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Volume 1- Número 3 - Ano I (Jul/Ago/Set de 1998)

Controle Metabólico do Cálcio e Fósforo na Hemodiálise.


Prof. Dr. Fred Ruzany


Introdução:

O controle do cálcio e fósforo / fosfato na hemodiálise tem por finalidade evitar complicações tardias do metabolismo ósseo que resultam em morbidade significativa e considerável perda da qualidade de vida.  No sentido de reduzir estes distúrbios contamos com análogos da vitamina D, quelantes de fosfato e suplemento de cálcio.

A abordadgem simplificada que se segue leva em conta os produtos disponíveis e faz alguma menção à outros em desenvolvimento ou de mais difícil obtenção .
Duas preparações de vitamina D ativa estão disponíveis (1-25 (OH)2 colecalcitriol) - oral e venosa e uma outra que necessita de metabolismo hepático para ativação (alfacalcidiol) com apresentação apenas oral.

Diversos quelantes de fosfato existem, entretanto faremos menção aos quelantes cálcicos - carbonato de cálcio e acetato de cálcio, ao hidróxido de alumínio e ao novo quelante isento de cácio e alumínio -  RenaGel disponível nos EUA.  O citrato de cálcio embora também seja um quelante de fosfato não deve ser empregado porque o citrato aumenta a absorção de alumínio.

Objetivo: Proteger a saúde óssea, para tanto os valores de Ca, P e níveis do paratormônio (PTH) devem se situar nas seguintes faixas: Ca dentro dos valores normais - 8,5 - 10.5 mg/dl (considerando albumina normal), fósforo entre 3,5 e 5,5 mg/dl (cifras algo superiores mas aceitáveis; e PTH  molécula intacta entre 150 e 250 pg/ml, níveis acima do normal devido resistência óssea ao PTH. Alguns preconizam PTH acima de 150 mas abaixo de 200 pg/ml para reduzir possibilidade de doença óssea adinâmica ou hiperparatiroidismo.

Doses: usualmente emprega-se as seguintes doses

Quelantes:

  •  carbonato de cálcio - mais barato e acessível de todos - 2.5 a 20g por dia dividido nas refeições.  Inicialmente  1g após o desjejum, almoço e jantar ajustando a dose conforme o fosfato sérico.
  • acetato de cálcio - mais eficaz que o carbonato e portanto pode ser empregado em doses menores. Tipicamente inicia-se com 0,5g 3X ao dia corrigindo a dose conforme necessidade.

  • Ambos podem promover hipercalcemia nas doses necessárias para controlar o fosfato.
  • hidróxido de alumínio - em desuso devido à absorção de alumínio e conseqüente acúmulo e intoxicação. Utilizado excepcionalmente por curtos períodos ( 4 - 12 semanas)  para controle de fosfato em pacientes com hipercalcemia quando não se dispõe de outros recursos. Dose 20 - 40 ml cada refeição, 3 vezes ao dia.
  • Renagel - poli(alilamina hidrocloreto) - doses de 3 - 15 g dividido nas refeições, eficaz e não se associa a hipercalcemia ou elevação de aluminio sanguineo
Análogos da Vitamina D: (Vit D)
  • calcitriol oral - capsulas de 0,25 ug dose varia de 1 -2 caps /dia para manutenção do efeito fisiológico até doses de 12 caps de uma só vez, 3 vezes por semana - pulso oral  - para supressão da secreção do PTH
  • calcitriol injetável - ampolas com 1ug - dose varia de 1 a 3 ampolas por vez, pós-hemodiálise para supressão do PTH - pulso venoso.
  • alfacalcidiol - capsulas de 0,25 e 1 ug - doses variam de 0,25 a 3 ug/dia.


