Infecção
do trato urinário na infância
Prof. Dr. Eduardo Antonio
de Andrade, 55 anos, é Doutor em Nefrologia pela Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo e Professor
Adjunto do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Uberlândia,
MG.
Introdução:
A morbidade e a mortalidade
das Infecções do Trato Urinário (ITU) mantém-se
de maneira considerável apesar do advento de numerosos agentes
antibacterianos eficazes. Essas infecções ainda responsáveis
por aproximadamente 20% de tôdas as consultas pediátricas,
e ITU "crônicas" constituem uma das principais causas de Insuficiência
Renal Terminal, isto é, aqueles pacientes pediátricos que
necessitarão precoce ou tardiamente de tratamentos de substituição
renal (diálise peritoneal ambulatorial contínua - CAPD, hemodiálise
e transplante renal)
Portanto, as infecções
do trato urinário ocupam um destaque importante na Nefrologia Pediátrica.
E isto não só é devido à relativamente alta
incidência, como também ao risco potencial que representam
para a função renal que pode vir a ser, irreversivelmente
comprometida.
A par disso, cresce, a sua
importância quando na verdade, verificou-se que pouco se conhece
sobre a história natural da enfermidade. E tudo torna-se
ainda mais complexo quando se percebe que os quadros infecciosos, às
vezes, são apenas indicativos de uma grave alteração
anátomo funcional do trato urinário que, por sua vez, condicionar
o aparecimento das infecções e perpetuar as mesmas, acabando
por desencadear um quadro altamente agressivo ao parênquima renal.
Por mais que possa parecer
como uma doença relativamente simples, a verdade é
que a ITU segue constituindo-se num intrincado e difícil problema
da nefrologia infantil que está a requerer conhecimentos cada vez
mais profundos dos fenômenos que cortejam e que podem conduzí-la
a situações clínicas graves, na sua evolução
ou simplesmente surgir como um fato clínico aparentemente surgir
como um fato clínico aparentemente benígno, como, o de uma
bacteriúria assintomática.
Nós, os pediatras,
em relação a ITU devemos responder a questões importantes,
a saber:
| 1.
Quais são os sinais que induzem-nos a suspeitar-mos de uma ITU? |
| 2.
Qual a melhor abordagem para confirmar o diagnóstico? |
| 3.
Qual o modo mais rápido de avaliarmos e tratarmos uma criança
com ITU? |
| 4.
Na avaliação, não esqueceremos da importância,
da relação e da classificação do refluxo vesico
ureteral com a ITU, assim como, qual a nossa conduta em relação
ao mesmo; |
| 5.
Quando necessitamos de apoio e consulta aos nefrologistas e urologistas
para melhor condução dos casos de ITU. |
Além, de respondermos
a essas questões, tentaremos abordar alguns aspectos polêmicos
relacionados a essa patologia das mais comuns e importantes na prática
pediátrica.
Em relação
a ITU deve-se evitar:
| 1.
Deixar de detectar aquelas crianças com maior risco de desenvolver
um comprometimento renal progressivo. |
| 2.
Realização de Diagnósticos equivocados e desnecessários,
levando a investigações onerosas e de risco, criando na criança
e familiares ansiedades indevidas. |
Após, mostrarmos a
importância da Infecção do trato urinário na
criança, aceita-se atualmente como definição de ITU
àquela condição na qual observa-se crescimento de
germes no trato urinário, mais comumente de bactérias (não
unicamente) e mais especificamente as enterobacteriáceas, principalmente
o gênero Echerichia coli (80 a 90% nos casos de primeira infecção).
Considera-se a ITU como
um Grupo Heterogênio de distúrbios, mas de importância
maior é a identificação de indivíduos com ITU
complicada, isto é, com função renal comprometida,
obstrução, refluxo vésico ureteral e Disfunção
neurogênica da bexiga.
2.DEFINIÇÃO
DE TERMOS
2.1. BACTERIÚRIA:
significa a existência de bactérias na urina. Normalmente,
a urina da bexiga é estéril. A Bacteriúria pode ser
devida a Infecção ou contaminação do espécime
de urina, no momento da colheita.
