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Alterações
Renais em Filariose Bancroftiana
Maria Eliete Pinheiro
Profa. Adjunto de
Nefrologia – Chefe do Departamento de Clínica Médica da Universidade
Federal de Alagoas – Doutorado em Nefrologia pela UNIFESP-EPM.
INTRODUÇÃO
A filariose linfática
consiste numa doença produzida por helmintos da classe Nematoda
das espécies Wuchereria bancrofti, Brugia malayi e Brugia
timori. Apenas a primeira espécie tem relevância médica
nas Américas, podendo ser encontrada no Haiti, Costa Rica, República
Dominicana, Trinidad e Tobago, Suriname, Guiana e Brasil (13, 34).
A doença manifesta-se
de diversas maneiras, desde formas assintomáticas até quadros
bem caracterizados como hidrocele e elefantíase (12,30,34).
A filariose bancroftiana acomete principalmente adultos jovens. As manifestações
clássicas de filariose ocasionadas por Wuchereria bancrofti
são aquelas associadas com dano linfático; com hiperresponsividade
ao parasito ou estado assintomático no qual microfilária
é encontrada na circulação periférica.
A literatura apresenta vários
relatos de ocorrência de anormalidades renais em pacientes com infecção
filarial, sem entretanto estabelecer de forma clara o grau de lesão
nesta patologia. São escassos os relatos com relação
ao tratamento e envolvimento renal, portanto a associação
entre filariose bancroftiana e doença renal ainda necessita de melhor
caracterização. Existem na literatura relatos da ocorrência
de glomerulonefrites na vigência de doença filarial, bem como
de hematúria e/ou proteinúria (sem quilúria associada)
(7,9).
O esclarecimento desta possível associação tem importância
relevante no diagnóstico de doença renal com etiologia desconhecida
em áreas endêmicas para filariose bancroftiana, pois a alteração
renal pode ser uma expressão desta patologia.
Na filariose bancroftiana
há aspectos peculiares à resposta imune, celular e/ou humoral,
do hospedeiro. OTTESEN (1980) demonstrou que a patologia da bancroftose
estaria associada à agressão direta ou imunológica
dos parasitas adultos e das mf, levando a diferentes formas clínicas
(24).
Segundo Ottesen, existem duas vias para desenvolvimento de dano linfático,
as quais estão relacionadas com a presença ou não
de microfilária na circulação periférica:
- reação inflamatória
mediada pela resposta imune do hospedeiro - amicrofilarêmicos
- dano linfático não
mediado imunologicamente - microfilarêmicos
A manifestação
clínica da patologia filarial dependeria da resposta imunológica
do hospedeiro e do estágio do parasito envolvido. Os mecanismos
envolvidos nas diferentes respostas parecem refletir modelos de respostas
por citoquinas T diferentes. Pacientes assintomáticos, os "microfilarêmicos
assintomáticos", que têm sido previamente descritos como imunossuprimidos
com relação à sua geração de resposta
imune pró-inflamatória (tipo-Th1) ao antígeno parasitário
(Ag), são agora reconhecidos como receptivos ao Ag, mas para produzir
citoquinas e mediadores que tem primariamente efeitos anti-inflamatórios
(tipo-Th2) (25).
O princípio básico
da perspectiva da doença filarial é a resposta imune diferencial
entre a exposição individual à infecção
resultando em desenvolvimento de manifestações clínicas
diversas. Existem poucas informações sobre a história
natural da filariose linfática e não há nenhuma evidência
de que a progressão de uma forma clínica para outra seja
inevitável.
ALTERAÇÕES
RENAIS
Algumas das manifestações
clínicas que têm sido descritas associadas à filariose,
como artrite, urticária, hematúria e proteinúria encontram-se
em estudo (8, 34).
Hematoquilúria é
uma conhecida complicação da filariose, entretanto hematúria
aquilúrica, apesar de rara, também tem sido relatada nesta
patologia (10,19,21,31). Ao contrário do que ocorre com
a quilúria, a causa de hematúria isolada, ainda não
foi esclarecida. Entre os possíveis mecanismos considerados mais
prováveis estão a ruptura de pequenos vasos sangüíneos
para dentro dos capilares linfáticos dilatados ou diapedese de corpúsculos
sangüíneos para dentro dos canais linfáticos (19).