O racional para utilização destes medicamentos está disposto no quadro abaixo, tendo como variavel o calcio, fosforo e PTH. Considerou-se Ca baixo menor que 8,5mg/dl, alto acima de 10,5 mg/dl; fosforo baixo menor que 3,5 mg/dl e alto acima de 5,5 mg/dl; PTH baixo quando menor que 150 pg/ml e alto se acima de 250 pg/ml:

Quadro terapêutico simplificado para controle do cálcio  e fósforo  em hemodiálise
 
PTH PTH PTH PTH
Ca
  • Dosar Al, Mg1
  • Desferroxamina EV (se Al +++)
  • Vit D VO / diário + Ca2 
  •  Vit D VO / diário5 + Ca 
  • Dosar Al1
  • Desferroxamina EV (se Al +++)
  • Usar quelante cálcico de PO47
  • Usar quelante cálcico de PO47
  • Vit D VO / diário5
  • Ca
  •  Dosar Al, Mg1
  • Desferroxamina EV (se Al +++)
  • Suspender /reduzir  Vit D3
  • Suspender /reduzir quelante de PO44
  • Suspender /reduzir quelante de PO44
  • Dialisato com  Ca 2,5mEq/L
  • Vit -D EV / pulso6
  • Dosar Al1
  • Desferroxamina EV (se Al +++)
  • Suspender /reduzir  Vit D3
  • Usar quelante não cálcico de PO47
  • Dialisato com  Ca 2,5mEq/L
  • Vit -D EV / pulso6
  • Usar quelante não cálcico de PO48
  • Dialisato com  Ca 2,5mEq/L
  • Racional:

    1 -  PTH baixo associado a Ca e P baixo é muito raro e na ausência de paratiroidectomia previa pode estar associado à intoxicação por aluminio, hipomagnesemia severa entre outros. Nestes casos a correção da intoxicação pelo Al ou da hipomagnesemia corrige o disturbio.

    2 - Ca, P e PTH baixo pode ocorrer pós paratiroidectomia total e o tratamento consiste em doses de vit D ativa mais suplemento de Ca.

    3  -  supressão exagerada de PTH devido ao uso de análogo de Vit D

    4 - hipofosfatemia pode se associar a hipercalcemia que reverte com a normalização de fosfato sérico

    5 - calcitriol melhora absorção do Ca e suprime PTH .

    6  -  o calcitriol venoso suprime o PTH com menor indução de hipercalcemia que os produtos orais devido a uma biodisponibilidade mais curta.

    7    - quelantes cálcico de fosfato ajudam elevar o Ca sérico e a  suprimir o PTH

    8 - hiperfosfatemia associada a hipercalcemia implica em não aumentar a oferta de Ca.  Quelantes não cálcicos devem ser empregados. O hidróxido de alumínio deve ser evitado ou utilizado por períodos curtos, o RenaGel parece a melhor opção atual.

    Outras opções ainda  não suficientemente testadas:

    •  Hipercalcemia - emprego de difosfonados por tempo limitado pode ser uma alternativa - alendronato 10 mg VO com copo d’água em jejum por meia hora,  em dias alternados.
    • Hiperparatiroidismo resistente Vit D: calcimiméticos - NPS R 568 - capaz de suprimir PTH atuando no sensor de Ca da célula, poderá ser uma alternativa à paratirodectomia cirúrgica.
    Notas práticas:
    • Suprimir PTH em paciente com Ca normal / alto é mais fácil com pulso de calcitriol injetável do que com oral.
    • Para PTH acima de 1000 pg / ml pode-se  iniciar com 2 - 3 ug /calcitriol EV pós HD. Nestes casos é aconselhável dosagem semanal de Ca e P.
    • PTH muito elevado frequentemente se associa a hipefosfatemia de origem óssea. O uso de quelante oral de fosfato nestes casos costuma ser pouco eficaz. Apesar da vit D aumentar absorção de P intestinal muitas vezes é necessário iniciar análogo da vit D na presença de hiperfosfatemia, esperando que com o bloqueio do PTH se consiga melhor controle do P.
    • Na presença de hipercalcemia a manutenção de dose alta de vit D pode ser  possivel eliminando quelantes de fosfato com cálcio e reduzindo o Ca do banho de diálise para 2,5 mEq / L.
    • Todo esforço deve ser feito para evitar produto Ca x P acima de 80.
    Em conclusão:

    O controle precoce dos distúrbios do Ca e P são mais simples, e embora  não apresentem  inicialmente nenhum caráter  ameaçador  evoluem para distúrbios complexos (ex:  Ca x P > 80 e PTH > 400 pg/ml) cuja terapia  se torna bastante difícil . Atenção cuidadosa e precoce à estas alterações permite evitar problemas de difícil solução no futuro.