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Prof.
Sebastião: Aí o senhor voltou direto pra Ribeirão
Preto? Prof.
Krieger: Direto pra Ribeirão Preto! Prof.
Sebastião: Quando lá chegou era uma escola nova inclusive... Prof.
Krieger: Não, quando eu cheguei em 57, em Ribeirão Preto,
estava-se formando a 1a turma. Foi aí que eu encontrei o César
que já estava lá. A Faculdade tinha sido criada em 52 e eu
cheguei em 57 quando estava se formando a 1a turma. Prof.
Sebastião: A 1a turma? Prof.
Krieger: 1a turma. E lá fiquei, né?. Prof.
Sebastião: Já estava casado nos EUA? Prof.
Krieger: Pois é, eu tinha recém-casado em Porto Alegre
e nem casa eu tinha, fiquei até lá fazendo investimento pra
comprar um apartamentinho pra, na volta, eu morar e tive que tomar a decisão
nos Estados Unidos de voltar direto pra Ribeirão Preto! Prof.
Sebastião: Quando o senhor casou era estudante ainda? Prof.
Krieger: Não, não, já tinha me formado. Quer dizer,
eu me casei imediatamente antes de ir pros Estados Unidos. Me formei em
53 e fui pros Estados Unidos em 56. Fiquei lá de 56 até fim
de 57, quando voltei pra Ribeirão. Prof.
Sebastião: Pra casar o senhor foi buscar aquela mocinha que
deixou na cidade natal? (provocando) Prof.
Krieger: Não, não, não!. O casamento foi muito
interessante. O primo da minha mulher eera meu colega de turma e nós
íamos a casa dele estudar e lá eu conheci a menina. Então
foi na casa dela mesmo que eu conheci, através de um colega de turma
com quem eu estudava. Foi essa história, quando eu resolvi casar
foi com menina que eu já conhecia entendeu? Prof.
Sebastião:Voltando a
Ribeirão Preto e perguntando ao Professor César: como é
que vocês se conheceram em Ribeirão? como foi essa história? Prof.
César: Bom, nós ficamos amigos imediatamente porque,
quando cheguei a Ribeirão Preto me perguntei, no mesmo dia quecheguei,
o que é que eu vim fazer aqui? Prof.
Sebastião: O senhor estava vindo de São Paulo? Prof.
César: Vindo de São Paulo. Ribeirão tinha 120.000
habitantes e a cidade cheirava a BHC e cheirava querosene por causa dos
fogões, né? Quando o Eduardo chegou eu fiquei com muita pena
dele. O que é que ele veio fazer aqui??? Ele estava vindo dos Estados
Unidos!! O que é que ele veio fazer aqui?? Bom, nós ficamos
muito amigos e fizemos até alguma coisa em colaboração
e, por incrível que pareça, só publicamos alguma coisa
juntos este ano. Um livro de geriatria. A gente queria muito publicar alguma
coisa, nunca publicamos.... Prof.
Sebastião: Essa amizade tem uns 50 anos? Prof.
César: 50 anos. Quase né?Quase
50 anos. Então eu fiquei com muita pena dele e eu o acolhi, ajudei
em tudo que eu podia, mas como ele é muito independente, em três
tempos ele está arrumado, dominando tudo. Como ele tem um senso
político muito aguçado, em três tempos ele estava dominando
a política da Faculdade. Eu me lembro muito bem que um dia nós
íamos fazer uma eleição para escolher o representante
da Comissão do Tempo Integral e ele disse:"não,
espera aí, isso tem que ser discutido por todos"...deste dia em
diante acabou a farra de escolher cargos pela beleza física, pela
simpatia pessoal...graças a intervenção do Eduardo.Acho
inclusive, que esse senso político extremamente aguçado o
conduziu em Ribeirão Preto até o dia em que saiu de lá.
Ele ajudou a montar a pós-graduação
da Faculdade de Medicina com o Maurício Rocha e Silva, uma das melhores
do Brasil. E nós fizemos muitos experimentos juntos e eu me lembro
de que ele foi o primeiro da fisiologia que se doutorou, porque ele tinha
planos de voltar pra Porto Alegre, lembra-se?Então
ele se doutorou. Prof.
