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Volume 2 - Número 6 - Ano II (Abr/Mai/Jun de 1999)

Excreção do citrato e oxalato urinários das crianças com diagnóstico prévio de hipercalciúria idiopática.

Profa Dra. Maria Alice Puga Rebelo
Professora Adjunto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
Doutora em Nefrologia pela Escola Paulista de Medicina SP
Dra. Maria Estela Rocha de Mello
Mestra em Nefrologia. Serviço de Pediatria do HUPE- FCM-UERJ


1 - INTRODUÇÃO

A hipercalciúria idiopática é uma desordem metabólica freqüente em crianças e adolescentes, que se caracteriza por hiperexcreção de cálcio urinário e normocalcemia. Sua importância advém de sua associação hematúria macro e microscópica, dor abdominal, disúria, polaciúria, litíase renal e desmineralização óssea na infância (2,3,10). 

O mecanismo pelo qual a hipercalciúria sem litíase renal provoca sangramento ainda não está bem estabelecido e a causa mais provável parece ser a cristalúria ou, então, a formação de pequenos cálculos indetectáveis radiologicamente que promoveriam um dano no epitélio tubular. Outros possíveis mecanismos seriam a inflamação intersticial e áreas microscópicas de nefrocalcinose (8,9) 

Aceita-se que a formação de cálculo resulta do desequilíbrio entre as forças promotoras e inibidoras do crescimento e da agregação dos cristais de sais urinários supersaturantes, como o oxalato de cálcio. O citrato urinário é muito útil na manutenção do equilíbrio dessas forças, não apenas diminuindo a saturação para o oxalato de cálcio, como também, inibindo a agregação de cristais formados. 

São poucos os estudos sobre o conteúdo de citrato e de oxalato urinários, nessa população, qual seja, a de crianças que, em algum período de seu desenvolvimento, apresentaram hematúria por hipercalciúria idiopática. 

O objetivo deste trabalho foi avaliar a excreção do citrato e oxalato urinários das crianças com diagnóstico prévio de hipercalciúria idiopática.

2 - CASUÍSTICA, MATERIAL E MÉTODO

CASUÍSTICA:

Foram selecionadas para o estudo crianças que procuraram o ambulatório de nefropediatria, no período de 1990 a 1995, com queixa de hematúria macro ou microscópica que, após terem sido afastadas outras causas, foram diagnosticadas como tendo hematúria por hipercalciúria idiopática. 

MATERIAL E MÉTODO

Crianças consideradas saudáveis através de anamnese e exame físico constituíram o grupo controle. 

Pacientes e controles foram convocados para anamnese e exame físico e instruídos a coletar urina de 24h para dosagem de oxalato, citrato, cálcio, creatinina e medida do pH. 

Métodos de Laboratório de Dosagens Urinárias:

Citrato: método enzimático da citrato liase (74). Oxalato : método enzimático colorimétrico (Kit: Código 591- SIGMA). Cálcio e Creatinina por métodos de rotina. O pH da urina de 24 horas foi aferido em aparelho de peagâmetro. 

Os resultados de concentração foram transformados para sua excreção de 24h, mg/dia e, então, fatorados pela creatinina de 24 horas da mesma coleta.

Análise Estatística

Os resultados bioqímicos foram expressados como valor mínimo e valor máximo de excreção, tendo a mediana como medida do valor central, dada a variabilidade dos mesmos. A análise estatística não-paramétrica obedeceu aos seguintes testes:

  • Mann-Whitney na comparação de valores provenientes de dois grupos independentes;
  • Kruskal-Wallis na comparação de valores de mais de dois grupos.
  • correlação de Spearman na análise de associação entre duas variáveis.
A significância estatística foi estabelecida quando p < 0,05, em teste bi-caudal.

3 – RESULTADOS

Atenderam à convocação para essa fase do estudo, 31 crianças com diagnóstico prévio de hipercalciúria idiopática, 14 meninas e 17 meninos, com idade entre 3 e 15 (média ± DP: 10 ± 3) anos e peso corporal entre 17 e 64 (35 ± 13) Kg. O grupo controle foi de 14 crianças, sendo 7 do sexo feminino, com idade entre 3 e 16 anos (8 ± 4,5) anos e peso corporal entre 17 e 80 kg (34 ± 18 Kg). Os grupos paciente e controle não diferiram estatisticamente quanto à idade e ao peso corporal . 