Outras formas de envolvimento
renal associadas à filariose têm sido documentados na literatura.
Nos últimos 20 anos foram descritos casos de glomerulonefrite membranosa
(1,27); hematúria recorrente (10, 19, 21); glomerulonefrite
aguda eosinofílica (5); glomerulonefrite com presença
de depósito de IgG, IgM e C3 (32); glomerulonefrite
mesangio-proliferativa (3,23,35); glomerulonefrite por imunocomplexos
em pacientes com quilúria (23) , glomerulonefrite esclerosante
focal (26) e membrano-proliferativa
(6).
DATE (1983), estudando 50
pacientes com glomerulonefrite membrano-proliferativa (GNMP) na Índia
encontrou, como doença associada e possível fonte crônica
de antigenemia, filariose bancroftiana em três (6%) destes indivíduos.
As alterações histológicas renais foram depósitos
subendoteliais, com ou sem depósito mesangial, tendo ocorrido eosinofilia
e hipocomplementemia em 88% do total de pacientes (GNMP Tipo 1). Os achados
clínicos e laboratoriais nos 50 pacientes, exceto pela eosinofilia,
foram semelhantes aos de outros estudos de GNMP. Por outro lado, a prevalência
de GNMP tipo2 foi mais rara do que na maioria dos relatos de países
desenvolvidos ocidentais, o que poderia ser explicado pela conhecida associação
de GNMP tipo1 com condições de antigenemia crônica
comum nos trópicos (6). Este foi a primeiro relato de
filariose bancroftiana associada à GNMP, embora associação
com outros tipos histológicos já houvesse sido anteriormente
descrita (3,5).
Alterações
renais associadas com outra espécie de filária, a Loa
loa, foram descritas, onde proteinúria assintomática
foi a principal apresentação clínica, hematúria
microscópica discreta ocorreu frequentemente e ocasionalmente mf
(geralmente mortas), puderam ser vistas no sedimento urinário. Os
poucos casos que incluíram biópsia renal, mostraram alterações
patológicas descritas como "glomerulonefrite crônica", "edema
de alguma ou todas paredes capilares, algumas vezes com proliferação
endotelial" ou "infiltração do interstício renal com
células mononucleares" (36). Glomerulopatia membranosa
também tem sido relatada em infestação por Loa
loa (27). De maneira geral, infecção por Loa
loa tem sido associada com glomerulopatia membranosa, membranoproliferativa
ou lesão esclerosante crônica, sendo que PAKASA e cols. (1997)
descreveram o primeiro caso de Glomeruloesclerose segmentar e focal colapsante
secundária à infestação por este nematoda (
26).
DREYER (1992), observou alterações
renais em 45% de 20 microfilarêmicos assintomáticos não
tratados. Neste trabalho foi evidenciada a presença de hematúria
e/ou proteinúria. Em virtude dos pacientes serem microfilarêmicos
aventou-se a possibilidade da mf desempenhar um papel mecânico na
gênese do dano renal. As mf poderiam alcançar o túbulo
renal por passagem através dos capilares glomerulares ou por ruptura
de linfáticos renais (19). Contudo, como não
foi detectada microfilarúria nestes pacientes, levantou-se a hipótese
da lesão renal ser secundária à formação
de complexos antígeno-anticorpo iniciados pela parasitemia (9)
. Outros autores já sugeriram que a lesão renal, embora rara,
possa ocorrer devido a resposta imunológica do hospedeiro pela deposição
de imunocomplexos (ICs) (5,6,7,23,32).