Sebastião: Em Ribeirão? Prof.
César: Em Ribeirão Preto. Ele foi o primeiro que doutorou
na .. Prof.
Krieger: Não,. fui o primeiro que fiz a docência livre
e não o doutoramento. Alguns fizeram na minha frente, inclusive
você. Prof.
César: Não! Não!, não Eduardo. Prof.
Krieger: Foi. Prof.
César: Tem certeza? Prof.
Krieger: Foi em 59 o meu doutoramento. Prof.
César: Como é que você poderia ter feito livre-docência? Prof.
Krieger: Depois, quando abriu a docência eu fui o primeiro a
fazer, porque realmente queria apressar a livre-docência pra ir a
Porto Alegre. Eu fiz em 62. Prof.
César: Disso eu me lembro, mas eu achava que você tivesse
feito o primeiro doutorado também. Prof.
Krieger: Não. A docência-livre eu fui o primeiro a fazer.
Em 62, porque estava um pouco dentro dessa idéia de voltar pra Porto
Alegre. Poderia abrir o concurso na Faculdade Federal e eu ia concorrer
porque o pessoal queria que eu voltasse pra completar a obra da fisiologia
em Porto Alegre. Prof.
César: Então eu me lembro que o Eduardo logo iniciou
a linha de pesquisa que o acompanha até hoje, que é hipertensão
experimental. E eu nunca fiz a você essa pergunta...vou aproveitar
e faze-la agora: porque você decidiu fazer aquelas primeiras experiências
de desnervação em Ribeirão? Prof.
Krieger: Quando voltei dos Estados Unidos tive que escolher alguma
coisa pra fazer. Vi que o grupo de neurofisiologia era muito forte em Ribeirão
Preto e resolvi fazer coisas de cardiovascular ligado a neuro. Então
fiz a minha tese de doutoramento estimulando hipotálamo em hipotermia.
Estudei as reações todas cardiovasculares frente a hipotermia. Prof.
Sebastião: Nesta época era como hoje: tese com orientador? Prof.
Krieger: Naquela época não tinha orientador. A gente
fazia tese no departamento. Era uma forma antiga de doutorado. A minha
tese de doutorado foi estimulando o sistema nervoso central na hipotermia.Eu
fui mostrar pra uns alunos que estavam lá, uns estagiários
argentinos, como se estimulava os nervos, etc, o vago. Eu, então,
cometi um erro de raciocínio. Eu ia demonstrar como o curare modificava
uma resposta do vago. Chamei o pessoal, estimulei o vago.....e não
encontrei nada!!Aí me acendeu
uma luzinha... mas o que eu estou estimulando então? Fui olhar a
preparação e vi que eu pegava o nervo vago na parte central
e percebi que junto estava pegando um outro nervinho.Resolvi
estudar esse nervinho isoladamente.
Estimulei-o e foi uma beleza de queda de pressão! Aí dei
com a história do depressor aórtico no rato e abri toda uma
linha de presso-receptores. Caí nos presso-receptores por um erro
de raciocínio. Descobri que o rato tinha o nervo depressor separado
do vago, coisa que no cão, que eu sempre trabalhava não existia.
Abriu-se o da uma linha que terminou na tese de docência livre onde
descrevi os presso- receptores aórtico, carotídeo, a desnervação
juntando com a hemodinâmica que eu conhecia bem, débito cardíaco,
a curva de diluição etc...joguei então toda a minha
tralha de conhecimento. O Braun Menendes estava interessado no que eu estava
fazendo. Ele ia me visitar em Ribeirão Preto, mas, infelizmente
faleceu em 59 num acidente de aviação. O falecimento do Braun
Menendeztirou essa grande possibilidade
que eu teria na vida de continuar uma colaboração importante
no aspecto científico além é claro da importância
do aspecto humano, acadêmico, pois ele era de uma enorme personalidade.
Acabei ficando sozinho, desenvolvendo essas linhas já com independência.
