - Itália12 - 59 pacientes - 36 HD e 23 CAPD

- desnutridos - 25% em HD e 39% em CAPD

Harty13 - 147 pacientes

- 34% desnutridos - Desnutrição severa em 9%.

Outros dados da literatura que devem ser motivo de reflexão:-

- Albumina relaciona-se com mortalidade e falha da técnica

-KT/V e nPCR correlacionam-se significativamente

- acoplamento matemático ?

- aumento de PCR levando a aumento de Albumina - correlação fraca ou 

ausente

- aumento do KT/V (1,4 - 2,1) não levou a aumento de albumina

- SGA prediz mortalidade (forte evidência)

- má nutrição severa está mais relacionado a pacientes com FRR = 0

- perda protéica e co-morbidades relacionam-se melhor com níveis de 

albumina que dose de diálise ou aporte protéico.

- idosos, diabéticos e alto transportadores são mais importantes como 

preditores de albumina baixa que KT/V e nPCR.

Existem na literatura trabalhos mostrando a correlação de albumina com sobrevida14, como já citamos, porém recentemente através do estudo CANUSA e de outros,temos dados mostrando o nível sérico de albumina relacionado também a morbidade. 

No gráfico abaixo notamos vários parâmetros nutricionais relacionados a maior sobrevida em 2 anos quanto melhor for o resultado do parâmetro.

A este ponto então, reafirmamos a importância da adequação, medida pelo KT/V semanal e depuração semanal de creatinina, bem como da nutrição, avaliada pelo nPNA e SGA.

Veremos agora como proceder para realizar avaliação do estado nutricional através da avaliação global subjetiva (SGA) 15.

Inicialmente através de dados de história clínica e buscando uma avaliação com caráter evolutivo pesquisamos os itens citados abaixo:-

A. História

1. Perda de peso

- últimos 6 meses e últimas 2 semanas

2. Mudança na dieta

- houve mudança ?por quanto tempo ?

- dieta sólida sub-ótima ... jejum.

3. Sintomas gastrointestinais (por + 15 dias)

- náuseas, vômitos, diarréia e anorexia.

4. Capacidade funcional

- há disfunção ?por quanto tempo ?

- atividades parciais ... restrito ao leito

Na história clínica são avaliados 4 itens:-

1. perda de peso. 

- pergunta-se ao paciente se houve perda de peso e de quanto foi esta perda. Caso o paciente não refira perda de peso ou se a perda foi inferior a 5% do peso habitual é classificado como A, caso a perda referida esteja entre 5 a 10% do peso habitual é classificado como B e maior de 10% como C

- a pergunta seguinte, se refere às alterações de peso nas últimas duas semanas, pesquisando se houve ganho de peso, sem alteração do peso habitual ou houve redução do peso habitual. Caso tenha havido ganho de peso é classificado como A, se estável como B ou se perdeu peso como C.

2. mudança de hábito alimentar

- pergunta-se ao paciente se houve mudança na sua dieta habitual, e em caso positivo se esta mudança foi substancial ou não e há quanto tempo (em semanas) que o paciente notou essas mudanças (em quantidade e qualidade).

- a seguir questiona-se o paciente sobre o tipo de mudança que ocorreu na dieta, investigando se houve redução em quantidade da dieta sólida habitual, se está aceitando apenas dieta líquida ou se encontra-se em jejum

Também para estes 2 ítens classifica-se como A, B ou C, sendo que recebem A aqueles que não apresentaram alteração em relação aos seus hábitos alimentares.

3. sintomas gastro-intestinais

- pesquisar a presença ou não de sintomas como náuseas, vômitos, diarréia e anorexia, persistindo por mais de 15 dias. Os pacientes em que os sintomas citados estiverem ausentes, recebem classificação A, os que apresentarem os sintomas, porém sem muita severidade recebem B e C para os que apresentarem sintomas frequentes e intensos.

4. Prejuízo funcional (relacionado à nutrição)

- a pesquisa aqui, é para se detectar pacientes que apresentem ou não suas atividades gerais prejudicadas e em caso positivo se este prejuízo foimoderado, ou severo. 

- naqueles que apresentam algum grau de prejuízo em suas atividades, pergunta-se então como tem sido a evolução nas últimas duas semanas, ou seja, está se recuperando, não notou mudança ou houve piora.