2.2. BACTERIÚRIA
SIGNIFICATIVA: a expressão bacteriúria utiliza-se
para diferenciar a bacteriúria da Infecção real
daquela produzida pela contaminação. O limiar tradicionalmente
usado para bacteriúria significativa é de 100.000 ou mais
unidades formadoras de colônias (UFC)/ml de urina emitida.
2.3. BACTERIÚRIA
ASSINTOMÁTICA: refere-se à bacteriúria significativa
no paciente sem sintomas atribuíveis ao trato urinário.
São mais comumente observadas em meninas maiores (>s 10anos) e adolescentes.
2.4. CISTITE: é
a infecção localizada na bexiga urinária, acompanhada
de sintomas de disúria, frequência e urgência miccionais;
no entanto, os mesmos sintomas podem-se observar nos processos Inflamatórios
encontrados na bexiga, uretra e vagina, na ausência de infecção.
2.5. SÍNDROME URETRAL
AGUDA: os pacientes com queixa de disúria, frequência
e urgência miccional, porém, sem bacteriúria significativa
em uma espécime de urina emitida, são descritos como portadores
de síndrome uretral aguda.
2.6. PIELONEFRITE AGUDA:
descreve-se como uma síndrome, caracterizada por presença
de dor localizada no flanco ou na região lombar, com sintomas sistêmicos
de febre, calafrios e prostração. Lembrar que essa sintomatologia
é típica da criança maior e que os lactentes
(crianças ? 2 anos) apresentam-se com quadros de septicemia. Ela
é causada por infecções do parênquima renal
e do sistema coletor, e muitas vêzes é complicada pela bacterienemia.
2.7. PIELONEFRITE CRÔNICA:
é uma expressão, imprecisa que não pode ser definida
como uma síndrome clínica. Conceitualmente, refere-se a um
aspecto anátomo-patológico específico dos rins. A
pielonefrite crônica é o resultado da inflamação
progressiva do Interstício e dos túbulos renais.
A expressão
Pielonefrite Crônica sugere que o Aspecto Patológico dos rins
(Fibrose, retração e cicatriz renais) ocorre em consequência
das ITU recorrentes. Pode-se suspeitar que um paciente posssa ser portador
de uma pielonefrite crônica se ao avaliarmos, encontramos:
1. História
de ITU recorrentes
2. Sinais radiológicos
de cicatriz renal baqueteamento dos cálices e afinamento do córtex
renal.
3. Associação
com hipertensão renal, rins atróficos.
2.8. REFLUXO INTRARENAL:
esta condição é caracterizada por refluxo do meio
de contraste da pelve renal para interior dos ductos coletores em crianças
com graus severos de refluxo vésico ureteral.
2.9. RECIDIVA: define-se
recidiva de uma ITU como uma recorrência de bacteriúria devido
ao mesmo organismo anteriormente isolado e debelado do trato urinário.
Recidiva ocorre em torno de 6 semanas após o término do tratamento
e mais comumente em torno de uma semana.
2.10. REINFECÇÃO:
a reinfecção é a recorrência de bacteriúria
após completar-se o tratamento da ITU.
Ela é devida
a um organismo diferente daquele anteriormente isolado. Reinfecção
significa um defeito nos mecanismos de defesa do hospedeiro.
2.11. PERSISTÊNCIA:
consiste naquela situação em que a bacteriúria persiste
durante e após o tratamento ITU.
3.
AVALIAÇÃO DO TRATO URINÁRIO
3.1. OBJETIVOS
Ao investigar o trato
urinário objetiva-se:
-
Conhecer a causa da ITU;
-
Determinar o aspecto dos rins
e se êles apresentam riscos de comprometimento renal;
-
Avaliar fatores de risco, como
refluxo vésico ureteral ou obstrução;
-
Planejar o tratamento mais adequado
e predizer o prognóstico.
Toda criança com ITU
comprovada, isto é, com bacteriúria significativa (? 105
col/ml) deverá se avaliada. A escolha e a extensão da Investigação
inicial, dependerão tanto da informação necessária
e também das facilidades locais, interesse e experiência da
interpretação.
Troca de informações
entre os clínicos (Pediatria, Médico de família, etc.)
e o Microbiologista, Radiologistas, Urologistas, Nefrologistas Pediátricos
poderão ajudar a resolver a complexidade do caso.