Quero chamar a atenção de que a escolha dessa parte neurogênica
da pressão arterial foi influenciada pelo grupo de neurofisiologia,
o César, o Covian, o Marceillan. Mais tarde, fui fazer os primeiros
registros das atividades do presso no rato que também me deu uma
linha de trabalho muito grande, mas tudo isso eu aprendi com o grupo de
neurofisiologia, com o Marseillan. Prof.
Sebastião: Professor nessa época era o Zeferino Vaz ... Prof.
Krieger: Era. O diretor da faculdade. Prof.
Sebastião: Como é era seu relacionamento e qual a opinião
do senhor sobre o professor Zeferino Vaz? Prof.
Krieger: Bom, é interessante depois de tantos anos a gente poder
analisar. Quando se está vivendo os momentos, você pode ter
distorções na avaliação das pessoas. O Zeferino,
quando cheguei em Ribeirão Preto, já existia uma reação
contra ele. porque ele já havia feito milagre de criar a faculdade,
instalar a faculdade, convidar o pessoal, começava um movimento
na Faculdade de querer ter vida própria, autonomia e a Congregação
se instalar etc. Então os primeiros momentos com o Zeferino foram
momentos assim de contra. Nós éramos um pouco contra o Zeferino,
não pela obra dele. Prof.
Sebastião: O que determinava essa ... Prof.
Krieger: Ele era o grande criador, nós éramos a criatura.
Então a criatura queria ter independência. Já estava
a Faculdade instalada, já formando a 1aturma
e já existia uma reação por parte de professores,
dos assistentes de querer ter uma vida autonôma.Então,
o Zeferino era quem tamponava; era um mandão de tudo. Agora, ninguém
nega e eu acho que a medida que o tempo passa até dá mais
serenidade pra gente fazer o julgamento que ele fez uma enorme obra. Basta
pensar, o que ele poderia ter feito diferente e não fez. Eu sintetizaria
a obra do Zeferino em Ribeirão Preto com este exemplo: ele conseguiu
o apoio da classe médica de Ribeirão Preto pra instalar a
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto sem convidar ninguém
pra ser professor da faculdade. Ele convenceu a todos que seria uma Faculdade
diferente, com característica de pesquisa, era um orgulho pra cidade
mas tinha que trazer gente de fora, quer dizer, isto mostra a habilidade
dele e a visão, a visão que ele tinha da importância
da ciência, etc Isso era notável, tá certo? A visão
que ele teve de uma Universidade em contacto com a Indústria ele
fez depois em Campinas. Medicina ele fez em Ribeirão tanto que ele
nunca deu muita atenção
a Faculdade de Medicina de Campinas. Prof.
Sebastião: Lá em Campinas ele deu outro enfoque. Prof.
Krieger: Lá o enfoque era Universidade, a Universidade/Indústria.
Ele era muito inteligente e sentia pra onde é que iam as coisas.
Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto ele sentia que tinha
chegado o momento da pesquisa, da valorização da bioquímica
que na época era igamos assim, o charme. Quer dizer, a medicina
tinha saído da fase anatômica e morfológica e tinha
ido pra fisiológica e as técnicas de bioquímica estavam
dando enormes avanços. Então, era isso que ele pregava lá
em Ribeirão Preto, eletroforese e tudo isso e bioquímica.
A minha avaliação é muito positiva, muito positiva,
imagina se você repetisse Ribeirão Preto em outros lugares
do Brasil com o homem duma visão dessas e uma habilidade política,
não é? Habilidade de convencer uma cidade pra receber uma
Faculdade de Medicina diferente etc, ele incendiava a imaginação
do pessoal e obtinha apoio. Prof.
César: Bom, você passou muitos anos em Ribeirão
Preto, depois veio pra cá quatro anos depois de mim, né,.. Prof.
Krieger: 85. Prof.
César: Ah! Então um ano depois. Ah não, eu vim
em 64, fiquei 11 anos só em Ribeirão Preto. É que
me aposentei em 84 e você aposentou em 85 e o que que você
esperava encontrar aqui, você tinha alguma esperança de montar
este império que você montou? Porque você tem um império
aqui no Instituto do Coração (SP), né? Prof.
