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Volume 2 - Número 7 - Ano II (Jul/Ago/Set de 1999)

Propedêutica Localizatória nas Microhematúrias

Marcus Gomes Bastos(*)
DOUTOR EM NEFROLOGIA, CHEFE DO DEPARTAMENTO DE CLÍNICA MÉDICA E RESPONSÁVEL PELA DIVISÃO DE NEFROLOGIA, FAMED/HU – UFJF


Introdução
A hierarquização do Sistema de Saúde no Brasil tem imposto ao médico que trabalha em Unidades de Primeiro Nível de Saúde um papel fundamental no diagnóstico das doenças graves. Uma condição clínica cada vez mais encontrada nestas Unidades é a hematúria. O diagnóstico de uma causa determinada de hematúria fica facilitado quando o pacientes apresenta outros sinais e sintomas concomitantes. Contudo, quando isolada, a microhematúria se constitui num verdadeiro desafio diagnóstico. No processo de avaliação de uma causa específica nestes casos é primordial se estabelecer se a hematúria se origina do glomérulo ou pós-glomerular, posto que os exames confirmatórios são completamente diferentes nestas situações. A análise criteriosa de alguns parâmetros do exame de urina de rotina permite se estabelecer a origem da hematúria e facilita ao clínico decidir a quem encaminhar o paciente – ao nefrologista ou ao urologista.

 

A hematúria microscópica assintomática representa um desafio diagnóstico a nível de atencão primária de saúde. Na avaliação da microhematúria é fundamental obtermos uma história clínica detalhada, procedermos a um exame físico minuncioso e laçarmos mão de exames simples tais como urinálise, dosagem sérica do complemento, e outros mais invasivos, tais como cistoscopia, arteriografia e biópsia renal. Determinar a origem glomerular ou pós-glomerular do sangramento urinário é extremamente conveniente propedeuticamente, pois é a partir desta diferenciação que indicaremos exames complementares posteriores.

 Apresentação do Caso:
 

C.E.F., 23 anos, sexo masculino, natural de Bicas, procurou o Serviço de Nefrologia devido a hematúria constatada em E.A.S (ou urinálise) de rotina. O paciente nega passado de doença renal, bem como uso de medicamentos ou drogas proibidas. Não conhece casos de doença renal, diálise ou transplante renal na família. 
Exame Físico: P.A.= 120/80 mmHg. T.Ax= 36,70C. F.C.= 72 bpm. Orofaringe= ndn. Pele: ausência de lesões infectadas. Pulmões= limpos. Coração= ausência de soprologia. Abdome= sem visceromegalias, sopro ou hipersensibilidade costo-vertebral. Membros= sem edema ou marcas de veno-punção. Urinálise: densidade= 1.015. proteína= (-). Glicosúria= (-). Nitrito= (-). Sangue= (+++). Sedimentoscopia= 30 Hemácias/C.G.A. (populações de hemácias encontradas: discocitos, acantocitos, anulocitos, estomatocitos, esquizocitos e codocitos). Ausência de Leucocitúria e/ou cilindros hemáticos. Bioquímica: creatinina= 1,3mg/dl. K+= 3,8 meq/l. Proteínas totais= 7,1 g/dl (Albumina= 4,8g/dl). Colesterol total= 201 mg/dl. Testes de função hepática normais. Sorologia antiHBV e HCV (-). C3 e C4 normais; ASLO= normal. FAN (-). AntiDNA dupla hélice= negativo. Hemoglobina= 13,1 g/dl. Leucometria total= 8.000/mm3; plaquetas= 198.000/mm3. Ultrassonografia renal: rins de tamanho normais, córtico-medular mantida, sem sinais de obstrução ou de litíase