3.2. MÉTODOS DE
INVESTIGAÇÃO
3.2.1. MICROBIOLÓGICO:
Coleta, Preservação
Transporte de amostra de urina ao laboratório são essenciais
para o Diagnóstico e Tratamento da ITU. A prática microbiológica
comum, consiste na Urinoscopia (inspeção visual da Urina
Fresca), Teste de Nitrito e a Microscopia (presença de Leucocitúria,
Hematúria) darão o diagnóstico provável de
ITU e o tratamento iniciar-se-a após enviar a amostra para a realização
da Urocultura, a qual avaliar-se-á com 48 horas.
3.2.2. OUTROS EXAMES LABORATORIAIS
Solicitar-se-ão, proteína
C reativa, Hemossedimentação e Hemograma, nos casos com suspeita
de processo inflamatório parenquimatoso (Pielonefrite) e ou sinais
clínicos sugestivos de septicemia, assim como, eletrólitos
séricos e creatinina.
3.2.3. IMAGEM
Os objetivos do estudo de
Imagem (“Radiológico”) em um paciente com (ITU) são três:
1. Descobrir a presença
de qualquer anormalidade Urológica;
2. Identificar pacientes
nos quais a lesão renal crônica e a cicatriz resultaram de
uma ITU prévia não diagnosticada ou/e não tratada
adequadamente; e
3. Auxiliar no Diagnóstico
de Pielonefrite Aguda
Desde que as Anomalias Urológicas,
assim como, refluxo vésico ureteral, sistema coletor duplicado e
obstrução urinária (válvula e uretra posterior,
ureterocele) que predispõem a criança a comprometimento
renal crônico, portanto, uma avaliação para detectar
a presença de anomalias estruturais do trato urinário em
pacientes com (ITU) considera-se essencial na prevenção de
sequelas tardias. No entanto, não há um consenso entre os
diferentes autores sobre qual o momento de avaliação radiológica
para as crianças que sofreram a 1a. infecção
do trato urinário, uns usam prâmetros como Idade e sexo
e outros investigam todas as crianças menores de 5 anos. Acreditamos
ser a segunda conduta como a mais adequada. Anormalidades do trato urinário
detecta-se radiologicamente em 40 a 50% das crianças com ITU.
-
PLANO DE INVESTIGAÇÃO
DE IMAGENS:
-
LACTENTES: Nessas crianças
torna-se importante excluir: obstruções, refluxo vésico
ureteral. E confirmar se os Rins são normais. Portanto, na sua avaliação
necessita-se solicitar:
-
Ultrassonografia do trato urinário
-
Uretrocistografia Miccional
-
RX simples abdominal e
se possível
-
DMSA (ácido dimercaptossucinico)
-
CRIANÇAS ENTRE 1 E
5 ANOS DE IDADE: após a comprovação da ITU através
Urocultura positiva, obtém-se:
-
Ultrassonografia do trato Urinário
-
Uretrocistografia Miccional
-
CRIANÇAS MAIORES DE
5 ANOS DE IDADE
Crianças nessa faixa
etária terão menores chances de após uma infecção
urinária de desenvolverem Comprometimento do Tecido Renal, portanto,
necessitarão unicamente de uma Ultrassonografia do Trato Urinário
na avaliação inicial.
-
OBSERVAÇÃO:
Em qualquer das situações anteriores, se houver qualquer
anormalidade detectada e imperioso solicitar:
-
Urografia Exretora ou/e
-
DMSA.
Não se indica na investigação
inicial de uma criança com ITU a citoscopia.
Crianças com problemas
miccionais podem desenvolver mais frequentemente infecções
do trato urinário, principalmente aquelas portadoras de instabilidade
miccional, havendo às vêzes necessidade de um estudo Urodinâmico.
Deve-se lembrar, no entanto,
que a Investigação de Imagem não é um
método isento de riscos para os pacientes portadores de ITU,
especialmente, aqueles que nos procuram na vigência de comprometimento
renal. Além disso, a realização de uma anamnese cuidadosa
com respeito a presença de antecedentes alérgicos são
importantes para que não tenhamos surprezas quando encaminhamos
nossos pacientes aos radiologistas para exames contrastados.
