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Gestação
em mulheres nefropatas
Istênio
F. Pascoal,
Pesquisador Associado CNPq/UnB
Disciplinas de Nefrologia
e de Obstetrícia
da Faculdade de Ciências
da Saúde da
Universidade de Brasília,
Brasília-DF
| Introdução
| Gravidez com função renal preservada
|
| Gravidez
com Insufuciência Renal Moderada |
| Gravidez
com Insuficiência Renal Avançada | Síndrome
Nefrótica |
| Biópsia
renal na gravidez |
| Manuseio
de pacientes grávidas com nefropatia | Orientação
dietética |
| Curso
da gestação | Sumário |
Referências
|
Introdução
A associação
de gravidez e nefropatia foi por muito tempo considerada arriscada e muitas
gestações foram interrompidas seguindo orientação
de literatura pobremente documentada. Nas últimas duas décadas,
inúmeros estudos foram realizados e, embora retrospectivos em sua
maior parte, incluem centenas de pacientes cujo diagnóstico da doença
renal foi feito através de biópsia renal. Uma análise
crítica destes trabalhos permite as seguintes considerações:
1. Mulheres com nefropatia
pré-existente à gravidez, mas com função renal
preservada ou apenas discretamente alterada e com pressão arterial
sistêmica normal ou satisfatoriamente controlada, apresentam boa
evolução obstétrica e a gravidez não parece
afetar adversamente o curso da doença renal.
2. O prognóstico é
mais reservado se a função renal estiver moderadamente comprometida
(creatinina > 1,5 mg/dl e < 3,0 mg/dl) ou se existir hipertensão
antes da concepção. Uma significativa proporção
(cerca de um terço) de tais pacientes experimentarão deterioração
da função renal durante a gravidez e progressão acelerada
da nefropatia após o parto.
3. Mulheres com insuficiência
renal avançada (creatinina sérica > 3,0 mg/dl) são
frequentemente inférteis. Quando elas concebem, a probabilidade
de boa evolução obstétrica é baixa e a gestação
se caracteriza por alta morbidade materna - duas razões substanciais
para desencorajar gravidez em tais pacientes.
Gravidez
quando a função renal está preservada
Em 1980, Katz e colaboradores
(1), em um estudo cooperativo, combinando dados retrospectivos e prospectivos,
avaliaram o efeito imediato e a longo prazo de 121 gestações
em 89 pacientes com nefropatia pré-existente. Com exceção
de um caso, o diagnóstico da doença renal foi estabelecido
através de biópsia renal, praticada antes da concepção.
Todas as pacientes apresentavam função renal normal ou discretamente
comprometida (creatinina sérica < 1,4 mg/dl) e apenas 20% tinham
hipertensão, geralmente discreta. A principal conclusão deste
trabalho foi que a doença renal pode se tornar clinicamente aparente
ou piorar durante a gestação, mas seu curso natural provavelmente
não é afetado pela gestação. Do ponto de vista
obstétrico, foi observado que a incidência de perdas fetais
(4,9%) e neonatais (4,1%), embora moderadamente mais elevadas do que em
grávidas normais, não permitem desaconselhar a gravidez em
mulheres com doença renal nesta fase evolutiva.
Cinco estudos adicionais,
explorando as inter-relações da gravidez e nefropatia com
função renal normal, surgiram na literatura desde então.
Estes relatos (2-6) compreendem mais de 900 gestações e tendem
a confirmar os dados de Katz e colaboradores, tanto em relação
à história natural da nefropatia, quanto a respeito do prognóstico
fetal. Quando problemas, tais como deterioração funcional
ou complicação fetal grave, acontecem, isto se dá
geralmente em mulheres com hipertensão pré-existente.
Em um estudo experimental
(7), nós avaliamos a influência da gravidez sobre o curso
da nefropatia induzida pela adriamicina entre ratas normotensas e hipertensas.
A gravidez, per se, não alterou a evolucão da nefropatia
em ratas normotensas. Em ratas virgens, a hipertensão arterial acentuou
apenas moderadamente as alterações morfológicas renais
causadas pela adriamicina. Entretanto, em ratas grávidas, a hipertensão
arterial agravou e acelerou o curso da nefropatia. Em suma, as alterações
renais foram substancialmente mais pronunciadas nas ratas grávidas
hipertensas, quando comparadas com grávidas normotensas ou virgens
hipertensas, o que estabelece uma inequívoca associação
entre a interposição da hipertensão o efeito potencialmente
prejudicial da gravidez sobre a evolucao desta forma de nefropatia experimental
Uma visão mais pessimista,
em que a gravidez exerce uma influência deletéria autônoma
sobre a evolução da nefropatia, bem como pior prognóstico
fetal, tem aparecido periodicamente na literatura. As doenças mais
afetadas pela gravidez, de acordo com estes autores, são nefropatia
por IgA, glomeruloesclereose focal e nefropatia de refluxo.
