|
|
Euler Pace Lasmar
No preparo do paciente para cirurgia é de fundamental importância a avaliação da função renal através da depuração da creatinina, pois que as condutas a serem tomadas no pré, per e pós operatório dependem da gravidade da insuficiência renal. PRÉ-OPERATÓRIO I- AVALIAÇÃO DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS 1- Distúrbios de volemia
O conhecimento do nível plasmático do potássio é de extrema importância , já que a hipercalemia é a mais comum e mais grave alteração metabólica vista no pré-operatório de pacientes com insuficiência renal e, quando não diagnosticada, constitui uma das principais causas de morte no per-operatório. Embora a hipercalemia não seja comum em pacientes com insuficiência renal leve ou moderada ,deve ser excluída em todos os pacientes. O nível desejado do potássio plasmático deverá ser menor que 5,5meq/1 antes da cirurgia, pois geralmente há elevação do mesmo durante e após o ato cirúrgico. Esta situação é particularmente importante durante a indução da anestesia , quando pode ocorrer depressão respiratória, com o consequente aumento do Pco2 e queda do pH. Como se sabe , a queda de 1 ponto no pH eleva a concentração do potássio plasmástico em 0,6 meq/1, podendo determinar arritmias supraventriculares, bem como fibrilação ventricular e morte do paciente. A abordagem da hipercalemia no pré-operatório inclui as seguintes medidas: 1-.Correção das causas de hipercalemia: acidose, desidratação ,ingestão ou administração de potássio, e suspensão dos inibidores do enzima de conversão ou betabloqueadores. 2-.Administração de medicamentos ou realização de procedimentos dialíticos . A hipocalemia é contudo rara, podendo surgir em pacientes com vômitos ,diarréia ,fístulas digestivas ou uso prolongado de doses elevadas de diuréticos. Deve ser corrigida através de administração cautelosa de potássio, principalmente quando o potássio plasmático se encontra abaixo de 2.8 meq/l pois nestes casos há risco de arritmias durante o ato cirúrgico,ou efito sinérgico com as drogas curarizantes. 3- Distúrbios de Sódio. Hiponatremia constitui o principal distúrbio do sódio no pré-operatório, podendo significar desidratação com perda de sódio ou mais frequentemente hiperhidratação com excesso de água. A síndrome de perda de sódio deverá ser corrigida cautelosamente com solução de cloreto de sódio, enquanto que a hiperhidratação com restrição hídrica e doses elevadas de diuréticos de alça nos pacientes que apresentam insuficiência renal leve, e moderada , ou hemodiálise com ultrafiltração nos pacientes com insuficiência renal grave. 4- Distúrbios ácido-básicos O distúrbio mais freqüente é a acidose metabólica, que pode se agravar durante a anestesia , devido à supressão do mecanismo de compensação respiratória podendo determinar depressão miocárdica,hipercalemia e arritmias cardíacas. Quando o pH e o bicarbonato plasmático se encontram em níveis inferiores a 7.2 e 15meq/l, as seguintes medidas devem ser tomadas: *Se o paciente estiver normo ou hipovolêmico administramos bicarbonato de sódio por via oral se a cirurgia for eletiva, ou endovenosa, nos casos de urgência . . *Hemodiálise nos casos de hipervolemia e hipernatremia, porque nestas situações a administração de bicarbonato de sódio pode determinar congestão circulatória. A alcalose metabólica é pouco comum, sendo associada com frequência à hipocalemia. Sua correção é feita com administração de solução de cloreto de sódio endovenoso associada à cloreto de potássio. Nos casos em que existir contra indicação à estas medidas , diálise deverá ser realizada. II- AVALIAÇÃO DE ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS 1- Anemia- Tradicionalmente um hematócrito baixo tem sido