III Encontro Mineiro de Nefrologia
Uberlândia - MG - Brasil
21-22 de Maio de 1998
Nota
do Editor:
Por
ser um texto transcrito de uma aula e portanto com edição
final, o autor poderá modificá-lo, de acordo com sua
conveniência,
à qualquer momento. Para tanto basta enviar e-mail com as correções
que achar necessárias
Infecção
do Trato Urinário na Infância: Estudo do trato urinário
por imagem
Prof. Valéria
Bonetti
Ao diagnosticarmos infecção
urinária na criança, temos a responsabilidade como pediatra,
através de cuidados médicos, prevenir ou retardar a possível
perda de função renal. Portanto é importante que o
diagnóstico de ITU seja estabelecido corretamente, para não
submetermos a criança e seus familiares à condutas
inadequadas, gerando ansiedades, custos financeiros, e agressões
desnecessárias.
O diagnóstico das
patologias obstrutivas do TU na criança se faz na maioria das vezes
através da infecção, sendo portanto ela, um elemento
importante de triagem de alterações funcionais ou anatômicas
do trato urinário. A apresentação clínica da
infecção é variável conforme a idade. Os quadros
mais graves de infecção tendem a ocorrer nos recém
nascidos e lactentes nos primeiros três meses de vida.
A infecção
com freqüência atinge o rim, por invasão direta ou secundária
à septicemia. Já os lactentes fazem pielonefrite com freqüência
por apresentarem imaturidade no controle miccional ou por associar-se com
maior freqüência ao refluxo vesicoureteral ou patologias obstrutivas
do trato urinário.
Já nas crianças
maiores, meninas na faixa etária escolar, que já estão
com o trato urinário desenvolvidos fisiologicamente, fazem infecção
urinária, muitas vezes de caráter recorrente, mas com muito
menor freqüência apresentam envolvimento do parênquima
renal. O grande contingente, no qual devemos estar atentos, são
os lactentes que estão na fase de aquisição de maturidade
do trato urinário e mais ainda, estão no momento de se estabelecer
diagnósticos de patologias obstrutivas congênitas. É
este grupo aqui, que com grande freqüência vai ter pielonefrite
e nós temos que estar alerta para poder preveni-lo de outras lesões
secundárias do parênquima renal.
Sem dúvida qualquer
anormalidade funcional ou estrutural do TU compromete a resistência
da criança e predispõe à ITU, portanto a avaliação
do trato urinário através de imagem se faz necessária.
O que nos interessa do ponto de vista prático? Se eu vou estudar
o trato urinário, a pergunta é: Quando indicar, quais os
exames a serem realizados e qual a melhor seqüência dos exames
?
O exame de imagem deve responder
sempre: há refluxo? Se há, qual o grau? A bexiga tem tamanho,
forma e função adequadas? Existe obstrução?
Qual o grau? Tem lesão renal? Qual a extensão? Qual a função
de cada unidade renal? É lógico que nenhum exame isolado
vai responder a todas essas questões. Então nós vamos
ter que usar o nosso conhecimento em relação a infecção
urinária, a epidemiologia da infecção urinária,
e o que nós estamos buscando em cada criança, para protegê-la.
No ambulatório de
Negrologia do Hospital de Clínicas da UFU, fazemos avaliação
da imagem da seguinte maneira: orientamos que em toda criança, na
sua primeira infecção urinária diagnosticada, se faça
ultra-som de abdome. O ultra-som de abdome é hoje um exame muito
confiável, não é invasivo, relativamente fácil
de ser conseguido e evidencia aspectos anatômicos com muita tranqüilidade.
