III Encontro Mineiro de Nefrologia
Uberlândia - MG - Brasil
21-22 de Maio de 1998
Nota
do Editor:
Por
ser um texto transcrito de uma aula e portanto com edição
final, o autor poderá modificá-lo, de acordo com sua conveniência,
à qualquer momento. Para tanto basta enviar e-mail com as correções
que achar necessárias.
A
NEFROLOGIA EM MINAS GERAIS:
PASSADO,
PRESENTE e FUTURO
Dr.
Eduardo Távora

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A nefrologia
mineira nasceu dentro da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Minas Gerais em Belo Horizonte. Por inspiração de três
ilustres catedráticos: Prof. Caio Benjamim Dias e dois urologistas:
Prof. José Silva de Assis e seu filho Prof. Aparício Silva
de Assis.
 
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Os
5 jovens, hoje já naturalmente velhos, que se interessaram
por nefrologia foram, por idade: O Dr. Roberto Paulucci, Dr. Douglas Andrade,
Dr. Lermino Pimenta, eu mesmo, o Abraão e o Dr. Maurício
Gataz Bárade, de Juiz de Fora.
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O Paulucci
se dirigiu ao Rio de Janeiro para fazer seu treinamento e o fez na Santa
Casa com o professor José Augusto Aguiar. O Douglas foi pra São
Paulo num serviço onde quase todos nós passamos, o serviço
do Prof. José Barros Magaldi, onde pontilhavam já: Israel
Lucas Varga, Messias Sabaga, Tito Ribeiro de Almeida e uma série
de nefrologistas pioneiros no Brasil.
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Herminio
Pimenta foi pra Bahia com professor Eunir Rocha no Hospital das Clínicas
Edgar Santos, eu fui pra São Paulo um pouco antes que o Abraão
e o Maurício. Posteriormente nós extendemos a nossa formação
no exterior. O Dr. Hermino no Hospital Ternon em Paris, na França,
com o professor Gabriel Richet e eu e o Abraão fomos pro mesmo serviço,
nos Estados Unidos com o professor Half Goldman. Três dos primeiros
nefrologistas mineiros são da mesma turma: o Douglas, o Hermínio
e eu. Nós todos fomos colegas de turma e nunca, durante a nossa
graduação, conversamos sequer sobre a possibilidade de ser
nefrologistas. De modo que foi uma coincidência bastante interessante.
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Eu
destaquei como marcos fundamentais da Nefrologia Mineira alguns acontecimentos:
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A valorização
do exame de urina. O exame de urina chegou a ser descrito como biópsia
renal não invasiva e realmente o é. O exame do sedimento,
que é um exame basicamente qualitativo, deveria ser muito mais valorizado
do que é por todos nós nefrologistas. O exame de urina restou
como sendo um dos poucos com caráter artesanal
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A primeira
diálise peritoneal intermitente, foi feita por mim na noite de natal
de 1962, num paciente com a glomeronefrite rapidamente progressiva, um
adolescente. Esse diagnóstico foi feito por biópsia cirúrgica
feita pelo professor Silva de Assis. A técnica de diálise
era mais ou menos a mesma que a gente utiliza até hoje, exceto a
duração dos banhosque era maior do que agora. Mas de modo
geral não mudou muita coisa não. A primeira hemodiálise
foi feita por mim e pelo Abrão num aparelho que vou mostrar pra
vocês no próximo diapositivo. Foi o primeiro aparelho que
nós recebemos em Minas Gerais:

