Dr.
José Roberto Coelho da Rocha, Ex-Professor Assistente da
Universidade Federal do Rio de Janeiro-RJ Professor de Nefrologia,
Instituto de Pos-Graduação Médica Carlos Chagas e
Chefe do Serviço de Nefrologia, Hospital da Beneficência Portuguesa,
RJ.
ARTIGO : Catastrophic
Antiphospholipid Syndrome: Clinical and and Laboratory Features of 50 patients.
AUTORES : Asherson, RA e
outros 11 autores, incluindo o Dr. Roger A. Levy do Hospital Universitário
Pedro Ernesto.
ORIGEM : Rheumatic Disease
Unit, University of Cape Town, South Africa; Systemic Autoimmune
Diseases Unit, Barcelona; Dept. of Internal Medicine, Hopital Pitié-Salpetrière,
Paris; Dept. of Nephrology, Hopital Tenon, Paris; Dept. of Internal Medicine,
Hopital Antoine Beclere, Clamart; Dept. of Pathology, UC Davis Medical
Center, Sacramento; The King’s Mill Centre for Health Care Services, Sutton-in-Ashfield
e Dept. of Rheumatology, UERJ, Rio de Janeiro.
TIPO : Artigo de Revisão
REVISTA : Medicine, Vol 77
: 195 – 210, Maio de 1998
RESUMO : Os autores
analizaram as características clínicas e laboratoriais de
50 pacientes com Síndrome Antifosfolipídica Catastrófica
(APS) (5 originais e 45 por meio de revisão via MEDLINE da literatura
de 1992 até 1996).
Trinta e três (66%)
dos pacientes eram do sexo feminino e 17 (34%) do masculino. Vinte
e oito (56%) tinham APS primária, 15 (30%) tinham Lupus Eritematoso
Sistêmico definido (SLE), 6 (12%) apresentavam uma síndrome
“lupus-like” e 1 (2%) tinha Artrite Reumatóide.
A idade média dos
pacientes nesta série foi de 38? 14 anos (11 a 74 anos). Três
(6%) dos pacientes desenvolveram o quadro clínico de APS com idade
abaixo de 15 anos, e 11 (22%) tinham 50 anos ou mais. Em 11 (22%), fatores
precipitantes contribuíram para o desenvolvimento da APS catastrófica
(infecção em 3, medicamentos em 3, pequenas cirurgias em
3, retirada de anticoagulação em 2 e histerectomia em 1).
A apresentação
da falência múltipla de órgãos foi em geral
complexa, envolvendo muitos órgãos simultaneamente ou em
um curto período de tempo. A maioria dos pacientes manifestou microangiopatia
– isto é, doença vascular oclusiva afetando predominantemente
pequenos vasos, varticularmente os rins, pulmões, cérebro,
coração e fígado –, com uma minoria de pacientes apresentando
somente oclusão de grandes vasos.
Trombocitopenia foi encontrada
em 34 (68%) dos pacientes, anemia hemolítica em 13 (26%), coagulação
intravascular em 14 (28%) e esquistócitos em 7 (14%).
Os seguintes anticorpos foram
detectados: anticoagulante lúpico (94%), anticardiolipinas (94%),
anti-dsDNA (87% dos pacientes com LES), antinuclear (58%), anti-Ro/SS-A
(8%), anti-RNP (8%) e anti-La/SS-B (2%).
Anticoagulação
foi utilizada em 70% dos pacientes, esteróides em 70%, plasmaférese
em 40%, ciclofosfamida em 34%, gamaglobulina IV em 16% e esplenectomia
em 4%. A maioria dos pacientes, no entanto, recebeu uma combinação
de terapêuticas não-cirúrgicas. Morreram 25 (50%) dos
pacientes.
Na maioria, problemas cardíacos
foram a maior causa de morte. Em muitos destes, insuficiência respiratória
também esteve presente, geralmente devido à síndrome
de angústia respiratória aguda e hemorragia alveolar difusa.
Entre os pacientes que receberam
a combinação de anticoagulação, esteróides
e plasmaferese ou gamaglobulina IV, houve recuperação em
14 (70%). O uso de ancrod e defibrotide pareceu eficaz nos dois pacientes
que foram assim tratados.
