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Volume 1- Número 6- Ano I (Outl/Nov/Dez de 2000)
 

IV Congresso Mineiro de Nefrologia

Juíz de Fora, MG
3 a 6 junho de 1999

Infecção do Trato Urinário

José Maria Penido Silva
Professor Assistente do Departamento de Pediatra UFMG
Coordenador da Unidade de Nefrologia Pediátrica do PED e do HC-UFMG
Coordenador da Residência de Nefrologia do HC-UFMG
Coordenador Médico do Centro de Diálise do HC_UFMG

Define-se infecção urinária como a situação em que são encontradas bactérias multiplicando-se ativamente no trato urinário , causando ou não manifestações clínicas de forma aguda ou crônica. Inicialmente o acometimento pode ser discreto ou assintomático , ou grave com apresentação de forma séptica sendo que principalmente nas crianças mais novas existe o risco de óbito. A premissa na infecção urinária é que ela pode levar à lesão do parênquima renal com consequente perda de função e evoluir para hipertensão arterial e IRC terminal. Os estudos da NAPRTCS DE 1996 mostram que até 6 anos de idade as principais causas de evolução para IRCT são as uropatias obstrutivas e as displasias renais sendo que após os 6 anos e na adolescência a nefropatia do refluxo representa em torno de 12% de causas de falência de função renal.

Alguns fatores estão bem definidos como de risco para o aparecimento de cicatrizes no parênquima renal e retardo ou inibição do crescimento renal. São eles: infecção urinária antes de 1 ano de vida; atraso no início do tratamento, sendo que , a demora de 3 a 5 dias para a intituição da medicaçào é fator de grande risco; a presença de refluxo vésico ureteral com dilatação do trato urinário superior e também a presença de refluxo intra renal. 

Existe um risco acumulado estimado de ocorrência de ITU de 3% nas meninas e de 1,1% nos meninos até a idade de 11 anos. A recidiva da ITU nas meninas é de 30% no 1º ano e de 50% até 5 anos após o diagnóstico, nos meninos é de 15% a 20% no 1º ano sendo rara após este período. As manifestações clínicas no período neonatal são predominantemente de acometimento generalizado como sépsis , nos lactentes as manifestações são inespecíficas tendo a febre como o principal sinal de alerta. Nas crianças maiores a sintomatologia se torna mais espefícica e nos adolescentes é comum a ocorrência de disúria e polaciúria. Como agente etiológico as enterobactérias são os principais agentes com predomínio da E. coli (90%), nos adolescentes o estafilococo tem incidência em torno de 30%. Nos recém nascidos a flora patogênica tem mudado com as respectivas mudanças no atendimento ao RN. As unidades de RN com caracteristicas de CTI levaram à uma redução das enterobactérias e a um aumento dos estafilococos e fungos (candida) como agentes causais. As bactérias fimbriadas têm maior agressividade estando presentes em 76-94% das pielonefrites. Nos RN a via de acesso é predominantemente a hematogênica diferentemente das outras faixas etárias onde a via de acesso é a ascendente. As obstruções do trato, tanto as anatômicas como as funcionais, são importantes fatores predisponentes para a infecção.

O RVU está associado com as ITU e com as cicatrizes renais. Com as avaliações ultrassonográficas intra-útero tem-se observado que aquelas crianças com alterações antes do nascimento, geralmente do sexo masculino, apresentam nos estudos sequenciais um acometimento muito mais grave dos rins diferentemente daquelas cujo diagnóstico do refluxo é feito após um episódio de ITU, onde as cicatrizes são em geral localizadas e com melhor preservação do parênquima. Quanto maior for o grau do refluxo maior é a frequência de cicatrizes.

Deve-se ter extremo cuidado na coleta de urina para o exame pois sua contaminação é fácil de ocorrer. O diagnóstico de ITU é clínico e laboratorial sendo necessário muito rigor, caso contrário podemos submeter uma criança a procedimentos terapêuticos e propedêuticos agressivos e desnecessários. A definição diagnóstica é dada pela cultura com mais de 100.000 UFC de um único germe. O tratamento implica em abordagem da sintomatologia e uso de antiboticos dando-se preferência aos não nefrotóxicos e administrados por via oral. Neste grupos encontram-se a associação Sulfametoxazol+trimetoprim, a Nitrofurantoina e as cefalosporinas. Nos RN a medicação segue os parâmetros de tratamento de sépsis no RN. Segue-se imediatamente após o término (7-14 dias) a quimioprofilaxia com nitrofurantoina ou SMZ+TMP em doses únicas diárias, sendo que nos recém nascidos até os 2 meses usa-se as cefalosporinas de 1ª geração.

Devido a alta incidência de alterações anatômicas e funcionais associadas com ITU (20-60%) é necessário que toda criança com este diagnóstico seja avaliada com imagens do trato urinário e seguidas a longo prazo. Crianças de até 2 anos de idade, de qualquer sexo, em seu primeiro surto de ITU devem ser submetidas a estudo por ultra-som para avaliação de todo o trato urinário tendo-se atenção além dos rins, com detalhamento do parênquima, para o acompanhando do esvaziamento dos ureteres, o enchimento vesical, a contração da bexiga, avaliando-se o volume pré e pós miccional. Após controle da infecção faz-se a uretrocistografia miccional. Nas crianças maiores o estudo ultrassonográfico pode ser suficiente para definição das condições do trato urinário. Entretanto nas crianças com recidivas de ITU de qualquer idade ou sexo estes dois exames são imprecindíveis e dependendo dos achados será necessário um estudo mais detalhado contando-se com os exames de medicina nuclear, urodinâmicos ou radiológicos com contraste venoso.

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