A investigação
epidemiológica na prevenção da insuficiência
renal terminal. Ênfase no estudo da agregação
familiar.
Eugênio
P.Q. Madeira,
Guilherme S. Lopes e
Sergio FF Santos.
Universidade do Rio de Janeiro
(UNIRIO)
e Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ).
O uso crônico de hemodiálise
tornou-se possível nos primeiros anos da década dos sessenta,
graças a Wayne Quinton que fez adaptações com borracha
de silicone a um dispositivo para acesso vascular feito de Teflon, que
fora idealizado por Belding Scribner. Ainda nesta mesma década,
a fístula arteriovenosa de Cimino e Brescia veio substituir com
muitas vantagens o shunt de Quinton-Scribner, que hoje está proscrito.
Foi também nos anos sessenta que Henry Tenckhoff criou um cateter
flexível de silicone adaptado com cuffs de Dacron. Isto permitiu
um acesso duradouro à cavidade peritoneal e o uso da diálise
peritoneal intermitente como opção terapêutica da IRCt.
Embora este procedimento tenha sido pouco utilizado, nos anos setenta,
após os trabalhos de Robert Popovich e Dimitrios Oreopoulos, a diálise
peritoneal ambulatorial contínua tornou-se um método difundido
em todo o mundo [32].
Superadas as dificuldades
técnicas para a realização do tratamento dialítico
de longa duração, juntamente com os avanços nos procedimentos
do transplante renal, estava definida a estratégia para manter vivos
pacientes portadores de doença renal crônica avançada,
condição até então fadada ao êxito letal.
Estas modalidades de tratamento na realidade se complementam, permitindo
que pacientes possam aguardar sob diálise as condições
clínicas adequadas, o aparecimento de eventuais doadores para o
transplante, ou que possam, eventualmente, retornar à diálise
nos casos de rejeição.
É notável a
melhoria na qualidade de vida nos portadores de doença renal crônica.
Os anos mais recentes presenciaram importantes avanços em equipamentos,
técnicas e no manuseio terapêutico da síndrome urêmica
[26,35]. Diversificaram-se as modalidades de tratamento e a prescrição
da diálise pôde ser individualizada [22,25]. Ainda assim,
a IRCt é uma condição com problemas médicos,
sociais e econômicos devastadores em todo o mundo, principalmente
nos países do terceiro mundo, havendo regiões pobres da Ásia
e África Central onde nem há disponibilidade regular de suporte
dialítico [1,9,12].
Desde cedo, o tratamento
da IRCt, principalmente pelo seu elevado custo financeiro, impôs
dilemas, mesmo às nações ricas, sobre quem seriam
os beneficiários mais adequados [3,4,49]. Até que instituições
estatais ou seguradoras particulares garantissem o seu financiamento, era
muito reduzido o número de indivíduos sobreviventes. Nos
últimos 15 anos, as restrições definidas pela faixa
etária, o tipo de doença, ou condições clínicas
incapacitantes associadas, previamente impostas por algumas nações,
têm sido aos poucos abandonadas [44].
As projeções
previam que nos primeiros anos haveria um grande afluxo de pacientes aos
programas de diálise, mas isto tenderia a uma estabilização
resultante do equilíbrio entre o ingresso de novos pacientes e o
número de óbitos. Se a incidência e a mortalidade fossem
conhecidas e estáveis, então seria possível estimar
a prevalência num determinado período de tempo. As estimativas
relacionadas ao momento em que ocorreria este estado de equilíbrio,
sua prevalência e os fatores determinantes desta equação
seriam informações fundamentais para que se pudesse planejar
estratégias de saúde pública bem como estimar os custos
financeiros.
As instituições
de saúde pública dos Estados Unidos e Europa protagonizaram
estas preocupações. Em 1984 Sugimoto e Rozansky [54] publicaram
um perfil epidemiológico de vinte estados do leste dos Estados Unidos
compreendendo os anos de 1973 a 1979. O início deste período
corresponde ao momento em que o Medicare passou a financiar o tratamento
dialítico nos Estados Unidos. Glomerulonefrite crônica (28,4%),
nefroesclerose hipertensiva (17,4%), nefropatia diabética (12,2%),
nefrites intersticiais (9,4%) e rim policístico (7,9%) eram as causas
de doença renal mais comumente encontradas. A incidência de
IRCt na população branca parecia caminhar para uma estabilização
em torno de 40 a 60 indivíduos por milhão para ambos os sexos
a partir de 1977. Esta tendência era notória em doenças
como a glomerulonefrite e o rim policístico. Entre os negros, a
incidência mantinha uma tendência de crescimento e ao final
de 1979 atingia 125 e 100 por milhão entre homens e mulheres, respectivamente.
