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Profa. Dinah Borges de Almeida Durante duas horas entrevistamos uma grande personalidade da medicina brasileira. Educadora nata, em vários momentos encheu os olhos de lágrimas ao defender a excelência do ensino médico. Com a emoção que transpira em cada poro da sua pele, a professora dá um exemplo de garra e criatividade a todos os jovens médicos e estudantes do nosso Brasil. Você vai ler a sua entrevista na íntegra, de um só gole, emocionando a cada linha. Participaram do bate papo com a Profa Dinah Borges de Almeida, os seguintes colegas: Profa. Cecilia Magaldi, Prof. Augusto Cesar Montelli, Profa. Maria Fernanda Cordeiro Carvalho, Prof. Vitor Augusto Soares. Prof. Andre Luiz Balbi, Profa. Jacqueline Teixeira Caramori, Prof. Roberto Jorge da Silva Franco, Prof. Francisco Habermann, Prof. Pasqual Barretti e Profa. Inah Esteves Andreto Editor Sebastião: Ser mulher melhorou ou prejudicou a carreira da nefrologista? Profa. Dinah: Olha, recentemente Sebastião, eu vi no Opinião Nacional da TV Cultura duas professoras da USP que estavam discutindo exatamente essa questão. Essa questão é muito importante do ponto de vista da evolução do papel da mulher na sociedade, mas eu devo dizer pra você que nunca senti muita dificuldade nesse aspecto. Quer dizer, em nenhum momento da minha trajetória, nem na faculdade, nem depois na residência, nem mesmo quando eu vim pra cá eu senti muita diferença nesse asperto. Não senti nenhuma dificuldade adicional pelo fato de ser mulher. As dificuldades foram inerentes ao momento em que passei a exercer as funÇões de nefrologista, a rigor eu era clínica geral e me transformei em nefrologista em Botucatu. Até por uma questão de coerência, devo dizer que sou uma nefrologista com uma porção de pernas capengas e como você disse, que essa conversa é bem informal e que muitos estudantes de regioes diferentes do Brasil acessam a revistat, eu gostaria de salientar nesta entrevista, o que foi fundamental pra que o "sonho" desse certo aqui em Botucatu, pois no começo não tinha nada pra dar certo, não. Então porque foi que isso aqui deu certo? Gostaria de enfocar a nefrologia, mas, mais que a nefrologia eu gostaria de enfocar esta Faculdade, especificamente. Eu acho que esta Faculdade é vitoriosa, você me desculpe não ser modesta, não vou ser modesta aqui nesta entrevista, tá? (Todos concordam) Acho que é uma Faculdade vitoriosa. Sebastião: Nós vamos chegar lá, mas antes, quando a senhora chegou a Botucatu era a única médica aqui na época? Profa. Dinah. Não, acontece o seguinte: a faculdade, quando começou, tinha várias professoras no básico, né, mas no ciclo profissionalizante não existiam muitas não. No ciclo profissionalizante, quando cheguei éramos apenas cinco professores na clínica médica. Juntando Clínica Médica e Cirurgia, que eram os únicos departamentos que existiam, eramos no máximo dez docentes. Quando nós começamos aqui eu era a única mulher, não... minto, já tinha havido uma professora de Patologia, mas quando cheguei ela já tinha ido embora. Nós éramos dez, onze docentes no máximo e eu fui a primeira mulher aqui, no ciclo profissionalisante. Sebastião: Isso foi quando? Profa. Dinah: Isso foi em1966. Vim pra cá em fevereiro de 66, quando a Faculdade tinha 3 anos mas imediatamente fui pra Ribeirão Preto fazer um pouco de pesquisa e voltei em julho, no meio de uma crise violenta quando o Profesor Dutra e metade do pessoal foram embora, se dispersaram. Montelli e o Nelson que também eram da clínica médica, por questões filosóficas, resolveram que iam pra preventiva e acabamos ficando o Tiberê e eu . Ficamos apenas dois docentes na clínica médica. Isso é o começo, não sei se você quer mais alguma coisa? ( NR: faço um SIM com a cabeça