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Volume 1- Número 6- Ano I (Outl/Nov/Dez de 2000)

Prof. Sebastião: Aí o senhor voltou direto pra Ribeirão Preto? 

Prof. Krieger: Direto pra Ribeirão Preto! 

Prof. Sebastião: Quando lá chegou era uma escola nova inclusive... 

Prof. Krieger: Não, quando eu cheguei em 57, em Ribeirão Preto, estava-se formando a 1a turma. Foi aí que eu encontrei o César que já estava lá. A Faculdade tinha sido criada em 52 e eu cheguei em 57 quando estava se formando a 1a turma. 

Prof. Sebastião: A 1a turma? 

Prof. Krieger: 1a turma. E lá fiquei, né?. 

Prof. Sebastião: Já estava casado nos EUA? 

Prof. Krieger: Pois é, eu tinha recém-casado em Porto Alegre e nem casa eu tinha, fiquei até lá fazendo investimento pra comprar um apartamentinho pra, na volta, eu morar e tive que tomar a decisão nos Estados Unidos de voltar direto pra Ribeirão Preto! 

Prof. Sebastião: Quando o senhor casou era estudante ainda? 

Prof. Krieger: Não, não, já tinha me formado. Quer dizer, eu me casei imediatamente antes de ir pros Estados Unidos. Me formei em 53 e fui pros Estados Unidos em 56. Fiquei lá de 56 até fim de 57, quando voltei pra Ribeirão. 

Prof. Sebastião: Pra casar o senhor foi buscar aquela mocinha que deixou na cidade natal? (provocando) 

Prof. Krieger: Não, não, não!. O casamento foi muito interessante. O primo da minha mulher eera meu colega de turma e nós íamos a casa dele estudar e lá eu conheci a menina. Então foi na casa dela mesmo que eu conheci, através de um colega de turma com quem eu estudava. Foi essa história, quando eu resolvi casar foi com menina que eu já conhecia entendeu? 

Prof. Sebastião:Voltando a Ribeirão Preto e perguntando ao Professor César: como é que vocês se conheceram em Ribeirão? como foi essa história? 

Prof. César: Bom, nós ficamos amigos imediatamente porque, quando cheguei a Ribeirão Preto me perguntei, no mesmo dia quecheguei, o que é que eu vim fazer aqui? 

Prof. Sebastião: O senhor estava vindo de São Paulo? 

Prof. César: Vindo de São Paulo. Ribeirão tinha 120.000 habitantes e a cidade cheirava a BHC e cheirava querosene por causa dos fogões, né? Quando o Eduardo chegou eu fiquei com muita pena dele. O que é que ele veio fazer aqui??? Ele estava vindo dos Estados Unidos!! O que é que ele veio fazer aqui?? Bom, nós ficamos muito amigos e fizemos até alguma coisa em colaboração e, por incrível que pareça, só publicamos alguma coisa juntos este ano. Um livro de geriatria. A gente queria muito publicar alguma coisa, nunca publicamos.... 

Prof. Sebastião: Essa amizade tem uns 50 anos? 

Prof. César: 50 anos. Quase né?Quase 50 anos. Então eu fiquei com muita pena dele e eu o acolhi, ajudei em tudo que eu podia, mas como ele é muito independente, em três tempos ele está arrumado, dominando tudo. Como ele tem um senso político muito aguçado, em três tempos ele estava dominando a política da Faculdade. Eu me lembro muito bem que um dia nós íamos fazer uma eleição para escolher o representante da Comissão do Tempo Integral e ele disse:"não, espera aí, isso tem que ser discutido por todos"...deste dia em diante acabou a farra de escolher cargos pela beleza física, pela simpatia pessoal...graças a intervenção do Eduardo.Acho inclusive, que esse senso político extremamente aguçado o conduziu em Ribeirão Preto até o dia em que saiu de lá. Ele ajudou a montar a pós-graduação da Faculdade de Medicina com o Maurício Rocha e Silva, uma das melhores do Brasil. E nós fizemos muitos experimentos juntos e eu me lembro de que ele foi o primeiro da fisiologia que se doutorou, porque ele tinha planos de voltar pra Porto Alegre, lembra-se?Então ele se doutorou. 