Em relação
a ação de ICs circulantes detectados por alguns autores nesta
patologia (17,23,29) , em apenas um estudo em pacientes com
Oncocercíase, associa-se a presença de antígeno filarial
com anormalidades em biópsias renais (20). Achados similares
têm sido produzidos experimentalmente em modelos animais de O.
volvulus, através de microscopia óptica, por KLEI (1974),
que encontrou espessamento de membrana basal glomerular (MBG), depósitos
densos subendoteliais e na MBG, que estavam associados com microfilaremia
elevada e prolongada. Os depósitos subendoteliais podem corresponder
a complexos Ag-Ac descritos em outras doenças. Entretanto a morfologia
e distribuição destes depósitos, igualmente distribuídos
ao longo do capilar glomerular, difere daqueles usualmente associados com
a deposição de ICs, os quais formam depósitos eletron-densos
randomicamente localizados ao longo da MBG, subepiteliais, intramembranosos
ou áreas subendoteliais da parede capilar glomerular. A natureza
exata das lesões descritas é desconhecida até o momento,
embora elas possam ser induzidas por Ags da mf e/ou verme adulto (14).
O mecanismo de deposição
dos ICs circulantes detectados permanece especulativo na filariose bancroftiana.
Apesar de existirem amplas evidências da presença destes ICs
circulantes, pouco se sabe sobre a caracterização do antígeno
no IC (7). Além disto, outras infecções
parasitárias estão presentes em áreas onde filariose
é endêmica e outros Ags, provenientes destas infecções,
podem também induzir ICs circulantes. Contudo, tem sido demonstrado
que os ICs são capazes de modular a resposta imune e é sabido
que imunomodulação é um achado primário da
infecção filarial. Adicionalmente, a capacidade patogênica
dos ICs é bem conhecida e várias das manifestações
filária-induzidas são compatíveis com etiologia mediada
pelos mesmos (7,17).
Uma importante contribuição
para o entendimento deste problema foi realizada por RAMAPRASAD (1988),
o qual estudou o efeito da terapia com o medicamento Dietilcarbamazina
(DEC) sobre microfilaremia e estado imune de 27 portadores de Wuchereria
bancrofti durante 2 anos. Persistência da microfilaremia foi
observada em quatro dos 27 casos após terapia com DEC. Estes pacientes
foram novamente tratados, ocorrendo negativação de microfilaremia
no 600 dia. Adicionalmente, ocorreu diminuição
gradual dos títulos médios de anticorpos (Acs) filariais
IgM e IgG e aumento significante nos níveis de antígeno microfilarial
(Ag mf) no 70 dia, seguido por queda gradual dos mesmos,
alcançando níveis menores que os níveis pré-tratamento
no 600 dia. Ocorreu também a presença de
imunocomplexos (ICs) filariais em todas as amostras, mostrando ICs circulantes
no 70 dia, o que deve ser relacionado à queda
de Acs IgM e IgG na circulação. De forma similar aos Ags,
os níveis de ICs também mostraram diminuição
até o 600 dia. Entretanto, cerca de 12 pacientes
mostraram microfilaremia e antigenemia no 3600 dia, mostrando
que a DEC tinha atenuado apenas temporariamente o efeito do verme adulto.
Ainda com relação
a este estudo, Ag mf foi encontrado na urina em 41% dos pacientes antes
do tratamento, e em todos os pacientes durante o curso do mesmo, guardando
correlação com a administração de DEC e com
a elevação de Ags e ICs sangüíneos. Estes resultados
indicam que a detecção de Ag na urina pode ser útil
como marcador para determinar se o paciente tomou ou não a droga
em programas de controle filarial (29).
De todos os parâmetros
estudados, a detecção de Ag mf foi considerado como o mais
promissor indicador de infecção, mesmo quando mfs não
forem detectadas no sangue periférico (29). Corroborando
esta afirmação, WEIL (1988) observou que apesar dos níveis
de microfilaremia caírem drasticamente após o tratamento,
os títulos de Ag mf e Ac IgG estavam aumentados 1 mês após
o tratamento e, apesar de apresentarem diminuição progressiva,
encontravam-se presentes 1 ano após, com e sem microfilaremia residual.