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É
difícil acreditar que isso é uma máquina de diálise.
Vocês vejam aqui, ela tinha um tanque de 120 litros, não tinha
bomba de circulação do líquido diálise. O líquido
ficava estacionado e depois de 2 horas ou 4 horas de diálise, a
trocava se por um banho novo. O banho ia se saturando de solutos e essa
lâmpada o aquecia. Havia também uma entrada de óxido
de carbono pela lateral do aparelho, afim de manter um padrão de
pH no líquido fazendo com que o bicarbonato pudesse ser usado juntamente
com cálcio sem muitos problemas. Eu ontem perguntei ao Abrão:
Você se lembra se esse aparelho tinha máquina de circulação
de sangue? Eu tenho quase certeza que não. Ele também ficou
na dúvida porque o que impulsionava o sangue era a pressão
arterial do paciente. Ele não tinha nem uma bomba de mover sangue.
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Não
haviam filtros como a gente vê hoje. Havia um selofane enrolado em
espiral e consumia um prime muito grande. Muitas vezes a gente tinha que
utilizar sangue, do banco de sangue, para encher o aparelho antes de começar
a diálise.
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Apesar
da fístula Bresccia ter sido desenvolvido em 1962, ainda em 1965
nós não a utilizávamos. Usamos isso aqui: o
Shunt de Scribbner. O shunt é o mesmo qur uma fístula ateria
venosa só que ela é externa, feita fora do braço do
paciente, ao passo qua as atuais fístulas são internas. Era
um problema sério porque o índice de coagulação
era imenso. Mas a grande importância desta fístula, desse
shunt, foi que ele permitiu pela primeira vez que se dializassemos doentes
renais crônicos.
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Aqui
já é um modelo um pouco mais avançado, já tinha
bomba para o sangue e o coil era colocado dentro desse banho aqui. Já
se tinha mais monitorização.
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O primeiro
transplante de rim foi em 1969, no dia 19 de dezembro. Mais uma vez nós
dois nefrologistas eu e o Abraão estávamos totalmente envolvidos.
O paciente era meu e continua sendo meu paciente até hoje. E o fato
histórico importante é que nós conseguimos desde essa
época uma vitória. Foi a primeira grande vitória da
nefrologia brasileira, virar o transplante para o nosso lado, traze-lo
para a nefrologia. Quem frequenta Congressos Internacionais de Transplante,
sabe que no mundo inteiro o transplante está nas mãos de
duas categorias de profissionais: os cirurgiões e os imunologistas.
Nefrologista não se mete com transplante, ou melhor, não
se metia até recentemente em lugar nenhum do mundo.
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No
Brasil, começando com Sabbaga e continuando comigo, com Musselim
e uma série de outros transplantadores já veteranos. Nós
conseguimos manter o transplante nas nossas mãos. O que foi muito
importante. Isso talvez se deva ao fato de que a formação
do cirurgião brasileiro, a meu ver, é muito deficiente na
parte clínica. Então ele se completam conosco, com os clínicos
nefrologistas, no sentido de melhor conduzir os seus transplantes. Eu acho
que está perfeitamente certo isso, foi uma medida muito boa.
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A primeira
biópsia percutânea, esse fato o Abrão provavelmente
nem se lembra, ele fez em 1972. Ele havia chegado dos Estados Unidos em
71, e em 72 ele biopsiou uma paciente de nome Neuza que estava na enfermaria
de urologia. A razão pela qual o Abrão conseguiu aprender
a fazer biópsia nos Estados Unidos e eu não se deve provavelmente
por uma questão de empatia. Ele aprendeu a biopsiar com o (
nào temos o nome correto, favor entrar em contato com Med On Line)
que era um indivíduo particularmente simpático a ele e antipático
a mim. Acho que a recíproca era verdadeira. Ele nunca nem sequer
me chamou para ver uma biópsia, mas para Abrão ele ensinou
(risos
na platéia)
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A primeira
CAPD é bastante mais recente, foi feita em 1982 no Instituto Mineiro
de Nefrologia pelo Dr. Valério Rodrigues.
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No
decorrer da evolução da Nefrologia, nós tivemos a
meu ver 3 acontecimentos que merecem a pena ser divulgados na história
da Nefrologia Mineira:
O
primeiro foi a fundação da Regional da Sociedade Brasileira
de Nefrologia em 1965. Portanto pouco tempo depois da Fundação
da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Tivemos vários presidentes,
alguns que repetiram seus mandatos, como o Paulo Lúcio, Hermino,
Euler, Valério, mas eu gostaria de acentuar que somente a partir
das duas últimas gestões, do João Milton e do José
Augusto Menezes, realmente o Departamento de Nefrologia está ganhando
características mais profissionais, mais sindicais e mais corretas.
A gente nota uma grande melhora;
Outro
acontecimento, também importante, foi a criação da
Nefrologia Pediátrica, cuja representante Dra. Eleonora está
aqui presente.A nefrologia pediátrica surgiu a partir de uma clínica
criada pelo Dr. José Silvério Santos Vinícius;
E,
finalmente, o Minas Gerais Transplantes (MG Transplantes). Criado pelo
secretário estadual de saúde, José Saraiva Felipe,
por inspiração do Abraão, que aliás foi o primeiro
coordenador do núcleo. Ele ficou à frente do MGT durante
5 anos. Posteriormente fiquei 1 ano e atualmente o Dr. João Carlos
de Oliveira assumiu. O Dr. Herculano Salazar é o Diretor Geral do
MG transplante há bastante tempo. O MGT é um órgão
difícil de se analisar. Comentava hoje, durante o almoço,
que há muita coisa errada nessa discussão de transplantes.
Eu acho que a gente deveria parar de falar em lei de transplante e começar
atacar o problema onde realmente ele existe. Não se transplanta
no Brasil, porque não há uma atitude profissional em relação
à procura do doador, mas isso é um outro assunto.