Prof. Sebastião: Em Ribeirão? 

Prof. César: Em Ribeirão Preto. Ele foi o primeiro que doutorou na .. 

Prof. Krieger: Não,. fui o primeiro que fiz a docência livre e não o doutoramento. Alguns fizeram na minha frente, inclusive você. 

Prof. César: Não! Não!, não Eduardo. 

Prof. Krieger: Foi. 

Prof. César: Tem certeza? 

Prof. Krieger: Foi em 59 o meu doutoramento. 

Prof. César: Como é que você poderia ter feito livre-docência? 

Prof. Krieger: Depois, quando abriu a docência eu fui o primeiro a fazer, porque realmente queria apressar a livre-docência pra ir a Porto Alegre. Eu fiz em 62. 

Prof. César: Disso eu me lembro, mas eu achava que você tivesse feito o primeiro doutorado também. 

Prof. Krieger: Não. A docência-livre eu fui o primeiro a fazer. Em 62, porque estava um pouco dentro dessa idéia de voltar pra Porto Alegre. Poderia abrir o concurso na Faculdade Federal e eu ia concorrer porque o pessoal queria que eu voltasse pra completar a obra da fisiologia em Porto Alegre. 

Prof. César: Então eu me lembro que o Eduardo logo iniciou a linha de pesquisa que o acompanha até hoje, que é hipertensão experimental. E eu nunca fiz a você essa pergunta...vou aproveitar e faze-la agora: porque você decidiu fazer aquelas primeiras experiências de desnervação em Ribeirão? 

Prof. Krieger: Quando voltei dos Estados Unidos tive que escolher alguma coisa pra fazer. Vi que o grupo de neurofisiologia era muito forte em Ribeirão Preto e resolvi fazer coisas de cardiovascular ligado a neuro. Então fiz a minha tese de doutoramento estimulando hipotálamo em hipotermia. Estudei as reações todas cardiovasculares frente a hipotermia. 

Prof. Sebastião: Nesta época era como hoje: tese com orientador? 

Prof. Krieger: Naquela época não tinha orientador. A gente fazia tese no departamento. Era uma forma antiga de doutorado. A minha tese de doutorado foi estimulando o sistema nervoso central na hipotermia.Eu fui mostrar pra uns alunos que estavam lá, uns estagiários argentinos, como se estimulava os nervos, etc, o vago. Eu, então, cometi um erro de raciocínio. Eu ia demonstrar como o curare modificava uma resposta do vago. Chamei o pessoal, estimulei o vago.....e não encontrei nada!!Aí me acendeu uma luzinha... mas o que eu estou estimulando então? Fui olhar a preparação e vi que eu pegava o nervo vago na parte central e percebi que junto estava pegando um outro nervinho.Resolvi estudar esse nervinho isoladamente. Estimulei-o e foi uma beleza de queda de pressão! Aí dei com a história do depressor aórtico no rato e abri toda uma linha de presso-receptores. Caí nos presso-receptores por um erro de raciocínio. Descobri que o rato tinha o nervo depressor separado do vago, coisa que no cão, que eu sempre trabalhava não existia. Abriu-se o da uma linha que terminou na tese de docência livre onde descrevi os presso- receptores aórtico, carotídeo, a desnervação juntando com a hemodinâmica que eu conhecia bem, débito cardíaco, a curva de diluição etc...joguei então toda a minha tralha de conhecimento. O Braun Menendes estava interessado no que eu estava fazendo. Ele ia me visitar em Ribeirão Preto, mas, infelizmente faleceu em 59 num acidente de aviação. O falecimento do Braun Menendeztirou essa grande possibilidade que eu teria na vida de continuar uma colaboração importante no aspecto científico além é claro da importância do aspecto humano, acadêmico, pois ele era de uma enorme personalidade. Acabei ficando sozinho, desenvolvendo essas linhas já com independência. Quero chamar a atenção de que a escolha dessa parte neurogênica da pressão arterial foi influenciada pelo grupo de neurofisiologia, o César, o Covian, o Marceillan. Mais tarde, fui fazer os primeiros registros das atividades do presso no rato que também me deu uma linha de trabalho muito grande, mas tudo isso eu aprendi com o grupo de neurofisiologia, com o Marseillan. 

