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Volume 2 - Número 6 - Ano II (Abr/Mai/Jun de 1999)

Hipertensão em Debate:
O Que Está Rolando Por aí Afora ?

Istênio Fernandes Pascoal
Doutor em Nefrologia pelaFMUSP 
Pós-Doutorado pela Universidade de Chicago, EUA
Nefrologista Clínico, Brasilia-DF


A hipertensão arterial é uma doença altamente prevalente e de grande impacto na morbi-mortalidade cardiovascular. Porém, embora facilmente diagnosticável, seu caráter pouco sintomático limita enormemente a identificação e a continuidade do seu tratamento. Por exemplo, na população norte-americana cerca de 30% dos portadores de hipertensão não sabem que o são, 50% não estão se tratando e 70% não estão adequadamente controlados.

Não obstante esse flagrante descompasso, a evolução no conhecimento da fisiopatologia da hipertensão tem proporcionado uma melhor compreensão dos mecanismos que desencadeiam seu aparecimento, bem como suas repercussões anátomo-funcionais. Novas interpretações fisiopatogênicas têm permitido, também, racionalizar melhor a investigação de suas causas e propor bases terapêuticas mais eficazes. Esses avanços são preliminarmente apresentados e discutidos em congressos e seminários da especialidade, para só depois ser publicados em revistas e jornais afins e, então, se incorporar à bibliografia da doença.

Os congressos, além de possibilitarem manifestações científicas em suas variadas formas e expressões, constituem uma oportunidade singular para revisões críticas de condutas e procedimentos e para debates instigantes e fecundos. Além disso, ensejam o desenvolvimento de relações pessoais e colaborativas entre os participantes.

A American Heart Association criou o Council for High Blood Pressure Research, que reúne, em suas sessões científicas anuais, pesquisadores na área da hipertensão há mais de 50 anos. Este é um evento pequeno, com cerca de 500-600 membros, e seu caráter estritamente científico motivou a criação de uma outra entidade americana, mais abrangente e com características predominantemente clínicas: assim nasceu a American Society of Hypertension (ASH), em 1985. Três anos antes, havia sido fundada a European Society of Hypertension (ESH), com características assemelhadas.

John Laragh, Professor na Cornell University, foi o mentor-fundador da ASH, cujos congressos anuais se realizam quase sempre em Nova York, sua cidade. Alberto Zanchetti, Professor da Universidade de Milão, foi o mentor-fundador da ESH, cujos congressos, agora também anuais, se realizam quase sempre em Milão, sua cidade. São duas lideranças marcantes, destacadas e ainda ativas cientificamente, que compartilham o carisma e a relativa intocabilidade na regência de suas respectivas sociedades.

Os congressos da ASH e da ESH, embora rivalizem entre si, inclusive na data (ocorrem com intervalo de 2-3 semanas entre maio e junho), se diferenciam muito em sua estrutura. No ASH, existe uma distribuição proporcionada entre as atividades formais (conferências plenárias, mesas-redondas, debates clínicos e mini-conferências) e a apresentação de trabalhos originais (comunicação oral e posters). No congresso da ESH, a apresentação de trabalhos originais predomina amplamente sobre as reuniões plenárias. Mais do que espelhar a personalidade ou a vontade dos seus respectivos mentores (John Laragh e Alberto Zanchetti, que são convidados recíprocos), o formato de cada evento parece refletir a tradição, o estilo e a índole do respectivo continente: a Europa exibe o caráter pensante de suas universidades milenares ou multicentenárias, enquanto os Estados Unidos expõem uma perspectiva balanceada entre a produção científica, a prática clínica e a inserção tecnológica entre elas.

Uma súmula de alguns debates dos últimos eventos (ASH:18-22/05e ESH: 11-15/06) dá uma idéia das preocupações correntes na área de hipertensão.

Em "Quem oferece melhor proteção ao rim: o controle pressórico ou a inibição da
ECA ?", essa questão antiga, mas ainda polêmica, foi intensamente debatida. No final, (quase) o consenso de que, na presença de lesão renal, se o controle pressórico ideal (PA <125x75 mmHg) for alcançado, não importa a classe de anti-hipertensivos utilizada. Entretanto, se a pressão arterial ficar acima desses valores - o que é o caso, na maioria das vezes - a inibicão farmacológica da ECA deve ser preferida, senão obrigatória, por seu efeito nefroprotetor intrínseco.

