III Encontro Mineiro de Nefrologia
Uberlândia - MG - Brasil
21-22 de Maio de 1998
Nota
do Editor:
Por
ser um texto transcrito de uma aula e portanto com edição
final, o autor poderá modificá-lo, de acordo com sua
conveniência,
à qualquer momento. Para tanto basta enviar e-mail com as correções
que achar necessárias.
Terapia
Anti Hipertensiva e Retardo da Progressão da Doença Renal
Prof.
Dr. Abraão Salomão
Universidade
Federal de Minas Gerais, MG.
Agradecer
ao Dr. Sebstião a honra de estar presente na sua maravilhosa cidade,
cumprimentá-lo pela sua revista Med on Line que certamente é
o melhor fórum pra discussões de nefrologia neste país
e agradecer aos três componentes da mesa que me antecederam e que
vão tornar a minha tarefa muito fácil, pois acho que está
todo mundo plugado nas mesmas fontes de informação e certamente
a minha tarefa vai ficar um pouco atenuada.

A situação
que está todo mundo discutindo é a doença, o rim terminal,
o rim da insuficiência renal crônica, discutiram tanta coisa:
dieta, droga, tratamento de hipertensão arterial, prevenção
de doenças primárias e a realidade é que infelizmente,
como denotam número crescente de pacientes nas nossas unidades de
diálise, nós ainda não aprendemos a impedir que essa
situação venha ocorrer.

Eu
tentei depois de conversar ontem e hoje com os componentes da mesa alterar
um pouco os dados que eu ia apresentar pra que eu não me tornasse
extremamente repetitivo nessa apresentação. E eu consegui,
talvez com o material que eu trouxe, alguns dados que podem de alguma maneira
complementar o que foi dito e trazer alguns dados adicionais.

Eu
não sei se tá todo mundo familiarizado com o VI Joint, que
foi publicado em novembro de 97, mas tornou-se realmente um livro de hipertensão,
quem for fazer o "printer" dele retirando-o da Internet vai ver que ele
tem 79 páginas e passa de ensinamentos básicos, primários,
como é que se toma pressão, como é que se define quem
é hipertenso, a influência do jaleco branco e normas genéricas,
estudos de metanálise de todos trabalhos, quais tem valor e quais
não tem.

O Joint
trouxe algumas informações são interessantes. Ele
mostra por exemplo, a publicação é de novembro de
97, uma coisa muito interessante que foi o declínio acentuado que
aconteceu no número de pacientes que desenvolviam acidentes vasculares
nos Estados Unidos num período compreendido entre 71, 72 até
1994.

Em
todos os grupos estudados, homens brancos, homens pretos, mulheres brancas
e pretas, houve uma acentuada redução do número de
acidentes vascular cerebral, mas uma redução realmente,
bastante dramática, cerca de 50, 60%. Quem menos reduziu, são
os homens pretos, mas essa diferença também não é
estatísticamente significativa.

Também
foi muito boa a redução nos hipertensos de doença
coronariana. As doenças coronarianas nessas duas décadas
mostrou um decréscimo acentuado nos hipertensos que chegou a níveis
que hoje são considerados muito próximos do ideal. De novo
40, 50% de redução de doença arterial coronariana
nos hipertensos, isso tudo ajustado pra idade, sexo.

Contrapondo-se
a esses benefícios do tratamento da hipertensão, quer dizer,
diminuindo doença coronariana, diminuindo o número de acidentes
vasculares cerebrais, vejam vocês que a insuficiência cardíaca
não teve o mesmo perfil de redução. De 88 a 91 essa
linha, e de 76 a 80 o que se pode perceber é que a incidência
de insuficiência cardíaca relacionada com a hipertensão
têm aumentado, em absoluto contraste com o que está acontecendo
com acidente vascular cerebral e doença coronariana.

Mais
o mais dramático realmente é o que está acontecendo
com o desenvolvimento de nefropatia: o maior risco do hipertenso é
o desenvolvimento de insuficiência renal, dados de novembro de 97.
Quer dizer, a gente está ao tratar hipertensão conseguindo
resolver algumas coisas, mas nós não tamos conseguindo resolver
todas as coisas, insuficiência cardíaca nós não
estamos conseguindo resolver, vocês sabem melhor do que eu que a
coincidência de hipertensão com insuficiência cardíaca
é muito grande e nós não tamos também conseguindo
impedir que os hipertensos venham a desenvolver insuficiência renal.
O que torna-se um problema muito sério nos Estados Unidos por causa
da despesa que esse paciente portador de insuficiência renal apresenta
pro país.

