Correlação
entre as alterações fisiopatológicas de pacientes
queimados e o suporte nutricional
Daurea Abadia
De-Souza, Lewis Joel Greene
Centro de Química
de Proteínas e
Departamento de Ginecologia
e Obstetrícia,
Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto,
Universidade de São
Paulo,
Departamento de Clínica
Médica,
Faculdade de Medicina,
Universidade Federal de
Uberlândia
Alterações
Fisiopatológicas de Pacientes Queimados
A queimadura, quando extensa
e profunda, representa uma das formas mais graves e complexas de traumatismo.
Com ela surgem graves alterações metabólicas, hormonais
e imunológicas (Wolfe 1996, Tredget e cols 1992).
Grandes injúrias
térmicas induzem aumento acentuado na taxa metabólica basal.
Na fase imediata após a queimadura, as necessidades energéticas
do paciente queimado se aproximam do limite de reserva fisiológica,
excedendo em até duas vezes os níveis calóricos basais
exigidos por uma pessoa saudável (Cunningham e cols 1989, Saffle
e cols 1985). O quadro de hipermetabolismo tem intensidade e duração
variável de paciente para paciente, dependendo entre outros fatores,
da extensão e da profundidade da superfície corporal queimada,
da presença de infecções e da eficácia do tratamento
inicial (Wolfe 1996).
A instalação
de desnutrição protéico-calórica em pacientes
queimados é evidenciada por grandes perdas de peso corporal e balanço
nitrogenado acentuadamente negativo, conseqüências comuns da
resposta metabólica à queimadura (Goodwin 1993, Gottschlich
e cols 1990). Em levantamento retrospectivo dos prontuários dos
146 pacientes com idade ³ 18 anos, internados no período de
janeiro de 1990 a março de 1995 na Unidade de Queimados do Hospital
das Clínicas, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP,
nós identificamos perda de peso corporal média de 9.4% entre
os pacientes com superfície corporal queimada de 0.1 -| 40% (n=65).
A perda de peso corporal média foi de 14.3% e de 17.9% entre os
pacientes com superfície corporal queimada de 40 -| 60% (n=11) e
de 60 -| 80% (n=6), respectivamente. Os dados dos pacientes que foram pesados
esporádicamente não foram considerados (De-Souza e cols 1997).
As perdas de nitrogênio
corporal podem atingir valores acima de 40 gramas/dia em pacientes queimados
graves alimentados (Goodwin 1993), ou seja, uma quantidade dez (10) vezes
maior do que a excretada por pessoas saudáveis em jejum protéico
(4,1 gramas/dia) (Crim & Munro 1994). Estas grandes perdas de nitrogênio
corporal ocorrem principalmente pela exsudação de proteínas
pela pele queimada, mas também porque nesta situação
de estresse catabólico as proteínas corporais podem ser o
substrato metabólico utilizado para produção de 15
a 20% da energia total requerida pelo organismo.
Pacientes queimados apresentam
aumento dos níveis de catecolaminas, cortisol e glucagon, na presença
de níveis de insulina normais ou pouco elevados (Wolfe 1996, Wilmore
1976). Estas modificações hormonais promovem aumento da proteólise
e da lipólise com liberação de grandes quantidades
de aminoácidos, especialmente alanina e glutamina (Cynober 1989),
glicerol e ácidos graxos livres na circulação sistêmica.
Desde que os pacientes queimados apresentam aumento proporcionalmente maior
de glucagon do que de insulina, a metabolização de ácidos
graxos livres para corpos cetônicos está prejudicada e os
aminoácidos e o glicerol são utilizados para produção
de glicose pela via gliconeogenética. Aparentemente a glicose é
o substrato energético preferencial dos leucócitos, macrófagos
e fibroblastos da área queimada (Wilmore e cols 1977). Os ácidos
graxos livres são utilizados como fonte energética alternativa
pela pele não queimada e pelo tecido muscular, ou são metabolizados
na via ciclooxigenase com produção de compostos eicosanóides
pró-inflamatórios (Grimble 1996, Hwang 1989). As prostaglandinas,
prostaciclina e tromboxanes da série 2, provenientes da metabolização
de derivados do ácido linoléico, tem papel significativo
na resposta inflamatória sistêmica pós queimadura.
