III Encontro Mineiro de Nefrologia
Uberlândia - MG - Brasil
21-22 de Maio de 1998
Nota
do Editor:
Por
ser um texto transcrito de uma aula e portanto com edição
final, o autor poderá modificá-lo, de acordo com sua conveniência,
à qualquer momento. Para tanto basta enviar e-mail com as correções
que achar necessárias.
Nefropatia na Gravidez
Prof. Dr. Stênio
Fernandes Pascoal
Não muito raramente,
os nefrologistas clínicos se deparam com a realidade de uma gravidez
inesperada em pacientes com doença renal pre estabelecida, seja
na sua forma inicial ou já em pacientes sob tratamento dialítico
ou mesmo em transplantadas renais.
Uma outra circunstância,
menos freqüente, é aquela em que essas pacientes se antecipam
a gravidez e buscam o aconselhamento do nefrologista sobre as chances e
riscos de uma gestação. Mas qualquer que seja a circunstância,
aconselhando previamente uma paciente ou enfrentando o desafio de prosseguir
uma gravidez já iniciada, as respostas não vêm facilmente
e o consórcio estabelecido entre o obstetra e o nefrologista é
necessário para se obter um mínimo de resultados.
A mulher grávida está
sujeita a todas as patologias de uma não grávida, exceto
uma, a infertilidade. Na verdade isto também é relativo pois
a condição gravídica impõe temporariamente
a infertilidade. Mas admitindo esse conceito, a mulher grávida está
vulnerável às patologias próprias da gravidez (algumas
formas de insuficiência renal aguda, potencial gravidade da infecção
urinária), algumas nefropatias geradas pela própria gravidez
como glomerusclerose focal associada a pré-eclampsia que são
inerentes a condição gravídica.
Até muitos anos atrás,
talvez até o final da década de 60, esta associação
era muito infreqüente, porque a atitude médica universal generalizada
recomendava a interrupção da gravidez quando não se
poderia desaconselhar previamente.
E só por razões
religiosas, emocionais as pacientes ultrapassavam a resistência do
médico assistente e algumas crianças nasciam freqüentemente
em péssimas condições, porque não haviam o
reconhecimento da gravidade nem da possibilidade de evolução
favorável do feto.
Se costuma dizer que, até
o começo dos anos 70, os filhos de mulheres nefropatas constumavam
nascer perigosamente, em péssimas condições ou nem
nascer.
Mas a gravidez normal impõe
profundas modificações no meio interno materno e as alterações
anatômicas, morfológicas e funcionais do trato urinário
são partes destacadas dessa adaptação. Para que possamos
corretamente identificar problemas na gravidez e tratar adequadamente as
pacientes nefropatas grávidas é preciso que conheçamos
as alterações fisiológicas da gravidez, anatômicas
e funcionais é isso que nós vamos explorar nesta primeira
parte.
Quais são as modificações?
Quais as implicações dela? As conseqüências?
Como se reconhece e como que utilizando dessa informação,
se pode adequadamente assistir pacientes grávidas com intercorrências
clínicas do trato urinário?
Na gravidez normal existem
estruturalmente alterações desde o rim até todos os
seguimentos do trato urinário. Do ponto de vista renal, intrinsicamente
existe um aumento do volume do glomerulo chamado nefromegalia, talvez por
influências de hormônio do crescimento ou de fatores tróficos
próprios da gravidez. Essa nefromegalia está associada ao
aumento do componente vascular renal, isto é, há uma vasodilatação
que acomoda uma maior quantidade de sangue, impõe um aumento do
tamanho do rim da ordem de 1 cm, quando avaliado por uma ultrassonografia
ou a urografia escretora.
Mais marcante ainda são
as dilatações que ocorrem no sistema coletor: desde os cálices
pélvicos, ureteres, aumento do espaço virtual urinário
com implicações clínica que vamos ver um pouco adiante.
As causas destas alterações
são mistas e se reconhece influências hormonais e mecânicas.