Em
outras palavras, drogas mais modernas, uso de inibidor de eca, bloqueador
do canal de cálcio, medidas dietéticas, tudo isso não
está sendo bastante para freiar a ocorrência de insuficiência
renal crônica.

No
Joint existem pelo menos 3 períodos e eu resolvi analizar 2 deles:
entre 76 e 80 individuos que sabiam ser hipertensos eram de apenas 51%.
Entre 91 e 94 subiu pra 68%, que ainda é pouco, e é
incrível que até hoje nem todos hipertensos saibam que são
hipertensos. Sob tratamento eram 31% entre 76 e 80 e atualmente são
53,6% muito bom, quase que nós dobramos o número de pacientes
tratados, isso foi ótimo, diminuiu coronariopatia, diminuiu acidente
vascular cerebral, só não diminuiu insuficiência renal.
Dramaticamente o número de pacientes com PA controlada que era 10%
foi para 27,4%, (¾ dos pacientes hipertenso não atingem limites
que sejam denominados de controlados).

Controlado
para o Joint é paciente com menos de 140/90 de pressão. Eu
acho que nós todos concordamos que ainda que o paciente seja dócil,
que ele aceite bem a medicação, o fato da gente precisar
de dar mais de uma droga, ter que dividir droga por mais de uma vez por
dia, modificar estilos de vida, perder peso, diminuir a inatividade, diminuir
o sal da dieta, eu acho que são tantas as imposições
fazendo com que essa proporção de controlados, no total dos
hipertensos, ainda é pequena. Com isso, realmente, as lesões
em órgãos alvos continuam estabelecendo-se embora concordemos
todos que elas tem gradualmente reduzido.

Essas
altrações estruturais, todo mundo sabe, são hipertrofia
e hiperplasia da camada endotelial, principalmente da muscular lisa, remodelação
vascular, rarefação vascular, consequênte redução
do lúmem e isquemia tissular que seria, numa situação
extrema uma hiperplasia, hipertrofia grande da camada média
fazendo com que aquelas lesões de isquemia ocorram no organismo
inteiro.

A pessoa
vai perdendo massa glomerular, vai perdendo número de glomérulos
por lesão vascular isquêmica do hipertenso sem que ele se
aperceba disso até que, subitamente, vêm a dramática
notícia de que ele tá portador, que ele tem insuficiência
renal grave e que ele vai precisar de diálise.

Na
gênese da hipertensão da doença renal crônica,
vários fatores são imputados tais como a retenção
hidrosalina, uma inapropriada atividade do sistema reninoangiotensina aldesterona,
ativação do sistema nervoso simpático (talvez fator
preponderante), administração de eritropoietina e ausência
de alguns fatores vasodepressores medulares.
A relação
entre retenção de sódio e elevação de
pressão é clara. A retenção de sódio
expande volume, aumenta débito e por mecanismos de alto regulação,
a resistência periféria aumenta e junto o débito cardíaco,
isso infelizmente é ruim, mas acontece sistematicamente nos pacientes
já portadores de insuficiência renal.

A redução
da ingestão de sal torna-se então uma daquelas poucas medidas
imperativas para tratar hipertensão, para profilaxia desse quadro
dramático de insuficiência renal, porque quando o indivíduo
tem insuficiência renal a modificação da ingestão
de sal de 20 mEq por dia para 120mEq, sistematicamente, aumenta muito a
pressão arterial. Já nos indivíduos que tem a função
renal normal essas modificações na ingestão de sal
praticamente não alteram o nível de pressão arterial.

Das
doenças que se tenta fazer profilaxia, das doenças que se
tenta impedir que evoluam para insuficiência renal, destaca-se, entre
elas, a nefropatia diabética cujo principal fator de risco ainda
é o mal controle glicêmico. Os suecos estão mostrando
isso muito bem, mas infelizmente várias outras coisas acontecem
sob as quais a gente ainda tem pouca maneira de atuar, por isso que a incidência
de insuficiência renal tem aumentado também muito nos diabéticos.
O mesangio se expande, ativam-se várias citocinas, ativa-se a proteína-quinase
C, hemoglobina glicosilada em níveis aumentados, ocorre hiperfiltração
glomerular e com isso hipertrofia, eleva-se o porta transporte sódio
lítico, acumula-se sorbitol através do metabolismo da glicose
redutase e ainda existem alguns fatores genéticos que predispõe
pra ocorrência de nefropatia diabética.

2%
da população mundial tem diabetes, 20% deles considerando
diabete tipo I e tipo II desenvolvem progressiva deterioração
de função renal. Diabetes tipo II constituem 90% da população
total dos diabeticos sendo que a maioria dos pacientes diabéticos
que tem doença renal terminal, tem diabetes tipo II. Quer dizer:
é muito comum nas nossas unidades de diálise diabéticos
do tipo II.