Hematúria é a eliminação de um número anormal de hemácias na urina. Sua freqüência é alta e dependendo do número de hemácias considerado normal, da técnica utilizada e idade da população estudada, apresenta uma prevalência de até 22%. A hematúria pode ser macroscópica quando o sangue é visto a olho nu ou microscópica quando as hemácias somente são visualizadas ao microscópio. A hematúria microscópica deve ser definida em termos quantitativos posto que um pequeno número de hemácias é continuamente excretado diariamente na urina de indivíduos normais. A quantificação da hematúria em campo de grande aumento (CGA) nos parece inadequada pois o limite de até 4 hemácias/CGA pode corresponder a 2.000 hemácias/ml (aceito como normal) até 100.000 hemácias/ml (considerado anormal). A nossa preferência é pela quantificação da hematúria por mililitro (ml) de urina, utilizando um microscópio com sistema de contraste de fase. Empregando esta técnica, Birch e colaboradores observaram a eliminação de até 13.000 hemácias/ml de urina não centrifugada; quando analisaram as urinas centrifugadas, o valor médio encontrado foi de 8.000 hemácias/ml, superior às 5.000 hemácias/ml de urina aceito como limite superior da normalidade adotado na maioria dos laboratórios de análises clínicas. Esta discrepância de valores possivelmente se deve ao reconhecimento, pela microscopia de contraste de fase, de hemácias de diferentes formas, tamanhos e conteúdo variável de hemoglobina, as quais são de difícil identificação quando se utiliza a microscopia ótica convencional.

A presença de hematúria pode anunciar patologias nefrológicas ou urológicas. Na tabela 1 estão listadas as principais causas de hematúria. A freqüência de uma causa específica de hematúria é variável e depende de vários parâmetros clínicos. No processo de determinação da causa da hematúria é fundamental estabelecermos se ela se origina ou não do glomerulo. Neste contexto, a urinálise é de fundamental importância, pois além de barata e não invasiva, ela pode ser repetida quantas vezes forem necessárias. Contudo, uma urinálise para ser bem feita necessita de um examinador treinado e motivado, razão pelo qual em nosso serviço, a urina é obrigatoriamente examinada pelo nefrologista, como parte do exame físico do paciente nefropata. Sempre que possível, orientamos o paciente a fazer uma restrição hídrica de aproximadamente 10 horas e esvaziar a bexiga ao acordar. Tal manobra garante que as hemácias sejam examinadas em urinas mais ácidas e concentradas, condições que melhor preservam os elementos celulares e cilindros eliminados. Aconselhamos evitar longos intervalos de tempo entre a coleta da urina e a sua análise. Para proceder ao estudo do sedimento urinário, centrifugamos 10 ml de urina por 5 minutos a 2.500 rpm. Após a centrifugação, desprezamos 9,5 ml do sobrenadante e, gentilmente, ressuspendemos o sedimento nos 0,5 ml de urina restante. Com o auxílio de uma pipeta, transferimos uma pequena amostra da urina ressuspendida para uma câmara de contagem do tipo Fuchs-Rosenthal. A urina assim acondicionada é então cuidadosamente e exaustivamente analisada em um microscópio com sistema de contraste de fase, que oferece melhor detalhamento dos vários estruturas eliminadas na urina. A microscopia de contraste de fase é hoje considerada o melhor método para analisar o sedimentoscopia e nos permite dispensar o uso de colorações especiais na urinálise. Um diagnóstico cada vez mais freqüente em pacientes com hematúria é o de síndrome de anormalidades urinárias (SAU) ou seja presença de hematúria e/ou proteinúria em pacientes com função renal e pressão arterial normais e ausência de doença sistêmica que sabidamente acometa os rins. Na tabela 2, são apresentados alguns parâmetros que podem facilmente ser utilizados pelo clínico que atende nas Unidades de Primeiro Nível de Saúde no processo de localização da hematúria. Assim, a presença de proteinúria (albuminúria) em quantidade superior 0,5 a 1,0 g/24 horas ou de microalbumoinúria (excreção de albumina urinária subclínica e anormal) superior a 30 e menor do 300 mg/dia ou superior a 20 e inferior a 200 (mg/minuto em urina de 12 horas) ou superior a 30 e inferior a 300 mg/mg de creatinina (em amostra urinária isolada), sugere uma origem glomerular para a hematúria. A observação de cilindros hemáticos, estruturas formadas no interior dos túbulos renais pelo aprisionamento de hemácias pela mucoproteína de Tamm-Horsfall em precipitação é altamente sugestivo de hematúria glomerular. Mais recentemente, observou-se que a presença de um percentual ³ 5% de hemácias que apresentam protusões citoplasmáticas vesiculiformes (denominadas de acantócitos ou células G1) são freqüentemente encontradas nos pacientes com glomerulonefrites. Outro aspecto da urinálise é análise da morfometria das hemácias urináris proposta por Birch e Fairley. Segundo os autores, quando a hematúria se origina do glomérulo, observa-se dismorfismo eritrocitário, ou seja, mais de quatro populações de hemácias de diferentes formas e tamanhos, enquanto nas hematúrias pós-glomerulares se observa 1 ou no máximo 3 populações de eritócitos (isomorfismo).