Nestes 2 ítens recebem A os que não apresentaram prejuízo funcional, B para prejuízo moderado e C para o severo, como também recebem A os que melhoraram nas 2 últimas semanas, B os que não apresentaram mudança e C para os que pioraram suas funções gerais nas 2 semanas anteriores à avaliação.

A seguir procedemos a um exame físico para avaliar a presença de edema, perda de massa muscular e da gordura subcutânea, com pontuação.

B. Dados físicos (normal = 0 ..... 3+ = severo)

-perda de gordura subcutânea

(trícipes e parede lateral do tórax)

- perda massa muscular

(deltóide e quadrícepes)

- edema de tornozelos

edema sacral

- ascite ( que não se aplica aos pacientes em diálise peritoneal)

Exame físico

Avaliar pelo exame físico se houve perda de gordura subcutânea (avaliando pela palpação da região média posterior e anterior do braço e face lateral do tórax), perda de massa muscular (avaliando região do m. temporal, fossa supra e infraclavicular, região da escápula e músculos do quadricepes), e presença de edema.

Assim recebem classificação A os que não apresentaram perda ou perda leve, B se a perda foi moderada e C se a perda foi severa ou presença de edema importante relacionado a má nutrição.

No apêndice temos a planilha que pode ser utilizada para avaliação do SGA.

Finalizando, voltamos a ressaltar a importância da função renal residual e da dificuldade de se prover uma dose adequada de diálise sem a ajuda da mesma. Observando o gráfico seguinte, onde o paciente mesmo com superfície corpórea inferior a 1,73 m2, porém sem função renal residual, independente do padrão de resposta de sua membrana peritoneal, dificilmente alcança KT/V = 1,8 com 4 trocas de 2 litros por dia e pior ainda acontece com a diálise peritoneal automática com cicladora que mesmo com 1 troca durante o dia mal alcança o KT/V de 1,8. O mesmo pode ser dito para a depuração semanal de creatinina, que também mal alcança os 60 litros/semana. 

Na nossa experiência avaliando 65 pacientes de maneira prospectiva de 1991 a 1998, não encontramos diferença estastística na análise da sobrevida da técnica e de pacientes quando apresentavam KT/V maior ou inferior a 1,8, porém voltamos a reafirmar que continuamos buscando a maior dose de diálise possível para o paciente.

Cabe ainda ressaltar, que tão importante, e em certas circunstâncias até mais importante quanto a dose de diálise oferecida é o controle da volemia e da pressão arterial, a correção da anemia, o controle glicêmico nos diabéticos, a preocupação com o estado nutricional, o controle das dislipidemias e a conduta frente a doença óssea associada à Insuficiência Renal Crônica em fase dialítica. Este é o conceito global de diálise adequada que deve ser aplicado.

Apêndice

Cálculo da Depuração semanal (litros /semana)

Dep. Semanal de Uréia= 7 X [(Vd X D/P uréia)+(Vu X U/P uréia)] X 1,73/SC

Dep. Semanal Creatinina= 7 X [(Vd X D/P creat)+(Vu X U/P creat)] X 1,73/SC

Vd = volume de dialisato de 24 hs.D/P = relação dialisato : plasma

Vu = volume urinário de 24 hsU/P = relação urina : plasma

SC = superfície corpórea (m2)

Cálculo da Superfície Corpórea

SC = 71,84 X P 0,425 X A 0,725 X 10 -4

P = peso em Kg

A = altura em cm.

Cálculo do Volume de distribuição da uréia (V)

V = -2,097 + 0,1069 A + 0,2466 P(Mulheres)

V = 2,447 - 0,09516 Id + 0,1074 A + 0,3362 P (Homens)

A = altura (cm)P = peso (Kg)Id = idade (anos)

Cálculo do KT/V

KT/V = 7 X (Vd X D/Puréia) + (Vu X U/Puréia)

V

Vd,u = volume dialisato, urina

V= volume distribuição uréia

Cálculo do PNA (fórmula de Randerson)

GUN= 10 X ((Vu X UUN) + (Vdial X DUN)) /1440

PCR = 10,76 X (GUN + 1,46) - gramas / 24 horas

Vu = Volume urinário de 24 hs.

Vdial = Volume de dialisato de 24 hs.

UUN = concentração nitrogênio urêico na urina

DUN = concentração nitrogênio urêico no dialisato (efluente)


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