Gravidez
com insuficiência renal moderada
O termo insuficiência
"moderada" categoriza mulheres que perderam mais de um terço de
sua função renal (creatinina sérica > 1,5 mg/dl e
< 3,0 mg/dl), mas ainda não atingiram a condição
urêmica. Parece haver menos controvérsias relativas ao efeito
da gravidez sobre a doença renal nestas mulheres, mas ainda há
poucos dados para conclusões definitivas a este respeito. Deve ser
lembrado, entretanto, que quando a função renal está
comprometida, uma boa proporção da creatinina é excretada
via secreção tubular, a quantidade da qual varia segundo
a natureza da lesão. Assim, esforços para avaliar a filtração
glomerular residual através dos níveis de creatinina ou de
sua depuração são menos confiáveis do que quando
a função está bem preservada. Com estas observações
em mente, o consenso é que enquanto a gravidez pode não interferir
adversamente em muitas mulheres com insuficiência moderada, numa
proporção significativa a função renal se deteriorará
durante a gravidez, o que frequentemente é irreversível e
acelera a progressão da doença renal. Kincaid-Smith (8) e
Bear (9) notaram que aproximadamente metade de seus pacientes com insuficiência
renal moderada (4 de 8 e 5 de 11 pacientes, respectivamente) experimentaram
substancial diminuição da função renal durante
a gestação, frequentemente associada com hipertensão
arterial moderada a grave, precariamente controlada. Hou e colaboradores
(10) e Imbasciati e colaboradores (11) revisaram 39 gestações
em 37 pacientes com níveis de creatinina excedendo 1,4 e 1,6 mg/dl,
respectivamente. Embora mais de 85% destas gestações conduziram
fetos viáveis, 24 das 39 gestações foram complicadas
por hipertensão grave e em 25% das pacientes houve piora da função
renal. Mais recentemente, Cunningham e colaboradores (12) confirmaram estas
observações, observando ainda que estas mulheres não
apresentam a expansão volêmica "fisiológica" característica
da gravidez normal.
Gravidez
com insuficiência renal avançada
A maioria das mulheres com
insuficiência renal avançada (creatinina sérica > 3,0
mg/dl) tem amenorréia ou ciclos menstruais anovulatórios.
Mas, embora a probabilidade de concepção seja baixa, ela
ocorre (12) e isto inclui mulheres com insuficiência renal terminal,
sob terapêutica dialítica (13). O uso atual de eritropoetina
e CAPD pode estar aumentando a prevalência de ciclos ovulatórios
nestas mulheres e, em consequência, o risco de engravidarem, especialmente
quando o aconselhamento anticoncepcional é omitido. Quando a concepção
ocorre, a sobrevida fetal é baixa (<50%), mas os riscos de graves
complicações maternas são consideráveis e incluem
hipertensão maligna e hemorragia intraperitoneal.
Síndrome
nefrótica
A proteinúria aumenta
durante a gestação em cerca de metade das mulheres com nefropatia
pré-existente, frequentemente para níveis nefróticos.
Como esperado, esta proteinúria está associada mais a doenças
glomerulares do que tubulointersticiais, mas cuidados são necessários
para não confundir "alterações fisiológicas"
da gravidez com exacerbação da doença renal. Por exemplo,
aumento na excreção urinária de proteinas pode ser
consequência da elevação na hemodinâmica renal
que acompanha a gravidez, ou talvez a aumento da pressão na veia
renal (à medida que o conteúdo abdominal se avoluma), ou
ambos. Ademais, o nível de albumina sérica diminui 0.5 a
1 g/dl na gravidez normal e quando isto ocorre em pacientes com doença
renal o edema pode se formar (ou piorar, se já presente). Outras
alterações da gravidez normal simulando progressão
da síndrome nefrótica são o aumento nos níveis
plasmáticos de colesterol e outros lipídeos circulantes.
O prognóstico materno
e fetal em mulheres com síndrome nefrótica parece bom, se
a função renal estiver preservada e a hipertensão
ausente. Alguns autores sugerem que a hipoalbuminemia e a consequente contração
no volume intravascular resultam em fetos pequenos para a idade gestacional,
mas esta impressão não tem sido confirmada em estudos controlados
(1). As sugestões de que crianças de mães normotensas
com intensa proteinúria durante a gestação manifestam
comprometimento no desenvolvimento mental ou neurológico requer
confirmação.