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Esse
é o primeiro paciente transplantado de órgãos e tecidos
do estado de Minas Gerais. Seu nome é Osvaldo Pinto da Cunha ( nessa
época ele tinha 32 anos), essa fotografia foi tirada dentro do CTI
do Hospital das Clínicas.
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Recentemente,
o Abraão promoveu essa reunião de confraternização
no Hospital das Clínicas com a atual e a primeira equipe de transplantes
de Minas Gerais. Vocês podem ver aqui embaixo: o paciente receptor,
ao seu lado o Prof. Aparício Silva de Assis e ao lado dele o Abraão.
Essa é a esposa do paciente. Esse foi o anestesista da doadora,
Dr. Geraldo Bercó. Aqui o Prof. Adelmo, hoje é professor
titular da cadeira de urologia e na época era assistente do Prof.
Aparício. Aqui o Dr. Olinto Távola Correa, meu parente, e
que foi o imunologista da época, (na realidade não havia
muita imunologia a ser feita, mas ele levava o sangue pra certos estudos
imunológicos em São Paulo e tinha talvez a tarefa mais árdua).
E aqui, Dr. Lights Magalhães da Rocha, urologista. Aqui Humberto
Julião e Celso, os dois enfermeiros chefes da sala. Essa é
uma fotografia que necessariamente vai ter que ser guardada com muito carinho,
porque mostra quem foram os responsáveis pelo começo de tudo.
Há três ausências notáveis aí: Primeiro
da doadora que faleceu três anos atrás, o anestesista da receptora,
Dr. Othon Lima, que morreu também há cerca de 5 anos e o
Dr. Ricardo Pereira de Souza, cirurgião cárdio-vascular,
que nunca comparece a essas cerimônias e eu não sei o porque.

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Durante
a evolução da Nefrologia nós tivemos alguns cargos
executivos: o Prof. Caio Benjamim Dias foi o primeiro mineiro a atuar na
presidência da SBN em 64. Eu fui o segundo em 84 e 86. Eu considero
dois títulos também de muita importância da nossa nefrologia
os dois seguintes: Presidente do Conselho Deliberativo do Conselho Fiscal
da SBN em 86 e Membro do Primeiro Conselho Deliberativo da ABTO, quer dizer,
quando a ABTO foi fundada eu e o Prof. Lauro Brandina, do Paraná,
fomos eleitos num plenário para representar a Nefrologia. Haviam
nomes ilustres nesse Conselho: o Prof. Zervina, Adib Jatene, Silvano Raia
etc.
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Em
1980 recebi uma medalha, das mãos do governador Francelino Pereira,
do mérito científico Carlos Chagas. Em 1995, Dr. Euler Lasmar
se tornou o primeiro nefrologista membro da Academia Mineira de Medicina.
Isso não é um título dado, o indivíduo precisa
ter algumas características: 50 anos de idade ou mais, deve defender
um trabalho científico perante uma comissão.

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Eu
achei muito difícil trazer para esse Congresso toda produção
científica da Nefrologia Mineira, porque não haveria tempo
suficiente para fazer isso. Então eu deixaria muita coisa não
citada e provavelmente citaria alguma coisa que não fosse devida.
Gostaria de enviar a todos nefrologistas de Minas um formulário
para ser preenchido. Nesse formulário os colegas diriam se são
autores ou co-autores de livros, monografias, teses, participação
em reuniões científicas na forma de temas livres, mesa redonda,
debate, etc., tudo que o indivíduo participou e isso é relativamente
fácil de fazer. Todo mundo tem um currículum, é só
consultar o currículum e mandar para gente. Eu não sei se
na prática vai funcionar, mas me pareceu uma idéia razoável
de ser levada a frente, vamos ver se a gente consegue. Fazendo isso nós
vamos ter uma avaliação da produção científica
da nefrologia em Minas

