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Volume 1- Número 5 - Ano II (Jan/Fev/Mar 1999)

Opções profissionais para o médico de hoje
ISTÊNIO FERNANDES PASCOAL
 

Dr. Istênio F. Pascoal, médico nefrologista, Doutor em Nefrologia pela
USP, Pesquisador Associado CNPq/UnB - Disciplinas de Nefrologia e de
Obstetrícia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de
Brasília,Brasília-DF 

No Brasil contemporâneo, a formação médica se inicia nas faculdades de medicina e se estende, quase obrigatoriamente, aos cursos de pós-graduação lato sensu (residências, especializações, estágios), constituindo um processo contínuo de aquisição e acumulação de conhecimentos, que apenas se conclui 8 a 12 anos depois. 

A partir de então, o jovem médico se depara com a opção de continuar gravitando na atmosfera científica ou de se lançar à prática médica convencional. Estima-se que aproximadamente 10% deles, conciliando vocação com oportunidade, permanecem no ambiente acadêmico, integrando-se à ciência básica ou à pesquisa aplicada. Outros tantos, prolongam esse convívio ainda um pouco, para depois, parcial ou integralmente, iniciar sua vida profissional extra-institucional. A maioria, porém, se encaminha diretamente para a atividade clínica.

Estes distintos agrupamentos molduram a feição tripartite do exercício da medicina, assim composta pelo médico-cientista, pelo médico-híbrido e pelo médico-efetor. 

Para se tornar um cientista, além da índole, o aluno habitualmente se inspira em um ou em alguns mestres, cujos exemplos de devotamento pessoal, relevo intelectual e prestígio acadêmico e social despertam sua admiração. Naturalmente, esse modelo prospera predominantemente nas escolas médicas tradicionais, férteis na multiplicação de vocações científicas. 

O híbrido vivencia, simultanea ou consecutivamente, a experiência da prática acadêmica e da prática clínica em instituições públicas ou privadas. Muitos currículos de escolas médicas de países desenvolvidos incluem um estágio obrigatório em laboratórios ou programas de pesquisa. No Brasil, algumas faculdades já o fazem em caráter facultativo. Presume-se que, mesmo não se tornando um cientista, o aluno se tornará um médico mais preparado e mais sensato em suas decisões clínicas se tiver incorporado noções técnicas e éticas da investigação científica.

Porque é principalmente a serviço do bom desempenho do efetor que a ciência médica progride. Em contrapartida, a aplicação metódica de novos conhecimentos exige esforço, perícia e arte deste contingente de médicos que está no front, atendendo diretamente a população. Cumpre-lhes interpretar criticamente as inovações e utilizá-las judiciosamente na assistência aos seus pacientes. 

Porém, em qualquer destes segmentos, o médico de hoje se depara com o mesmo desafio: incorporar o conhecimento e mantê-lo em sintonia com uma ciência altamente complexa e sob contínua renovação. Por exemplo, a biologia molecular está trazendo rápidos avanços na nossa compreensão dos processos biológicos subcelulares. A aplicação destas informações para a biologia humana é de suma importância e em poucos anos poderá ser fundamental para o tratamento e eventual cura de muitas doenças.

Desafortunadamente, a realidade dos hospitais universitários e públicos do Brasil, com notáveis exceções, conspira contra o exercício desta medicina moderna, a despeito de seu qualificado quadro de recursos humanos. Convive-se com insuperáveis limitações de meios propedêuticos e terapêuticos, quase nunca acompanhando o desenvolvimento científico e tecnológico. Acentuando o descompasso, a população assistida nestas instituições constitui a parcela menos favorecida da sociedade, com sua histórica condescendência e subalternidade.

A vertente privada, instalada em hospitais, clínicas e consultórios particulares, a despeito de muitas distorções, possibilita a convergência de três condições favoráveis: mão de obra também qualificada, disponibilidade de maiores recursos propedêuticos para elaboração diagnóstica mais ágil e mais precisa e uma população-alvo melhor instruída para compreender a natureza das doenças, discutir condutas e procedimentos e, enfim, compartilhar as decisões médicas. 

Este cenário brasileiro se adapta bem à observação de Eugene Braunwald, ele mesmo um professor de medicina que ao longo de sua carreira alternou períodos de intensa produção científica com fases de plena atividade clínica. Em uma das inúmeras entrevistas que concedeu no último Congresso Mundial de Cardiologia realizado em abril passado no Rio de Janeiro, foi-lhe perguntado: Qual seu conselho para um jovem médico que queira realizar um bom trabalho ? Ele respondeu: "Em primeiro lugar, diria que a carreira acadêmica é uma excelente oportunidade, mas não a única. Quem cuida bem dos pacientes em uma clínica não é menos importante que um grande professor. Acho que algumas instituições de ensino dão a idéia errada de que uma pessoa será mal sucedida se não se tornar um acadêmico." 

Na diversidade deste panorama, infere-se que exercer a medicina no Brasil de hoje requer instrução e obstinação, mas exerce-la bem requer ainda discernimento e objetividade. Discernimento, para reconhecer o alcance de todas as alternativas. Objetividade, para seguir a mais apropriada às circunstâncias de cada um.