considerado como uma contra indicação para grandes cirurgias. Entretanto , esta conduta é decorrente de observações feitas em cirurgias de pacientes não urêmicos. A vasta experiência adquirida em cirurgias de pacientes renais crônicos tem mostrado que eles toleram bem hematócrito entre 20 a 30%, não havendo necessidade de colocá-lo próximo do normal. Quando houver indicação de transfusão de sangue, devemos utilizar glóbulos frescos, afim de se evitar hipervolemia e hipercalemia. Parece que a tolerância à anestesia decorre do desvio da curva de hemoglobina para a direita, provocada pelo acumulo do 2-3 difosfoglicerado,com maior liberação de oxigênio para os tecidos. 2- Distúrbios da coagulação O paciente com insuficiência renal pode apresentar distúrbios da coagulação sanguínea manifestados por sangramento, que surge nas fases avançadas da doença . Habitualmente a contagem de plaquetas, protrombina e tempo da tromboplastina parcial se encontram dentro dos valores normais.O que ocorre é uma disfunção plaquetária ,com diminuição na produção do fator 3 de adesividade plaquetária e uma alteração na interação das plaquetas com o endotélio dos vasos. O melhor método para se corrigir este distúrbio é a diálise ,porém a administração de crioprecipitado poderá ser feita nos casos de urgência. III- AVALIAÇÃO DE ALTERAÇÕES CARDIOVASCULARES 1- Hipertensão arterial Juntamente com a insuficiência cardíaca congestiva é a complicação cardiovascular mais freqüente , principalmente nos pacientes com comprometimento grave da função renal. Nestes pacientes , em 85 a 90% dos casos ela é denominada "volume dependente", sendo controlada pela remoção do excesso de líquidos.Nos outros 10 a 15%, a hipertensão é "renina dependente" sendo o seu controle mais difícil,e feito com drogas anti-hipertensivas.Atualmente sugere-se a suspensão dos inibidores do enzima de conversão, pois eles podem provocar hipovolemia durante o ato cirurgico através da redução do retorno venoso para o coração. 2- Insuficiência miocárdica Deve ser sempre avaliada devido à elevada incidência . Sua etiologia é multi fatorial: hipertensão, hipervolemia, anemia, acidose metabólica, doença coronariana, toxinas da uremia , fístula arteriovenosa para hemodiálise , hipocalemia e hipercalemia, etc. O que podemos fazer concretamente para preparar o paciente para a cirurgia, inclui as seguintes medidas: * Correção parcial da anemia ( hematócrito entre 25 a 30%) * Correção da acidose, hipercalemia e hipocalcemia. *Redução da pressão arterial. * Normalização da volemia. IV - PRESCRIÇÃO DE DIÁLISE Nos pacientes que já se encontram em programa de diálise iterativa e que deverão se submeter à cirurgia eletiva, ela deverá ser realizada 12 a 24 horas antes do ato cirúrgico. Nos casos de cirurgia de urgência , quando houver indicação , podemos optar pela "hemodiálise sem heparina" aguardando-se pelo menos 4 a 6 horas para a realização da cirurgia afim de se permitir um equilíbrio entre os compartimentos intra e extravascular(passagem de líquido do extra para o intravascular). Hemodiálise convencional ou com heparinização regional não é aconselhável,pois o uso de sulfato de protamina após o término da mesma ,afim de bloquear o efeito da heparina. pode determinar liberação de histamina, hipotensão e bradicardia, além de risco de sangramento algumas horas após , devido ao rápido metabolismo da protamina que pode ocorrer neste período de aumento do catabolismo, resultando na liberação da heparina do complexo formado com a protamina e conseqüente sangramento. PER -OPERATÓRIO I- ANESTESIA A maioria dos agentes anestésicos deprimem a função renal em decorrência à redução do fluxo sanguíneo.Isto é devido à depressão miocárdica, liberação de