Estudos clínicos e
experimentais têm demonstrado que a mucosa do tubo digestivo é
uma importante barreira mecânica para a microflora intestinal habitual.
Estes microorganismos são inofensivos em pessoas saudáveis
mas em pacientes críticamente doentes representam um reservatório
de agentes capazes de iniciar infecção sistêmica (Swank
& Deitch 1996). De fato, infecção sistêmica causada
por bactérias associadas ao intestino pode ser identificada em pessoas
queimadas, vítimas de trauma e/ou com síndrome de falência
de múltiplos órgãos, a despeito da falta de demonstração
de pontos focais de infecção nos pacientes que evoluíram
para o óbito (Swank & Deitch 1996, Lippman 1995). Na alimentação
tardia, no jejum parcial e na nutrição parenteral total,
ocorre perda do trofismo da mucosa intestinal, com prejuízo na absorção
de nutrientes e nas funções endócrina, metabólica,
imunológica e de barreira mecânica do intestino (Deitch 1990,
Wilmore e cols 1988). A associação do comprometimento da
barreira mecânica do trato intestinal, com a modificação
da flora bacteriana intestinal pelo uso de antibióticos e com o
comprometimento do sistema imunológico, possibilita a translocação
de bactérias e de endotoxinas para a circulação sistêmica
e instalação de quadro séptico (Deitch 1990, Wilmore
e cols 1988). Em pacientes queimados a translocação de bactérias
intestinais é provável porque, além do comprometimento
da barreira mecânica da mucosa intestinal, há importantes
alterações que diminuem a eficácia da barreira intestinal
imunológica.
Pacientes queimados apresentam
prejuízo da resposta imunológica assim como relatado para
outras formas de desnutrição protéico-calórica
(Chandra 1991). Há diminuição na marginalização
de leucócitos polimorfonucleares, na fagocitose e na função
do sistema retículo-endotelial, nos níveis das imunoglobulinas
IgG e IgA, do complemento C3 e C4 e da atividade opsônica (Alexander
e cols 1978). É também demonstrado diminuição
do número de linfócitos e da resposta de hipersensibilidade
cutânea retardada (Munster e cols 1973) e aumento da sensibilidade
à supressão pela prostaglandina E2 (Grbic e cols 1991). Em
decorrência da grande freqüência do comprometimento imunológico
as queimaduras foram classificadas como a principal causa de imunodeficiência
adquirida (Sheares & Anderson 1989), anteriormente ao surgimento da
Síndrome de Imunodeficiência Adquirida - AIDS.
Suporte
Nutricional em Pacientes Queimados
Pacientes queimados com freqüência
recebem nutrição inadequada, justificada inicialmente pela
dificuldade de alimentação pela instabilidade hemodinâmica
e pelo íleo paralítico. Mais tardiamente o suporte nutricional
persiste inadequado pela indicação de jejum para procedimentos
cirúrgicos, para exames diagnósticos e/ou pelo uso de aparelhos;
pela dificuldade para mastigar alimentos sólidos nas queimaduras
de face; por anorexia e por vômitos. Além disso, a ministração
tardia e irregular de suporte nutricional agrava a desnutrição
protéico-calórica característica da queimadura (Wolfe
1996, Gottschlich e cols 1990).
O momento de instalação
do suporte nutricional é um fator decisivo para o prognóstico
de pacientes queimados. Estudos clínicos e experimentais têm
demonstrado que pacientes criticamente doentes e animais inferiores submetidos
à injúria se benefíciam com a ministração
precoce de suporte nutricional, apresentando redução da resposta
hipercatabólica, da freqüência de translocação
bacteriana e da taxa de morbidade séptica (Gianotti e cols 1994,
Chiarelli e cols 1990). O início da ministração de
dieta enteral durante as primeiras 6 horas pós injúria é
relatado como seguro e efetivo, revertendo mais rapidamente várias
das mais importantes alterações metabólicas e hormonais
das queimaduras (Chiarelli e cols 1990).
A via enteral deve ser a
preferida para a maioria dos pacientes queimados porque é a via
fisiológica de alimentação, mantém o trofismo
do tubo gastrointestinal e estimula a liberação dos hormônios
tróficos gastrointestinais (gastrina, colecistoquinina, enteroglucagon,
fatores de crescimento like-insulina) (Ziegler 1996). Em relação
à nutrição parenteral, a via enteral possibilita a
ministração de um suporte nutricional mais balanceado e individualizado,
evita os inconvenientes da ministração de soluções
de glicose hipertônica, não apresenta problemas mecânicos
e infecciosos e tem um custo menor (Kudsk e cols 1992, Moore e cols 1992).