rapidinho) Eu tinha sido uma residente de uma faculdade das que melhor formam o seu pessoal.Tive a vantagem de ter tido uma formação muito boa, uma formação que fossemos ousados. A Faculdade de Medicina de Botucatu nasceu de uma porção de gente sonhadora proveniente da Universidade de São Paulo e que queria implantar uma faculdade diferente, parte deles acabou não ficando aqui, mas implantamos alguns princípios. Tínhamos que ser os melhores possíveis, tinhamos que ousar ao máximo, mas ao mesmo tempo reconhecer as nossas limitações da época. A Clínica Médica começou com as cabeças muito bem formadas dos professores Dutra de Oliveira e depois com o Professor Alvaro Oscar Campana que o substituiu, alguns meses depois e, na cirurgia, com o Professor Willian Saad Hosne. Com o Saad, politicamente brigamos muito no inicio, mas foi extremamente importante pra implantação da Faculdade. Na patologia tinhamos o professor Montenegro que foi a figura mais permanente e sólida que a faculdade teve e tem. Essas pessoas trouxeram alguns princípios que incorporamos: a Faculdade pra dar certo tinha que ter pessoal em tempo integral e não tem outro jeito. Tivemos experiências imprenssionantes com professores famossísimos da Universidade de São Paulo ou da Escola Paulista de Medicina, que vinham dar cursos aqui no começo, gente da melhor qualidade, mas ficou absolutamente evidente que não criaríamos nada desse jeito, pois eram professores que vinham, davam a sua aula, mas não tinham o compromisso de implantar o núcleo. Eu quero caracterizar uma outra condição dessa escola. Essa escola é de rebeldes. Eu dizia o seguinte: "olha, tem que trazer a sua competência e a sua força, mas não pode ser autoritário" Essa escola tinha que ser muito particular com desafios peculiares. No Brasil, dizem que "tem de fazer a lição de casa" e, sabemos, de vez em quando tem gente que não faz lição de casa. Ouvimos a toda hora: não fez a lição de casa? Entao sofra as consequencias! Na realidade não acredito nisso, neste método. Nós temos que ter gente disposta, de vez em quando, a não fazer a lição de casa ou modificar a lição de casa! Na realidade essa faculdade veio pra modificar a lição e ela o fez em muitos sentidos. Nós éramos rebeldes por natureza, porque éramos jovens, mas não tínhamos muita noção dessa característica, porém fundamental. Nós tínhamos algumas pessoas muito bem formadas que tinham uma cabeça muito boa, tinham uma experiência de pesquisa, pesquisa de ponta, por exemplo, o Montenegro tinha trabalhado com os Professores Germuth e o Dickson nos Estados Unidos; mas não aceitavamos autoritarismo, um autoritarismo cerceia a criação coletiva única capaz de estimular e de superar as situações limites. Sebastião: E o Hospital? Profa Dinah: No meu entender não existe essa história de hospital de ensino. Se você começar a dizer que tem hospital de ensino você está instrumentalizando o ser humano e ele não pode ser instrumentalizado. O hospital é de prestação de assistência e a gente utiliza-o pra ensino. As pessoas sempre querem instrumentalizar. No entanto, tudo interessa ao ensino, tudo! Interessa qualidade, interessa quantidade e interessa diversidade. Temos que permanentemente lutar pra estar dando uma assistência adequada e isso também foi muito claro aqui em Botucatu. Aqui tá a Cecília Magaldi que não me deixa mentir. Ela foi a principal batalhadora pra fazer desta cidade um modelo de sistema de saúde. Acho que Uberlândia é outra cidade que tem condição de implantar um sistema modelo, tem tudo pra ser isso, tem condição de fazer centro de saúde na periferia até centros rurais que dão um primeiro atendimento, prestar assistencia domiciliar, tem condições de montar hospitais secundários e terciários (NR: Sebastião fica animadissimo