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Morre o Professor Mário Rigatto aos 71 anos No dia 17 de janeiro de 2000, o Brasil perdeu Mário Rigatto. De madrugada e com 27 dias de internação no Instituto do Coração de Porto Alegre, o Professor faleceu após um transplante de coração. Sofria de amiloidose primária e a troca de órgão foi a única terapia possível naquele estágio de doença. Med On Line publica o último texto do Professor Mário Rigatto que saiu no Jornal do CFM em dezembro de 1999. O Editor
ASCLÉPIO DEUS DA
MEDICINA
Curioso o momento que vivemos. Um dos mais renomados templos da ciência médica brasileira, o Hospital de Clínicas de São Paulo, inaugura a estátua de um Deus do Olimpo, Asclépio, Deus da Medicina. Pois não são deuses a própria representação do poder que dispensa prova? De onde então a sua presença num reduto médico que personifica a só aceitação de fatos cercados da mais plena evidência científica? Não estaremos contemplando a instalação de uma disputa bipolar sobre duas maneiras de se interpretar o mundo médico? A iniciativa do prof. Carlos da Silva Lacaz, ao erigir esta estátua, que neste momento estamos inaugurando, me parece, além da notável provocação que encerra, de rara sabedoria. Nunca a Medicina precisou mais do que hoje ponderar as forças que a tem propelido. Considero que a Medicina
é a mais antiga das profissões. Ela iniciou-se no momento
em que um ser humano debruçou-se sobre o seu irmão ferido,
na intenção clara de ajudá-lo, socorrê-lo. A
profissão começou com este gesto, o gesto médico,
e por ele se caracteriza até hoje. É preciso lembrar que
a Medicina tem 250 mil anos de história, o tempo que o Homo sapiens
se sabe existir no planeta. A ciência que hoje praticamos com tanto
orgulho e êxito tem 300 anos. Se equipararrnos os 250 mil anos da
história médica às 24 horas de um dia, os 300 anos
da história da ciência equivaleriarn aos quatro segundos que
Seria desarrazoado supor
que todos os personagens que vestiram a roupagem de médico, desde
o pagé ao sacerdote, ao feiticeiro, tenham meramente desempenhado
um papel de ficção. Apesar de contarem com recursos praticamente
nulos do ponto de vista técnico, todos os que exerceram a profissão
médica foram comprovadamente úteis à sociedade de
seu tempo. A explicação que se tem, e que cresce no embasamento
científico atual, é a de que o gesto médico, quando
praticado da maneira mais autorizada para a época em que é
esboçado, mobiliza no paciente reservas por ele mesmo insuspeitadas
e que o tornam mais fone e mais capaz de eventualmente superar o mal que
o aflige. A cada dia temos menos dúvidas de que a maior dádiva
à disposição do homem contra os males que sobre ele
Grandes lições que aprendemos ao longo desta linha vieram com a vacinação e com a psiquiatria, embora exemplos delas possam ser encontradas em qualquer campo da prática médica. É a grande força que Hipócrates registrou como "Força curativa da Natureza" (Vis medicatrix Naturae). O médico moderno,
vivendo o apogeu da sua ciência, encontra-se compreensivelmente extasiado
com o próprio sucesso. O temível é que, mais do que
extasiados, estejamos também sendo ofuscados pelo prestígio
da nossa boa ciência. A crescente negativa de os médicos modernos
discutirem com seus pacientes problemas que extrapolam os territórios
dominados pela ciência tem sido uma das maiores causas do extraordinário
crescimento das chamadas medicinas altemativas. Os limites da ciência
podem esgotar-se para o médico. Mas se a vida ainda não se
esgotou para o paciente, ele certamente procurará outros recursos.
Os médicos nunca se negaram a discutir tudo, quando sabiam muito
pouco. Hoje, quando sabem bastante mais, só querem discutir o que
sabem. Este paradoxo deve ser por nós atentamente ponderado. O que
ainda não sabemos é muito maior do que o que já sabemos
e é preciso lembrar que o que hoje sabemos fazia parte daquilo que
ontem não sabíamos. Mas que, nem por isso. deixávamos
de
Não é ignorando
os campos não conquistados que algum dia chegaremos a dominá-los.
O médico deve
Acredito que a Medicina brasileira deve se felicitar por ver, neste palco de tanta evidência no cenário nacional, o Hospital de Clínicas de São Paulo, a representação objetiva de que os médicos do Brasil, que dominam e ampliam a ciência médica do país, não estão fechados ao horizonte muito mais amplo, ainda que mal definido, do vasto território pelo qual se estende a prática da Medicina: o reino de Asclépio. Quero congratular-me com
o prof. Carlos Lacaz, pela coragem da iniciativa, e felicitar o Sr. Alois
Metzler, da
Artigo publicado no Jornal do CFM, dezembro de 1999 Para ser comunicado das novas edições ou de quaisquer modificações em Med On Line ou então, para opinar sobre as matérias desta edição, basta clicar aqui |