Este fenômeno era também proeminente entre os idosos e doentes
cuja IRCt fosse causada por hipertensão arterial ou diabetes mellitus.
A década que se seguiu,
até o início dos anos noventa, confirmou a tendência
mundial de crescimento de pessoas mantidas sob tratamento sobstitutivo
da função renal. Nos Estados Unidos, a incidência dobrou
nos últimos dez anos e aumenta cerca de 8,8% ao ano desde 1982.
A incidência pela faixa etária contribuiu com peso diferenciado
para estes dados, podendo variar de 11 casos por milhão na faixa
de 0 a 19 anos até níveis tão elevados quanto 760
casos entre as idades de 65 e 74 anos [14]. Isto significa que enquanto
entre os mais jovens a uremia crônica experimentou uma tendência
a estabilização, entre os idosos houve uma incorporação
de cerca de 15% de novos casos ao ano, o que representa um aumento de mais
de três vezes num período de dez anos. Ao final de 1991, a
incidência global variava entre 169 e 238 pessoas por milhão
por ano dependendo das características demográficas das regiões
afetadas [14].
Há uma grande variação
na prevalência de IRCt entre os países da Ásia, Europa
e Oceania, que vai desde 996 pacientes por milhão da população
(pmp) no Japão, a pouco menos de 200 na Austrália e Nova
Zelândia, e 158, em média, nos países europeus registrados
no EDTA. A prevalência das causas de doença renal é
também diversa. Enquanto a nefropatia diabética é
a causa mais freqüente nos Estados Unidos e no Canadá, na Europa
e no Japão predomina a glomerulonefrite crônica (GNC). Em
todos os países, entretanto, a NH está em ascensão
[13].
Nos países em desenvolvimento
a magnitude do problema é difícil de estimar. Não
há registros adequados e a maioria dos dados são projeções
baseadas em experiências individuais. Um esforço da Sociedade
Latino-Americana de Nefrologia resultou numa publicação,
relativa ao ano de 1991, de um total de 11.032 pacientes sob diálise,
dos quais 1.527 casos incidentes. A prevalência global foi de 32,3
pacientes pmp, sobressaindo Uruguai, Chile e Venezuela com mais de 90 pacientes
pmp. A GNC, ND e NH representavam juntas cerca de 60% das causas encontradas
entre os casos incidentes. A distribuição porcentual entre
estas causas era semelhante [52].
No Brasil, uma publicação
da Sociedade Brasileira de Nefrologia relativa ao ano de 1983, abrangendo
238 centros de diálise e transplante em todo o país, reuniu
4302 pacientes [43]. A GNC (39%), NH (19,8%), e nefrites intersticiais
(11%), foram as causas mais freqüentemente encontradas. A ND aparecia
com menos de 7% dos casos. Havia um grande porcentual (15%) de causas indeterminadas.
Uma publicação, referente ao ano de 1991 da Grande São
Paulo [51], num total de 2905 pacientes, mostrou que a maioria (41%) tinha
entre 40 e 59 anos de idade, que havia uma percentagem expressiva (25%)
de pacientes com mais de 60 anos e pouco mais da metade (56%) era do sexo
masculino. As doenças renais mais freqüentes foram: causa indeterminada
(36%), GNC (27,5%) e NH (16,8%). Apenas 8% eram diabéticos. A incidência
naquele ano foi de 83 pacientes pmp e a prevalência, ao término
do ano, 148 pacientes pmp.