4.
TRATAMENTO
4.1. INTRODUÇÃO
A infecção
do Trato Urinário (ITU) é uma condição recorrente
e importante na criança porque seus sintomas podem ser sub ou supervalorizados
em consequência do seu risco potencial de envolvimento Renal e como
um “Marcador” de uma patologia Presente mas não evidente.
O propósito de qualquer Esquema para a Eliminação
da Infecção consistir-se-á em:
Avaliar sintomas;
Prevenir recorrência e
ou limitar ou prevenir comprometimento renal;
Objetivar o sucesso a longo
prazo conseguido por um seguimento cuidadoso;
Identificar a causa da infecção
no sentido de evitar a recorrência.
O tratamento da ITU aguda usualmente
não apresenta problemas, desde que 4 pontos essenciais sejam observados:
-
Estabelecer o diagnóstico
ou pelo menos colher uma amostra de Urina para a cultura e Microscopia
(GRAM) antes de administrar antibióticos;
-
Erradicar a infecção
tão rapidamente quando possível pela introdução
rápida de antibacteriano efetivo e excluir outras infecções
bacterianas graves, como, meningite devem ser excluídas;
-
Manter a criança sob
rigorosa observação clínica e microbiológica
para assegurar se a terapêutica tenha sido apropriada e efetiva;
-
Investigar adequadamente a primeira
infecção.
Um dos questionamentos que se
faz em relação ao tratamento da ITU, em que situações
deve-se Internar as crianças com diagnóstico comprovado de
ITU, acreditamos haver necessidade as abaixos assinaladas.
-
Idade da Criança (Recém-nascidos
e lactentes maiores de 3 meses;
-
Gravidade da Doença (Urosepse,
processos obstrutivos)
-
Circunstâncias domiciliares,
ou ainda crianças com sintomas de:
-
Convulsões febris
-
Dor abdominal severa e febre
-
Diarréia e Vômitos
prolongados
-
Pielonefrite Aguda (Febre elevada,
calafrios com ou sem sintomatologia urinária).
Ao longo das últimas
3 décadas, houve uma modificação muito grande no manuseio
da ITU. Evoluiu-se de uma situação em que os Pediatras e
Nefrologistas Pediátricos acreditavam ser essencial tratar todas
as Uroculturas positivas, independente do Quadro Clínico e da idade
dos pacientes para a situação atual, em que se considera
o resultado da Urocultura, a faixa etária e a situação
clínica do paciente, antes de planejar a conduta.
A diferenciação
entre ITU sintomática e bacteriana assíntomática é,
considerada, no momento, o fator mais importante na definição
da conduta terapêutica da ITU.
Por outro lado, como veremos
posteriormente, os estudos urodinâmicos vêm tomando umpapel
importante na avaliação das crianças com ITU, principalmente,
naquelas com Distúrbios da Micção caracterizadas por
perdas urinárias diurnas ou noturnas e com alteração
do trato urinário. Pretende-se colocar, ainda, alguns pontos que
nos sirvam de reflexão quando na prática depararmos com crianças
com diagnóstico inequívoco de ITU:
4.2. INFECÇÃO
URINÁRIA SINTOMÁTICA
A infecção
do trato urinário sintomática, compreeende:
-
Pielonefrite Aguda e ITU febril
-
Cistite ou ITU com Sintomas
Miccionais (Disúria, Polaciúria, Incontinência/Urgência)
No tratamento da ITU Sintomática,
deve-se considerar o mesmo em 2 etapas:
4.2.1. MEDIDAS GERAIS:
essas envolvem.
-
Ingestão individualizada
de líquidos (pacientes com distúrbios do padrão miccional
- Hiperatividade do Detrusor - podem piorar quando ingerem líquidos
em abundância):
-
Micções corretas
-
Manutenção e controle
do hábito intestinal, com o uso de alimentação rica
em fibras, principalmente nos pacientes portadores de ITU associada a Bexiga
Neurogência e Disfunção Vesical.