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Chegamos
ao final de1997 com 69 centros de hemodiálise e 164 nefrologistas.
Tirei estes dados do Guia Brasileiro de Nefrologia. No interior 115 nefrologistas.
Eu fiz um destaque para duas coisas: centros universitários e nefrologistas
titulados.
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Os
centros universitários tem a vantagem, ou devem ter a preocupação,
de formar mestres e doutores. Nesse particular, me parece que Juiz
de Fora está um pouco na frente da gente. Em Minas temos 40% de
titulados. Eu tive a curiosidade de comparar com 5 maiores estados em populção
do Brasil e vi que nós estamos muito bem situados. Na nossa frente
só existe o Paraná com 41% e estamos junto com São
Paulo 40%, Rio Grande do Sul vem com 25% e o Distrito Federal e Rio de
Janeiro com 20%. Então, o nefrologista mineiro está muito
bem situado em termos de qualidade do seu trabalho.

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Qual
é o balanço então da nefrologia mineira?
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Balanço
é positivo: o número de centros, o número de nefrologista,
qualidade do nefrologista e a nefrologia pediátrica. Nós
temos uma qualidade de hemodiálise muito boa que foi demonstrado
pelo Dr. João Miltom há dois ou três anos atrás,
uma qualidade excelente em CAPD e transplantes.
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Balanço
negativo: O que que aconteceu com a nossa especialidade? Você hoje
não tem, nem aqui e nem nos Estados Unidos, interesse grande dos
jovens em fazer nefrologia. Portanto temos que tomar cuidado com esse problema
e procurar analisá-lo.

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Em
1986 Frederic Pool publicou pela primeira vez as síndromes renais.
Esse era o universo que o nefrologista tinha para atender: doente de síndrome
nefrite aguda, síndrome nefrótica, anormalidades urinárias
assintomáticas, insuficiência renal aguda, insuficiência
renal crônica, túbulopatias, infecção do trato
urinário, nefrolitíase, uropatias obstrutivas e hipertensão
arterial. Subdividi essas síndromes, daquela época, em dois
grupos: a síndrome genuinamente renais (em amarelo) e as mistas.
Com o tempo vejam o que ocorreu: as túbulospatias dividimos com
os pediatras e por uma razão muito simples, eles tratam de crianças
(e criança não é miniatura de adulto, é um
ser bastante diferente). Essas três outras: infecção
do trato urinário, nefrolitíase e uropatia obstrutiva a gente
tem que dividir e divide até hoje com o urologista. A litíase
tem sido mantida através principalmente do Nestor Shor, que tem
batalhado muito por isso e em nosso estado pelo José Augusto Menezes.
A hipertensão arterial lamentavelmente é dividida com os
cardiologistas. Aliás as doenças cardíacas não
dão hipertensão, elas dão hipotensão e até
choque cardiogênico. Mas porque os cardiologistas dividem a hipertensão
com os nefrologistas?
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Porque
eles são muito mais velhos do que nós e começaram
muito antes. Mas, mesmo assim, a Sociedade Brasileira de Nefrologia, através
dos chamados hipertensólogos de São Paulo tais como: Décio
Minon, o Artur e em Minas Gerais o Abraão, esta conseguindo avançar
um pouco e estabelecer um certo equilíbrio.
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Passaram-se
os anos, doze anos, e vejam o que que "sobrou" pra nós nefrologistas:
"sobrou" insuficiência renal crônica, assim mesmo azotênica
porque se não tiver uréia e creatinina elevada também
não chega até nós. Eu levei um choque há cerca
de 3 anos. Estava num congresso em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
De repente, me disseram que tinha chegado o dono de um centro de diálise
na baixada fluminense. Era um cidadão muito alegre, bem disposto
e bastante falador. Eu era o único médico e pensei: graças
a Deus chegou um companheiro de profissão aqui ! Fui até
ele e estendi a mão: O meu amigo, muito prazer, eu sou o Dr. Eduardo
Távola, eu sou médico também, sou interessado em diálise.
A resposta que ouvi do 'colega' foi: não, eu não sou médico,
eu sou advogado ! Eu fiquei horrorizado! Eu sabia que tinha urologista,
cirurgião vascular, tinha muita gente envolvida em diálise,
mas advogado ainda não! (risos na platéia)
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Aí
eu começei a pensar: essas máquinas de diálise são
muito complicadas e daquí a pouco tem até engenheiro dono
de diálise e nós vamos ficar sem mesmo aquilo que restou
e provavelmente vai acabar a nefrologia do jeito que está indo.
O nosso mercado de trabalho tornou-se muito reduzido em pouco tempo.
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Outro
ponto interessante é a relação médico-paciente
e nessas horas a idade te ajuda muito. Vocês talvez não se
lembram, mas já houve época, em que uma pessoa adoecia e
ela procurava um médico! (risos). Esse paciente que adoecia
ou ele tinha recursos ou não. Na época, os sem recursos eram
chamados de indigentes. Mas o médico era um só, ele atendia
a ambos: atendia o rico e atendia o pobre. O paciente pobre, através
da santas casas, e era realmente uma fase romântica da medicina e
a nefrologia não era excessão. Mas isso acabou, com o tempo
acabou. E por que acabou essa relação médico-paciente
que era muito direta? A minha idéia do que aconteceu foi o seguinte:
o primeiro intermediário entre o médico e o paciente foi
o governo. Primeiro na forma dos chamados IAPs, havia o IAPB, IAPC, IAPI
...etc, e era uma primeira forma de convênio de alta gestão,
que dizer, o empregado daqueles institutos tinha direito a um acompanhamento
médico. Quando se criou o INPS se juntaram todos os IAPs e o INPS
já ficou uma coisa mais organizada, mas ainda mantinha a responsabilidade
sobre as pensões, as aposentadorias e os serviços de saúde.
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Quando
surgiu o INAMPS isso foi dicotonizado e do INAMPS surgiu o SUS que descentralizou
completamente esses serviços. O que que aconteceu de bom pra nós
médicos? Nada. Foi um arraso. Mas paro paciente eu acho que foi
uma grande vitória.
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O paciente
que antes dependia da caridade do médico hoje ele é sustentado
oficialmente pelo estado. Eu diria que o SUS é o convênio
dos pobres, a UNIMED é o convenio da classe média e os convênios
de alta gestão ou mercantilistas, esses são os convênios
da classe média alta e dos ricos. Pacientes particulares praticamente
não existem. Então, na minha opinião, isso foi muito
bom para o paciente, foi uma medida de grande alcance social mas pra nós
foi um grande desastre. Porque?