Os dados do Ministério
da Saúde de 1996 mostravam que 29.984 pacientes estavam sob tratamento
dialítico no Brasil e determinavam uma prevalência de 179
indivíduos pmp [36]. No Brasil, o tratamento por diálise
e transplante é quase que totalmente custeado pelo Estado e não
há restrições formais ao ingresso de qualquer paciente
às unidades de tratamento. Isto nos leva a admitir que, quando comparados
com países como o Japão e Estados Unidos, temos diferenças
substanciais que podem encontrar explicação na menor incidência,
na qualidade dos nossos registros e na sobrevida média dos nossos
pacientes, embora em regiões brasileiras mais desenvolvidas como
na Grande São Paulo, as taxas de incidência e prevalência,
bem como o porcentual de transplantes por milhão da população,
se aproximem das cifras globais da Europa [42], devendo-se ressaltar, entretanto,
que do ponto de vista econômico, os países europeus são
bastante heterogêneos. Sabemos que há esforços para
organizar um registro nacional de informações, mas infelizmente,
até o presente, há dados disponíveis apenas em alguns
poucos Estados da União.
É relevante destacar
que embora a comparação das incidências de IRCt entre
várias nações mostrem diferenças marcantes,
as taxas de crescimento são muito semelhantes entre elas [13]. As
razões que concorrem para este comportamento, são atribuídas
a maior oferta e facilidade de acesso aos postos de tratamento, a redução
das restrições ao ingresso de populações idosas
de portadores de comorbidades, ao melhor controle clínico de doenças
degenerativas crônicas, etc. É também possível,
embora menos relevante, que a incidência de doenças intrínsecas
do rim tenha aumentado. Recentemente, a esclerose renal secundária
à exposição a nefrotoxinas de origem medicamentosa
ou ambiental tem sido enfatizada [2,39,48].
Por outro lado, nos países
em que há notificação obrigatória se vem também
demonstrando redução da mortalidade. Isto está associado
a aperfeiçoamentos nos equipamentos e na adequação
da diálise, e tem determinado crescimento da prevalência.
A expectativa é que ela continue a aumentar mesmo que haja estabilização
da incidência. Portanto, a demanda por suporte dialítico continuará
em crescimento por tempo ainda não previsível, projetando
pesados custos financeiros. Isto poderá determinar recuo na oferta
de tratamento em muitas regiões do mundo.
O problema poderia ser atenuado
pela intensificação dos transplantes e pela melhoria da sobrevida
dos enxertos. Entretanto, a disponibilidade de doadores prevê que
o peso do tratamento por transplante não será decisivo [9,10,24].
O xenotransplante tem sido vislumbrado como uma alternativa para o futuro,
embora ainda seja apenas uma esperança e suscite resistências
de ordem ética e moral ainda não equacionadas [24].
A preocupação
com estes dados fez crescer o interesse pela adoção de medidas
terapêuticas no sentido de conter a progressão da esclerose
renal, via final comum a uma série de eventos iniciados, seja no
glomérulo, na vasculatura, ou no interstício. Impulsionados
por avanços recentes no conhecimento da biologia celular e dos mecanismos
bioquímicos envolvidos na fisiopatologia da fibrose, novas estratégias
terapêuticas têm sido propostas, embora a maioria delas ainda
esteja restrita a ensaios experimentais [7].
Uma conduta alternativa,
não menos relevante, é investir na busca e difusão
de medidas profiláticas eficazes no controle da doença renal
crônica. Propostas terapêuticas com esta finalidade têm
sido aplicadas há anos. São principalmente medidas dietéticas,
uso de anti-hipertensivos e controle estrito da glicemia, que têm
apresentado resultados promissores nos diabéticos dependentes de
insulina [29,45], mas em outras formas de nefropatia parecem não
modificar o curso natural da doença ou ainda estão em fase
de aferição [34]. Infelizmente, no geral, ainda não
há sinais de estabilização da curva de crescimento
da doença. Há um longo caminho a percorrer. Para melhor traçá-lo,
é necessário expandir o conhecimento sobre o comportamento
epidemiológico das diversas causas de nefropatia. A nefroesclerose
hipertensiva e diabética, pela importância de suas incidência
e prevalência, tem sido o alvo preferencial dos pesquisadores [11,16,38,41,
47,56].