catecolaminas,peptídeos ativos,e hipovolemia provocada por sangramento.A queda do ritmo de filtração glomerular é diretamente proporcional à profundidade da anestesia.Atualmente prefere-se a anestesia geral pois já existem drogas anestésicas que não são metabolizadas ou excretadas pelos rins.Além disto,a anestesia regional(raque e peridural)podem provocar hipotensão grave ou hematoma peridural por punção(devido ao disturbio de coagulação do urêmico),com a compressão da medula. No nosso serviço utiliza-se o tionembutal para a indução,o fentanil como anestésico,o atracúrio como relaxante muscular,e o isoflurane ou sevoflurane como agentes inalatórios. Como se sabe,o nível plasmático de colinesterase geralmente se encontra diminuido nos pacientes com insuficiência renal crônica,podendo ser drasticamente reduzido após a diálise. Assim, a inativação de alguns miorelaxantes (succinilcolina)em que este enzima se encontra envolvido pode ser retardada , com a conseqüente hipoventilação prolongada. II- MANUSEIO DE ALTERAÇÕES
METABÓLICAS. Distúrbio de volemia:Devem ser avaliados
através da medida da pressão venosa central ou da artéria
pulmonar, sendo que o ritmo de administração de líquidos
deve ser ajustado de acordo com a necessidade de cada paciente. A hipovolemia
deve ser corrigida com solução salina a 0.9% , ou com glóbulos
frescos quando houver sangramento .É extremamente importante a manutenção
adequada da volemia, afim de se impedir a piora da função
renal naqueles pacientes que ainda possuem uma reserva funcional.
Durante a cirurgia existe uma tendência de hipercalemia devido à piora da acidose metabólica , e no caso de transplante renal, da passagem para a corrente sanguínea do líquido de perfusão renal que é rico em potássio. Não se deve administrar soluções que contenham potássio , como por exemplo , Ringer lactato. O tratamento da hipercalemia durante o ato cirúrgico deve ser feito com solução de glicose a 20% e insulina regular (1 unidade para 3 a 5 gramas de glicose). Determinações seriadas do pH, pCO2 e bicarbonato plasmático devem ser realizadas, com o objetivo de detectar alterações ácido-básicas, sendo a mais comum, a acidose metabólica. Esta deve ser corrigida nos casos graves e quando o paciente não apresentar hipervolemia, com solução de bicarbonato de sódio à 5% por via endovenosa
A hipertensão pode ocorrer em decorrência a hipervolemia,hipercabia leve ou moderada e anestesia superficial.Nos casos de hipervolemia recomenda-se aprofundar a anestesia com fentanil ou usar drogas hipotensoras como nitroprussiato de sódio,bloqueadores do canal de cálcio ou betabloqueadores por via endovenosa. PÓS OPERATÓRIO I- CONTROLE DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS É mandatória uma cuidadosa monitorização afim de se diagnosticar acidose, hipercalemia, hiponatremia e piora da função renal. Hidratação adequada deve ser feita , baseada no volume urinário do paciente e perdas extra renais . Deve-se observar um adequado aporte calórico afim de reduzir o catabolismo proteico, impedindo-se a elevação da ureia e potássio plasmático . Quando as medidas conservadoras forem insuficientes ou contra-indicadas para a correção destes distúrbios , a diálise deve ser realizada. Quando houver indicação de hemodiálise nas primeiras 48 horas ,há risco de sangramento no local da cirurgia devido a heparinização.Nestes casos temos utilizado a "hemodiálise sem heparina".A principal complicação deste tipo de hemodiálise consiste na coagulação do sistema, com a necessidade de transfusão de glóbulos. A diálise peritonial deve ser evitada devido às complicações respiratórias que podem determinar.O controle dos distúrbios acido-básicos,do sódio e potássio deve ser feito de um modo idêntico ao