O caso em discussão trata-se de SAU por microhematúria em um adulto jovem do sexo masculino. Nesta situação, hipercalciúria e/ou hiperuricosúria com ou sem nefrolitíase ou uma forma de glomerulonefrite é o diagnóstico mais provável. Contudo, a presença de 6 populações de hemácias (dismorfismo eritrocitário) na sedimen-toscopia é altamente sugestivo de glomerulonefrite.
Os glomérulos podem ser envolvidos em doenças que se originam no rim (glomerulonefrite primária) ou como parte de doenças sistêmicas que acometem o rim secundariamente (glomerulonefrites secundárias). Em ambas as situações existem vários tipos morfológicos. Uma maneira simples para se diferenciar as glomerulonefrites baseia-se na dosagem sérica do complemento C3 (tabela 3). Níveis de C3 reduzidos acompanham glomerulonefrites tais como as que se associam com lupus eritematoso sistêmico, amigdalite, piodermite, crioglobulinemia, glome-rulonefrite membrano-prolifereativa, “shunt” ven-trículo-atrial e endocardite bacteriana,. Níveis de C3 normais são observados em doenças tais como nefropatia por depósito IgA (NxIgA), doença da membrana basal glomerular fina, doença de Alport, glomerulonefrite rapidamente progressiva, síndrome hemolítico-urêmica, púrpura trombocitopênica-trombótica, abscesso visceral, púrpura de Henoch-Schöenlein, granulomatose de Wagner, poliangeíte microscópica, vasculite de Shurg-Strauss e síndrome de Goodparture.
O paciente em discussão apresenta sorologias negativas para os vírus da hepatite B e C, HIV, crioglobulinemia, assim como FAN e antiDNA dupla-hélice negativos, o que favorece o diagnóstico de uma forma primária de glomerulonefrite. A presença de nível sérico de C3 normal associado com creatinina plasmática normal afasta a possibilidade de glomerulonefrite rapidamente progressiva. A ausência de história familiar de microhematúria e insuficiência renal diminuem a possibilidade de se tratar de doença da membrana basal glomerular fina e doença de Alport, respectivamente. Baseado nos dados clínicos apresentados, o diagnóstico mais provável para o caso é de NxIgA. Em casos semelhantes, poderíamos adotar duas condutas: uma de caráter expectativa, na qual seguiríamos o paciente com controles semestrais da pressão arterial, da função renal e urinálise, e outra mais invasiva, submetendo o paciente a biópsia renal percutânea. A biópsia renal é o padrão ouro para o diagnóstico definitivo das glomerulopatias e está indicada não só para estabelecer o diagnóstico, mas também na avaliação do prognóstico e auxiliar na decisão sobre o tratamento a ser utilizado.
Biópsia Renal