Na sequência, a pergunta: "Os antagonistas da Angiotensina-II devem substituir os inibidores da ECA ?". O bloqueio mais eficaz da atividade do SRA-A e a superior tolerabilidade prenunciam a substituição gradual dos inibidores da ECA pelos antagonistas da A-II no tratamento da hipertensão arterial e de suas repercussões cardíacas e renais. A essa possibilidade ou tendência, ainda se contrapõe a escassês de trabalhos clínicos consistentes que confirmem a impressão (generalizada) de que os efeitos farmacológicos, hemodinâmicos e clínicos dos antagonistas da A-II são, pelo menos, equivalentes aos dos inibidores da ECA. O uso combinado de inibidores da ECA e antagonistas da A-II, preconizada por alguns em situações especiais, também ainda aguarda melhor avaliação.

A recorrente controvérsia se "O sal deve ser restrito ou liberado na dieta do hipertenso ?" sempre traz emoção e acende algumas labaredas. De um lado, a noção de irracionalidade em se universalizar uma medida que apenas reduz alguns poucos mmHg de alguns poucos pacientes (sal-sensíveis, com hipertensão moderada a grave), ao preço de se elevar o risco teórico de ativação do SRA-A e de suas possíveis consequências mórbidas. Do outro lado, a compreensão da desnecessidade biológica da quantidade de sal habitualmente ingerida, aliada às evidências de que sua restrição dietética efetivamente reduz hipertrofia ventricular e ainda atua, permissivamente, no efeito de outras drogas anti-hipertensivas. Nas entrelinhas do debate, a questão do interesse da indústria alimentícia e de bebidas no (atual) alto teor de sal como conservante de alimentos.

Um instigante debate questionou se "Diuréticos devem ser mantidos ou não como droga preferencial no tratamento inicial da hipertensão não-complicada ?", contrapondo argumentos enfáticos e, às vezes, radicais. A favor, vários estudos, apropriadamente elaborados, demonstrando efetiva proteção cardiovascular a longo prazo com o uso de diuréticos, em contraste com a relativa ausência de dados comparáveis com outras classes de anti-hipertensivos. Na direção oposta, a (já) extensa experiência clínica com outros agentes anti-hipertensivos igualmente (ou mais) eficazes na redução da pressão arterial e igualmente (ou melhor) tolerados do que os diuréticos. Entretanto, ainda permanece incógnita a perspectiva de os inibidores da ECA e/ou bloqueadores de cálcio voltarem a figurar na lista de opções preferenciais no próximo JNC.

Verdadeira altercação ocorreu na abordagem do "Impacto de guidelines no tratamento da hipertensão (JNC e WHO-ISH)". Na defesa da validade desses documentos, a percepção de que eles constituem recomendações que pretendem, simplesmente, auxiliar o clínico a tratar e acompanhar mais racionalmente seus pacientes; para tanto, precisam ser consultados e adaptados, não concebidos como bíblias a serem seguidas dogmaticamente. Na contramão, a observação de que, pelo menos nos Estados Unidos, não houve crescimento nos índices de detecção, tratamento e controle da PA nos últimos 10 anos, a despeito da elaboração e divulgação dos dois últimos JNCs. Além disso, a potencial restrição à liberdade clínica do médico-assistente, a partir da leitura rígida e inflexível que algumas empresas americanas de seguro-saúde fazem destas orientações, representa uma preocupação crescente mesmo entre os subscritores do JNC.

Por fim, um debate emergente na comunidade científica: "O que devemos fazer com a medicina baseada em evidências: segui-la ou ignorá-la ?" Na defesa, a convicção de que, para ditar normas e regras na medicina de hoje, interessam apenas dados adequadamente estudados e avaliados. Na resistência, a crítica à subordinação automática a um recurso essencialmente estatístico, em geral realizado por quem não está no front e, por isso, não tempera as peculiaridades do atendimento médico que desafiam uniformizações de condutas.

Perifericamente, se acomodam os simpósios satélites que viabilizam os eventos. São praticamente semelhantes nos dois congressos, refletindo o momentum da pesquisa aplicada à terapêutica. Destaque atual para novas drogas anti-hipertensivas com múltiplos mecanismos de ação (inibidores de vasopeptidases), que poderão ampliar e aprimorar nossas possibilidades de intervencão clínica.

Assim, a despeito das aparências, antes de competirem entre si os congressos da ASH e da ESH se complementam em novidades e atualizações, impressão que se respalda na constatação de que cerca de 30% da audiência frequenta ambos os eventos.

Entre 5 e 8 de agosto próximo, a Sociedade Brasileira de Hipertensão realiza seu VIII congresso anual, em Belo Horizonte. É a oportunidade de sabermos, agora, "o que está rolando por aqui".