Sebastião: Tem ? (olhando para o Prof. César) Prof.
César: Total. (confirmando) Prof.
Krieger: Não, eu não sabia o que me esperava. Sabia que
era um desafio que teria. Foi muito interessante pois no ano de 83-84 me
dei conta de que, em 85, faria 30 anos de Universidade, distribuídos
em 28 anos de Ribeirão Preto e 2 de Porto Alegre e que podia me
aposentar.Aquilo começou
a me preocupar do ponto de vista existencial. Eu estava muito bem em Ribeirão
Preto, tinha já nesta época, praticamente metade de um corredor
com uns 5 ou 6 laboratórios de fisiologia cardiovascular. Tinha
um grupo tremendamente ativo, tinha conseguido da FINEP um mini-computador,
que na época era novidade, com engenheiro e estávamos fazendo
coisa de vanguarda. Então eu não tinha a mínima dúvida
que, sob o aspecto de pesquisa, havia muita coisa pra fazer em Ribeirão.Mas
eu não sentia mais em Ribeirão o desafio que sentia nos primeiros
anos que lá cheguei. Aquilo que me excitava de participar de alguma
coisa nova, de instalar a pós-graduação, aquilo tudo
já tinha passado. Não tinha mais o que fazer e pessoalmente
tinha perdido um pouco do encanto.
Essa que era a verdade. Tive esse problema existencial, ficar em Ribeirão,
sob o aspecto de pesquisa, etc, não tinha problema nenhum, mas sob
o aspecto de desafios e coisas novas achei que eu tinha encerrado o meu
ciclo pessoal. E foi por isso que eu comecei a analisar convites. Conversei
com Oswaldo Ramos, pois me dava muito bem com o pessoal da área
clínica que fazia hipertensão, e eles estavam em São
Paulo e não em Ribeirão Preto. Nós organizávamos
em 83 um Congresso Internacional em Guarujá, eu era presidente lá
de Ribeirão mas toda a parte clínica era em São Paulo.
O meu amigo direto era sempre o Oswaldo Ramos, o grande líder aqui
da área clínica e que também tinha uma parte experimental.
Então conversando com o Oswaldo ele me disse: "escuta, vem pra cá".
O Oswaldo conseguiu na Escola Paulista, junto com o Magid Iunes, diretor
na época, a possibilidade de criar mais uma vaga para eu poder fazer
até concurso mas, ao mesmo tempo, o Marcelo Marcondes que era aqui
do Hospital das Clínicas, também dizia: "não, você
vai é para o Incor!" Eu havia
conversado com o Fúlvio que era o diretor naquela época e
o Fúlvio me mandou um recado: "venha para cá!". Foi o que
fiz, aposentei em Ribeirão e vim pra cá pra fazer hipertensão
no Incor. Foi realmente uma decisão que não foi fácil,
entre ir pra Escola Paulista com amigos, com gente competente, ser mais
um, ou vir pro InCor. Vim pro InCor, pois achei principalmente que o InCor
tinha uma enorme potencialidade e acho que não errei. Comecei interagindo
com o grupo do Marcelo Marcondes, da Nefro, e começamos a fazer
reuniões, etc, e a coisa começou a se desenvolver até
que um dia depois de 3 ou 4 anos o Fúlvio achou que eu deveria coordenar
também a área clínica,
que não estava nos meus planos. Eu vim para fazer a minha ciência
básica e colaborar com a área clínica, mas ele achou
que o entrosamento com a área clínicaestava
um pouco lento.Então, de repende, eu me vi com o maior desafio da
minha vida, que foi esse de coordenar uma Unidade dentro do Instituto do
Coração, tendo clínicos e área experimental.
Foi uma coisa fascinante! Prof.
Sebastião: Professor a vinda de Ribeirão pra cá
foi em que ano? Prof.
Krieger: 85 Prof.
Sebastião: 85? Prof.
Krieger: É, tá fazendo .... Para ser comunicado das novas edições ou de quaisquer modificações em Med On Line ou então, para opinar sobre as matérias desta edição, basta clicar aqui |