4.2.2. TRATAMENTO ANTIMICROBIANO
O fator mais importante na
seleção do antimicrobiano é a sensibilidade da bactéria
as Enterobacteriáceas, especificamente as Escherichia coli são
responsáveis por mais de 70% das causas de ITU e a grande
maioria é sensível aos antibióticos comumente usados.
Entretanto, ao longo tempo, num mesmo local, se estabelecem variações
na sensibilidade aos antimicrobianos. Goldraich e cols estudaram 104 crianças
com ITU (56 de lactentes , 27 de pré-escolares e 17 escolares) e
com a primeira Urocultura positiva e observaram a sensibilidade da
Escherichia coli de 92% a Nitrofurantoina, de 85% ao Ácido Nalidíxico
de 65% à cefalexina e de 40% à associação
de Sulfametoxazol + Trimetoprim. (SMITH + TMP.
Portanto, é
importante ao prescrever antimicrobianos para o tratamento de ITU sintomática
avaliar sua Efetividade Terapêutica em 48 a 72h após
o início.
4.2.2. TRATAMENTO ANTIMICROBIANO
Ao prescrevermos um determinado
antimicrobiano, devemos considerar os seguintes ítens na escolha
do qual será mais adequada ao paciente:
-
Concentração Urinária
-
Efeitos Colaterais
-
Efeitos Ecológicos sobre
a flora intestinal
-
Facilidade de Administração
-
Custo
Sempre que o antibiograma mostra-se
sensível, pode dar-se preferência a Drogas Orais, como:
| Nitrofuratoina
(Furadantina): 7mg/Kg/dia, 3 a 4x/dia, VO, ou |
| Ácido
Nalidíxico (Wintomylon): 50mg/Kg/dia, VO, 4x ou |
| Cefalexina
(Keflex): 50 a 100mg/Kg/dia, VO, 4x ou |
| SMT+TMP
(Bactrim, Infectrim): 40 mg/8mg/Kg, VO, 2x, ou |
| Ceflacor
(Ceclor): 20 a 40mg/Kg/dia VO, 3x, todas essas drogas serão
prescritas por um período de 7 a 10 dias. |
O uso de Drogas parenterais
estará restrito aqueles casos:
| Não
resposta ou Evolução desfavorável com a terapêutica
oral
Pielonefrite
Aguda
ITU
presente em Recém-Nascidos, Lactentes menores de 3 meses.
Presença
de urosepse e aqueles pacientes com anomalias do trato urinário
severas, dá-se preferência a:
Aminoglicosídeos
(Amicacina): 15mg/Kg/dia EV, IM, 3x ou 2x/dia.
Cefalosporinas:
Cefazolina
(Kefazol); 25 a 100mg/Kg/dia, IM/EV de 8/8h.
Cetriaxona
(Rocefin): 50 a 100mg/dia - 1x/2x, EV, IM, essas drogas prescrever-seão
durante 10 dias. |
.
4.3. DIAGNÓSTICO
E TRATAMENTO DO DISTÚRBIO MICCIONAL
Em crianças,
Neurologicamente normais, que se apresentam clinicamente com ITU recorrente
e combinações variadas de Incontinência urinária
diurna e/ou noturna foram identificados distúrbios funcionais da
Micção, que são fatores etiopatogêncios significativos
na manutenção da ITU.
4.3.1. Hiperatividade
do Detrusor: instala-se em crianças que apresentam contrações
nãoiibidas do Detrusor e que para manter a continência urinária,
aumentam voluntariamente a constrição do esfíncter
externo. Nestes casos a capacidade vesical é pequena ou normal e
não há urina residual.
4.3.2. Hiperatividade
do Esfíncter - desenvolve-se em crianças
que urinam contra uma pressão anormalmente elevada por incoordenação
das atividades de contração do Detrusor e de Relaxamento
do esfíncter externo. Em geral, a capacidade vesical está
aumentada, há urina residual e graus variados de trabeculação
da Bexiga.
4.3.3. Forma Mista
(associação
de 4.3.1 e 4.3.2): é a mais frequente.
É de fundamental importância
identificar a presença destes Distúrbios Funcionais e Instituir
Terapêuticas adequadas.
Deve-se orientar nessas
crianças um Programa de Reabilitação Vesical, o qual
consiste em Micções com horários regulares, com intervalos
inicialmente frequentes e aumentados progressivamente, Micções
com esvaziamento vesical completo, com relaxamento adequado do esfíncter
e períneo.