Mecânicas aí exercidas pelo útero gravídico
comprimindo particularmente os ureteres nas fases mais avançadas
da gravidez. Mas como essas alterações ocorrem já
são identificadas no final do primeiro trimestre na gravidez humana,
seguramente não é só mecânico o evento, há
influências hormonais e representados pelos estrógenos, progesterona,
enfim, aldesterona, uma série de elementos que também influenciam
a tonicidade dos vasos nós vamos ver um pouco adiante.
Quais são as implicações
dessas alterações?
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Primeiro é que existe
um potencial para erros na avaliação de exames que aproveitam
a coleta de urina de 24 horas, existe um espaço morto da ordem de
400 a 500 ml, isso pode influenciar por exemplo na dosagem de proteinúria,
clearence de creatinina;
-
Essa dilatação
impõe uma maior estase urinária, maior propenção
a mulheres grávidas que tem infecção urinária
assintomática ou sintomática desenvolverem pieloonefrite.
A incidência de infecção urinária não
é maior na grávida do que na não grávida sexualmente
ativa, mas a propenção desenvolver complicações
e as consequências devidas daí são significantemente
maiores.
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Só se pode avaliar e
definir uma nefropatia obstrutiva na mulher após 3 meses do seu
término, pois esta dilatação se desfaz progressivamente
dentro deste período de tempo. Portanto até 3 meses ninguém
está autorizado a fazer diagnóstico de nefropatia obstrutiva
na paciente que passou recentemente por uma gravidez.
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Mais importante talvez seja
as alterações fisiológicas. Durante a gravidez existe
uma elevação do fluxo plasmático renal da filtração
glomerular da ordem de 50% dos valores basais. O clearence vai de 100 pra
150, aumentando a excreção fisiológica de proteinas.
Enquanto os valores habituais atingem o limite de 150 mg por 24 horas,
na gravidez é considerado normal até 300 mg. Isso decorre
de dois fatores: primeiro o aumento da carga filtrada devido ao aumento
da filtração glomerular e também de uma limitação
da reabsorção tubular. Além da imposição
hemodinâmica, o coeficiente de permeabilidade da grávida
normal está alterado. A membrana basal é mais permissiva
à passagem de macro moléculas.
-
Se a produção
de uréia e, particularmente, de creatinina não se modificam,
e por outro lado aumenta a sua excreção urinária,
a consequência imediata é a de que os níveis séricos
caem. Os valores considerados normais de creatinina na gravidez são
em média de 0,5 mg/dl. Qualquer mulher grávida, com creatinina
sérica acima de 0.9 mg/dl ( limite normal fora da gravidez) exige
uma avaliação complementar pois isso pode refletir
a déficit de função renal.
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Em relação ao
mecanismo dessas alterações, eu vou me deter um pouco mais
e mostrar o que é que se conhece atualmente, quais são os
fatores que possivelmente respondem por essas modificações.
Este é um sumário de vários trabalhos avaliando o
fluxo plasmático renal no curso da gravidez. Existe uma elevação
precoce do fluxo plasmático, certamente de influência hormonal,
que se mantém em torno de 50% valores normais e uma tendência
uniforme de queda no final da gravidez. São trabalhos em seres humanos
e raros devidos aos problemas inerentes a estes estudos.
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Trabalhos experimentais em ratas
grávidas, existem e são numerosos. Este é um exemplo:
Dra. Christian Bellis é uma pioneira nessas avaliações.
Nestes estudos a filtração glomerular mimetiza a condição
humana. Há uma queda no fluxo plasmático renal e na resistência
vascular renal no final da gestação com consequente aumento
na filtração glomerular.
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Na verdade a filtração
glomerular de um rim normal, tanto em humanos quanto em animais, se deve
ao fluxo plasmático glomerular, se relaciona diretamente com a filtração,
com a pressão capilar glomerular ou particularmente, com a diferença
de pressão transmembrana. Esses são chamados determinantes
da ultrafiltração glomerular, os fatores que se associam
para influenciar fluxos e pressões no glomerulo.
