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Dr. João Cezar Mendes Moreira é o atual presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia Ao ser solicitado para fazer um depoimento sobre o episódio de Caruaru, no qual vieram a falecer 60 pacientes que faziam hemodiálise, sou obrigado a recordar o triste encaminhamento dado a questão, principalmente pela imprensa, pelo governo de Pernambuco, pela Companhia de Água e Saneamento de Pernambuco, (COPESA) e pela participação equivocada da Diretoria da SBN. Naquele momento tivemos oportunidade de irmos a Recife, a convite da Regional de Pernambuco, onde visitamos os pacientes internados no Hospital Barão de Lucena, conversamos com os Conselheiros do CRM local, bem como tivemos acesso aos depoimentos prestados à Comissão Parlamentar de Inquérito Estadual e aos membros da Comissão Especial da Câmara dos Deputados, onde consta o testemunho prestado pela direção da SBN de então. O que ficou claro para todos: 1) Antes de se estabelecer o agente etiológico que estava levando os pacientes a óbito havia necessidade de se encontrar o agente criminal (como sempre o médico seria o agente mais fácil), pois a suspeita diagnóstica só foi levantada mais ou menos 50 dias após ao início da ocorrência pela Dra. Sandra Azevedo da UFRJ. 2) Os exames para detecção da toxina só foram realizados nos laboratórios de pesquisa do Rio de Janeiro e Estados Unidos, já que em Pernambuco ou outros Estados brasileiros não havia laboratórios competentes para este diagnóstico. 3) Que o tratamento de água da clínica se encontrava de acordo com a Legislação Brasileira vigente, embora a Osmose Reversa poderia ter sido mais efetiva. Nesse campo há muito que ser aprendido, como pudemos observar no Simpósio sobre Água em Recife em outubro de 1997 e no Simpósio de Água, na Cidade de Paraná, Argentina, em abril de 1998. 4) Que o quadro observado não tinha precedentes na história da Medicina. 5) Que a falta de água no abastecimento domiciliar de Caruaru é uma constante durante todo o ano. 6) Que a Clínica de Caruaru (IDR), se abastecia de caminhões de água, fornecidos pela COMPESA e fiscalizado por esse monopólio de fornecimento. Quero salientar que esse modo de fornecimento às Unidades de Diálise é frequente no Brasil, ocorrendo inclusive em grandes capitais. Sou testemunha dessa situação na Cidade de São Paulo. 7) Que os Biólogos do país já haviam alertado as autoridades legais da presença em grande quantidade de Cianofíceas nos mananciais de abastecimento de água, da maioria das cidades brasileiras. As companhias de água estaduais ocultam esta grave situação principalmente porque o investimento na área de saneamento é muito baixo. 8) Que a confirmação do diagnóstico do agente etiológico, confirmando a presença de microcistinas nas vísceras das vítimas só ocorreu meses após pelo Dr. Carmichael, nos Estados Unidos, com reprodução do evento patológico em laboratório. Apesar de tudo, além da tragédia que vitimou 60 pessoas e seus entes queridos, a imprensa usou o fato para criar pânico entre todos os pacientes em hemodiálise, no país. Sabemos que muitas vezes a imprensa é manipulada por interesses econômicos e políticos durante uma tragédia. Após tudo isso o que restou? 1) Aos médicos, como se não bastasse o sofrimento pela perda de seus pacientes, sobrou uma coleção de acusações para que o Estado os condenasse rapidamente, inclusive com pedido de prisão preventiva. 2) Para todos, ficou claro a incompetência do Estado no fornecimento de água potável. 3) Que apesar da grande tragédia, pouco ou nada foi feito para impedir que outra semelhante venha a se repetir, como se pôde constatar no Seminário sobre Controle de Água para Hemodiálise, realizado em Recife no mês de outubro de 1997 (Manifesto em anexo). 4) Que as atitudes insensatas continuam ocorrendo até hoje, pois o descredenciamento das unidades está privando a população de atendimento nessa especialidade na Cidade de Caruaru e região. Pois, a nossa posição era de que as Unidades continuassem em funcionamento sob supervisão do Estado. 5) Que a entrada de empresas fabricantes e fornecedoras de materiais e equipamentos para hemodiálise introduzidas por conhecidas figuras da nefrologia brasileira naquele momento funcionou da pior maneira possível, pois em nome de seus interesses aproveitaram para divulgar, inclusive diante do Congresso, que o nefrologista brasileiro não tinha condições de administrar seus serviços. 6) Que a intoxicação causada pela microcistina em Caruaru ainda não foi devidamente dimensionada, pois seu efeito carcinogênico já foi observado em populações que ingeriram água contendo esta toxina. Temos como alternativa: 1) Melhorar nossos conhecimentos, e em especial o controle público dos serviços ofertados à população, em relação a água, como está se propondo na Comissão do Mercosul, com a participação do CDC, que está fazendo um protocolo para estudar a qualidade da água pré e pós tratamento das Unidades de hemodiálise. 2) Trabalhar em conjunto para que Portarias, como por exemplo a 2.042, apresentem resultados práticos na melhoria do sistema e não apenas sejam conjuntos de normas que não se conseguem viabilizar nas várias regiões do país. Esse trabalho deve ser continuado pois, essas mudanças não se dão a curto prazo e necessitam de recursos financeiros que transcendem a estrutura das Unidades de Diálise. Finalizando, queremos apontar que os resultados parciais da APAC e do trabalho efetuado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo mostram que a mortalidade dos Serviços de Nefrologia é aceitável, comparando-os com os países de primeiro mundo. É claro que precisamos mudar, principalmente na modernização de nossos equipamentos. Para todas essas mudanças é necessário que se viabilize recursos financeiros. Resta aqui, deixar um alerta de que muitas dessas empresas que alardeiam sua excelência tecnológica e hoje interessam-se na compra das Unidades de Diálise Brasileiras, por anos a fio, supriram o mercado brasileiro com equipamentos sucateados do primeiro mundo, colocando o preço em total liberdade e com total aval da fiscalização do Ministério da Saúde. |