O ultra-som bem feito nos ajuda muito a triar, principalmente crianças
de maior risco de lesão renal. Nós fazemos ultra-som em todas
as crianças independente da idade, independente do sexo. Quando
é menina e é maior que 5 anos a morbidade dos episódios
é menor, fazemos só ultra-som e o seguimento clínico
dessa criança. Então ela fez ultra-som, é menina,
tem mais de 5 anos e está bem, só seguimento, mas se nós
tivermos um ultra-som de abdome normal, mas é menina menor que 5
anos de idade ou é menino em qualquer idade, considerando que o
sexo masculino é fator de risco na infecção urinária,
nós fazemos o que? Uretrocistografia miccional sempre e o DMSA quando
é possível.
Na instituição
na qual trabalho a cintilografia não é possível rotineiramente,
falarei depois, mais tarde, mas de qualquer maneira, uma criança
menor que 5 anos do sexo feminino, ou menino em qualquer idade, com ultra-som
normal, vai ter que fazer uma
uretrocistografia miccional.
O que quero com essa uretrocistografia miccional? Quero saber o seguinte:
o trato urinário inferior é normal? Existe alteração
de bexiga? Ele tem alteração de uretra? Não apresenta
refluxo? Ótimo. Essa criança vai ser seguida clinicamente.
Mas, se por outro lado, essa criança mostrar que tem refluxo vésicoureteral,
é importante do ponto de vista de seguimento saber se é primário
ou secundário e o grau do refluxo.
Outro grupo de crianças,
em torno de 10 à 15%, vai se apresentar com patologias obstrutivas
associadas ou não ao refluxo secundário. No nosso serviço,
o refluxo foi encontrado em torno de 40 % das crianças que tinham
infecção urinária. Aquelas crianças que tinham
refluxo ou patologias obstrutivas foram avaliadas do ponto de vista de
trato urinário superior com urografia excretora. O ideal atualmente,
em vários serviços, é que se faça a cintilografia
com o DMSA e com DTPA, mas no nosso serviço não é
disponível de rotina.
O grau de refluxo deve ser
estabelecido segundo a classificação do Sistema Internacional
de Estudo do Refluxo. O grau varia de 1 a 5, e é lógico que
os graus 1 e 2 , mesmo em vigência de infecção, raramente
são responsáveis por perda importante de função
renal na criança, porém devem ser seguidos. O grau 5 é
sempre importante,no
nosso serviço ele
é sempre cirúrgico. Nos graus 3 e 4 nós temos
alguns casos em seguimento clínico com quimioprofilaxia e seguimento
radiológico anual. É tendência no nosso serviço,
principalmente no refluxo grau 4, dividir responsabilidade com o colega
cirurgião. Se ele acha que a família tem condições
de fazer quimioprofilaxia, tratamento clínico, nós o fazemos,
se achar que é mais prudente a conduta cirúrgica, levando
em consideração desde a relutância da família
até os cuidados básicos com a criança, nós
acatamos. Normalmente nós fazemos no primeiro, segundo e terceiro
graus o seguimento clínico, com controle radiológico
a cada 12 a 18 meses. O grau 5 é sempre cirúrgico.
Eu gostaria de chamar a atenção
que o refluxo é o grande vilão quando se fala em infecção
urinária, ele está vinculado a nefropatia de refluxo. Na
década de 80, demonstrou-se que a nefropatia de refluxo ou pielonefrite
crônica não obstrutiva ocorria quando a infecção
urinária se associava com refluxo vesicoureteral e com refluxo intrarenal.
Vários estudos sugerem que o refluxo vesicoureteral ocorre em torno
de 1 a 2% entre as crianças nascidas vivas e este refluxo primário
está vinculado a imaturidade do trato urinário. Ele tende
a desaparecer e a melhorar com o crescimento. Essas crianças com
refluxo têm a possibilidade de terem irmãos com refluxo em
30% dos casos. Existe uma nítida tendência familiar cada vez
mais bem comprovada. Tem trabalhos mostrando que quando o pai teve refluxo
a chance do filho ter é em torno de 60%. O refluxo tende a desaparecer
espontaneamente em torno de 70 a 80%. O grau de desaparecimento está
vinculado principalmente com o grau de refluxo. O refluxo grau 3 tem uma
chance de desaparecimento em torno de 70%. O grau mais avançado,
que é o
grau 5, raramente desaparece
espontaneamente.