Os estudos de cunho epidemiológico
são utilizados para a análise, em grandes amostras da população,
de fatores envolvidos com a história natural das doenças,
suas variações clínicas, grupos populacionais mais
susceptíveis, e oferecem um manancial de novas hipóteses
para experimentos mais aprofundados. A importância deles na identificação
de fatores de risco e no delineamento de estratégias de profilaxia
e tratamento, está amplamente demonstrada, como se pode ver na doença
coronariana, no câncer de mama, na neoplasia do colo uterino, etc
[37]. Entretanto, no âmbito da Nefrologia, este tipo de estudo tem
sido relativamente pouco realizado. Até recentemente os pesquisadores
concentravam-se em modelos experimentais ou na investigação
clínica apurada de um número reduzido de pacientes [37].
Várias razões
contribuíram para desestimular os investimentos em pesquisas de
natureza epidemiológica em torno da IRCt. Entre elas está
a eficiência do tratamento de substituição, conseguida
com o avanço tecnológico na diálise e no transplante
e a relativa deficiência de bancos nacionais de dados. Além
disto, a síndrome, no seu estágio terminal, é considerada
um evento raro, na maioria das vezes tem curso clínico insidioso
e particularmente multifacetado, para onde convergem muitas especialidades
da medicina. Conseqüentemente, as variáveis a serem estudadas
se multiplicam e se superpõem, dificultando a interpretação
dos resultados. Um dos mais notórios destes obstáculos é
o problema da caracterização nosológica, comum entre
as causas mais prevalentes de doença renal crônica [37].
As razões que promovem
a evolução do DM e da hipertensão arterial sistêmica
(HAS) para a nefroesclerose têm sido objeto de muitas investigações.
É provável que por determinação genética,
uma forma de doença mais grave ocorra em certas populações.
Em ambas as doenças há forte predisposição
familiar. Há também evidências de uma interface fisiopatológica
entre elas, principalmente entre a HAS e o DM não dependente de
insulina (DMNID) [56].
Os estudos em busca de agregação
familiar entre portadores de IRCt até agora realizados foram voltados
para as populações mais freqüentemente atingidas por
nefroesclerose diabética e hipertensiva: brancos no caso da nefropatia
associada ao DMID e negros para os casos de nefropatia associada ao DMNID
e NH. Os pesquisadores partiram da premissa de que é pertinente
admitir a possibilidade de que, por influência genética específica,
determinados subgrupos nestas populações sejam mais susceptíveis
que outros ao desenvolvimento de nefroesclerose [5,6,19,23,33, 46,50].
Agregação familiar
também tem sido descrita em outras formas de nefropatia diferentes
da doença de Alport e da doença policística do adulto
que reconhecidamente se transmitem por hereditariedade [55]. A possibilidade
de rastreamento do genoma oferecida pelas modernas técnicas de engenharia
genética criou uma enorme perspectiva de descobertas nesta área
[21,27].
No nosso meio, a nefroesclerose
hipertensiva e diabética são causas muito freqüentes
de doença renal crônica. É provável que este
fator de agregação familiar também possa ser detectado
nas famílias de nossos pacientes. Não temos conhecimento
de estudos voltados para este problema, entre nós.
As pesquisas epidemiológicas
nesta direção iniciaram-se com uma publicação
de Rollington Ferguson et al. de 1988 [15]. Trata-se de um estudo de caso-controle
de uma amostra da população negra de Los Angeles. Os autores
partem do pressuposto de que o risco de IRCt por nefroesclerose hipertensiva
é muitas vezes maior entre os negros do que entre os brancos, e
a hipertensão arterial sistêmica uma doença com predisposição
familiar reconhecida. Então, é provável haver uma
chance maior de agregação familiar para a IRCt em famílias
negras. Encontraram 26,3% de indivíduos entre os casos com algum
parente do 1° ou 2° grau portador de IRCt, comparados a 11,1% entre
os controles. Não houve associação entre história
familiar de doença renal e história familiar de diabetes
mellitus (porcentual idêntico entre os casos e controles). Associação
significativa de história familiar de hipertensão arterial
com doença renal foi observada no subgrupo com nefroesclerose hipertensiva.
Como história familiar de hipertensão arterial não
poderia ser causa de doença renal e esteve associada apenas num
subgrupo específico, os autores atribuíram ao achado um provável
fator de confundimento. Entretanto, recomendaram a realização
de estudos no sentido de definir um possível papel da história
familiar de hipertensão na patogênese da IRCt.