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Eu
acho que, essas são algumas das coisas que me vieram à cabeça:
Limitações de cobertura. Nós nefrologistas ficamos
de fora. Hemodiálise e transplante ficaram fora dos convênios
de alto gestão e mercantilistas. Ficamos com o SUS que tradicionalmente
sempre pagou muito mal;
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Preço
do trabalho médico estabelecido pelo intermediário. Isso
é uma violência tremenda contra a individualidade, contra
a cidadania e tudo o mais que vocês possam imaginar;
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Limitação
de pagamento na forma das famosas glosas é outra coisa que realmente
é impossível você suportar;
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Limitações
do número de pacientes a tratar, essa é a nova moda que o
SUS implantou: os tetos;
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Escolha
do centro de tratamento. Aconteceu em Belo Horizonte um fato curioso: o
SUS apresentou uma proposta de contrato com os hospitais, absolutamente
inaceitável sob todos os pontos de vista. Praticamente o hospital
passa a ser um centro do SUS, o SUS contrata o médico, atende paciente
e paga o que quiser. Dizem que dois hospitais em Belo Horizonte firmaram
contrato com o SUS nestas condições: a Santa Casa e o Hospital
da Baleia. A partir daí os doentes são mandados exclusivamente
pra esses dois centros e os outros, mesmo com vagas, não recebem.
Esse é um problema sério. Dr. José Augusto está
tratando pessoalmente com o prefeito de Belo Horizonte e eu espero que
tenha bom sucesso.
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Limitação
de credenciamento é outra coisa esquisita. Isso se deve principalmente
a UNIMED. Como é que nós poderíamos ter defendido
isto?