com a referência). Sebastião: Mas sobre a vinda pra Botucatu.... Dinah: A minha? Sebastião: Sim...a sua vontade...como surgiu a idéia? Profa.Dinah: Aconteceu o seguinte: eu era uma uspiana, uma pessoa com formação na USP, tinha sido residente de um grande professor que morreu no final do ano passado - Prof. Ulhôa Cintra, que teve importância fundamental pra essa faculdade. Como secretario da educação, foi um dos grandes responsáveis pela implantação da faculdade, foi um esteio, um esteio um pouco diferente. Ele era diferente pois dava suporte e te jogava a bucha e ela tinha que ser sua. Eu tinha sido residente dele, mas como tinha a vida inteira estudado longe da minha família, a minha aspiração era voltar pra junto dela e acabei retornando. A minha família morava em Araçatuba e não só morei como exerci medicina lá. Gostei muito de exercer medicina lá, mas faltava alguma coisa. Antes de sair da USP, o Montenegro já tinha me convidado pra vir pra cá, e eu falei: "mas vou pra Araçatuba!" e, quando percebi que Araçatuba não conseguia preencher toda minha aspiração universitária, lembrei do Montenegro e vim procurá-lo aqui. Aí ele me encaminhou para o Professor Dutra que era o responsável pela clínica e eu vim pra cá. Não tive dúvida. Mas quem chegava em Botucatu, naquela época, podia ter muita dúvida, porque era uma cidadezinha horrorosa, quer dizer, apesar de toda...(NR: Risos gerais) Sebastião: Isso vai sair! (NR: Risos gerais) Prof. Dinah: Pode sair!! (rindo). Era uma cidade que tinha tido seu auge no comecinho do século. Era uma cidade importante, tinha um dos primeiros bispados do interior pra mostrar. Era uma cidade reconhecidamente de boas escolas, mas tinha entrado numa decadência assustadora! Tinha uma rua central que, "hoje" as pequenas vilas do interior tem uma rua central melhor que aquilo. Era uma cidade meio apavorante mesmo! Para a Faculdade tinha somente um enorme prédio construído e desativado. Cheguei na cidade onde conhecia apenas o Montenegro. O Montenegro tinha sido meu professor, um dos professores mais jovens que eu tinha tido, extremamente dinâmico, admirado e quando precisávamos falar sobre ensino a gente recorria a ele, além da parte de anatomia patológica. Encontrei o professor Dutra também muito entusiasmado e moderno. Quando cheguei, eles já tinham dado o primeiro curso de semiologia e tinha sido um curso extremamente revolucionário, muito bem avaliado! Os alunos daqui eram fantásticos e lutavam por isso. Você percebia que eles lutavam... então, essa escola foi construída pelos professores, pelos alunos e pelos funcionários! Foi uma faculdade construída pelo conjunto. As minhas pesquisas foram os alunos que fizeram! Aqui nós montamos a primeira dieta de Giovanetti modificada!... Eu me lembro de uma aluna do quinto ano, correndo atrás de uma fábrica de máscaras pois tinha tido um paciente intoxicado por agrotóxicos... Os alunos se envolviam inteiramente nos atendimentos que eles davam, foram precocemente colocados em contato com os doentes e com responsabilidade total. Tinham que vir sábado e domingo, o ano inteiro! No quinto ano faziam diálise peritoneal e não tinha enfermeira pra fazer. Era aluno que fazia tudo! E vou te contar uma coisa: tem nefrologista aqui que aprendeu e se encantou com nefrologia porque fez diálise como quintanista e como residente de clínica médica. Os alunos entraram direto em tudo! Incentivavamos dizendo que todo mundo era capaz de fazer sua parte e a parte, as vezes, começa pequena e vai crescendo e se implanta lentamente. Todos esses que estão aqui (NR: referindo aos seus ex alunos presentes), fizeram pesquisa, pesquisaram como alunos. Como residentes davam aula, davam aula sim! Eu me lembro, por exemplo, que o Vítor perdeu o trabalho de infecção urinária que fez, daí o Franco foi ao Congresso em Curitiba e o grupo apresentou trabalhos feitos por alunos e residentes! Sebastião: E eram estudantes! Profa. Dinah: Estudantes e no máximo residentes e, as vezes, residentes de outra especialidade. Você pega os primeiros trabalhos nossos tinha o residente que hoje é clínico geral, cardiologista, da saúde pública, etc. Porque não tem fronteiras...medicina é muito maior... desculpe estou falando demais...(NR: um NÃO coletivo foi ouvido)