Estes resultados sugerem que DEC tem atividade macrofilaricida parcial
sobre W. bancrofti, pelo menos na dosagem preconizada pela OMS para
a fase de microfilaremia. A impressionante redução
de mfs após o tratamento, apesar da significante persistência
de antigenemia, pode então ser explicada por efeito subletal da
droga sobre os vermes adultos. Portanto, estes achados sugerem que a detecção
do Ag parasitário representa uma valiosa contribuição
para o monitoramento da eficácia da terapêutica, o que levará
a melhorar o uso das drogas existentes e a avaliação de novas
drogas para filariose (29,33).
A avaliação
da eficácia da DEC sobre o parasito adulto "in vivo", através
da observação de "ninhos" destes vermes que foram detectados
em área escrotal por ultra-sonografia, mostrou que uma proporção
significante dos mesmos não foram suscetíveis à DEC
durante o período de estudo (22). Esta observação
corrobora os achados anteriores de atividade macrofilaricida apenas parcial.
Outra alteração
renal importante encontrada em filariose foi a presença de proteinúria,
significativamente mais elevada que no grupo controle, observada por NGU
(1985) em um estudo epidemiológico de 1.011 pacientes, realizado
em região endêmica para Oncocercíase. Em uma segunda
fase do estudo, foi realizada investigação mais detalhada,
incluindo biópsia renal de 63 pacientes consecutivos, admitidos
em hospital de referência, com proteinúria severa e/ou insuficiência
renal, provenientes da zona de Oncocercíase. Havia uma variedade
de possíveis fatores causais para a nefropatia, mas em 9 casos antígeno
filarial foi demonstrado nos depósitos de imunocomplexos no rim.
Embora houvessem múltiplas infecções parasitárias
coexistindo, não se acreditou que esta fosse a causa da freqüência
maior de nefropatia neste grupo, porque a maioria destes parasitos eram
intestinais que não causam alterações renais. A maior
diferença entre as duas populações com respeito à
seu reservatório de antígeno foi a presença de O.volvulus
na maioria do grupo com prevalência mais elevada de proteinúria
(20).
Mais recentemente, LANGHAMMER
(1997) encontrou proteinúria em vários estágios de
filariose linfática em pacientes infectados por Brugia malayi.
O estudo constituiu-se da avaliação de grupos de pacientes
em 3 diferentes fases da doença, indivíduos endêmicos
normais com altos níveis de Ac específicos e controles não-endêmicos.
Os portadores de filariose eram assim distribuídos: 1- microfilarêmicos
assintomáticos; 2- pacientes com manifestações agudas
e 3- pacientes com manifestações crônicas. Vários
pacientes foram submetidos à tratamento com DEC. Foi investigada
proteinúria quantitativa e realizados testes complementares para
discriminar entre lesão tubular ou glomerular. Fator reumatóide
IgG sérico também foi determinado. Nem os endêmicos
normais nem os controles tiveram evidências de alterações
renais, já os pacientes com infecção filarial apresentaram
proteinúria elevada significantemente quando comparados ao grupo
controle. Não houve diferença significante entre os 3 grupos
de indivíduos infectados, embora os níveis de proteinúria
fossem mais elevados nos casos de doença crônica, afetando
predominantemente o glomérulo e mais reduzidos nos microfilarêmicos
assintomáticos, com características de lesão tubular.
Tratamento com DEC não alterou significantemente grau ou características
da proteinúria, mas níveis de microalbuminúria relativamente
elevados na urina de pessoas tratadas sugeriram alterações
glomerulares nestes casos. Fator reumatóide IgG não pareceu
desempenhar papel na infecção filarial associada com doença
renal. Concluindo, o estudo sugere que proteinúria parece ser um
evento comum em filariose por Brugia malayi, envolvendo ambos os
compartimentos: tubular e glomerular e que sua patogênese é
complexa (16).
Para determinar nefropatia
em uma fase inicial da doença PINHEIRO (1998), estudou indivíduos
microfilarêmicos provenientes da população de Maceió
antes (AT), durante (DT) e após (PT) o tratamento com Dietilcarbamazina
comparando-os a grupo controle. Foram avaliados 96 microfilarêmicos
assintomáticos, entre os quais 23 foram submetidos a investigação
mais minuciosa. Os pacientes foram selecionados randomicamente, sendo 04
(17,4%) mulheres e 19 (82,6%) homens, com 20 + 8 (X +
DP) anos. Todos os indivíduos foram avaliados clínica e laboratorialmente
AT, no 5o. e 11o. dias de DEC, sob regime de internação.