Prof. Sebastião: Professor nessa época era o Zeferino Vaz ... 

Prof. Krieger: Era. O diretor da faculdade. 

Prof. Sebastião: Como é era seu relacionamento e qual a opinião do senhor sobre o professor Zeferino Vaz? 

Prof. Krieger: Bom, é interessante depois de tantos anos a gente poder analisar. Quando se está vivendo os momentos, você pode ter distorções na avaliação das pessoas. O Zeferino, quando cheguei em Ribeirão Preto, já existia uma reação contra ele. porque ele já havia feito milagre de criar a faculdade, instalar a faculdade, convidar o pessoal, começava um movimento na Faculdade de querer ter vida própria, autonomia e a Congregação se instalar etc. Então os primeiros momentos com o Zeferino foram momentos assim de contra. Nós éramos um pouco contra o Zeferino, não pela obra dele. 

Prof. Sebastião: O que determinava essa ... 

Prof. Krieger: Ele era o grande criador, nós éramos a criatura. Então a criatura queria ter independência. Já estava a Faculdade instalada, já formando a 1aturma e já existia uma reação por parte de professores, dos assistentes de querer ter uma vida autonôma.Então, o Zeferino era quem tamponava; era um mandão de tudo. Agora, ninguém nega e eu acho que a medida que o tempo passa até dá mais serenidade pra gente fazer o julgamento que ele fez uma enorme obra. Basta pensar, o que ele poderia ter feito diferente e não fez. Eu sintetizaria a obra do Zeferino em Ribeirão Preto com este exemplo: ele conseguiu o apoio da classe médica de Ribeirão Preto pra instalar a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto sem convidar ninguém pra ser professor da faculdade. Ele convenceu a todos que seria uma Faculdade diferente, com característica de pesquisa, era um orgulho pra cidade mas tinha que trazer gente de fora, quer dizer, isto mostra a habilidade dele e a visão, a visão que ele tinha da importância da ciência, etc Isso era notável, tá certo? A visão que ele teve de uma Universidade em contacto com a Indústria ele fez depois em Campinas. Medicina ele fez em Ribeirão tanto que ele nunca deu muita atenção a Faculdade de Medicina de Campinas. 

Prof. Sebastião: Lá em Campinas ele deu outro enfoque. 

Prof. Krieger: Lá o enfoque era Universidade, a Universidade/Indústria. Ele era muito inteligente e sentia pra onde é que iam as coisas. Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto ele sentia que tinha chegado o momento da pesquisa, da valorização da bioquímica que na época era igamos assim, o charme. Quer dizer, a medicina tinha saído da fase anatômica e morfológica e tinha ido pra fisiológica e as técnicas de bioquímica estavam dando enormes avanços. Então, era isso que ele pregava lá em Ribeirão Preto, eletroforese e tudo isso e bioquímica. A minha avaliação é muito positiva, muito positiva, imagina se você repetisse Ribeirão Preto em outros lugares do Brasil com o homem duma visão dessas e uma habilidade política, não é? Habilidade de convencer uma cidade pra receber uma Faculdade de Medicina diferente etc, ele incendiava a imaginação do pessoal e obtinha apoio. 

Prof. César: Bom, você passou muitos anos em Ribeirão Preto, depois veio pra cá quatro anos depois de mim, né,.. 

Prof. Krieger: 85. 

Prof. César: Ah! Então um ano depois. Ah não, eu vim em 64, fiquei 11 anos só em Ribeirão Preto. É que me aposentei em 84 e você aposentou em 85 e o que que você esperava encontrar aqui, você tinha alguma esperança de montar este império que você montou? Porque você tem um império aqui no Instituto do Coração (SP), né? 