Vítor: Eu queria voltar um pouco dentro da pergunta do Tião. Você falou que a cidade assustava, agora chegar numa faculdade há oito Km da cidade sem uma pista asfaltada...., muito assustador mesmo, eu queria que você comentasse mais. Profa. Dinah: O que era assustador é que o prédio da Faculdade era enorme, mas o mais assustador é que não tinha absolutamente nada dentro a não ser morcegos! Mas os alunos pegavam as crises e as transformavam, assim como os docentes também não se deixavam vencer pela crise. É uma história de luta, é uma faculdade que tem uma história de luta, lutou e acho que vai continuar lutando eternamente.Os alunos chegaram a invadir a faculdade e a observar se chegavam as forças da repressão com binóculo lá de cima da caixa d’água, eles ficavam lá de binóculo vendo se chegava a polícia e um dia chegou mesmo! Montelli: Como a única pessoa aqui da mesa que não é nefrologista, eu queria dizer da minha satisfação de estar aqui hoje, de ter sido convidado para participar da entrevista. A Dinah é muito mais que uma nefrologista pra nós. A Dinah passou a lutar na montagem da disciplina, do departamento e da própria Instituição. Não sei se vocês lembram, mas houve alguma coisa em 1964, nesse país, que o mudou bastante. A Dinah teve uma outra frente de luta aqui, junto conosco, que foi a luta pela redemocratização do país. De modo que a Dinah é especial pra nós. Ela foi responsável pela disciplina, chefe do departamento, diretora da faculdade, mas, muito mais que isso, ela foi uma cidadã consciente que sempre teve uma participação extremamente fundamental pro desenvolvimento da Instituição e de nós todos. Algumas pessoas podem acessar sua revista e acharem apenas que se está entrevistando uma nefrologista...mas a Dinah é muito mais que isso. Gostaria que você falasse um pouco a respeito das etapas de redemocratização pela qual a gente passou e nas quais você teve uma participação extremamente importante e do inicio da nossa da Faculdade. Profa. Dinah: Um grupo da Universidade de Sào Paulo e o governo do Estado queriam criar um núcleo universitário no interior do estado várias cidades se candidataram: Araçatuba, Araraquara, Campinas, Botucatu, todas lutando pelo núcleo e Botucatu era a última cidade com possibilidade de te-lo. As outras eram todas cidades em franca expansão, enquanto que Botucatu era uma cidade meio morta, economicamente falando. Mas tinha uma liderança política fantástica e um prefeito que sabia fazer política. O prefeito conseguiu, articular de tal forma que, quando ele percebeu que ia sair em Campinas, interferiu para que o estado fizesse duas. O núcleo de Botucatu nasceu junto com o núcleo da UNICAMP, só que aqui não nasceu como Universidade, nasceu como uma Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu ( FCMBB). Com uma estrutura extremamente precária, foi muito tumultuada no começo. Os médicos da cidade queriam fazer parte da Faculdade mas eles não tinham condições de serem docentes, e isso aí implicou numa luta grande. A Faculdade tinha que ser parte fundamental da vida de cada um, ela não podia ser periférica, precisava ser fundamental e tinha que ter docentes em tempo integral. As pessoas precisavam se integrar inteiramente a ela, porque se não fosse assim, ela não vingaria. Além disso, precisava