COMENTÁRIOS:
Este é um longo artigo cooperativo, que descreve as principais manifestações
da Síndrome de Anticorpo Antifosfolipídico. Esta síndrome
descrita inicialmente em pacientes com SLE, pode ocorrer em associação
com outras doenças autoimunes ou isoladamente, quando então
é chamada de primária.
A principal característica
da APS é a formação de trombos em pequenos e grandes
vasos, com consequente manifestação clínica de isquemia
da região afetada. A síndrome não poupa nenhum órgão,
mas os rins, pulmões, cérebro e fígado são
mais comumente afetados.
O diagnóstico desta
síndrome, quando suspeitada, baseia-se na demonstração
de anticorpos antifosfolipídicos circulantes.
Fosfolipídios são
uma clase de lipídios polares compostos de uma parte de fosfato,
uma ou mais moléculas de ácidos graxos e vários grupos
químicos esterificados à fosfato. Fosfatidilserina, fosfatidilinositol
e cardiolipina são exemplos típicos. A maioria dos fosfolipídios
é formada no fígado e estes funcionam principalmente como
elementos de suporte para as membranas plasmáticas.
Além disto, os fosfolipídios
são elementos críticos na cascata de coagulação.
No sistema extrínsico, se fazem necessários para a ativação
dos fatores IX e X e no extrínsico para a ativação
do fator X.
O mecanismo patogenético
da ação deletéria dos anticorpos anitfosfolipídicos
não é bem conhecida, mas sabemos ser necessária a
presença da glicoproteína beta2-GPI ou apolipoproteína
H como co-fator plasmático para permitir a ligação
destes anticorpos aos fosfolipídeos aniônicos.
Vários métodos
laboratoriais existem para identificação destes anticorpos.
O mais simples deles é a presença de VDRL “falso-positivo”
( paciente sem sífilis ), já que o material usado no teste
envolve uma mistura de cardiolipina e fosfatidilcolina.
Baseando-se na metodologia
laboratorial utilizada hoje, os anticorpos antifosfolipídicos podem
ser divididos em 2 grandes grupos: os anticorpos antilúpicos e os
anticardiolpinas (ACA). Estes anticorpos podem existir separadamente e,
concomitantemente, os dois grupos costumam estar presentes em somente 75%
dos casos, sugerindo serem classes de imunoglobulinas distintas que reconhecem
epítopes diferentes.
Os anticorpos antilúpicos
podem ser facilmente demonstrados pelo prolongamento do PTTa, devido à
inibição do fator X. Este teste é, no entanto, pouco
sensível por múltiplas razões e hoje prefere-se usar
o Tempo de Coagulação do Kaolin (KCT) e o Tempo de Veneno
de Víbora de Russel diluído (dRVVT).
Para a determinação
dos anticorpos anticardiolipinas atualmente usam-se métodos ELISA,
e podemos ainda determinar isotipos-especificos, tais como IgM, IgG e IgA.
Os resultados são expressos em unidades GPL / MPL . Para os isotipos
IgG e IgM, a recomendação é a seguinte: positivo baixo
(5-15 / < 6.0), positivo médio (15-80 / 5 – 50), e altamente
positivo (> 80 / > 50), respectivamente para IgG e IgM.
Existem falso-positivos para
IgM em pacientes com níveis elevados de IgM policlonal e também
falso-positivos para IgG em pacientes com títulos elevados de fator
reumatóide contendo IgG.
Quanto à terapêutica,
podemos verificar no resumo acima que não há consenso estabelecido.
Existe uma grande confusão na literatura quanto ao uso dos vários
anticoagulantes, embora praticamente todos os autores concordem que algum
tipo de inibidor da trombogênese deva ser utilizado. Corticóides,
plasmaférese e gamaglobulina têm sido usados com resultados
variáveis.
Deste modo, a Síndrome
de Anticorpo Antifosfolipídico, embora cada vez mais aparente na
clínica, necessita de maior padronização quanto à
terapêutica, e uma das vantagens do artigo em questão é
sua volumosa bibliografia (59 artigos), que pode servir de guia para quem
estiver interessado. |