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Volume 1- Número 6- Ano I (Outl/Nov/Dez de 2000)
 

Morre o Professor Mário Rigatto aos 71 anos

No dia 17 de janeiro de 2000, o Brasil perdeu Mário Rigatto. De madrugada e com 27 dias de internação no Instituto do Coração de Porto Alegre, o Professor faleceu após um transplante de coração. Sofria de amiloidose primária e a troca de órgão foi a única terapia possível naquele estágio de doença. Med On Line publica o último texto do Professor Mário Rigatto que saiu no Jornal do CFM em dezembro de 1999.

O Editor


Mário Rigatto (1929-2000)

ASCLÉPIO DEUS DA MEDICINA
Mário Rigatto
Pneumologista e Professor Titular de Medicina Interna da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Curioso o momento que vivemos. Um dos mais renomados templos da ciência médica brasileira, o Hospital de Clínicas de São Paulo, inaugura a estátua de um Deus do Olimpo, Asclépio, Deus da Medicina.

Pois não são deuses a própria representação do poder que dispensa prova? De onde então a sua presença num reduto médico que personifica a só aceitação de fatos cercados da mais plena evidência científica?

Não estaremos contemplando a instalação de uma disputa bipolar sobre duas maneiras de se interpretar o mundo médico? A iniciativa do prof. Carlos da Silva Lacaz, ao erigir esta estátua, que neste momento estamos inaugurando, me parece, além da notável provocação que encerra, de rara sabedoria. Nunca a Medicina precisou mais do que hoje ponderar as forças que a tem propelido.

Considero que a Medicina é a mais antiga das profissões. Ela iniciou-se no momento em que um ser humano debruçou-se sobre o seu irmão ferido, na intenção clara de ajudá-lo, socorrê-lo. A profissão começou com este gesto, o gesto médico, e por ele se caracteriza até hoje. É preciso lembrar que a Medicina tem 250 mil anos de história, o tempo que o Homo sapiens se sabe existir no planeta. A ciência que hoje praticamos com tanto orgulho e êxito tem 300 anos. Se equipararrnos os 250 mil anos da história médica às 24 horas de um dia, os 300 anos da história da ciência equivaleriarn aos quatro segundos que
antecedem a meia-noite. O enorme prestígio desfrutado pela Medicina ao longo de toda a sua história nunca precisou da influência da ciência para se impor. Como é possível ter tido tão extraordinário reconhecimento nesta imensa faixa de tempo quando pouco ou nada teVe de ciência no seu bojo?

Seria desarrazoado supor que todos os personagens que vestiram a roupagem de médico, desde o pagé ao sacerdote, ao feiticeiro, tenham meramente desempenhado um papel de ficção. Apesar de contarem com recursos praticamente nulos do ponto de vista técnico, todos os que exerceram a profissão médica foram comprovadamente úteis à sociedade de seu tempo. A explicação que se tem, e que cresce no embasamento científico atual, é a de que o gesto médico, quando praticado da maneira mais autorizada para a época em que é esboçado, mobiliza no paciente reservas por ele mesmo insuspeitadas e que o tornam mais fone e mais capaz de eventualmente superar o mal que o aflige. A cada dia temos menos dúvidas de que a maior dádiva à disposição do homem contra os males que sobre ele
eventualmente se abatam são as forças que estão no seu interior e que precisam ser oportunamente postas em liça. 

Grandes lições que aprendemos ao longo desta linha vieram com a vacinação e com a psiquiatria, embora exemplos delas possam ser encontradas em qualquer campo da prática médica. É a grande força que Hipócrates registrou como "Força curativa da Natureza" (Vis medicatrix Naturae).

O médico moderno, vivendo o apogeu da sua ciência, encontra-se compreensivelmente extasiado com o próprio sucesso. O temível é que, mais do que extasiados, estejamos também sendo ofuscados pelo prestígio da nossa boa ciência. A crescente negativa de os médicos modernos discutirem com seus pacientes problemas que extrapolam os territórios dominados pela ciência tem sido uma das maiores causas do extraordinário crescimento das chamadas medicinas altemativas. Os limites da ciência podem esgotar-se para o médico. Mas se a vida ainda não se esgotou para o paciente, ele certamente procurará outros recursos. Os médicos nunca se negaram a discutir tudo, quando sabiam muito pouco. Hoje, quando sabem bastante mais, só querem discutir o que sabem. Este paradoxo deve ser por nós atentamente ponderado. O que ainda não sabemos é muito maior do que o que já sabemos e é preciso lembrar que o que hoje sabemos fazia parte daquilo que ontem não sabíamos. Mas que, nem por isso. deixávamos de
atentamente considerar.

Não é ignorando os campos não conquistados que algum dia chegaremos a dominá-los. O médico deve
desempenhar este papel, tão difícil para a figura humana: acreditar na sua ciência mas, ao mesmo tempo, não desacreditar no que existe fora dela. E continuar a olhar, como sempre o fez, para as fantásticas interrogações que o cercam, vendo nas mesmas eventuais bastiões que um dia poderão ser plenamente entendidos e explicados. O ceno é que para os nossos pacientes não faz muita diferença se o seu problema está no território científico ou não-científico da Medicina. O importante é que o médico esteja disposto a encarar, a analisar, a tomar a melhor atitude possível para minorar o problema apresentado pelo paciente, independentemente de um selo de garantia de domínio científico da matéria. Esta dupla posição de cientista e de não-cientista é muito difícil. Mas ao médico é absolutamente mandatória. Caso contrário, os seus pacientes serão profundamente prejudicados - pois perderão a tutela médica e irão se colocar sob a tutela de pessoas não preparadas para tão grande desafio.

Acredito que a Medicina brasileira deve se felicitar por ver, neste palco de tanta evidência no cenário nacional, o Hospital de Clínicas de São Paulo, a representação objetiva de que os médicos do Brasil, que dominam e ampliam a ciência médica do país, não estão fechados ao horizonte muito mais amplo, ainda que mal definido, do vasto território pelo qual se estende a prática da Medicina: o reino de Asclépio.

Quero congratular-me com o prof. Carlos Lacaz, pela coragem da iniciativa, e felicitar o Sr. Alois Metzler, da
Fundação Dyk, por ter permitido que esta coragem se transforme na realidade que hoje estamos consagrando. A aproximação ensejada entre estes dois horizontes do mundo, o divino e o científico, é uma promessa de felicidade para o nosso povo.

Artigo publicado no Jornal do CFM, dezembro de 1999

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