Eles também foram avaliados com 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses após
tratamento. Avaliação diagnóstica foi feita através
de uroanálise; proteinúria de 24 h; microfilaremia; microfilarúria;
creatinina; clearance de creatinina; uréia; microalbuminúria;
"Retinol Binding Protein" (RBP); C3 e C4; eletroforese
de proteínas séricas; hemograma e protoparasitológico.
Raio-X simples de abdome e ultra-sonografia renal e de vias urinárias
também foram realizados em todos os pacientes e biópsia renal
em 10 deles. Um grupo controle de 10 indivíduos, com 25 +
2 anos foi submetido aos mesmos procedimentos exceto, obviamente, à
biópsia renal.
O principal achado neste
estudo foi proteinúria, conforme gráfico abaixo:
A proteinúria encontrou-se
alterada em 95,6 % dos pacientes, foi persistente, em níveis menores
do que 1g/dia, sem influência postural ou de esforço físico,
já que foi dosada com paciente em repouso, sob regime de internação
hospitalar. Microfilaremia AT era 10,9 + 15,8 (X +
DP) mf/ 20 m l mas todos os pacientes negativaram 6 meses depois. RBP foi
normal e microalbuminúria estava discretamente elevada. Microfilarúria,
assim como hematúria, foi encontrada em 4,3% dos casos.
Como a proteinúria
persistiu, biópsia renal foi realizada em 10 pacientes. As alterações
renais encontradas foram atrofia tubular focal discreta, glomeruloesclerose
isolada e fusão focal discreta de pedicelos. Vale ressaltar que
a biópsia foi realizada após o tratamento específico
com DEC que pode ter modulado qualquer alteração histológica
induzida pela filariose, sendo que não podemos afirmar com certeza
que as alterações mínimas encontradas sejam devidas
à parasitemia (28). A permanência da proteinúria
por um tempo mais prolongado provavelmente se deve à persistência
da infecção filarial, ou da resposta imune do hospedeiro,
apesar da microfilaremia haver negativado (25).
Assim, estes dados sugerem
que a proteinúria seja de provável origem glomerular, já
que os níveis de RBP foram normais, e possivelmente determinada
pela infestação filarial. Apesar do achado de microfilarúria
em 01 paciente durante o tratamento, não é possível
implicar o dano mecânico na gênese dessa possível lesão
glomerular. A ausência de dados de literatura em população
semelhante impede de estabelecer comparação e reafirma a
necessidade de investigação de Ag filarial em biópsia
renal para estabelecer relação causal (28).
A relação causa-efeito
entre proteinúria e as outras alterações renais encontradas
em portadores de filariose bancroftiana não está totalmente
estabelecida. Grande parte dos trabalhos consistiram de relato de casos
em que o diagnóstico desta patologia foi geralmente feito por exclusão,
devido ao fato destes pacientes estarem em vigência de infecção
filarial, ou então por ausência de outros antígenos
que são associados com nefrite por imunocomplexos e apresentarem
boa resposta ao tratamento específico. Faz-se necessário
mais estudos prospectivos, em várias fases da doença, para
avaliação da bancroftose como promotora de dano renal, já
que na maioria dos estudos disponíveis as evidências de nefropatia
induzida pela filariose bancroftiana foram circunstanciais e as duas únicas
avaliações prospectivas foram realizadas em microfilarêmicos
assintomáticos, o que impossibilitou que fossem realizadas biópsias
antes do tratamento, dificultando assim o diagnóstico mais preciso.
Uma outra possibilidade é
que a filariose tenha um comportamento semelhante ao da esquistossomose
na qual seria esperado que a doença glomerular por estar relacionada
a uma doença parasitária crônica, imunologicamente
mediada, o tratamento específico desta parasitose pudesse reverter
ou prevenir a progressão da glomerulopatia. Entretanto vários
estudos indicam que uma vez deflagrado o quadro clínico, a glomerulopatia
já é avançada, irreversível, em um estágio
no qual os mecanismos não imunológicos de progressão
da doença renal já estão ativados e independem da
presença ou ausência do parasita (18).