Prof. Sebastião: Tem ? (olhando para o Prof. César) 

Prof. César: Total. (confirmando) 

Prof. Krieger: Não, eu não sabia o que me esperava. Sabia que era um desafio que teria. Foi muito interessante pois no ano de 83-84 me dei conta de que, em 85, faria 30 anos de Universidade, distribuídos em 28 anos de Ribeirão Preto e 2 de Porto Alegre e que podia me aposentar.Aquilo começou a me preocupar do ponto de vista existencial. Eu estava muito bem em Ribeirão Preto, tinha já nesta época, praticamente metade de um corredor com uns 5 ou 6 laboratórios de fisiologia cardiovascular. Tinha um grupo tremendamente ativo, tinha conseguido da FINEP um mini-computador, que na época era novidade, com engenheiro e estávamos fazendo coisa de vanguarda. Então eu não tinha a mínima dúvida que, sob o aspecto de pesquisa, havia muita coisa pra fazer em Ribeirão.Mas eu não sentia mais em Ribeirão o desafio que sentia nos primeiros anos que lá cheguei. Aquilo que me excitava de participar de alguma coisa nova, de instalar a pós-graduação, aquilo tudo já tinha passado. Não tinha mais o que fazer e pessoalmente tinha perdido um pouco do encanto. Essa que era a verdade. Tive esse problema existencial, ficar em Ribeirão, sob o aspecto de pesquisa, etc, não tinha problema nenhum, mas sob o aspecto de desafios e coisas novas achei que eu tinha encerrado o meu ciclo pessoal. E foi por isso que eu comecei a analisar convites. Conversei com Oswaldo Ramos, pois me dava muito bem com o pessoal da área clínica que fazia hipertensão, e eles estavam em São Paulo e não em Ribeirão Preto. Nós organizávamos em 83 um Congresso Internacional em Guarujá, eu era presidente lá de Ribeirão mas toda a parte clínica era em São Paulo. O meu amigo direto era sempre o Oswaldo Ramos, o grande líder aqui da área clínica e que também tinha uma parte experimental. Então conversando com o Oswaldo ele me disse: "escuta, vem pra cá". O Oswaldo conseguiu na Escola Paulista, junto com o Magid Iunes, diretor na época, a possibilidade de criar mais uma vaga para eu poder fazer até concurso mas, ao mesmo tempo, o Marcelo Marcondes que era aqui do Hospital das Clínicas, também dizia: "não, você vai é para o Incor!" Eu havia conversado com o Fúlvio que era o diretor naquela época e o Fúlvio me mandou um recado: "venha para cá!". Foi o que fiz, aposentei em Ribeirão e vim pra cá pra fazer hipertensão no Incor. Foi realmente uma decisão que não foi fácil, entre ir pra Escola Paulista com amigos, com gente competente, ser mais um, ou vir pro InCor. Vim pro InCor, pois achei principalmente que o InCor tinha uma enorme potencialidade e acho que não errei. Comecei interagindo com o grupo do Marcelo Marcondes, da Nefro, e começamos a fazer reuniões, etc, e a coisa começou a se desenvolver até que um dia depois de 3 ou 4 anos o Fúlvio achou que eu deveria coordenar também a área clínica, que não estava nos meus planos. Eu vim para fazer a minha ciência básica e colaborar com a área clínica, mas ele achou que o entrosamento com a área clínicaestava um pouco lento.Então, de repende, eu me vi com o maior desafio da minha vida, que foi esse de coordenar uma Unidade dentro do Instituto do Coração, tendo clínicos e área experimental. Foi uma coisa fascinante! 

Prof. Sebastião: Professor a vinda de Ribeirão pra cá foi em que ano? 

Prof. Krieger: 85 

Prof. Sebastião: 85? 

Prof. Krieger: É, tá fazendo ....

CONTINUA

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