No ano seguinte, Elizabeth
Seaquist et al.[50] apresentaram evidências de agregação
familiar pró IRCt em famílias de brancos portadores de nefropatia
diabética. Eles examinaram irmãos diabéticos de nefropatas,
comparando-os a outros sem doença renal diabética. O diabetes
estudado foi o dependente de insulina e o marcador de doença renal
a microalbuminúria. Quarenta e um por cento dos irmãos entre
os casos apresentavam microalbuminúria, contra 17% entre os controles.
A diferença entre os grupos manteve-se significativa mesmo após
o ajuste pela duração do diabetes, níveis de hemoglobina
glicosilada e pressão arterial média.
A tendência de agregação
familiar para doença renal foi também observada pela pesquisa
de proteinúria em duas gerações sucessivas de nativos
americanos, índios Pima, que desenvolvem com muita freqüência
o DMNID. Ficou demonstrado que havia proteinúria em 14% dos filhos
diabéticos se nenhum dos pais diabéticos apresentasse proteinúria,
23% se estivesse presente em pelo menos um deles, e 46% se detectada em
ambos os pais [40].
Predisposição
familiar à nefropatia pelo DMNID também foi demonstrada em
negros americanos [19]. Neste trabalho, 37% dos casos tinham algum parente
de 1°, 2° ou 3° grau com IRCt associada à nefropatia
diabética, contra apenas 7% dos diabéticos controles, uma
diferença altamente significativa. Entre os indivíduos de
raça branca também foi detectada evidência de agregação
familiar associada a IRCt, mas o risco foi bem menor que o observado entre
os negros [53].
Embora os estudos acima descritos
não utilizem métodos capazes de diferenciar em que medida
a agregação familiar se deva a compartilhação
de caracteres genéticos ou dos mesmos fatores ambientais [8,30],
eles permitem a identificação de indivíduos que estariam
sob maiores riscos de desenvolvimento de IRCt e, portanto, merecedores
de maior atenção no que diz respeito à instituição
de medidas profiláticas.
Notoriamente, a maior parte
das evidências em favor da agregação familiar foram
desenvolvidas com a nefroesclerose hipertensiva e diabética, duas
das maiores causas de IRCt [5,19]. Contudo, há indícios de
que a agregação familiar não seja um fenômeno
circunscrito àquelas duas condições. Outros tipos
de doença crônica do rim podem denotar a agregação
familiar como a nefropatia por IgA e a glomeruloesclerose segmentar e focal
[28,55]. Uma constatação interessante ligada a este fenômeno
é a presença de nefroesclerose de diferentes causas, tais
como glomerulonefrite crônica, nefroesclerose diabética e
nefroesclerose hipertensiva numa mesma família [18], sugerindo que
um distúrbio primário da microvasculatura renal, provavelmente
transmitido por herança poligênica esteja envolvida na patogênese
da IRCt.
Os estudos de associação
populacional, assim como os de linkage, emergiram dos recentes avanços
da biologia molecular e da genética, permitindo a busca de regiões
cromossômicas envolvidas em herança poligênica, o que
não seria possível pelas tradicionais análises de
segregação. Estes estudos, basicamente, procuram determinar
se um alelo específico ocorre mais freqüentemente em individuos
com a doença que naqueles sem a doença. Um exemplo seria
a associação positiva do antígeno de histocompatibilidade
HLA-DR3 com a doença renal crônica ligada à hipertensão,
ao DMID, ao lúpus eritematoso sistêmico e à glomerulonefrite
membranosa idiopática [17,20]. Tais associações, entretanto,
devem ser interpretadas com cautela no que diz respeito a relação
causa-efeito, pois podem significar nada mais do que uma proximidade espacial
com o locus do fenotipo intermediário escolhido, o que não
prova que o locus da doença em estudo, ou um locus com um traço
quantitativamente relevante, exista no genoma. É por isso que quando
tais estudos são realizados, deve-se ter um cuidadoso controle com
relação aos aspectos étnicos, geográficos e
sociais, ou então observar, entre os casos e os controles, a freqüência
de alelos que não tenham nenhuma relação causal com
a doença sob investigação. Grupos populacionais circunscritos
geograficamente e homogêneos do ponto de vista étnico são
os melhores candidatos.
Estas novas vertentes do
conhecimento científico ligadas à genética também
dão respaldo para a execução de novos estudos para
a detecção de grupos de risco para a doença renal
crônica terminal
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