Aproximadamente
40% dos diabéticos tipo I vão progredir para o quadro de
insuficiência renal terminal. O motivo mais importante seria hiperfiltração
glomerular e que acontece também no diabete tipo II num estudo que
hoje ficou clássico na medicina que Nelson publicou, em 96, no New
England. A involução da função renal acontece
nas duas de maneira semelhante.

Hoje,
para o nefrologista, proteinúria significa toxicidade para o interestício
renal e a possiblidade de que essa proteinúria contribua para o
agravamento da lesão túbulo intersticial é muito grande.
Todas as demonstrações tem evidenciado que quanto maior o
grau de proteinúria, menor seria a sobrevida funcional renal.

Esse
estudo é um estudo adaptado que está publicado no último
número de Kidney Internacional e que mostra que a redução
de clearence de creatinina no diabete tipo I e II, com o passar dos
anos, é absolutamente igual. Uma vez estabelecido o diagnóstico
de diabete tipo I ou II, a redução da filtração
glomerular, medida pelo clearence de creatinina, é absolutamente
superponível chegando ambos os pacientes a fases terminais de insuficiência
renal com o mesmo tempo de evolução.

O esquema
simplificado das alterações patofisiológicas da nefropatia
diabética simplesmente estão colocados aqui para lembrar
que, certamente, em breve nós vamos poder atuar em vários
modos na abordagem desta doença.
-
Começa
com a hiperglicemia que, por si só, causa um estímulo muito
grande para as células mesangiais produzirem colágeno do
tipo 4 e 5 levando à glomerulosclerose;
-
A hipertensão
sistêmica e transmitida ao glomérulo também propicia
alterações nas células mesangiais, todas elas levando
a um aumento na produção de colágeno e, talvez
tenhamos, em curto prazo drogas que possam nos auxiliar no combate ao desenvolvimento
da glomerulosclerose.Para esses fatores de crescimento já existem
inibidores sendo estudados. É possível que restrição
de proteína nos auxilie nisto, antihipertensivos do tipo inibidores
de ECA ou bloqueadores periféricos AT 1.
No
perfil patofisiológico das alterações que acontecem
decorrentes da hiperglicemia, é muito possível que num futuro
próximo possamos atuar de maneira mais ampla e não só
utilizando inibidor de enzima conversora, cujo benefício é
inequívoco. O VI Joint, por exemplo, é radical. Se você
examinar um paciente com uma nefropatia incipiente com diabetes e ele estiver
usando um antihipertensivo que não seja inibidor de ECA, você
será passível de críticas, porque isso hoje não
se discute mais, é um paradígma, é dogmático:
inibidor de ECA em paciente diabético, ainda que ele não
tenha hipertensão, (mas se ele tiver uma microalbuminúria
importantese e se ele tolerar a medicação sem fazer hipotensão
importante com pequenas doses de inibidor de ieca), nós estaríamos
realmente protegendo o glomérulo, não só por fatores
hemodinâmicos como também por modificações na
intimidade da membrana basal.

No
estudo ramipril, com 352 pacientes com nefropatia crônica e proteinúria,
avaliaram qual seria o benefício em utilizar inibidor de enzima
conversora. Haviam dois grupos, um com proteinúria menor e um com
proteinúria superior a 3 g, está no Lancet 1997, fica evidente
a ação nefrotóxica da proteinúria. Quanto maior
o nível de proteinúria mais são os pacientes que atingem
IRC, principalmente se estava tomando placebo.

Esse
efeito nefro protetor dos inibidores de ieca é através da
redução da microalbuminuria, tanto em diabete tipo I como
II. ainda que normotensos. Atenuação do progresso da nefropatia
diabética, redução de proteinúria no tratamento
de nefropatas com hipertensão e atenuação da progressão
da insuficiência cardíaca, mesmo nos pacientes que não
são diabéticos.Quando os pacientes tiveram a sua pressão
arterial bem tratada, a proteinúria também caiu e o rítmo
de filtração glomerular caiu muito menos.

A nifedipina
reduz bem a pressão arterial como reduzem também o diltiazem,
como reduzem também outras drogas, mas vejam vocês: o grupo
nifedipina manteve uma proteinúria elevada. Mas parece que ficou
clássico também na literatura médica: bloqueador de
canal de cálcio, tipo nifedipina, reduz bem pressão mas ele
não tem efeito muito benéfico, do ponto de vista na redução
de proteinúria.

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