Biópsia
renal na gravidez
Biópsia renal percutânea,
introduzida nos anos 50, constitui a principal razão do progresso
na nossa compreensão da patologia renal e da história natural
de muitas nefropatias específicas. As técnicas de biópsia
foram também praticadas em populações grávidas
(14), especialmente em mulheres com pré-eclâmpsia. As biópsias
tiveram as mesmas indicações diagnósticas praticadas
fora da gestação, mas o uso principal deste procedimento
em mulheres grávidas foi diferenciar as diversas causas de hipertensão
durante a segunda metade da gravidez. Acreditava-se, inicialmente, que
a demonstração da lesão característica da pré-eclâmpsia
seria uma indicação para o término da gravidez, enquanto
a observação de uma outra lesão poderia conduzir a
intervenções terapêuticas específicas, objetivando
permitir a continuidade da gravidez até o ponto onde a sobrevida
fetal estivesse assegurada.
Embora a biópsia renal
na gravidez, realizada sob condições de controle da pressão
arterial e da crase sanguínea, não implique maiores riscos,
as indicações hoje são limitadas a situações
onde haja deterioração súbita da função
renal ou síndrome nefrótica florida, ambas sem causa óbvia
aparente e ocorrendo antes da 32a. semana de gestação. Esta
orientação se baseia na possibilidade de certas formas de
glomerulonefrite rapidamente progressiva responderem a tratamento agressivo
com corticoterapia em "pulsos" e, talvez, plasmaferese. Na síndrome
nefrótica, enquanto alguns autores recomendam corticoterapia "cega"
em tais casos, Lindheimer prefere determinar previamente se a lesão
renal subjacente é propensa à resposta com esteróides,
desde que a hipercoagulabilidade própria da gravidez pode se acentuar
com este tratamento. Quando estas condições surgem após
a 32a. semana de gestação, com razoáveis chances de
sobrevida fetal, a interrupção da gravidez possibilita a
apropriada abordagem propedêutica e terapêutica. Tais ocorrências,
felizmente, são incomuns. Por outro lado, o seguimento pré-natal
de mulheres normotensas com discreta a moderada proteinúria e/ou
hematúria microscópica assintomática deve ser monitorizado
frequentemente e uma avaliação mais extensa de sua doença
renal postergada para o período pós-parto.
Manuseio
de pacientes grávidas com nefropatia
Quando aconselhamos pacientes
com doença renal sobre as chances e riscos de concepção,
ou de continuação de uma gravidez já em curso, nenhuma
resposta ou decisão surge facilmente. A expectativa das pacientes
é grande e o desejo da maternidade suficientemente forte para obter
a concordância do médico, muitas vezes sem a necessária
noção ou atenção aos riscos inerentes. Ademais,
as pacientes podem conceber contra o aconselhamento ou recusar a interrupção
da gravidez por razões religiosas ou emocionais, em cujos casos
seu médico deve esta preparado para manusear uma gestação
potencialmente complicada.
Alguns autores não
recomendam gestação se o nível de creatinina sérica
excede 1,5 mg/dl, enquanto outros a permitem em mulheres com níveis
pré-concepcionais de até 2,0 mg/dl, especialmente em pacientes
com rim único, receptoras de transplante renal e portadoras de doença
tubulointersticial primária. Em todas estas circunstâncias,
a pressão arterial diastólica não deve ultrapassar
90 mmHg, espontaneamente ou sob a ação de drogas anti-hipertensivas..
Toda mulher grávida
com doença renal deve ser receber atenção terciária,
sob a coordenação de um especialista em medicina materno-fetal
e um nefrologista. Além da rotina pré-natal convencional,
os seguintes parâmetros renais devem ser monitorizados:
1) Creatinina sérica,
depuração de creatinina e proteinúria de 24 horas
(avalia mudanças funcionais);
2) Concentrações
de albumina e colesterol plasmáticos (importante no acompanhamento
da síndrome nefrótica);
3) Urina tipo I e cultura
de urina (vigilância de infecção urinária) ;
4) Ácido úrico,
aminotransferases, desidrogenase lática, coagulograma e contagem
de plaquetas (diagnóstico de pré-eclâmpsia superajuntada).
Visitas pré-natais
quinzenais até a 32a. semana, seguida de acompanhamento semanal,
são as orientações correntes. A avaliação
da função renal deve ser feita a cada 4-6 semanas, a menos
que as circunstâncias imponham um intervalo menor. A avaliação
fetal, particularmente a análise do perfil biofísico, deve
ser iniciada precocemente, especialmente em pacientes nefróticas
com hipoalbuminemia. Deve-se evitar o uso de diuréticos, particularmente
em grávidas nefróticas, já que elas apresentam redução
do volume intravascular e uma depleção posterior pode comprometer
a perfusão utero-placentária. Esta recomendação,
entretanto, é relativa, porque em algumas pacientes os rins são
retentores ávidos de sal e diuréticos precisam ser usados,
embora cautelosamente. Isto é particularmente verdadeiro em portadoras
de nefropatia diabética.