Figura1: Proliferação Mesangial observada à microscopia ótica

A biópsia renal percutânea evidenciou à microscopia ótica 35 glomérulos, com discreto grau de hipercelularidade mesangial, de caráter irregular. As alças capilares apresentavam-se conservadas e sem alterações. Em 5 glomérulos observou-se sinéquias do tufo glomerular à cápsula de Bowman, com crescentes fibro-celulares parciais. Os túbulos apresentavam-se com pequenos focos de atrofia, circundados por fibrose intersticial discreta. Vasos arteriais dentro da normalidade. 
A imunofluorescência revelou depósitos granulares, de distribuição difusa, localizados em mesângio, contendo IgA. Não se observou depósitos de outras imunoglobulinas, frações do complemento ou fibrinogênio. Os achados histológicos foram consistentes com o diagnóstico de NxIgA. A NxIgA é uma glomerulonefrite que se caracteriza, à imunofluorescência, pela deposição mesangial de IgA e diferentes graus de proliferação de células mesangiais, freqüentemente acompanhada de expansão da matriz mesangial. É a forma mais mais comum de glomerulonefrite em todo mundo. Ocorre em todos os grupos etários, com incidência máxima na segunda e terceira décadas de vida. É uma doença infrequüente em negros. A maioria dos estudos apontam para uma predominância no sexo masculino de pelo menos 2:1.
Vários estudos indicam que a NxIgA resulta da regulação alterada da produção ou da estrutura da IgA. Os depósitos imunes glomerulares em pacientes com NxIgA são formados pelo isotipo IgA1 que são anormalmente glicosilados. Esta glicosilação aberrante dificulta o clareamento dos imunocomplexos com IgA pelo sistema retículoendotelial, facilitando a deposição mesangial de IgA. Não é incomum o encontro de deposição mesangial concomitante de IgM e IgG. A observação de depósitos de C3 e ausência de C1 e C4, sugere uma ativação pela via alternativa da cascata do complemento. Como a NxIgA comumente cursa com níveis séricos de C3 normais, postula-se que a ativação do complemento se faça localmente no rim e não sistemicamente.
A apresentação clínica mais freqüente da NxIgA (50-60%) é na forma de macrohematúria recorrente, geralmente concomitante a infecções das vias aéreas ou do trato gastrointestinal. Cerca de 30% dos pacientes procurarão assistência médica devido a microhematúria associada ou não a proteinúria e em 10% a Nx IgA se apresentará na forma de síndrome nefrítico agudo ou síndrome nefrótico. Embora a maioria dos casos o prognóstico é muito bom, cerca de 20-40% dos pacientes evoluirão para insuficiência renal terminal em 5 a 20 anos. Os fatores de mau prognóstico são idade avançada, sexo masculino, hipertensão arterial de difícil controle, proteinúria maciça persistente, creatinina aumentada quando da apresentação e a presença de glomerulosclerose e/ou fibrose intesrsticial à biópsia renal.

Não existe nenhuma forma de tratamento específico para a NxIgA. Nos casos menos graves, o tratamento é apenas sintomático. É importante mantermos a pressão arterial dentro dos limites da normalidade. Nos casos graves em que o paciente se apresenta com proteinúria maciça e diminuição da filtração glomerular, tem sido preconizado o uso de altas doses de corticóide associado ou não a um agente alkilante ou óleo de peixe. 

Evolução

Após 12 meses da biópsia renal, o paciente mantinha a creatinina plasmática dentro dos limites da normalidade, encontrava-se com a pressão arterial discretamente elevada e os rins encontravam-se de aspecto normais a ultrassonografia. À sedimentoscopia, persistia com microhematúria. Contudo, a pesquisa qualitativa de proteinúria mostrou-se positiva 4+, cuja quantificação foi de 2,5 g/24 horas.

Decidiu-se então instituir tratamento antihipertensivo com um inibidor da enzima da conversão da angiotensina (IECA), grupo de drogas de escolha pois são eficazes no controle da pressão arterial, reduzem a proteinúria (restabelecem a permeseletividada da barreira de filtração glomerular) e diminuem a velocidade de perda da função renal.

No último controle clínico, 12 meses após o início do IECA, embora o paciente persistisse com microhematúria, sua pressão arterial estava controlada, a creatinina plasmática mantinha-se nos limites da normalidade e apresntava uma redução importante da proteinúria (330 mg/dia), valor próximo do normal.

COMENTÁRIOS FINAIS

O caso apresentado ilustra como deveríamos proceder diante de um paciente com microhematúria. Nestas situações, é fundamental estabelecermos a origem da hematúria se quisermos poupar os pacientes de exames desnecessários e as vezes invasivos. A urinálise, se bem feita, é decisiva e fornecerá ao clínico envolvido com atenção primária em saúde a informação necessária para um encaminhamento adequado ao nefrologista ou ao urologista

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(*)  DEPARTAMENTO DE CLÍNICA MÉDICA DA FACULADDE DE MEDICINA E DIVISÃO DE NEFROLOGIA, FAMED/HU - UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA;

CORRESPONDÊNCIA: DIVISÃO DE NEFROLOGIA, RUA TIRADENTES, N0. 75, BAIRRO SANTA HELENA CEP: 36.015-360), JUIZ DE FORA (MG) E-mail: marcusgb@zaz.com.br



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