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Volume 1- Número 2 - Ano I (Abr/Mai/Jun de 1998)

LUPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO E TRANSPLANTE RENAL
CORRELAÇÃO ENTRE PERFIL SOROLÓGICO E EVOLUÇÃO CLÍNICA.
Marilda Mazzali,
M. Almerinda V.F. Ribeiro-Alves,
Gentil Alves Fo
Disciplina de Nefrologia
DCM/FCM-UNICAMP


Introdução:

A progressão da nefrite lúpica para I.R.C. terminal constitui a principal causa de morbidade e mortalidade nos pacientes portadores de LES.

O  LES corresponde a 1 a 4% do total de pacientes em tratamento dialítico ou submetidos ao transplante renal. Nos pacientes mantidos em tratamento dialítico, a atividade da doença é praticamente inexistente, com sobrevida semelhante às outras causas de IRC.

Preconiza-se que o procedimento seja realizado após um tempo dialítico mínimo de 6 meses, a fim de que episódios de IRA possam ser eliminados. O risco baixo de recidiva (ao redor de 1/100) e a baixa ocorrência de doença em familiares incentivam a realização do Tx, independente do tipo de doador utilizado.

A detecção de auto-anticorpos pré-transplante tem sido considerado como fator de risco de recidiva de doença renal por alguns autores.

Objetivos

Avaliar o comportamento clínico e sorológico de pacientes com Insuficiência Renal Crônica e Lupus Eritematoso Sistêmico (LES), submetidos ao transplante renal, acompanhados na Disciplina de Nefrologia-FCM-UNICAMP.

Material e Métodos:

Pacientes submetidos ao transplante renal na disciplina de Nefrologia - FCM UNICAMP, no período de janeiro de 1984 a janeiro de 1997, com diagnóstico de LES (12 pacientes em 600 Tx renais - 2%).

Análise retrospectiva em relação ao período pré transplante: biopsia renal, tempo do diagnóstico do LES, apresentação da doença, terapêutica e tempo de sobrevida renal.

Análise pós-transplante a cada 6 meses, em relação à parâmetros clínicos e sorológicos (FAN, Anti-DNA, Complemento, Perfil de Auto Anticorpos). 

Resultados:
Tabela 1: Diagnóstico de LES nos 
pacientes submetidos ao transplante renal
Paciente atual sexo/ idade tempo pré Tx  apresentação clínica biopsia renal pré Tx tratamento atual tempo de diálise
MFA F/33a 5a artralgia,edema, eritema  nefrite lúpica CT  36m 
MCVB  F/29a   6a  artralgia,edema não  CT + CFO 18m 
 ISO F/36a 3a edema, HAS IVb CT 24m 
MJSB F/29a 6a  artralgia, edema IIb+crescentes CT + CFO 48m 
VPS  F/27a 2a artralgia, edema não CT + CQ 12m
RQC  F/18a 6a artralgia, convulsões, IR IIb+crescentes  CT + CFO  48m 
LMS F/33a 13a  artralgia, eritema, emagrecimento nefrite lúpica  CT + CFO + PF + Tx   24m 
PMC F/26a 11a artralgia, edema IIb  CFO+ CT+ Tx 36m 
DHP F/28a  4a artralgia, edema, pneumonia  IVb CT + CFO 8m
MBRF F/34a 2a IRC, pneumonia não CT + CFO 24m
MPL F/28 4a artralgia, edema não CT  12m 
GBL M/43a  10a artralgia, edema  VI CT + CFO 12m
 CT= corticoterapia, CFO= ciclofosfamida, CQ=cloroquina, Tx=transplante renal, PF=plasmaferese
 
Tabela 2:  Evolução clínica dos pacientes com LES submetidos ao transplanterenal
Paciente Tempo de seguimento pós transplante doador Evolução Imunossupressão
MFA  13 meses HLA II  perda por rejeição crônica Aza + Pred + Cya 
MCVB  50 meses  cadáver normal Aza + Pred + Cya
ISO 44 meses  HLA II esclerose focal de novo Aza + Pred + Cya
MJSB 44 meses cadáver recidiva de doença Aza + Pred + Cya
VPS 14 meses cadáver  Perda por rejeição crônica Aza + Pred + Cya
RQC 38 meses cadáver Rejeição crônica Aza + Pred + Cya 
LMS 36 meses HLA I  normal Aza + Pred 
PMC 1 mês cadáver Perda por trombose de artéria renal Aza + Pred + Cya 
DHP 8 meses HLA I  normal Aza + Pred + Cya 
MBRF  8 meses cadáver normal Aza + Pred + Cya 
MPL cadáver proteinúria-glomerulopatia do Tx Aza + Pred + Cya 
GBL 8 meses HLA II normal  Aza + Pred + Cya 

 Aza= Azatioprina, Pred= Prednisona, Cya=Ciclosporina
 
Tabela 3: Evolução sorológica dos pacientes com
LES submetidos ao transplante renal
  !-------PRÉ TRANSPLANTE---!  !----------------------PÓS TRANSPLANTE--------------!
Paciente FAN C3/C4 Auto Ac FAN C3 C4 ADNA Auto AC
MFA  1/20 nl   neg  neg nl   nl   neg  neg 
MCVB  neg  nl  neg 1/160 nl  nl neg neg 
ISO 1/320  nl  neg  1/640  nl  â neg neg 
MJSB 1/1000 â  neg 1/320 â  â  1/80 aRo+, aLa+ 
VPS  neg   nl   neg  1/80  nl  nl neg  neg 
RQC  1/160  â  neg neg nl  nl  neg  neg 
LMS  neg   nl  neg neg nl nl neg neg
PMC 1/20  nl  neg  neg  â  â neg  aRo+ 
DHP 1/20 â  aRo+ 1/160 nl  nl neg  neg
MBRF neg nl neg neg  nl   nl  neg neg 
MPL neg  nl  neg 1/80  nl nl  neg 
GBL 1/40  nl  neg  neg  nl  nl  neg  neg 

Conclusão:
Após o transplante renal, vários padrões sorológicos podem ser observados
nos pacientes portadores de LES. A presença de FAN + não parece aumentar a
morbidade do transplante, entretanto, a associação de FAN+, auto-anticorpos
detectáveis e consumo de complemento indicam maior risco de atividade de
doença, inclusive com acometimento renal.