A Oxibutinina é um
aminoterciário com ação Neurotrópica (anticolinérgico,
antimuscarínia) e Miotrópico (antiespasmódico, anestésico
local). Age diminuindo a pressão vesical, a Amplitude das
contrações de Detrusor e Aumentando a capacidade vesical.
4.4. QUIMIOPROFILAXIA
É a manutenção
por períodos prolongados (6 a 12 meses), de doses menores de Antimicrobianos.
As indicações atuais para a Quimioprofilaxia são:
-
Após a Erradicação
da ITU, até que se complete a Investigação por
Imagem, do Trato Urinário;
-
Pacientes com refluxo vésico
ureteral primário, menores de 5 anos de Idade;
-
Presença de refluxo vésico
ureteral primários em crianças maiores de 5 anos, com episódios
recorrentes de ITU sintomáticas;
-
Nos períodos pré
e pós-operatórios de correção de patologia
urinária, obstrutiva;
-
Em pacientes com Distúrbios
do padrão miccional, até que se assegure a correção
destas anormalidades funcionais.
-
Crianças com trato urinário
normal, mas com episódios recorrentes de ITU sintomática;
-
Em recém-nascidos com
diagnóstico intra-útero de mal formação do
trato urinário até que se conclua a Investigação.
CARACTERÍSTICAS DOS
AGENTES ANTI-MICROBIANOS USADOS NA PROFILAXIA DE ITU RECORRENTE:
-
ESSENCIAIS:
-
Deve-se ser administrado Oralmente
por longo período;
-
Ser bem tolerado e com Toxicidade
e efeitos colaterais mínimos;
-
Conseguir concentrações
adequadas da droga ativa na urina;
-
Desenvolvimento raro de resistência
-
DESEJÁVEIS:
-
Prevenir colonização
reto, vagina e zona periuteral
-
Mínimos efeitos ecológicos
sobre a flora intestinal
DROGAS USADAS NA PROFILAXIA
DAS ITU
A Nitrofurantoína é
largamente usada no mundo inteiro com sucesso e segurança, na prevenção
da recorrência de ITU em crianças.
A dose utilizada é
de 1 a 2mg/Kg, VO diariamente à noite.
A Nitrofurantoína
está contra-indicada:
-
Em Recém-nascidos
-
Em pacientes portadores de deficiência
de Glicose - 6 - Fosfato Desidrogenase.
-
Em pacientes com Insuficiência
renal
-
SULFAMETOXAZOL + TRIMETROPRIM
(SMT/TMP)
A associação de
SMT/TMP tem-se mostrado eficaz na prevenção de Recidivas
de ITU, quando usada, diariamente, em doses de (1 a 2mg/Kg VO em dose única
à noite ou na dose 5 a 10mg/Kg VO SMT) no mesmo esquema.
Eventualmente, pode-se usar
AMOXICILINA ou/e CEFALEXINA, principalmente quando há contra-indicação
para o uso da NITROFURANTOÍNA e da associação SMT/TMP,
nas doses de 125 a 250mg VO à noite em dose única.
As vêzes, as doses
para a Quimioprofilaxia, o intervalo e a duração necessitam
ser Individualizadas.
Há ocorrência
de ITU durante a Quimioprofilaxia, a avaliação da Sensibilidade
do Organismo Infectante fornece informações úteis.
Se o germe é sensível à droga prescrita, a criança
não está seguindo o tratamento ou a dose é insuficiente.
Se a bactéria é resistente, houve aumento da urina residual
(pode ser indicativo de Distúrbio do Padrão Miccional) ou
muito frequentemente a dose do antimicrobiano está MUITO ALTA e
todos os Microorganismos intestinais foram eliminados e substituídos
por Germes resistentes. O período mínimo de Quimioprofilaxia
é de 6 a 12 meses.