ter uma preocupação muito forte na implantação de uma assistência, a melhor possível, um ensino mais avançado que pudesse ser dado e, era fundamental, que nascesse fazendo pesquisa. Evidentemente, nós não tínhamos condições de aspirar, a fazer pesquisa igual a Haward, mas tinhamos que implantar o princípio da pesquisa. No começo era tudo uma coisa só: os veterinários, os biólogos,etc. Se a gente for pegar algumas das pesquisas que fizemos no começo, por exemplo, elas nasceram de conversas de corredor que não sairam exclusivamente da clínica médica, mas sim da nutrição, da saúde pública etc. Era uma interelação. Na realidade, as fronteiras são só organizativas e quanto menos fronteiras tiver, melhor! Sebastião: E a respeito da redemocratização? Profa. Dinah: Eu digo pra você que era uma faculdade rebelde. O docente era rebelde, vindo de ostes rebeldes das outras instituições... Sebastião: Rebelde no bom sentido... (rindo) Profa Dinah: Rebelde no bom sentido...(sorrindo). Nem sempre o que está sendo dito é o que tem que ser feito. Nós implantamos essa história e os alunos eram plenamente ativos, lutavam pela faculdade, o que pressupunha lutar contra a situação vigente. Se não havia jeito para as coisas, íamos à luta. Não tem jeito? Tem sim! E nós vamos todos mostrar que, se vocês não mexerem, a gente mexe com vocês! Os alunos fizeram coisas dessa natureza e ficaram famosos com a Operação Andarilho. Sebastião: Operação o que? Profa. Dinah: Operação Andarilho! Tinha um enorme prédio construído pra 1.200 doentes, quer dizer, um prédio enorme completamente vazio e sem nenhum equipamento dentro. Só que os equipamentos existiam mas estavam presos por questões burocráticas alfandegárias. Retidos há mais de um ano na alfândega e o governo não se mexia, o diretor daqui tambem não e então, os alunos se puseram em campo e fizeram a Operação Andarilho: foram a pé daqui até São Paulo, falar com o Governador. O Vítor (NR: Vitor Soares) estava no segundo ano, o Chico (NR: Haberman) era das primeiras turmas... Vítor: Um grupo de alunos montou a infra-estrutura de barracas, outro montou a cozinha e outro foi pra veículos. A gente saía daqui, lembrando a voces que à época não tinha a rodovia Castelo Branco e íamos por outra estrada. Daqui até Jundiaí, paravamos nas cidades, atravessavamos as cidades a pé, em passeata, e nas saídas das cidades pegávamos carros, caminhão, ônibus e íamos para outra até chegar em Jundiaí. Nós éramos uns 400. Tinha lista de presença, quem não ia, assinava e justificava! Chegando em São Paulo nós fomos recebidos pela cavalaria do Palácio do Governo. No Palácio do Governo, nós tivemos o grande prazer de receber cavalaria, cachorro, tropa de choque, tudo aquilo que o pessoal mais antigo conhece. Ficamos três meses acampados e aí o governador Sodré, o prefeito não lembro quem era, puseram três ou quatro chuveiros no nosso acampamento no Ibirapuera... Sebastião: E onde é que estava a professora Dinah nisso tudo? Profa. Dinah: Bom, eu estava aí no meio. Os docentes estavam inteiramente favoráveis aos alunos. Quando a gente fala dos docentes fala em 90% deles. O espírito da faculdade estava junto com os alunos. A gente dava, até certo ponto, uma retaguarda. A cidade dava retaguarda também. Em 68 foram presos vários alunos, inclusive o Vítor. Naquela época existia um entrosamento da cidade com a faculdade. Eu me lembro de que os alunos estavam fazendo passeata e nós estávamos junto a eles e, quando veio a tropa de choque, as casas abriaram as portas e puxaram os alunos para não serem presos. Os docentes foram depois no Dops prestar depoimentos e... Vitor: Testemunharam inúmeras vezes na auditoria militar , de madrugada em São Paulo, inúmeras vezes... Profa. Dinah: Eu adoraria ir lá no Dops e ver o que