Orientação
dietética
Dietas hiperproteicas foram
prescritas, no passado, para pacientes com proteinúria nefrótica,
especialmente durante a gestação, quando as necessidades
anabólicas aumentam. Atualmente, os nefrologistas estão tratando
a maioria das pacientes nefropatas não-grávidas (com ou sem
síndrome nefrótica) com dieta hipoproteica. As razões
teóricas para esta mudança se fundamentam na observação
de que a hiperfiltração glomerular nos nefrons residuais
(intactos) acelera a progressão da doença. A restrição
protéica na dieta protegeria o rim por prevenir a hiperfiltração
e diminuir a pressão capilar glomerular e, paradoxalmente, pode
aumentar os níveis plasmáticos de albumina, devido à
sua menor perda urinária e, talvez, à diminuição
no catabolismo da albumina. Permanece controverso se mulheres nefropatas
devem manter a restrição dietética de proteinas quando
engravidam. Alguns autores preconizam a extensão desta orientação
durante a gravidez, enquanto outros são mais cautelosos e aguardam
maiores informações sobre os efeitos da restrição
protéica sobre o desenvolvimento neurocerebral, primeiro em modelos
animais, depois em estudos clínicos judiciosamente conduzidos.
Curso
da gestação
A depuração
de creatinina e os níveis da pressão arterial sistêmica
são os dois parâmetros que decidem o curso da gestação.
Evidências de deterioração funcional ou o aparecimento
(ou piora rápida) de hipertensão são melhor avaliados
em nível hospitalar e a falta de controle ou reversão desta
variáveis constitui um fundamento razoável para a interrupção
da gestação. Desde que a determinação de creatinina
sérica pode variar bastante entre laboratórios, decisões
não devem ser feitas até que a direção e a
intensidade das alterações sejam claramente confirmadas.
É importante lembrar que uma pequena diminuição na
depuração de creatinina (15-20%) pode ocorrer próximo
ao termo e que aumento de proteinúria na ausência de hipertensão
não deve causar alarme e, portanto, tais alterações
não requerem internação.
Mulheres grávidas
com doença renal pré-existente ou hipertensão essencial
são mais susceptíveis do que populações controles
para desenvolver pré-eclâmpsia sobreposta, que frequentemente
ocorre precocemente (antes da 30a.semana de gestação). Pré-eclâmpsia
superajuntada, entretanto, pode ser difícil diferenciar de agravamento
da doença renal subjacente, especialmente em mulheres com doença
glomerular que são susceptíveis a hipertensão e proteinúria.
De qualquer forma, quando estas situações se apresentam a
paciente deve ser hospitalizada e tratadas como se tivessem pré-eclâmpsia
sobreposta, uma atitude prudente, considerando a natureza potencialmente
explosiva desta condição.
Sumário
O aconselhamento sobre chances
e riscos de concepção ou de continuidade de uma gestação
em mulheres com doença renal pré-existente, bem como o acompanhamento
de nefropatas grávidas já decididas a prosseguir a gestação,
constitui um dilema clínico que deve ser compartilhado entre o nefrologista
e o obstetra. A visão prevalecente é que o grau de comprometimento
funcional renal e a presença ou ausência de hipertensão
antes da concepção determinam tanto a evolução
da gravidez quanto o efeito desta sobre a história natural da doença
renal. Mulheres normotensas com mínima disfunção renal
têm uma chance de sucesso maior que 90% e há pouca evidência
de que a gestação afetará adversamente a nefropatia.
A presença de hipertensão aumenta exponencialmente as possibilidades
de complicações se não tratadas agressivamente e o
prognóstico é igualmente reservado em mulheres com insuficiência
renal moderada. Assim, há uma tendência a não recomendar
gravidez em mulheres com insuficiência renal moderada e, definitivamente
desencoraja-la, quando a função renal estiver substancialmente
comprometida. Nos últimos anos, um número crescente de mulheres
com insuficiência renal terminal estão engravidando, em parte
devido à falta de aconselhamento anticoncepcional. Permanece controverso
se restrição protéica deve ser adotada em nefropatas
grávidas, uma vez que o efeito desta manobra terapêutica sobre
o desenvolvimento fetal ainda não está esclarecido.
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14. Dieckmann WM, Potter
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J Reprod Med 36:463-466,1957.____
* Istênio F. Pascoal
Fone/Fax: (061) 346-9191
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