4.5. CIRCUNCISÃO
Atualmente, vêm-se
Acumulando Evidências Irrefutáveis de que LACTENTES do sexo
masculino Não circuncizados com Trato Urinário Normal apresentam
uma probabilidade de 10 a 20 vezes maior que os circuncizados de terem
ITU Sintomática e Recorrente. Não está justificada
a Indicação Indiscriminada de Circuncisão (não
postoplastia) em todos os recém-nascidos e Lactentes. Entretanto,
tem-se indicado Sistematicamente sua realização recém-nascidos
e Lactentes com ITU e/ou Anormalidades no trato Urinário, tais como,
Refluxo Vésico Ureteral, Válvula de Uretra Posterior e Bexiga
Neurogênica, que cursam com ITU.
4.6. BACTERIÚRIA
ASSINTOMÁTICA
O diagnóstico de Bacteriúria
Assintomática torna-se na maioria das vêzes difícil.
Deve-se submeter os pacientes a uma Anamnese Rigorosa, inquirindo-se
especificamente sobre sintomas Miccionais e hábitos Intestinais.
E evidente que é práticamente impossível estabelecer
o diagnóstico de Bacteriúria Assintomática em Rns
e crianças até os 5 anos.
Na década de
70, realizou-se, principalmente na Inglaterra, estudos prospectivos sobre
a história natural da Bacteriúria Assintomática, nos
quais se compararam meninas tratadas versus não tratadas. Não
se demonstrou nehuma evidência de Risco Aumentado de Pielonefrite
Aguda em pacientes Não tratadas quando comparadas com as tratadas.
Também Não se detectou Nenhum comprometimento do Crescimento
Renal, ou da Filtração Glomerular, pacientes Não Tratadas.
Conclui-se que Não Havia Nenhuma Evidência do Benefício
do Tratamento de Bacteriúria Assintomática, em Meninas com
Idade Escolar. Confirmado o diagnóstico de Bacteriúria Assintomática
e investigado o Trato Urinário com Ultrassonografia e Cintilografia
Renal com DMSA (acido dimercaptossuccínico) a conduta atual adotada
é de Abolir o uso de Antimicrobianos em crianças maiores
de 5 anos, com Bacteriúria Assintomática, desde que
Não se Detecte Sintomas ou Sinais Que Indiquem Comprometimento Renal.
4.7. OUTRAS MEDIDAS COADJUVANTES
Juntamente, com a Terapia
Antimicrobiana recomenda-se:
1. Controle da
Oxiuriase em meninas;
2. A Higienização
da Genitália não deve ir além das recomendações,
normais, exceto nas meninas onde a Higiene Pós-Defecação
faz-se no sentido contrária à vagina;
3. Ingestão de Líquidos
para garantir um bom fluxo Urinário;
4. Evitar, nas Meninas,
o uso de Nailon em Roupas Íntimas e Banhos de Imersão com
Sabonetes Borbulhantes;
5. Nos casos de Refluxo,
estimular a criança praticar sempre a micção dupla
ou tripla para Evitar Urina Residual;
6. Controle da Constipação
Intestinal
4.8. SEGUIMENTO
Realizar Uruculturas Periódicas
em crianças sem Anormalidades Anatômicas e Funcionais do Trato
Urinário.
Uroculturas mensais por 3 meses;
Uroculturas Trimestrais até
completar 12 meses de Idade;
Uroculturas semestralmente até
completar 3 anos de Idade;
Urocultura anualmente até
completar 5 anos de Idade;
Após somente nas suspeitas,
evidenciadas por dados clínicos do Trato Urinário.
4.9. CONCLUSÃO
O sucesso no Tratamento de
crianças com ITU depende de uma Relação Médico-Paciente
Adequada. Há necessidade de explicar os Fatores envolvidos
na Gênese da ITU, os possíveis riscos, o índice de
Recorrência e a Importância de cada uma das Medidas prescritas
à Família e, quando a idade o permitir, também apra
o Paciente. Só assim obter-se-á a Cooperação
dos mesmos. Se não houver entendimento da importância
de cada Etapa, a Aderência ao tratamento torna-se-á difícil.
