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Sal e Pressão Arterial Dr. Celso Amodeo,médico cardiologista e nefrologista do Istituto Dante Pazzanese,SP, é Doutorado em Nefrologia pela Faculdade de Medicina da USP. Dr. Joel Claudio Heimann, médico nefrologista, é Professor Livre-Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) O sal (NaCl - cloreto de sódio) há muito tempo tem sido considerado como importante fator na determinação do desenvolvimento e da intensidade da hipertensão arterial (1). Hoje em dia, praticamente todos os estudiosos da relação entre sal e pressão arterial concordam com a tese de que a ingestão excessiva de sal eleva a pressão arterial (2 -9). No entanto, a intensidade da elevação pressórica em resposta a essa ingestão excessiva de sal é variável. Existem indivíduos cujos valores de pressão arterial aumentam muito em resposta a determinado incremento no consumo de sal, enquanto em outros a pressão arterial é muito pouco ou quase nada modificada. Essa resposta da pressão arterial identifica o grau de sensibilidade ao sal dos indivíduos (10). A sensibilidade ao sal é, portanto, a medida da resposta da pressão arterial frente à variação do conteúdo de sal na dieta. Embora seja uma definição relativamente simples, esse fenômeno torna-se bastante complexo ao se definir os limites dos termos utilizados. Em outras palavras, quanto é preciso aumentar a pressão arterial, e por quanto tempo, para que se defina um indivíduo como sensível ou resistente ao sal? Qual pressão arterial melhor define a sensibilidade ao sal: a pressão arterial sistólica, a diastólica, ou a média? Quanto de sal é necessário administrar-se a um indivíduo para que haja resposta pressórica? O fator tempo de sobrecarga ou restrição salina é importante na avaliação da sensibilidade ao sal? Estas são algumas das questões relacionadas à sensibilidade ao sal que ainda não estão totalmente esclarecidas. Os estudos para estabelecer
o grau de sensibilidade ao sal incluíram pacientes com características
diferentes em relação a peso, raça e idade. Tais aspectos
reconhecidamente influenciam a variação da pressão
arterial provocada pela modificação do conteúdo de
sal na dieta(10, 11).
Vários protocolos tem sido utilizados na determinação do grau de sensibilidade a sal em humanos (12 - 28), todos baseados na modificação da pressão arterial resultante da variação do conteúdo de sal na dieta. As principais diferenças entre esses vários protocolos são a quantidade de sal administrada, tempo de permanência na dieta hipo ou hipersódica e valor da pressão arterial utilizado na caracterização dos indivíduos como sensíveis ou resistentes ao sal. No âmbito populacional
a ingestão salina parece ser um dos fatores envolvidos no aumento
progressivo da pressão arterial que acontece com o envelhecimento.
Tal aspecto ficou evidente no clássico estudo Intersalt (29). Esse
trabalho mostrou uma correlação direta entre a quantidade
de sal habitualmente ingerida e a elevação da pressão
arterial com a idade, havendo aumento discreto, ou mesmo ausência
de elevação da pressão arterial nas comunidades com
baixa ingestão salina. Outro estudo, realizado com uma amostra de
índios da tribo Yanomami, que ingerem dieta extremamente hipossódica,
não se verificou aumento da pressão arterial ao longo da
vida, com incidência nula de hipertensão arterial (30). Sabe-se,
por outro lado, que em populações com alta ingestão
de sal, a prevalência de hipertensão arterial é cerca
de 50% naqueles indivíduos acima de 60 anos (31).
Grandes estudos populacionais demonstram que reduzindo-se a ingestão de sal de 170 para 70 mEq/dia, agudamente reduz a pressão arterial em indivíduos normotensos aproximadamente 2 a 3 mmHg (32, 34). Ao longo de 30 anos, entretanto, a queda da pressão arterial pode chegar a 10 mmHg ou mais; em parte por que a restrição salina minimiza o aumento da pressão arterial com a idade (34). Isso associa-se com uma redução no risco cardiovascular de 10 a 25%. Algumas anormalidades que
podem contribuir no desenvolvimento de hipertensão arterial, estão
associadas com o fenômeno de sensibilidade ao sal :
Embora existam poucos dados na literatura, a restrição salina pode não ser totalmente livre de problemas. Fadiga tem sido reportado naqueles pacientes com regime alimentar hipossódico e distúrbios do sono podem ocorrer quando um diurético do grupo dos tiazídicos é prescrito a esses pacientes (37). Estudos tem demonstrado que restrição salina em torno de 20 mEq/dia pode causar uma elevação aproximada de 10% no LDL-colesterol (38). Entretanto, com as recomendações mais usuais de restrição salina em torno de 80 a 100 mEq/dia, não é observado nenhum alteração desfavorável no perfil lipídico (39). A possibilidade de aumento
na incidência de infarto do miocardio com a restrição
salina foi levantada por Alderman e cols (40). Entretanto vários
pontos são questionáveis na significância desses achados:
Devemos acrescentar que outros estudos demonstraram benefícios da restrição salina além da redução da pressão arterial. Houve redução na mortalidade por acidente vascular cerebral (41) e regressão da hipertrofia ventricular esquerda (42, 43). Restrição salina pode também reduzir a excreção urinária de cálcio, fato que pode proteger contra o desenvolvimento de osteoporose em idosos (44). Baseado no exposto acima
acreditamos que restringir o sal na dieta é recomendado para toda
a população. Tal orientação deve objetivar
uma ingestão de sal em torno de 100 mEq/dia. Do ponto de vista prático,
deve-se orientar os pacientes a evitarem a ingestão de alimentos
processados industrialmente, tais como enlatados, envidrados, embutidos
e compactados. Deve-se ainda orientar os pacientes no sentido de utilizarem
o mínimo de sal no preparo dos alimentos e que evitem levar o saleiro
à mesa durante as refeições.
REFERÊNCIAS
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