Se a nefropatia de refluxo
está vinculada a infecção urinária e está
vinculada ao refluxo vésicoureteral primário, eu tenho que
ter também o refluxo intrarenal. Então começaram a
estudar, e os suecos estudaram bem isso em material de necropsia, mostrando
que 4 a 15% da população pode ter refluxo intrarenal. Nesse
estudo ele mostrou que 2/3 dessa população tinha pelo menos
uma papila potencialmente refluente e neste grupo 1/5 tinha 30% ou mais
papilas potencialmente refluentes, ou seja, existe um grupo de pessoas
que vai ter refluxo vésicoureteral, vai ter refluxo intrarenal e
se tiver infecção urinária vai ter tudo para ter a
nefropatia de refluxo.
Lembrar que a papila que
possibilita o refluxo intrarenal é uma papila conhecida como papila
composta que faz com que a urina uma vez infectada possa refluir através
dos ductos coletores, lembrar que anatomicamente os tubos coletores desembocam
na papila de maneira oblíqua e a media que a urina se acumula na
pelve renal existe um mecanismo valvular fechando esses ductos coletores
e impedindo o retorno de urina para dentro do parênquima renal. Na
papila composta que é essa aqui, o que acontece? A urina, a medida
que vai enchendo a pelve renal reflui para alguns ductos coletores
que desembocam perpendicular à pelve renal, essa uma vez infectada
tem tudo para invadir o interstício renal e com isso lesar o parênquima.
Aqui eu gostaria de mostrar,
é uma uretrocistografia, demostrando um refluxo grau 1 discreto
sem grandes problemas, bexiga sem divertículo.
Aqui refluxo grau 2,
chega até na pelve renal, os cálices estão bonitinhos
e aqui seria refluxo grau 3, já um pouquinho dilatada a pelve, mostrando
os cálices invertidos.
Aqui o refluxo grau 2 para
3 e um refluxo grau 4 com dilatação e hipotonia e com a pelve
já alterada, distorcida. Aqui é um refluxo maciço
grau 5, esse aqui realmente a conduta nossa é cirúrgica sempre.
Aqui mostrando, eu tirei de um livro, mostrando a presença de refluxo
intrarenal, se eu tiver uma criança que tenha refluxo mesmo que
seja grau 2, grau 3, mas existe refluxo intrarenal a gente muda o prognóstico
dessa criança, tem que ficar atenta, então aqui a presença
de refluxo intrarenal no polo superior do rim e aqui um refluxo intrarenal
maciço atingindo uma área extensa do parênquima renal.
Aqui eu trouxe para mostrar,
é uma uretrocistografia de uma criança que tem uma bexiga
toda trabeculada, formando divertículo, uma duplicidade de ureter
com refluxo e uma dilatação da pelve renal importante.
Aqui um divertículo
vesical de uma criança que nós temos em seguimento. Lembrar
que quando a gente faz a uretrocistografia, não se deve esquecer
os sinais que podem sugerir disfunção vesical, tipo uma vez
desencadeada a contração muscular da bexiga, existe uma dilatação
da uretra posterior mas o esfíncter externo se mantém fechado,
então tem uma interrupção brusca sugerindo um dicinergismo
vesical.
Eu gostaria por fim de chamar
a atenção que quando eu tenho ultra-som alterado, e aí
não tem mais idade, não tem mais sexo, eu vou ter que investigar
mesmo todas as crianças. E vou investigar como? Com uretrocistografia
miccional e eu vou fazer urografia excretora direto É lógico
que quando temos uretrocistografia alterada ou ultra-som alterado, a urografia
excretora no nosso meio está indicada direto. Se eu puder fazer
a cintilografia, ótimo, eu farei DMSA e o DTPA.