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Nós
temos teoricamente três forças: Sindicato, AMB e filiadas
e lobby político.
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O sindicato,
e minha opinião coincide com a expressa por um sindicalista na Veja
há cerca de 2 meses onde ele disse que, no dia em que o governo
parar de entregar aos sindicatos o imposto sindical, os sindicatos do Brasil
acabam. Isso traduzido em miúdos significa que os dirigentes de
sindicato se locupletam daquela verba de uma maneira ou de outra. Eu não
quero dizer que isso ocorra com o sindicato médico de Minas Gerais,
mas ele é dominado, desde o início pela esquerda mais radical
do PT. São indivíduos que até agora acham que a única
solução para medicina brasileira é a completa estatização.
No momento em que está todo mundo privatizando. Eu não tiro
de certa forma a razão deles porque a saúde e educação
são prioridades que deve existir dentro do estado brasileiro. Mas
não são as únicas e esse não é um modelo
pra resolver problema de saúde, de tal maneira que eu acho que o
nosso sindicato nunca foi de nenhuma utilidade para nós, exatamente
por esse motivo.
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AMB
e a SBN, eu vou contar pra vocês, vou fazer segunda Inconfidência
Mineira, a primeira foi com Tiradentes a segunda foi conosco. Em 1983 eu
era vice-presidente da SBN e houve uma rebelião dos centros nefrológicos
do Brasil capitaneados pelo Rio de Janeiro. Eles exigiram explicitamente
a saída do Prof. Sabbaga. A sociedade ia rachar naquela época,
mas por interferência do Sérgio Stella, que é um 'mineiro'
politicamente muito hábil, acabou convencendo o Prof. Emil que ele
tinha que sair, mesmo que temporariamente, para que eu assumisse. Eu tinha
menos arestas do que ele...e realmente eu assumi. A primeira missão
que me deram foi a de ir ao Rio de Janeiro e conversar com o então
presidente do INAMPS, o cirurgião Aloízio Sales Fonseca.
Na minha opinião este médico acabou com nós nefrologistas
definitivamente. Ele simplesmente nos atacou pessoalmente e mais tarde
foi à televisão e esculhambou com o nefrologista brasileiro.
Eu telefonei para casa dele a noite e falei: Professor, eu fiquei muito
admirado com a sua coragem de fazer isso, mas eu vou entrar com a
representação no Conselho Regional de Medicina aqui do Rio
e o senhor vai ter que se explicar.
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Ele
ficou meio assutado e falou: mas o que é que você quer que
eu faça? Eu quero que o senhor se retrate, afirmei. Ele respondeu:
mas eu não estou me retratando com você? Respondi: Mas não
foi comigo que o senhor esculhambou não, o senhor foi numa emissora
de televisão aqui do Rio de Janeiro. Ele disse: como é que
você quer que eu me justifique. Então ele foi ao Globo e fez
uma retratação. A coisa terminou aí? Não. Eu
tive que ir a Brsília conversar com o Ministro Jarbas Passarinho
da Previdência Social. Jarbas me recebeu da seguinte maneira: "O
senhor sabe que está representando um clube, clube de médicos?.
Eu falei: sei sim senhor! Ele repetiu aquilo umas 4 vezes, na quarta vez
eu me enchi e disse: Mas o senhor também deve estar ciente que o
senhor não é médico e portanto o senhor não
pode dialogar comigo sobre assuntos que o senhor não entende! Eu
esperava ser preso pela segunda vez por ele, porque quando ele foi comandante
da cavalaria em Belo Horizonte ele me prendeu uma vez. Passarinho chamou
o secretário dele, Jordam Frejak, hoje é deputado federal
pelo Rio, e com Jordam Frejak eu consegui pela primeira vez uma vitória
da SBN no sentido dela acatar os preços que a diálise estava
pedindo.
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Fizemos
isso e acertamos o número de médicos em relação
aos pacientes. Desde então eu fiquei com a imprenssão, que
tenho até hoje, que a nossa força política é
zero, a nível nacional. Hoje eu estou vendo que no nível
regional, no nível municipal, nós estamos obtendo algum sucesso.
Eu quero dar o meu testemunho do esforço que o José Augusto
tem feito no sentido de procurar as autoridades competentes afim de discutir
problemas e talvez por aí a gente consiga mais alguma coisa. Ou
então fazer uma bancada de médicos, médicos atuantes
no Congresso (existem atualmente quase 70 médicos inclusive
o Antônio Carlos Magalhães). Se cada estado brasileiro, onde
existe nefrologia, elegesse um deputado federal, nós faríamos
uma bancada forte.

Eu
acho que isso aí responde muita coisa do que eu falei agora. Eu
no momento acho completamente incapacitado fazer um prognóstico
sobre o futuro da nefrologia brasileira. No entanto acho também
que nós devemos continuar lutando pra que esse serviço caminhe.
Eu tenho certeza que todos vocês devem ter um ou outro caminho e
poderão contribuir muito pra essa discussão. Era isso que
eu queria dizer a vocês. Muito obrigado.
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