Na esquistossomose a natureza
imunológica da lesão glomerular está bem estabelecida
e a lesão renal é progressiva pela indiferença a esquemas
terapêuticos diversos (11). Entretanto a constatação
de lesões incipientes e sub-clínicas em alguns pacientes,
oferece perspectivas de que nesta fase é possível que possam
ser bloqueados os mecanismos que a perpetuam (2).
Se realmente existe um paralelismo
entre as duas parasitoses com relação à fisiopatogênese
e resposta terapêutica, apenas estudos longitudinais com ênfase
na avaliação imunológica e terapêutica nas várias
fases da doença poderão, possivelmente estabelecer esta resposta.
DISCUSSÃO
Manifestações
clínicas em todas as 3 filarioses linfáticas (Wuchereria
bancrofti, Brugia malayi e Brugia timori) são muito similares.
Enquanto as mais características são aquelas que refletem
as consequências obstrutivas do dano linfático (elefantíase
e hidrocele), outras manifestações oligo ou mesmo inteiramente
assintomáticas da infecção são também
comuns. Como estes vários tipos de respostas relacionam-se uns aos
outros patogeneticamente é a maior dificuldade no entendimento da
doença filarial, sendo esta decorrente do fato que as descrições
das diferentes síndromes clínicas derivam de observações
de cortes transversais (25). Como resultado, muito pouco é
conhecido sobre a "história natural" ou curso da infecção
atual na filariose.
Avaliados segundo a resposta
imunológica, os indivíduos microfilarêmicos assintomáticos
são hiporresponsivos, apresentando reações inflamatórias
e imunológicas mínimas. Por outro lado, há pessoas
que mostram resposta imune pró-inflamatória, reatividade
ao antígeno da filária e evoluem com manifestações
agudas da doença (25). Esta dualidade na regulação
imunológica do hospedeiro para responder ao Ag circulante tem sido
descrita em doenças infecciosas, auto-imunes, além de processos
imuno-inflamatórios tipo glomerulonefrites (4,15) .
A resposta imune diferencial
entre os indivíduos infectados leva portanto à diversas manifestações
clínicas, sendo que nos últimos 20 anos tem sido descritas
alterações renais como parte destas manifestações.
Entretanto a fisiopatogenia da doença renal na filariose ainda não
foi esclarecida. Apesar de glomerulonefrite aguda e síndrome nefrótica
como complicação de filariose ter sido bem documentada anteriormente,
a maioria dos casos foram diagnosticados por esfregaço de sangue
periférico. Microfilária como fator causal de lesão
renal causa problemas diagnósticos desde que elas raramente são
demonstradas dentro de glomérulo renal.
Pelas
observações efetuadas até o momento, alterações
imunológicas induzidas por ICs são a causa das alterações
renais observadas na filariose bancroftiana. Entretanto, enquanto associação
entre ICs filária-específicos e lesão renal tem sido
bem estabelecida em oncocercíase (20), associação
similar ainda não foi feita na filariose bancroftiana, que tem a
peculiaridade de não possuir modelo experimental adequado, já
que apresenta como único hospedeiro definitivo o homem (12,30)
, o que é seu principal fator limitante.
Para estabelecer de forma
clara o grau de lesão renal existente nesta patologia, acreditamos
que sejam necessários realização de avaliações
longitudinais para definir a história natural da doença;
estudos posteriores em pacientes na fase crônica da doença,
sem tratamento prévio; detecção de Ics circulantes
e Ag filarial em biópsia renal, para definir se existe reação
imunomediada da patologia.
Apesar de todos os questionamentos
levantados, a presença de hematúria e/ou proteinúria
na bancroftose, parece consistir uma das formas de expressão desta
infeção. Portanto, principalmente em áreas endêmicas
de filariose, torna-se importante pensar nesta patologia como diagnóstico
diferencial quando estas alterações renais são encontradas.
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