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Volume 1- Número 4 - Ano I (Out/ Nov/ Dez 1998)

Sendo assim, é razoável supor que os mecanismos capazes de diminuir a hipertensão intraglomerular e a filtração glomerular podem beneficiar os pacientes portadores de doença renal crônica. Já se sabe, desde aproximadamente 70 anos atrás, que a proteína alimentar interfere na filtração glomerular. Estudos realizados na década de 20 mostraram isto nitidamente em ratos, mesmo com a limitação tecnológica da época. Há mais ou menos 14 ou 15 anos, o grupo do Brenner, incluindo Roberto Zatz, pôde demonstrar que realmente a proteína interfere na filtração glomerular e na velocidade de esclerose glomerular: o excesso de proteína alimentar acelera e a restrição da proteina alimentar protege os animais quanto à progressão de doença glomerular. Então, a restrição protéica experimentalmente beneficia os animais; isso não é nenhuma novidade e é conhecido, portanto, há muito tempo. Também os animais em que foram realizadas nefrectomias subtotais e, principalmente, aqueles com nefropatia diabética tiveram um aumento da sobrevida glomerular quando submetidos a dieta com restrição protéica. Este fato foi atribuído inicialmente à diminuição da pressão intraglomerular e da hipertrofia glomerular. Posteriormente, o próprio Zatz confirmou que os efeitos citados não se devem exclusivamente a fatores hemodinâmicos, como inicialmente se supunha, e talvez fiquem mais por conta da inibição dos fatores de crescimento citados aqui. Também foi demonstrado que a restrição protéica em animais com glomerulosclerose focal reduz a cicatrização glomerular nos mesmos, pelos mecanismos expostos. Isso então veio trazer então um novo alento para os pacientes e uma esperança para os nefrologistas, porque nós queremos fazer com que os pacientes renais crônicos tenham a sua função renal preservada pelo maior tempo possível. Vimos, na palestra anterior, outros fatores capazes de contribuírem com a preservação da função renal por mais tempo, mas vamos dizer que a dieta é mais facilmente acessível. helio4.jpg (27694 bytes)

A restrição protéica, também na síndrome nefrótica experimental, não prejudicou os animais e, ao contrário, até os beneficiou, pois ela diminuiu imediatamente a excreção de proteína, como se vê aqui; isso talvez porque a restrição protéica diminui rapidamente a pressão intraglomerular. Admite-se, em geral, que existe também uma diminuição de síntese hepática de albumina – embora outros autores tenham demonstrado o contrário - mas a massa total de albumina e a taxa de albumina sérica ficam preservadas ou até aumentadas. Então parece que a restrição de proteína no animal nefrótico beneficia este animal. helio5.jpg (32237 bytes)

Por que a proteina induz hiperfiltração glomerular? Aqui, ficamos com as teorias, e temos duas principais: uma, por causa de efeitos hormonais e outra, por efeitos intrarrenais. Os efeitos hormonais se referem principalmente a liberação de substâncias vasodilatadoras, como é o caso do glucagon, do fator de crescimento semelhante à insulina, das cininas. São fatores vasodilatadores.

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Os efeitos intrarrenais – próximo slide - talvez sejam mais importantes do que os efeitos hormonais nestes pacientes e o que acontece é mais ou menos o seguinte: quando um paciente recebe uma dieta com alto teor de proteina ocorre um acúmulo de aminoácidos filtrados do túbulo proximal; este acúmulo de aminoácidos filtrados ocasiona uma reabsorção aumentada de sódio no túbulo proximal por ação de co-transportadores sódio-aminoácidos, e, em consequência disso, a concentração de cloreto de sódio no filtrado diminui. A mácula densa vai perceber essa diminuição de cloreto de sódio e faz com que seja desencadeado o feedback túbulo-glomerular, que, por sua vez, aumenta a filtração glomerular. Então, todos estes fatores sugerem que o teor aumentado de proteina alimentar aumenta a filtração glomerular e, por conseguinte, a restrição de proteina pode diminuir a velocidade de filtração glomerular. 

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Uma preocupação que sempre existiu, quando se fala em restringir proteína dos pacientes renais crônicos, é a respeito da desnutrição que essa restrição protéica pode gerar. No entanto, alguns autores, desde 1991, vêm procurando demonstrar que a restrição de proteína no renal crônico não significa necessariamente indução de desnutrição protéica, mesmo quando esta redução chega a ser extrema, em torno de 0.3 g/Kg/dia (neste caso acrescida de aminoácidos essenciais). Eles procuraram demonstrar que a dieta hipoprotéica não põe o paciente em risco de uma desnutrição crônica a longo prazo. O relatório final do MDRD (Modification of Diet in Renal Disease) parece confirmar isto em parte. MDRD é um estudo multicêntrico que vem sendo realizado nos Estados Unidos desde 1991 e vem acompanhando pacientes renais crônicos com modelos diferentes de dieta. Suas conclusões até agora indicam que a restrição protéica não prejudica tanto o paciente do ponto de vista nutricional. Nós vamos voltar a isto daqui a pouco. helio8.jpg (25946 bytes)

Mais ainda, Ikizler publicou em 1995 uma observação interessante: ele acompanhou 90 pacientes com insuficiência renal com graus diferentes de perda de função durante dois anos e pôde verificar que os pacientes que tinham uma função renal relativamente boa, com clearance de creatinina acima de 50 ml/min, ingeriam espontaneamente uma quantidade normal ou até alta de proteina. À medida que a função renal vai caindo, a ingestão protéica diminui espontaneamente, de tal modo que o paciente que tem insuficiência renal terminal come pouca proteína, cerca de 0.5 g/Kg de peso por dia. Isto ocorreu espontaneamente, repito, pois os pacientes não foram orientados a reduzir a ingestão protéica. Supõe-se que a restrição espontânea de proteína se deve em parte à anorexia que a uremia acarreta nos pacientes, mas este fato pode ser interpretado também como mecanismo de defesa do organismo; é como se a própria natureza tomasse esta providência, a fim de preservar por mais tempo a função glomerular. Esta segunda hipótese é a mais defendida pelo pessoal que gosta de restringir proteína nos renais crônicos. A primeira hipótese, de que na verdade o fato reflete apenas uma diminuição do apetite do renal crônico, é a mais adotada pelos opositores da dieta. Fica então esta dúvida no ar. 

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