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CÁLCULO URINÁRIO E GRAVIDEZDoutor em Nefrologia pela
Universidade de São Paulo
Introdução Sintomas
decorrentes de cálculo renal constituem um evento raro na gravidez.Quando
ocorrem, entretanto, freqüentemente estão associados com infecção
do trato urinário (1) e podem induzir trabalho de parto prematuro
(2).Além disso, o diagnóstico
e o tratamento são mais complicados do que na população
não grávida, uma vez que as intervenções comumente
utilizadas nestes casos podem atingir o feto. Estima-se
que 1 em cada 1.500 gestações seja complicada por cálculos
renais (3,4), mas a incidência precisa é ainda desconhecida
porque a maioria das pacientes são identificadas apenas quando seus
cálculos se tornam sintomáticos.
Etiologia
As
alterações anatômicas e funcionais do trato urinário
impostas pela gravidez normal predisponhem à formação
de cálculo renal.A dilatação
dos ureteres e do sistema coletor se estabelece já no primeiro trimestre
e persiste até as primeiras semanas após o parto, sendo usualmente
maior à direita.Os rins aumentam
cerca de 1-1,5 cm em seu comprimento e a capacidade vesical se amplia significativamente.Também
ocorre diminuição na peristalse ureteral, presumivelmente
devido aos efeitos miorelaxantes da prostaglandina E2 e da progesterona
(5,6).A estase urinária subsequente
facilita o desenvolvimento de infecção, que propicia a formação
e o crescimento de cálculos.
A
excreção urinária de cálcio pode aumentar 1-2
vezes durante a gestação (7,10) e a supersaturação
– um reflexo da concentração e da solubilidade dos sais de
cálcio - também aumenta expressivamente na gravidez (7,11).A
hipercalciúria e a supersaturação deveriam, portanto,
aumentar o desenvolvimento de cálculo renal durante a gravidez entretanto,
a incidência de calculose não muda.A
proteção contra a formação e o crescimento
de cálculos pode ser mediada pelo aumento simultâneo na excreção
urinária de inibidores naturais, tais como magnésio e citrato.Também
a Nefrocalcina, uma glicoproteina ácida natural que inibe a formação
de cálculo de oxalato de cálcio, tem tanto sua excreção
quanto sua atividade aumentada significativamente durante a gravidez normal
(10,12).Em
síntese, nefrocalcina, citrato, magnésio e pH alcalino parecem
contrabalançar o estado hipercalciúrico supersaturado da
urina de uma grávida normal. Cálculos
de estruvita (fosfato-amoníaco-magnesiano) se formam apenas quando
o trato urinário está infectado com organismos que possuem
a enzima urease, como as espécies do
Proteus.Embora
os cálculos de estruvita possam se formar em sistemas coletores
completamente normais, as alterações anatômicas do
trato urinário na gravidez podem predispor à formação
de cálculo de estruvita, mas há poucos dados relativos à
sua real incidência durante a gravidez.
Diagnóstico
Cólica
renal é a causa mais comum de dor abdominal não obstétrica
que requer internação no curso da gravidez (13).Os
sinais e sintomas clínicos são semelhantes àqueles
observados em mulheres não-grávidas, quais sejam: dor lombar,
dor abdominal, náuseas, vômitos, disúria, polaciúria,
febre, piúria, cristalúria e hematúria. A
avaliação de mulheres grávidas com suspeita de cálculo
renal começa com a história clínica e o exame físico.Atenção
especial deve ser dada à idade de início da doença,
história familiar, dieta e medicações, infecções
urinárias prévias, resultados de radiografias abdominais
anteriores e outras complicações clínicas ou cirurgias
pregressas.Os
exames complementares são orientados pela história.Considerando-se
os altos custos de uma investigação completa, torna-se conveniente
individualizar o roteiro diagnóstico para cada paciente. A
ultrassonografia é o meio ideal para se iniciar a identificação
de cálculos renais durante a gravidez porque não expõe
o feto a radiação ionizante.Porém,
como a maioria dos cálculos sintomáticos está localizada
nos ureteres, há grandes limitações na sua visualização
pela ultrassonografia.Além
disso, a dilatação fisiológica do sistema coletor
que acompanha a gravidez normal confunde e dificulta a definição
da obstrução ureteral.Uma
radiografia simples de abdome aumenta significativamente a sensibilidade
diagnóstica da ultrassonografia. A
ressonância magnética nuclear não expõe o feto
a radiação ionizante e, por isso, tem sido crescentemente
utilizada para avaliar a anatomia tanto materna quanto fetal.Embora
