Controle
Metabólico do Cálcio e Fósforo na Hemodiálise.
Prof. Dr. Fred
Ruzany
Introdução:
O controle do cálcio
e fósforo / fosfato na hemodiálise tem por finalidade evitar
complicações tardias do metabolismo ósseo que resultam
em morbidade significativa e considerável perda da qualidade de
vida. No sentido de reduzir estes distúrbios contamos com
análogos da vitamina D, quelantes de fosfato e suplemento de cálcio.
A abordadgem simplificada
que se segue leva em conta os produtos disponíveis e faz alguma
menção à outros em desenvolvimento ou de mais difícil
obtenção .
Duas preparações
de vitamina D ativa estão disponíveis (1-25 (OH)2 colecalcitriol)
- oral e venosa e uma outra que necessita de metabolismo hepático
para ativação (alfacalcidiol) com apresentação
apenas oral.
Diversos quelantes de fosfato
existem, entretanto faremos menção aos quelantes cálcicos
- carbonato de cálcio e acetato de cálcio, ao hidróxido
de alumínio e ao novo quelante isento de cácio e alumínio
- RenaGel disponível nos EUA. O citrato de cálcio
embora também seja um quelante de fosfato não deve ser empregado
porque o citrato aumenta a absorção de alumínio.
Objetivo: Proteger
a saúde óssea, para tanto os valores de Ca, P e níveis
do paratormônio (PTH) devem se situar nas seguintes faixas: Ca dentro
dos valores normais - 8,5 - 10.5 mg/dl (considerando albumina normal),
fósforo entre 3,5 e 5,5 mg/dl (cifras algo superiores mas aceitáveis;
e PTH molécula intacta entre 150 e 250 pg/ml, níveis
acima do normal devido resistência óssea ao PTH. Alguns preconizam
PTH acima de 150 mas abaixo de 200 pg/ml para reduzir possibilidade de
doença óssea adinâmica ou hiperparatiroidismo.
Doses: usualmente
emprega-se as seguintes doses
Quelantes:
-
carbonato de cálcio
- mais barato e acessível de todos - 2.5 a 20g por dia dividido
nas refeições. Inicialmente 1g após o
desjejum, almoço e jantar ajustando a dose conforme o fosfato sérico.
-
acetato de cálcio - mais
eficaz que o carbonato e portanto pode ser empregado em doses menores.
Tipicamente inicia-se com 0,5g 3X ao dia corrigindo a dose conforme necessidade.
Ambos podem promover hipercalcemia
nas doses necessárias para controlar o fosfato.
-
hidróxido de alumínio
- em desuso devido à absorção de alumínio e
conseqüente acúmulo e intoxicação. Utilizado
excepcionalmente por curtos períodos ( 4 - 12 semanas) para
controle de fosfato em pacientes com hipercalcemia quando não se
dispõe de outros recursos. Dose 20 - 40 ml cada refeição,
3 vezes ao dia.
-
Renagel - poli(alilamina hidrocloreto)
- doses de 3 - 15 g dividido nas refeições, eficaz e não
se associa a hipercalcemia ou elevação de aluminio sanguineo
Análogos da Vitamina
D: (Vit D)
-
calcitriol oral - capsulas de
0,25 ug dose varia de 1 -2 caps /dia para manutenção do efeito
fisiológico até doses de 12 caps de uma só vez, 3
vezes por semana - pulso oral - para supressão da secreção
do PTH
-
calcitriol injetável
- ampolas com 1ug - dose varia de 1 a 3 ampolas por vez, pós-hemodiálise
para supressão do PTH - pulso venoso.
-
alfacalcidiol - capsulas de
0,25 e 1 ug - doses variam de 0,25 a 3 ug/dia.