Para preservar a integridade
corporal pacientes queimados necessitam de grandes quantidades de calorias
e de proteínas (Goodwin 1993). Os efeitos individuais da glicose
e dos aminoácidos sobre o equilíbrio nitrogenado ocorrem
por, pelo menos, dois mecanismos diferentes. A ministração
de proteínas acelera a síntese de proteína muscular
e visceral, sem afetar a velocidade de hidrólise de proteínas.
A ministração de glicose diminui a mobilização
da proteína corporal total e diminui o "pool" de aminoácidos
séricos, mas exerce pouco efeito na síntese protéica.
Ambos mecanismos melhoram o balanço nitrogenado e ambos, glicose
e proteínas, devem ser ministrados em quantidades suficientes para
atender às necessidades metabólicas dos pacientes queimados
(Wolfe 1996, Goodwin 1993).
O aumento do gasto energético
contribue significativamente para a instalação de desnutrição
protéico-calórica e exige que todos pacientes com mais de
20% de área de superfície corporal queimada recebam suporte
nutricional específico e individualizado (Deitch 1995). Estas considerações
também são válidas para pacientes com menor superfície
corporal queimada que já apresentavam carências nutricionais
anteriormente à injúria térmica. Preferencialmente
o valor calórico fornecido a um paciente queimado deve ser definido
pela realização de calorimetria indireta 1 a 2 vezes/semana.
Os serviços que não dispõem de calorimetria indireta
podem obter resultados aceitáveis utilizando a equação
de Harris-Benedict, corrigida pelo fator de Cunningham (Cunningham e cols
1995).
Gasto
energético basal - GEB - Equação de Harris-Benedict
Homens
= 66 + (13.7 x Pci) + (5.0 x Alt) - (6.8 x I)
Mulheres
= 665 + (9.6 x Pci) + (1.8 x Alt) - (4.7 x I)
Fator
de correção sugerido por Cunningham
1.7
para superfície corporal queimada £ 50%
2.0
para superfície corporal queimada > 50%
VCT
= GEB x Fator de correção de Cunningham
Pci
- peso corporal ideal, calculado pelo índice de massa corporal médio
(23)
Alt
- altura em cm
I
- idade em anos
VCT
- valor calórico total
Classicamente tem sido recomendado
que pacientes queimados recebam 1,0 a 3,0 gramas de proteínas/ kg
de peso corporal.dia, com uma proporção quilocalorias não-protéicas/
grama de nitrogênio em torno de 100:l (Gottschlich e cols 1990).
No entanto, estudos mais recentes questionam a utilização
de quantidades tão elevadas de proteínas e sugerem que 1,5
grama de proteínas/ kg de peso corporal.dia parece ser adequada
para pacientes queimados (Wolfe 1996).
Podemos generalizar que em
relação às pessoas saudáveis, os pacientes
queimados necessitam de suporte nutricional com grandes quantidades de
energia e de nitrogênio. Além disso, o suporte nutricional
deve ser individualizado, instalado precocemente e utilizar o trato gastrointestinal.
Na tentativa de aumentar os benefícios do suporte nutricional após
queimaduras, diversos estudos clínicos e experimentais tem avaliado
o efeito e sugerido a suplementação do suporte nutricional
convencional com níveis farmacológicos de aminoácidos
e ácidos graxos específicos (para uma revisão crítica
recente ver De-Souza & Greene 1998). Os nutrientes mais frequentemente
utilizados para nutrição farmacológica de pacientes
queimados são a glutamina, a arginina e os ácidos graxos
ômega-3. Estes componentes, quando fornecidos em quantidades 2 a
7 vezes maiores que as habitualmente ingeridas por pessoas saudáveis,
parecem ter um efeito farmacológico benéfico nas alterações
fisiopatológicas induzidas pelas queimaduras.
Correspondência deve
ser endereçada para: Centro de Química de Proteínas,
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, Av. dos Bandeirantes
3900, 14049-900, Ribeirão Preto-SP, Fax: 016-633-2119,
E-mail: ljgreene@fmrp.usp.br.
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