com muitas vantagens teóricas, ainda existem poucos dados relativos
à sua utilização na exploração da calculose
renal na gravidez. A
urografia excretora durante a gravidez tem sua indicação
restrita às seguintes circunstâncias: a) sintomas de cálculo
não responsivos à terapêutica conservadora; b) diminuição
da função renal em associação com sintomas
de cálculo renal; c) pielonefrite sintomática e refratária
à antibioticoterapia, especialmente em grávidas com passado
de cálculos.Embora
seja oportuno lembrar que estudos radiológicos realmente necessários
para a adequada avaliação materna não devem deixar
de ser realizados por temor da exposição fetal à radiação
(especialmente na segunda metade da gravidez), convém radiografar
apenas o lado afetado, a pelve materna deve ser protegida e o número
de radiografias deve ser reduzido ao mínimo. A
passagem espontânea de um cálculo renal sintomático
traz alívio para a paciente e confirma o diagnóstico para
o médico.Cerca de 2/3 dos
cálculos sintomáticos durante a gravidez passam espontanemente,
mas o restante requer intervenção, seja ainda durante a gravidez
ou após o parto (19,20).A
dilatação ureteral fisiológica progressiva pode contribuir
para a elevada frequência de passagem espontânea de cálculos
durante a gravidez. A
calculose renal é diagnosticada mais frequentemente no segundo e
no terceiro trimestres (14) e em grávidas multíparas (15).A
maior incidência de cálculos sintomáticos no final
da gravidez pode se dever à reversão da dilatação
ureteral ao nível da impressão femural, habitual nesta
fase.A maior indicência em
multíparas poderia ser atribuída ao fato de que a calculose
renal aumenta com a idade, em ambos os sexos. Embora
o ureter direito fique usualmente mais dilatado do que o esquerdo na gravidez,
os cálculos sintomáticos ocorrem com igual frequência
em ambos os lados.
Curso
Natural
O
tratamento conservador resulta na passagem espontânea de pelo menos
60% dos cálculos sintomáticos durante a gravidez.Intervenções
cirúrgicas e não cirúrgicas são necessárias
em cerca de 30% das pacientes.Nos
10% restantes os procedimentos podem ser postergados e realizados após
o parto. Se
um cálculo não é expelido espontaneamente, o passo
seguinte é a cistoscopia para remove-lo ou desfazer a obstrução
com passagem de um cateter ureteral.Se
a cistoscopia não for possível, uma nefrostomia percutânea
ou um procedimento aberto estão indicados.Em
princípio, estes procedimentos devem ser realizados após
o parto, se possível.Indicações
específicas para intervenção durante a gravidez incluem:
a) infecção persistente a montante da obstrução;
b) dor intratável; c) cólica renal precipitando trabalho
de parto prematuro refratário à terapêutica; d) piora
da função renal com permanência da obstrução;
e) obstrução de um rim solitário. A
complicação não obstétrica mais comum de cálculo
renal durante a gravidez é a infecção do trato urinário,
que ocorre em até 20% das mulheres grávidas com cálculo
(16).Antibioticoterapia oral geralmente
é suficiente para tratar a infecção urinária
baixa, porém pielonefrite requer hospitalização com
administração de antibiótico sistêmico e possível
intervenção para reverter a eventual obstrução. Mulheres
com históra e cálculos recorrentes que estão considerando
a possibilidade de gravidez freqüentemente se aconselham antes da
concepção, ou no início da gestação,
sobre as influências recíprocas entre a calculose e a gravidez.Aparentemente,
nem a gravidade nem a atividade da doença se modifica com a gestação. Tratamento Repouso
no leito, hidratação e analgesia constituem as medidas iniciais
indicadas para grávidas com cálculos sintomáticos.Apenas
isto leva à passagem espontânea de pelo menos 50% dos cálculos
urinários durante a gestação.Meperidina
e morfina são analgésicos narcóticos úteis
para tratar a cólica renal e têm sido usadas também
durante a gravidez, embora atravessem a placenta rapidamente (17,18).Preparações
orais contendo codeína têm sido associadas com malformações
fetais e devem ser evitadas durante a gravidez (19)Os
anti-inflamatórios não-esteróides têm sido usados
com sucesso para tratar cólica renal em mulheres não grávidas,
mas devem ser evitados durante a gestação, particularmente
próximo ao termo, devidos ao risco de fechamento precoce do ductus
arteriosis. A
avaliação metabólica da calculose renal deve ser retardada
até pelo menos 3 meses após parto e lactação,