A conduta terapêutica
da ITU é um processo muito dinâmico. À medida que avançam
os conhecimentos sobre a Etiopatogênia, alterações,
são introduzidas na Abordagem destas crianças. É imperativo
que se distinga modificações Efetivas, diferenciando-as dos
Modismos que cada vez mais se infiltram na atividade médica. Não
se deve esquecer que Antes de tratar uma ITU, estamos diante de uma criança
e uma família com Medos, Ansiedades e Dúvidas decorrentes
da Patologia do trato urinário, num País em que o Custo dos
exames e das Medicamentos é muito elevado para as condições
Econômicas da maioria da população.
Apesar dos avanços
alcançados nas últimas décadas, a ITU na criança
continua sendo um grande Desafio para a Neurologia Pediátrica. Entretanto,
a maioria dos pacientes apresenta um Excelente Prognóstico. Como
se comentou, a identificação dos Fatores de Risco do Pior
Prognóstico está ligado, essencialmente, à Baixa Idade,
que é a época em que se detectam as mais severas Malformações,
aatualmente um procedimento factível já na vida Fetal. Os
Distúrbios da Nefrogênese que apresentam estas crianças,
que em muitos casos causam Precoce e Severo Comprometimento na função
renal, respondem pela pior Evolução que podem apresentar,
seja de Mortalidade Precoce seja de perda Progressiva da função
renal.
6. COMENTÁRIOS
FINAIS
A evolução
dos conheciemntos clínicos são Fundamentais, sobretudo, Microbiológicos
e Imunológicos, um emprego Mais Restrito de Antibióticos,
uma maior Homogeneidade dos Grupos de Doentes, Estudos Prospectivos mais
bem conduzidos permitem ao Clínico combinar pouco a pouco; a sua
estratégia, em relação ao tratamento da ITU.
As Medidas Gerais que tendem
a Eliminar os Fatores Favoráveis conservam todo seu valor.
Atualmente, como antigamente, as Infecções acompanhadas de
Mal-Formações e Obstruções dependem da Cirurgia.
Para as outras formas, a Indicação Terapêutica e a
escolha de um Antibacteriano, basear-se-ão nos vários fatores
mencionados Anteriormente e que são por exemplo:
1. A idade e o sexo
do paciente
2. A frequência das
recidivas
3. A presença ou
não de um Refluxo Vésico-Ureteral ou uma Redução
do Parênquima Renal;
4. A natureza do germe;
5. A qualidade e a concentração
urinária do medicamento;
6. A sua influência
sobre flora intestinal;
7. A sua relativa Incuidade
e Menor custo.
O médico evitará
classificar a ITU como qualquer Bacteriúria ouou Piúria e
tentará classificar a Bacteriúria Patológica no seu
quadro Nosológico com o auxílio do Uro-Radiologista
e do Cirurgião Urologista. Depois tratará o Parasita e o
Paciente, sem Excessos, mas também sem Complascência,
tentará evitar as Sobrecargas Psicológicas Impostas ao seu
Doente devidas a Exame Repetidos ou Sofisticados e a Controles Inúteis.
7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
1. DINIZ, J.S.S. E OLIVEIRA,
E.A. - Novos Rumos no Tratamento da ITU na Infância, Em: Atualização
em Nefrologia Pediátrica - DPTO de Nefrologia Pediátrica
- SBN - pg 15-22, 1994.
2. MENEZES, R DE P. - Bexiga
Instável na Criança - Em: Atualização em Neurologia
Pediátrica - DPTO de Nefrologia Pediátrica - SBN - pg: 23-30,
1994.
3. GOLDRAICH, N. P. - Conduta
Terapêutica nas Infecções do Trato Urinário
- Em: 51o. Curso Nestlè de Atualização em Pediatria
- pg: 92-96, 1994.
4. SMELLIE, J. M. Manegement
and Investigation of Children With Urinary Tract Infection. Em: Clinical
Pediatric Nephrology - 2a. Edição - pg: 160 - 174, 1994.
5. KHER, K.K. LEICHTER, H.E.
Urinary Tract Infection Em: Clinical Pediatric Nephrology - 1a. Edição
pg: 277-322, 1992.
6. ANDRADE, E. A. - Infecção
do Trato Urinário na Infância - Monografia - pgs: 32, 1989
- UFU
7. TOPOROVSKI, J. e GUIDONI,
B.ME - Infecção do Trato Urinário na Infância
- Atualização - Temas de Pediatria, no. 64 - Nestlè
- 1996
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