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Volume 1- Número 5 - Ano I (Out/ Nov/ Dez 1998)
Eonir Rocha
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Sebastião: Professor Heonir é, atualmente, o Reitor da Universidade da Bahia. É difícil ser Reitor?


Heonir: Muito difícil sim, porque ser reitor não significa apenas ter projetos, saber o que se quer e para que rumo se deve levar uma Universidade.   Depende, evidentemente, de se estruturar uma equipe altamente qualificada que pense solidariamente e que realmente esteja unida no seu trabalho. Depende também da existência de suporte financeiro para execução mínima dos projetos importantes que evidentemente uma administração planeja. Eu acho que tenho as duas primeiras características, quer dizer, nós temos projetos, temos pessoas altamente qualificadas, mas temos tido, em função da crise no país, dificuldades financeiras para implementar esses projetos. A única coisa que está realmente neste horizonte, que não nos amedronta, de jeito nenhum,   é que nós estamos ativamente ampliando os nossos convênios, os nossos contactos com a comunidade, com a sociedade e realmente de quando eu entrei para cá, eu acho que nós já duplicamos o número de convênios e o aporte financeiro resultante deles. É uma coisa que não resolve, mas mostra uma tendência que poderá nos ajudar numa situação difícil. Então é muito difícil, muito complexo ser reitor, mas tem seu aspecto positivo também.

Sebastião: E o senhor é Reitor há quanto tempo?

Heonir: Olha, a partir de julho do ano passado. Praticamente uns sete a oito meses como Reitor.

Sebastião: E como é que está a relação com o governo federal, ministério da educação e principalmente no que diz respeito a autonomia da Universidade brasileira?
Heonir: Eu acho que os reitores de modo geral estão favoráveis a autonomia. Esse é um assunto que já vem sendo discutido há muito tempo e não se resolve. O governo está prometendo um projeto sobre autonomia para ser divulgado dentro de um a dois meses, no máximo, é o que realmente a gente está imaginando, mas nós não temos ainda um projeto que tenha sido resultante de  um trabalho coeso de reitores e estrutura universitária de um lado e o MEC do outro. Existem ainda alguns pontos não inteiramente bem estabelecidos. A comunidade acadêmica considera como essenciais alguns itens no acôrdo e o governo não aceita-os na totalidade. Mas, o que se está esperando, porque o governo já anunciou, é que a autonomia não vai ser uma condição ofertada a todas as universidades. O governo vai colocar um mínimo de qualificação exigida para que a Universidade atinja sua autonomia e isso ainda não foi definido.  Estamos atrasados nisso porque percebo que as IFES querem a sua atonomia, mas precisam saber previamente quais os pontos que ainda precisariam ser trabalhados para conseguirem definitivamente atingi-la. O ministro já declarou nas últimas entrevistas  que a autonomia vai ser conquistada e não vai ser cedida de modo geral a todas as universidades. Acho que esse é apenas um dos pontos que a gente sente que está sendo definido. Mas gostaria de dizer que realmente, nós gostaríamos de uma autonomia não para nos colocar em mais dificuldades, mas uma autonomia para nos dar mais liberdade de atuação e para trazer vantagens para a universidade. De modo que existe uma dose de preocupação para que, com a conquista da autonomia,   não ficarmos com mais dificuldades financeiras do que as atuais e ainda com a obrigatoriedade de irmos conquistar e buscar verbas fora do governo. Estamos muito preocupados também com a situação dos inativos, como o governo vai lidar com isso, pois pode trazer uma condição a médio prazo, que inviabilizará o sistema de uma universidade pública e gratuita que é o  desejo de todos nós.

Sebastião: Existe uma opinião corrente de que a autonomia universitária é o primeiro passo para o reitor de algumas universidades implantar o ensino pago como uma forma suplementar recursos. Como é a posição do senhor nesta polêmica?

Heonir: Eu não estou pensando nisso não... estou pensando é nas vantagens da autonomia. Vantagens de você poder ter um orçamento global e não um orçamento direcionado. Nós decidirmos e definirmos quais são as prioridades nossas, qual é a cara, qual é a fisionomia de nossa universidade e assim, termos muito mais agilidade de fazer aquisições materiais e de podermos manejar com o quadro de pessoal. Evidentemente, obtendo uma flexibilidade muito importante que nós não estamos tendo hoje, não estamos conseguindo de maneira nenhuma, e esse é um dos pontos críticos, dificílimos em nosso relacionamento com o governo federal: a questão de pessoal. Concursos não são feitos e o pessoal técnico administratrivo praticamente está diminuindo muito em determinadas áreas, sem a possibilidade de reposição. De modo que a situação está muito difícil nesta fase transitória, entre este sistema que é o nosso e o sistema futuro que antevejo como sendo um sistema melhor, mais dinâmico, mais flexível. Este futuro não pode ser um sistema em que a gente vai sendo submetido a fome de coisas essenciais- e isso aí seria brincadeira, pois não será esse o projeto de uma universidade pública e gratuita. Os alunos interpretam tudo como tendência a privatização. Existe uma preocupação por parte deles e qualquer taxa mínima que seja cobrada dentro da universidade, eles acham que nós estamos embarcando privatização. Por exemplo, aqui, nós estabelecemos uma taxa de 20 reais para o aluno quando se matricula, é a taxa de matrícula. Eles acham que isso é absurdo e que isto é privatização, que isso é cobrança indébita. Não sabem eles, ou sabem porque realmente já expliquei, que para cumprir o programa de apoio e de orientação estudantil com uns seis tipos diferentes de ajuda ao estudante, nós temos que ter algum tipo de apoio financeiro. O MEC  há algum tempo já não contempla o estudante com apoio financeiro vindo lá de Brasília. Esse apoio, o que vinha, era muito pequeno e, ultimamente nessa crise toda, eles estão praticamente retirando. Aqui na nossa universidade, as cobranças de taxas não envolvem os alunos classificados como D e E na triagem sócio-econômica mas aqueles classificados como A, B e C  contribuem com esses 20 reais. D e E, que corresponde a mais de 20% dos alunos, não pagam nenhuma taxa, de espécie nenhuma. Mesmo assim, eles acham que isso é uma universidade paga. O que evidentemente é um pequeno exagero. Compreendo a reação deles, acho perfeitamente natural, mas, isso é pra lhe mostrar que eu não estou disposto a dar nenhum passo senão dentro do ético e do sério. Interessante é que os estudantes cobram entre eles.  Cobram a carteira estudantil. O DCE cobra 10 reais pela carteira. Se o aluno paga 10 reais, eles estão privatizando o DCE ? Eles estão admitindo que precisam de verba para o mínimo de programação interna do grupo corporativo. De modo que eu não estou achando que eu estou entrando em nenhuma privatização, até agora eu não entrei em nenhuma, não será com a autonomia.

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