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Revisando, o que é ocorre
na gravidez: na verdade existe uma hiperfiltração decorrente
quase que exclusivamente do aumento fluxo glomerular, pois existe uma vasodilatação
proporcional e paralela das arteríolas aferente e eferente. Por
isso a pressão capilar glomerular não se eleva. Ao contrário,
por exemplo do conhecido modelo de hiperfiltração glomerular
que é deletéria, observadas nos modelos de nefropatia diabética
ou ablação de massa renal, onde existe uma vasoconstricção
relativa na arteríula eferente, e é esse fator, não
único, no desenvolvimento de nefropatias.
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Para finalizar esta parte, quais
são os mecanismos, porque é que realmente o vaso se dilata,
o rim se dilata, cai resistência, aumenta fluxo, aumenta filtração
glomerular? Quais são os mediadores dessa relação?
Estudos experimentais tem trazido muita luz a este assunto sendo que um
dos mais recente é atribuir estas modificações a um
aumento na produção de fatores endoteliais, particularmente
do óxido nítrico.
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Durante a gestação
de ratas, a excreção urinária de nitrato (que é
uma expressão da produção de óxido nítrico-
que é um vasodilatador sistêmico), bem como a excreção
urinária de mediadores da ação do óxido nítrico,
mimetizam mais ou menos a curva de filtração glomerular.
Aumentam quando aumenta o fluxo plasmático renal.
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Eu estudei um pouco essa influência
de óxido nítrico em vasos de ratas, eu tenho dois slides
pra mostrar dados concordantes com o anterior, embora, com leituras ou
metodologias diferentes.
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Nós estudamos arteríola,
microartérias em mesentério de ratas grávidas no final
da gestação e comparamos com ratas virgens. Avaliamos a habilidade
desse vaso de responder a estímulos vasodilatadores mediados pelo
endotélio, particularmente com acetilcolina. Observem um dado interessante
no vaso da rata grávida a resposta vasodilatadora da acetilcolina
foi significativamente maior ou potencializada em comparação
com a rata virgem, mostrando que o vaso da rata grávida é
mais sensível a influência vasodilatadora, até aí
tudo bem, é um reconhecimento do que já existe na verdade
é hipotensão natural da gravidez. Mas quando nós vamos
estudar os mediadores desta relação e bloqueamos a geração
do óxido nítrico, nós observamos uma coisa interessante:
60% da vasodilatação permaneceu na rata não grávida.
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Mas quando fazemos isso no vaso
da rata grávida essa relação se inverteu: cerca de
60% do relachamento inicial foi abolido. Portanto, há uma preponderância
funcional do óxido nítrico na vasculatura da rata grávida
em relação a rata virgem. Não podemos, na verdade,
traduzir para o gênero humano observações feitas em
animais, eles são importantes mas devem permanecer no campo especulativo.
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Quando eu fiz estes mesmos estudos
in vito em vasos de mulheres grávidas (obtidos durante operação
cesariana de grávidas normais removendo um pedaço do epíplon),
as curvas de responsividade vascular nao se modificaram após o bloqueio
do óxido nítrico
-
Na grávida normal nós
esperávamos que houvesse abolição da resposta vascular,
como ocorreu na rata mas na verdade não houve nada. Portanto
o óxido nítrico parece não ter importância na
gravidez humana.
-
Isto demonstra as dificuldades
em se relacionar os eventos. Portanto, se o óxido nítrico
não está envolvido, ele é apenas um dos fatores endoteliais.
Existem outros com a prostaciclina e o ultimamente, é o chamdo fator
hiperpolarizante derivado do endotélio.
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Esse parece ser um fator que,
em seres humanos, intermedia essa vasodilatação. Eu
fui avaliar os canais de potássio, pois o fator hiperpolarizante
abre na célula muscular os canais de potássio. Estes canais
promovem a exclusão de potássio da célula, hiperpolarizando-a
e promovendo o seu relaxamento.