Aqui uma urografia mostrando
um megaureter e a uretrocistografia aqui mostrando o megaureter associado
ao refluxo vésicoureteral, e aqui o refluxo é secundário.
Aqui a urografia excretora mostrando a disfunção e distorção
da pelve dos cálices, aqui mostrando um rim bem contraído,
bem alterado na sua forma, pelve bem destruída comparada com o outro
lado a esquerda.
Só para abordar, eu
tenho que encurtar um pouco, vou falar do DTPA e o DMSA que são
exames que hoje são indicados em quase todos os serviços,
nós aqui ainda temos dificuldades de realizá-los, mas acho
que valeria a pena. Um dos exames é o DTPA. É um radiofármaco
que é injetado, é completamente filtrado pelo rim,
não é reabsorvido praticamente e é eliminado. Ele
serve muito bem para mapear o fluxo urinário, então nos ajuda
a diagnosticar se há obstrução, se a ela é
total ou parcial ou se a obstrução é orgânica
ou funcional, conforme o padrão de resposta na eliminação
da radioatividade.
Normalmente quando se injeta
essa solução ela é rapidamente eliminada, numa curva
exponencial, quando eu injeto o diurético essa curva é paralela,
é semelhante. Então isso aqui é um padrão normal
de curva do DTPA. Quando o ureter está obstruído, o que vai
acontecer? Utilizando este radiofármaco, teremos o estudo da radioatividade
dessa
substância, e o que
que vai acontecer com ela? Ela não vai ser eliminada, vai manter
uma curva neste padrão. Como ele está completamente obstruído
eu posso até forçar a diurese com diurético potente
que essa curva não vai ser modificada. Quando eu tenho um ureter
com estase, ele não tem obstrução mas ele está
lento, o que que vai acontecer? A radioatividade vai ser medida através
de uma curva mais lenta e se eu der um diurético potente ele vai
ter uma queda abrupta, rápida, dando um padrão de curva dessa
maneira. E se houver uma obstrução parcial, o padrão
de radioatividade da curva vai ser observado desta maneira. Então
temos, conforme o padrão de curva de eliminação dessa
radioatividade, um diagnóstico, se o paciente tem obstrução,
se ela é anatômica ou funcional, se é total ou
parcial.
Aqui a fase angiográfica,
mostrando a aorta, o ventrículo esquerdo e o baço; aqui o
rim esquerdo e direito em 12 segundos.
Aqui mostra o aparecimento
do radiofármaco nas regiões renais e o tempo de eliminação
e o padrão de curva de cada um.
E aqui é o DMSA que
também é um ácido ligado ao tecnésio99 que
serve, diferente do DTPA, para mapear o parênquima renal. Uma vez
injetado, uma vez filtrado ele é reabsorvido pelas células
tubulares e acaba demarcando todo o parênquima renal. Ele é
muito sensível para diagnóstico de cicatriz renal,
lesão de parênquima renal tanto na fase aguda como na fase
crônica. Ele vai mapear bem através de radioatividade os dois
rins e pode, inclusive, nos fornecer a função diferencial
de cada rim em questão.
Aqui é um exame mostrando
uma cicatriz renal numa área que não reteve o contraste,
sem radioatividade, mostrando uma lesão de parênquima renal.
Aqui também está
mostrando cicatriz de parênquima renal a direita. Só para
chamar atenção, que o que importa na avaliação
do trato urinário por imagem é saber o que estou procurando
e o que vou poder fazer para esse paciente. Nós fazemos de
maneira geral ultra-som para todos, a uretrocistografia miccional sempre
em crianças menores de 5 anos de idade, urografia excretora toda
vez que o ultra-som estiver alterado ou a uretrocistografia e quando possível,
nós solicitamos o DMSA e o DTPA. Fazemos seguimento clínico
e radiológico naquelas crianças que tem refluxo vésicoureteral
e que estão em quimoprofilaxia. |