uma vez que as alterações no metabolismo do cálcio,
ácido úrico e outros ions urinários durante este período
produzem resultados bioquímicos transitórios na urina que
são clinicamente irrelevantes.A
avaliação inicial após o parto deve incluir a dosagem
de níveis séricos de cálcio, fosfato, ácido
úrico e creatinina; exame sumário (EAS) e cultura de urina;
e excreção urinária de 24 horas de cálcio,
fosfato, ácido úrico, creatinina, oxalato e citrato. Algumas
medicações usualmente prescritas para pacientes com calculose
renal têm efeitos colaterais considerados inaceitáveis para
uso durante a gestação.Os
tiazídicos aumentam a reabsorção tubular distal de
cálcio, reduzindo sua excreção urinária.Estas
drogas são comumente usadas para tratar estados hipercalciúricos
e, embora apresentem poucos efeitos colaterais fora da gestação,
têm sido associadas a trombocitopenia, hipoglicemia e hiponatremia
fetais (20). Inibidores
da xantina oxidase, usados no tratamento da calculose por ácido
úrico, paralisa o metabolismo da purina ao nível da hipoxantina,
diminuindo os níveis de ácido úrico tanto séricos
quanto urinários.Embora não
tenham sido observados efeitos em fetos de animais, os dados em seres humanos
ainda são escassos e não autorizam seu uso durante a gestação.Medidas
terapêuticas recomendadas para tratar cálculos de ácido
úrico na gravidez incluem aumento no volume urinário, limitação
de purina na dieta e alcalinização da urina para o nível
de pelo menos pH 6,0, usando preparações alcalinas de uso
oral. Cálculos
de cistina são habitualmente tratados com D-Penicilamina.Parte
de sua ação terapêutica se deve à formação
de pontes dissulfeto cistina-penicilamina, que é mais solúvel
do que as pontes cistina-cistina e, portanto, mais facilmente excretadas.Penicilamina
é teratogênica em ratos e há relatos de anormalidades
fetais em seres humanos (21).Devido
à possivel teratogenicidade da peniciliamina, o aumento do volume
urinário e a alcalinzação da urina constituem as alternativas
terapêuticas disponíveis. Ao
contrário da população não grávida,
bacteriúria assintomática durante a gestação,
particularmente se acompanhada de cálculos urinários, requer
tratamento efetivo baseado na cultura da urina e no antibiograma.Quando
os sintomas estão presentes, pode ser necessário tratamento
inicial empírico, em cujo caso ampicilina, sulfas (exceto no final
da gravidez), cefalosporina e nitrofurantoína constituem as opções
plausíveis e seguras.A duração
do tratamento deve ser superior ao tradicional período de 10-14
dias, uma vez que o cálculo representa um nidus de infecção
potencialmente resistente à esterilização; recomenda-se
3-5 semanas de tratamento ativo, seguido de quimioprofilaxia (por exemplo,
nitrofurantoína 100 mg à noite) pelo resto da gravidez. Ainda
há poucos relatos sobre os efeitos e os riscos da litotripsia em
mulheres grávidas, mas sua aplicação em animais de
experimentação têm demonstrado congestão e múltiplas
hemorragias focais em pulmão, fígado e rins de fetos expostos
(22,23).Por outro lado, o emprego
eventual da litotripsia em mulheres grávidas não tem sido
associado a malformações fetais (24,25).Até
o presente, entretanto, o uso de litotripsia durante a gravidez permanece
formalmente contraindicado, mas sua utilização inadvertida
não constitui razão suficiente para a interrupção
da gravidez. Sumário Embora
as alterações anatômicas e funcionais da gravidez normal
possam predispor à formação de cálculo urinário,
esta é uma ocorrência rara.O
diagnóstico correto é frequentmente difícil.A
ultrassonografia tem se tornado o principal recurso radiológico,
sendo a urografia excretora limitada apenas necessária em
casos complicados.Urolitíase
durante a gravidez ocorre mais frequentmente próximo ao termo, em
multíparas e sem diferença na lateralidade.O
tratamento conservador com repouso no leito, hidratação e
analgesia pode resultar em passagem espontânea da maioria dos cálculos.Cistoscopia
e/ou cirurgia podem ser feitas com segurança, se absolutamente necessárias.Calculose
pré-existente pode aumentar a incidência de infecção
do trato urinário materno em até 20% no curso da gravidez.A
complicação obstétrica mais comum produzida por cálculo
renal durante a gestação é o trabalho de parto induzido
pela cólica renal.A maioria
das drogas normalmente usadas para tratar calculose renal são contraindicadas
na gravidez.
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