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Na mulher não grávida
nós bloqueamos especificamente o canal de potássio e houve
a abolição completa do relaxamento. Em suma, esses dados
mostram que na gestação de roedores o óxido nítrico
participa importantemente dessa imposição hemodinâmica
de vasodilatação e nos seres humanos existe também
a dilatação mas ela não tem a participação
do óxido nítrico mas sim dos fatores hiperpolarizantes derivados
do endotélio. Nós vamos ouvir falar nos próximos 5
anos sobre desses fatores.
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Pré-eclampsia é
uma doença hipertensiva peculiar à gravidez humana na qual
existe uma inversão completa, uma imagem quase inversa dessas alterações
da gravidez normal.
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Se a mulher tem uma nefropatia
pré-estabelecida, quais são as chances e os riscos de uma
gravidez piorar e ter uma evolução obstétrica também
desfavorável? Na verdade existem dois fatores que influenciam as
relações recíprocas entre nefropatia e gravidez: o
grau de insuficiência renal, bem como os níveis pressóricos
sistêmicos. Fácil de compreender pois a hipertensão
sistêmica se transmite diretamente ao glomero diante de uma gravidez
que existe uma vasodilatação, um desguarnecimento, uma
diminuição da proteção do glomérulo
por não oferecer a resistência na arteríula aferente.
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Então o prognóstico,
a evolução da nefropatia numa gravidez depende fundamentalmente
da função renal e da pressão arterial. Um cenário
completamente benígno e potencialmente favorável, são
aquelas mulheres que tem a função renal preservada ou minimamente
comprometida à concepção, isto é, creatinina
por exemplo abaixo de 1.4mg/dl. Aí se pode antecipar a evolução
favorável em mais de 90% dos casos do ponto de vista fetal e praticamente
sem repercussão no curso da nefropatia. A situação
se complica um pouco mais quando existe uma restrição moderada
da função renal, creatinina por exemplo entre 1.5 e 3.0 mg/dl,
aí os riscos de agravamento da função renal e repercussão
maléfica sobre o feto, de desenvolvimento de pré-eclampsia
sobreposta se amplia importantemente.
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E, se a paciente tem insuficiência
renal avançada, acima de 3,0 mg/dl de creatinina, praticamente existe
infertilidade funcional, a gravidez é excepcional, portanto
interessa considerar essas relações são nesses dois
primeiros grupos, mas independente da função renal, se houver
hipertensão arterial a influência deletéria se exerce
de forma significativa.
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Estudo multicêntrico coordenado
pela Universidade de Chicago publicado em 80, avaliou a influência
da gravidez sobre a nefropatia em 89 pacientes, durante 121 gestações.
Houve mais de uma gestação em 30 pacientes. Eram mulheres
que tinham função renal relativamente preservada, todas com
biópsia renal com exceção de uma e com creatinina
sérica inferior a 1.4 mg/dl. Observaram o curso da gestação
e evolução depois da gestação.
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Durante a gestação
houve hipertensão arterial, (elas não tinham hipertensão
antes da gestação). Cerca de 25% das pacientes desenvolveram
hipertensão ou agravaram hipertensão prévia. Insuficiência
renal transitória mais ou menos em 20%, a proteinúria em
50%. Depois de três anos do follow up, a hipertensão praticamente
desapareceu, portanto mostrando que foi induzida pela gestação.
A diminuição
da filtração glomerular, o aumento da pressão arterial,
a avaliação fetal, índice de prematuridade, retardo
de crescimento intra-uterino e mortalidade pré-natal foi maior no
grupo que tinha insuficiência renal moderada, mostrando que indiscutivelmente
é uma gravidez arriscada. Em função disso, alguns
autores desaconcelham, ou desencorajam a gravidez se a creatinina sérica
é superior a 2.0 mg/dl. As chances de pré-eclampsia ou de
agravamento da função renal e repercussões fetais
aumentam importantemente, mas esses estudos infelizmente são, na
sua grande maioria, retrospectivos.
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