consta a meu respeito. (risos gerais) Sebastião: Mas dizem que as fichas já estão abertas... Profa. Dinah: A pressão era violenta e durou muitos anos. Até na época do Maluf tivemos um sério episódio. Quando o Maluf, vários anos depois, veio aqui tentar faturar em cima de uma coisa que estava acontecendo, os alunos protestaram e a polícia dessa vez veio. Veio mesmo pra valer! Já tinha vindo outras vezes, mas dessa vez foi violento. Numa outra época, os alunos tomaram a sede do centro acadêmico que a diretoria havia fechado. O Pascoal estava junto, o Trajano, né, tudo isso. Essa é Faculdade da sublevassão brasileira!
Pascoal: Em 77 a repressão era muito violenta ainda. A gente não sentia tanto violência policial, mas violência de cerceamento de idéias, de não se poder falar...Uma dúvida que eu tenho: logo no inicío da Faculdade você disse que 90% dos docentes estavam com os alunos e que o pensamento dos docentes era semelhante aos dos alunos. Passa-se o tempo e, nas outras lutas, já não tinhamos 90% dos docentes lá com a gente, ou seja já existia uma divisão tipo ou da direita ou da esquerda. Como é que se evoluiu pra isso? Eu não peguei essa época... Profa. Dinah: A rigor a divisão esquerda e direita existiu desde o começo. A própria saída do Dutra foi, na realidade, a primeira crise da Faculdade. O Dutra, que era um professor de clínica médica, saiu por desentendimento com os outros professores, mais especificamente, com o professor Saad que era da cirurgia. Houve já, neste tempo, uma certa fragmentação de pensamento: um grupo achava que nós tínhamos que lutar por implantação de princípios muito sérios mas com muita liberdade: o princípio democrático e outro não. Nesse episódio do Maluf e a invasão da polícia, os alunos tomaram as salas de aula e ficaram deitados no corredor. Ficavam sentados lá e não havia cristão que tirasse eles de lá. Aí alguém soube que a tropa de choque vinha vindo e todos docentes foram avisados.... Certos episódios mostram o espírito da pessoa... como a Neusa por exemplo. A Neusa era uma pessoa ligada ao pessoal um pouquinho mais autoritário, etc..mas é uma grande docente e estávamos todos no anfiteatro com os alunos em baixo. Sabíamos que a polícia estava vindo de Sorocaba e que fora a própria Diretoria da Faculdade que tinha chamado. O Reitor e o Diretor tinham chamado a polícia. Os alunos iam apanhar lá embaixo. Quando estavamos no meio discussão, a Neuza levantou-se e desceu a escada, justo ela que era aliada de quem chamou a polícia...mas. naquele momento a meninada ia apanhar, e ela não podia deixar a meninada apanhar... Sebastião: Ela desceu e... Profa Dinah: Desceu e nós descemos juntos. Conseguimos convencer o resto que não queria descer. Os docentes desceram e fizeram um círculo em torno dos alunos. O Montelle teve uma participação importante nesse episódio pois foi receber a polícia que veio com os cacetetes, absolutamente tamanho família. O Montele, com esta jeito que só ele tem, é que conseguiu convencer, amenizar a coisa... Sebastião: A senhora já está aposentada? Profa.Dinah: Eu estou aposentada. Sebastião: Aposentada há quanto tempo? Profa. Dinah: Sou aposentada há cinco anos. Sebastião: Há cinco anos? Profa. Dinah: Me aposentei em 94, 93... Sebastião: Como é o seu dia-a-dia? Foi difícil desligar da faculdade? Profa Dinah: Olha, a questão da aposentadoria, não é uma coisa muito fácil não. Acho que, quem já passou por ela, sabe, né? Existem várias formas de se aposentar. Existe uma forma que foi adotada pela Cecília, professora de Saúde Pública- professora emérita da faculdade, que foi meio radical: saiu e pronto, encerrou o assunto! Agora eu saí e saí meio com o pé lá dentro, mas saí por uma série de circunstâncias de natureza pessoal, circunstância da disciplina -pois