As crianças portadoras de hipercalciúria idiopática (Paciente) apresentaram uma excreção de citrato entre 65 e 614 (mediana: 164) mg/24h e relação citrato/creatinina (cit/cr) de 0,09 a 1,22 (mediana: 0,28) mg/mg.

A excreção urinária de oxalato ficou entre 4,3 e 48 (mediana: 18) mg/24h. Isto representou uma relação oxalato/cr entre 0,008 a 1,4; mediana: 0,03 mg/mg). 

Em comparação com o grupo controle, o grupo de pacientes excretou significantemente menos citrato (grupo controle: 268 mg/24h; cit/cr: 0,45 mg/mg); p<0,05 vs paciente). 

Não houve diferença significante ente paciente e controles quanto a excreção do oxalato. 

TABELA 1: valores urinários em Pacientes e Controles
 
 
 
URINA (u) Paciente ª Controle
Citrato, mg/dia 65 – 614 (164) 105 – 604 (268) * 
Cit/cr, mg/mg 0,09 – 1,2 (0,28) 0,10 – 1,4 (0,45) *
Oxalato, mg/dia 4 – 48 (18) 6,4 – 48 (18)
Ox/cr, mg/mg 0,01 – 1,43 (0,03) 0,01 – 0,045 (0,03)
Ca, mg/dia 35 – 285 (89) 10 – 333 (93)
Ca/cr, mg/mg 0,04 – 0,97 (0,17) 0,01 - 0,43 (0,14)
Ca, mg/kg 1,3 – 8,5 (2,5) 0,43 - 8,0 (2,6)
pH (u 24h) 5,7 – 6,9 (6,2) 5.7 - 7,3 (6.3) 
ª Valor mínimo – valor máximo ( mediana); * p<0,05 vs paciente.

Entre a fase de diagnóstico de hipercalciúria idiopática e o estudo atual, houve um intervalo de tempo de 0 a 92 meses, de modo que 18 pacientes já haviam sido tratados com hidroclorotiazida, na maioria das vezes por um curto período de tempo, de tal sorte que a droga já havia sido suspensa por um período variável de 1 a 49 (18 ± 15) meses antes da coleta de urina do presente estudo.

De modo que, nesta fase de avaliação, pacientes e controles não diferiram significantemente na excreção urinária do cálcio. Tabela 1

No grupo de pacientes a citratúria não foi influenciada pelo sexo, 162 vs 164 mg/24h(ou 0,36 vs 0,26 mg cit/mg cr) para meninas e meninos, respectivamente. Também, não houve diferença significante na excreção urinária do oxalato: 16,5 vs 20 (Ox/Cr: 0,03 vs 0,03 mg/mg), entre meninas vs meninos, respectivamente. Tabela 2.

Normatizando os resultados para o sexo, ambos os grupos de paciente (meninas e meninos) excretaram significantemente menos citrato ou cit/cr do que os seus respectivos controles. Tabela 2

A excreção urinária de oxalato não diferiu, bem como a de cálcio.
 
 

TABELA 2: Medianas das Excreções urinárias distribuidas de acordo com o sexo, em pacientes e controles
 
Grupos à PACIENTE MENINAS ª PACIENTE MENINOS CONTROLE MENINAS CONTROLE MENINOS
Citrato,mg/24h
162
164
236 *
270
Cit/cr,mg/mg
0,36
0,26
0,45 * 
0,33*
Oxalato,mg/24h
16,5
20
19
17
Ox/cr,mg/mg
0,03
0,03
0,04
0,02

* p < 0,05 vs grupo do mesmo sexo (Mann-Whitney).

A citratúria associou-se de maneira positiva e significante com a calciúria (p < 0,01)

Os subgrupos de crianças com hipercalciúria idiopática, separadas de acordo com o fato de já terem tido, ou não, cálculo(s) formado(s) apresentaram semelhantes excreções urinárias, porém a citratúria foi significantemente menor que no grupo controle ( Kruskal-Wallis; p = 0,045).