O racional para utilização
destes medicamentos está disposto no quadro abaixo, tendo como variavel
o calcio, fosforo e PTH. Considerou-se Ca baixo menor que 8,5mg/dl, alto
acima de 10,5 mg/dl; fosforo baixo menor que 3,5 mg/dl e alto acima de
5,5 mg/dl; PTH baixo quando menor que 150 pg/ml e alto se acima de 250
pg/ml:
Quadro terapêutico
simplificado para controle do cálcio e fósforo
em hemodiálise
|
PTH |
PTH |
PTH |
PTH |
| Ca |
Dosar Al, Mg1
Desferroxamina EV (se Al +++)
Vit D VO / diário + Ca2
|
Vit D VO / diário5
+ Ca |
Dosar Al1
Desferroxamina EV (se Al +++)
Usar quelante cálcico
de PO47
|
Usar quelante cálcico
de PO47
Vit D VO / diário5
|
| Ca |
Dosar Al, Mg1
Desferroxamina EV (se Al +++)
Suspender /reduzir Vit
D3
Suspender /reduzir quelante
de PO44
|
Suspender /reduzir quelante
de PO44
Dialisato com Ca 2,5mEq/L
Vit -D EV / pulso6
|
Dosar Al1
Desferroxamina EV (se Al +++)
Suspender /reduzir Vit
D3
Usar quelante não cálcico
de PO47
Dialisato com Ca 2,5mEq/L
|
Vit -D EV / pulso6
Usar quelante não cálcico
de PO48
Dialisato com Ca 2,5mEq/L
|
Racional:
1 - PTH baixo associado
a Ca e P baixo é muito raro e na ausência de paratiroidectomia
previa pode estar associado à intoxicação por aluminio,
hipomagnesemia severa entre outros. Nestes casos a correção
da intoxicação pelo Al ou da hipomagnesemia corrige o disturbio.
2 - Ca, P e PTH baixo pode
ocorrer pós paratiroidectomia total e o tratamento consiste em doses
de vit D ativa mais suplemento de Ca.
3 - supressão
exagerada de PTH devido ao uso de análogo de Vit D
4 - hipofosfatemia pode se
associar a hipercalcemia que reverte com a normalização de
fosfato sérico
5 - calcitriol melhora absorção
do Ca e suprime PTH .
6 - o calcitriol
venoso suprime o PTH com menor indução de hipercalcemia que
os produtos orais devido a uma biodisponibilidade mais curta.
7 - quelantes
cálcico de fosfato ajudam elevar o Ca sérico e a suprimir
o PTH
8 - hiperfosfatemia associada
a hipercalcemia implica em não aumentar a oferta de Ca. Quelantes
não cálcicos devem ser empregados. O hidróxido de
alumínio deve ser evitado ou utilizado por períodos curtos,
o RenaGel parece a melhor opção atual.
Outras opções
ainda não suficientemente testadas:
-
Hipercalcemia - emprego
de difosfonados por tempo limitado pode ser uma alternativa - alendronato
10 mg VO com copo d’água em jejum por meia hora, em dias alternados.
-
Hiperparatiroidismo resistente
Vit D: calcimiméticos - NPS R 568 - capaz de suprimir PTH atuando
no sensor de Ca da célula, poderá ser uma alternativa à
paratirodectomia cirúrgica.
Notas práticas:
-
Suprimir PTH em paciente com
Ca normal / alto é mais fácil com pulso de calcitriol injetável
do que com oral.
-
Para PTH acima de 1000 pg /
ml pode-se iniciar com 2 - 3 ug /calcitriol EV pós HD. Nestes
casos é aconselhável dosagem semanal de Ca e P.
-
PTH muito elevado frequentemente
se associa a hipefosfatemia de origem óssea. O uso de quelante oral
de fosfato nestes casos costuma ser pouco eficaz. Apesar da vit D aumentar
absorção de P intestinal muitas vezes é necessário
iniciar análogo da vit D na presença de hiperfosfatemia,
esperando que com o bloqueio do PTH se consiga melhor controle do P.
-
Na presença de hipercalcemia
a manutenção de dose alta de vit D pode ser possivel
eliminando quelantes de fosfato com cálcio e reduzindo o Ca do banho
de diálise para 2,5 mEq / L.
-
Todo esforço deve ser
feito para evitar produto Ca x P acima de 80.
Em conclusão:
O controle precoce dos distúrbios
do Ca e P são mais simples, e embora não apresentem
inicialmente nenhum caráter ameaçador evoluem
para distúrbios complexos (ex: Ca x P > 80 e PTH > 400 pg/ml)
cuja terapia se torna bastante difícil . Atenção
cuidadosa e precoce à estas alterações permite evitar
problemas de difícil solução no futuro. |