pré-operatório II- DETECÇÃO DE INFECÇÕESFato bem estabelecido é o aumento na susceptibilidade à infecções demonstrado pelos pacientes urêmicos , decorrente à uma diminuição da imunidade celular. Trato urinário, pulmões, local da incisão , e sítio de punção da fístula arteriovenosa constituem os locais prediletos da infecção. No transplante renal recomenda-se o uso profilático de cefalosporina (três doses de cefotaxima), iniciando imediatamente após a indução anestésica , com a finalidade de reduzir o aparecimento de infecções na incisão. Devemos salientar que no tratamento das infecções damos preferência à antibióticos bactericidas, de baixa excreção renal e que não sejam nefrotóxicos.Como medidas preventivas sugere-se não usar ou retirar o mais rápido possível a sonda vesical e os cateteres venosos profundos,bem como reduzir o tempo de cirurgia. III- MANUSEIO DE DROGASO conhecimento das interações entre drogas e rins bem como da via de excreção é de fundamental importância para se evitar complicações no pós-operatório de cirurgias em pacientes com insuficiência renal. Assim, drogas que são eliminadas sob a forma ativa pelos rins deverão ter suas doses alteradas ou espaçadas, e aquelas que são nefrotóxicas devem ser evitadas. IV- CICATRIZAÇÃO DOS TECIDOS Ao contrário do que se pensava há alguns anos, não existe diferença substancial no tempo de cicatrização dos tecidos entre pacientes com função renal normal e insuficiência renal , principalmente naqueles submetidos à transplante renal. Referências 1- Blythe W.: The Management of intercurrent medical and surgical problems in the patient with cronic renal failure.In Strauss M.B. and Welt L.G.: Diseases of the Kidneys. Little, Brown an Company, Boston, 1984, p. 518. 2- Breziz M.,Rosen S.and Epstein F.:Acute renal failure. In Brenner B.M.and Rector F.C.:The Kidney. W.B.Saunders Company , Philadelphia, 1991, p. 993. 3- Daugirdas J.T.: Acute hemodyalisis prescription. In Daurgidas J.T.and Ing T.S.: Handbook of Dialysis. Little, Brown and Company, Boston, 1989, p.59. 4- Fahley M.R., Rupp S.M., Fisher D.M.: The pharmacokinetics and pharmacodynamics of atracurium in patients with and without renal failure . Anesthesiology 61: 699/702,1984 5- Harmov M., Glabman S., Schupak E., Neff M., and Burrows L.: General Surgery in patients on maintenance hemodialysis. Ann. Surg. 179:863, 1974. 6- Hunter J.M., Jones R.S.,Utting J.E.: Use of atracurium in patientes with no renal function. Br.J.Anaesth . 54:1251/1258,1982. 7- Kellerman.S.P :Perioperative Care of the Renal patient. Arch. Intern. Med. 154:1674 - 1688,1994. 8- Kountz S.L.,Villanueva R.: Operating on the uremic patient. In Friedman E.A.: Strategy in Renal Failure . Wiley Medical Inc, New York, 1978, p.261. 9- Lasmar E.P., Távora E.R.F.: Prevenção da insuficiência renal aguda pós operatória. J.Bras. Nefrol. 1: 91-93,1979 10-Lassos B.Van Blerk P.J.P. and Meijers A.M.: Surgical procedures on patients in end stage renal failure. Br.J.Urol. 45:359,1973. 11- Powers S.: Renal function and surgery .American College of Surgeons 208-219,1985 12-Simon N.M., del Greco F., Dietz A.A., and Rubenstein H.M.: Serum cholinestirase deficiency in renal failure . Trans. Am. Soc. Artif. Inter. Organs 15:328,1969. 13-Slawson K.B.:Anaesthesia for the patients in renal failure. Br. J.Anaesth. 44:277.282, 1972. 14-Tasker P.R.W., Mac Gregor G.A., de Warderer H.E.: Prophylatic use of intravenous saline in patients with chronic renal failure undergoing major surgery.Lancet 2:911-912,1974. 15-Tiggeler R.G.W.L., Berden J.H.M., Hoitsma A.J., Koene R.A.P.: Prevention of acute tubular necrosis in cadaveric kidney transplantation by the combined us of mannitol and moderate hydration. Ann Surg. 201:246-251,1986. |