4 - DISCUSSÃO

A hipercalciúria idiopática é a desordem metabólica mais comumente associada à litíase tanto em adultos quanto em crianças e é, freqüentemente, encontrada durante a investigação das crianças com hematúria, representando a maior causa de presença de hemácias, sem cálculo detectável. ( 6,11) 

Sabe-se que a presença do citrato na urina é benéfica por seu efeito quelante de cálcio, reduzindo a precipitação de sais de cálcio. 

No presente estudo, observamos que o nível de citrato urinário dos pacientes com diagnóstico prévio de hipercalciúria idiopática foi significativamente menor do que o do grupo controle. 

É importante frizar que durante este estudo, várias crianças estavam em aparente remissão da hipercalciúria; elas também apresentaram uma excreção de oxalato indistinguível das crianças normais. Os subgrupos de hipercalciúrica, sem litíase e com litíase diferiam entre si, apenas quanto ao tempo de doença (4) não diferiram quanto aos elementos avaliados, mas ambos subgrupos excretaram menos citrato do que o controle. É válido, portanto, se admitir que um persistente déficit de citrato deve ter contribuído para a formação de cálculo. 

São poucos os estudos da citratúria nessa faixa etária e os resultados tem apresentado conclusões variadas. 

Nossos resultados estão de acordo com os de Perrone, Toporovski et Schor (7), e Akçay, Konukoglu et Celik (1) que mostraram hipocitratúria nos pacientes com hipercalciúria idiopática com litíase renal , e diferem dos de Miller et Stapleton que encontraram citratúria normal tanto na hipercalciúria idiopática como na litíase cálcica idiopática na infância (5). Quanto a oxalúria normal existe concordância entre os autores. 

Pelo pequeno número de crianças saudáveis avaliadas ainda não é possível indicar com precisão o valor da citratúria abaixo do qual se assinala a deficiência; os resultados comparativos apontam que os sais alcalinos de citrato devem ter indicação na terapia das crianças com hipercalciúria idiopática. 

6 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 

1: Akçay T, Konukoglu, Celik C. Hypocitraturia in patients with urolithiasis. Archives of Disease in Childhood 1996; 74:350-351.

2: Alon U, Warady BA, Hellerstein S. Hypercalciuria in the frequency-dysuria syndrome of childhood. J Pediatr 1990; 116: 103-105.

3: Garcia CD, Miller LA, Stapleton FB. Natural history of hematuria associated with hypercalciuria in children. Am J Dis Child 1991;145: 1204-1207.

4: Mello MER. Hematúria por Hipercalciúria na Infância. Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Médicas/ UERJ, Rio de Janeiro, 1997. 

5: Miller LA, Stapleton FB. Urinary citrate excretion in children with hypercalciuria. J Pediatr 1985; 107(2): 263-266.

6: Perrone HC, Ajzen H, Toporovski J, Schor N. Metabolic disturbance as a cause of recurrent hematuria in children. Kidney Inter 1991; 39: 707-710.

7: Perrone HC, Toporovski, Schor N. Urinary inhibitors of crystallization in hypercalciuric children with hematuria and nephrolithiasis. Pediatr Nephrol 1996; 10(4): 435-437.

8: Reusz G, Szabó A. Hypercalciuria and postglomerular hematuria in children.The effects of thiazide on calcium excretion, urine saturation with respect to calcium-hydrogenphosphate and hematuria. Acta Paediatr Hung 1990; 30: 63-71.

9: Rizzoni G, Braggio F, Zacchello G. Evaluation of glomerular and nonglomerular hematuria by phase contrast microscopy. J Pediatr 1983; 103: 370-374.

10: Roy III S, Stapleton FB, Noe HN, Jerkins G. Hematuria preceding renal calculus formation in children with hypercalciuria. J Pediatr 1981; 99(5): 712-715.

11: Stapleton FB, Roy III S, Noe HN, Jerkins G. Hypercalciuria in children with hematuria. New Engl J Med 1984; 310: 1345-1348.