achei que seria útil pra disciplina e pra mim também. Naquele momento, eu precisava sair. Mas não foi fácil, não! Se tivesse ficado, eu teria ficado mais dois ou três anos, mas tive que resolver problemas pessoais. Precisava ter liberdade para ficar me movimentando sem nenhuma limitação, coisa incompatível se continuasse em atividade. Tinha também de abrir espaço na disciplina...e, segundo, eu tinha passado pela administração e você fica um pouco inseguro pois a administração aqui é muito pesada ( fica longe da reitoria, depende muito de São Paulo, você tem que se deslocar muito ). Não dá pra manter contato diário com atividade médica, científica e na disciplina. Eu não consegui manter esse contato permanente com a disciplina. Só consegui manter com os meus cursos de pos graduação. É uma coisa meio inviável Sebastião: Por causa da direção da faculdade? Profa. Dinah: Era importante abrir espaço. A universidade precisa muito de gente nova, é fundamental a renovação. Uma coisa que me preocupa: as Universidades estão fechando as contratações. Eu sou de uma escola que foi feita por gente jovem. Essa escola foi feita por auxiliares de ensino, foi feita por instrutores... não foi professor titular que fez essa escola, os jovens são muito necessários! Quando eu saí, fiquei um pouco ligada e voltei a dar aulas de graduação igual aos meus colegas, dividia mais ou menos o mesmo tanto de grupos de graduação, os ambulatórios semanais, frequentava as reuniões de disciplina, participava com uma certa intensidade das reuniões, mas a medida que vai passando o tempo, você percebe que é uma situação meio artificial, ela não é natural... não é natural, você começa a sentir que não é natural, porque você começa a se questionar, se você está contribuindo... você fica se questionando se não está indo lá pra resolver um problema de natureza pessoal, entendeu? Precisa ponderar se isso aí tá sendo benéfico pro conjunto. Sebastião: E a senhora percebeu que.... Profa Dinah: Percebi que era parcialmente benéfico e portanto começou a me fazer mal, eu não estar totalmente inserida. Você não consegue mais se habituar com aquela situação de uma inserção parcial. Será que estou ajudando? Pode ser que eu não esteja ajudando, pode ser que esteja atrapalhando, entendeu? Todo mundo que veio pra cá, no começo, era uma inserção total, de sábado, domingo, de noite, de tudo! Sebastião: Mergulhava mesmo! Profa Dinah: É tem que mergulhar. Faculdade pra mim é isso! Sebastião: E isso, a senhora ficou nessa, por quanto tempo? Profa Dinah: Aí, devagarzinho, as atividades foram sendo reduzidas... Sebastião: E hoje? Profa Dinah: Hoje nenhuma. Sebastião: Mas qual que é o seu dia-a-dia hoje? Profa Dinah: Bom o que que eu faço? Sebastião: A senhora acorda a que horas? Profa Dinah: Ah, é bem tarde (caindo na gargalhada) Sebastião: Claro...Depende da noite anterior (rindo) Profa Dinah: Depende. (rindo) Eu leio bastante. Os aposentados também têm uma boa vida, existe uma outra vida, que é muito boa também, você entendeu? Você pode ler o tanto que você quer, você não consegue ler tudo que você quer, você não consegue ouvir todos os discos que você quer, você não consegue ver todos programas de esporte que você quer e eu gosto de esporte, entendeu? Uma das minhas frustações é que eu nunca tinha visto um campeonato, nunca, nunca tinha podido assistir uma copa do mundo direito, nunca, nunca tinha assistido uma olimpíada direito, nunca, nunca tinha assistido um torneio de tenis direito, que eu adoro, então, quer dizer, hoje eu posso! Adoro ler, adoro! Cecília: Ela lê não só as revistas de nefrologia, que ainda vem pra cá, mas ela adora economia. Ela devora tudo que se publica sobre a situação econômica mundial, gosta de história e gosta de polemizar politicamente. |