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Sexo, Droga e Hipertensão: O Pedágio Feminino

Istênio Fernandes Pascoal
Doutor em Nefrologia pela FMUSP, SP 
Pós-Doutorado na Universidade de Chicago, EUA
Nefrologista Clínico, Brasilia-DF 

 

          Quantitativamente, a hipertensão arterial é o maior fator de risco para doença cardiovascular, contribuindo expressivamente tanto para a morbidade quanto para a mortalidade globais.  

          Considerando-se a população geral, os homens têm níveis de pressão arterial diastólica mais elevados do que as mulheres, como têm também maior prevalência de hipertensão arterial, mas as incidências de hipertrofia ventricular esquerda, acidente vascular cerebral e disfunção renal são compartilhadas igualmente pelos dois sexos. Esta equivalência final ocorre não obstante serem as mulheres relativamente protegidas de doenças cardiovasculares em geral, e de hipertensão arterial em particular, durante a fase reprodutiva.  Após a menopausa, entretanto, a hipertensão arterial se torna progressivamente mais freqüente e mais intensa em mulheres do que em homens.

          As razões para as diferenças relativas nos valores pressóricos e na incidência de hipertensão arterial entre os dois sexos ainda são especulativas.  Tem sido sugerido, embora não provado, que os estrógenos naturais são responsáveis pelos níveis pressóricos mais baixos observados em mulheres jovens, assim como sua diminuição contribuiria para a maior incidência de hipertensão após a menopausa.  Em contrapartida, estrógenos exógenos na forma de anticoncepcional oral é uma importante causa de hipertensão secundária na mulher, mesmo com o uso mais corrente de compostos com menor dosagem. 

          Em 2025, 23% da população terá mais de 60 anos.  Como resultado deste aumento na expectativa de vida, muitas mulheres viverão pelo menos um terço de suas vidas após a menopausa.  Atualmente, já 95% de todas as mulheres vivendo em países industrializados ingressam na menopausa.  Estes números ajudam a explicar porque nas últimas décadas o interesse pela menopausa cresceu de uma condição relativamente periférica para uma posição central na prática clínica e sobre a qual há um intenso debate, tanto na literatura médica quanto na imprensa leiga.

          Um aspecto relevante na diferenciação epidemiológica entre entre homens e mulheres hipertensas é a potencial implicação da hipertensão arterial e/ou do seu tratamento sobre a função sexual.  Fisiologicamente, o desempenho sexual está submetido à influência dos hormônios sexuais, da saúde emocional e física do indivíduo e de muitos outros fatores externos, tais como disponibilidade e atratividade do parceiro sexual. 

          O impacto da hipertensão arterial sobre a função sexual masculina tem sido apreciado periodicamente na literatura médica, mas esta abordagem permanece pouco explorada em mulheres, embora elas correspondam a quase metade da população com hipertensão arterial sistêmica.  Comprovadamente, a disfunção sexual constitui um dos grandes obstáculos para o sucesso da terapêutica anti-hipertensiva em homens, mas ainda há poucas evidências de sua participação em mulheres hipertensas.  A escassez destes dados se deve, pelo menos em parte, à dificuldade para se definir e avaliar parâmetros objetivos da função sexual feminina.  

          Pouco se sabe sobre a freqüência de disfunção sexual entre mulheres na população geral e menos ainda sobre a qualidade sexual naquelas com doenças crônicas, submetidas ou não a farmacoterapia contínua, mas tem sido aceito que a prevalência de disfunção sexual em uma população doente é maior do que a prevalência estimada dentro de uma população saudável.

          Permanece controverso se o pequeno conhecimento das influências da hipertensão arterial sobre a função sexual feminina pode ser atribuído à ausência de diminuição na qualidade da função sexual em mulheres hipertensas, se isto se deve a deficiências metodológicas de investigação ou ainda se é decorrente da efetiva ausência de causa e efeito da hipertensão e da medicação.  Uma revisão clínica, englobando dados a partir de 1970, revelou que os estudos sobre hipertensão e outras doenças crônicas freqüentemente negligenciam informações detalhadas de participantes femininas, raramente estudam apenas mulheres e envolvem relativamente poucas mulheres pesquisadoras.

          Só recentemente, uma importante avaliação sobre os efeitos da hipertensão e de seu tratamento sobre a qualidade da função sexual feminina foi publicada.  É um estudo ambulatorial, caso-controle, que investigou a função sexual em mulheres hipertensas com ou sem tratamento farmacológico, comparando-as com mulheres normais sem qualquer outra história médica significativa.  Para serem incluídas, as mulheres precisavam ser heterossexuais e estar em plena idade reprodutiva.  Como a existência ou não do tratamento anti-hipertensivo não diferiu os resultados nas pacientes hipertensas quanto ao desempenho sexual, elas foram analisadas como um grupo único.  Conclusivamente, em comparação com mulheres normais, as pacientes com hipertensão arterial relataram menor lubrificação vaginal, diminuição no número de orgasmos e maior freqüência  de dores durante as relações sexuais.  No mesmo estudo, os aspectos emocionais da função sexual em mulheres com hipertensão arterial não pareceram comprometidos.  Um achado incidental mostrou menor êxito na obtenção de orgasmo entre fumantes, mas este achado não foi associado com a idade nem com a hipertensão.  

          É possível que a maior incidência de dor e a menor freqüência de orgasmo sejam função da diminuição da lubrificação vaginal.  Considerando-se que a lubrificação vaginal, como a ereção, ocorre na fase inicial da atividade sexual, a ausência de lubrificação em mulheres pode corresponder à disfunção erétil masculina, uma analogia biologicamente plausível.  Por essa razão, mulheres hipertensas devem ser ativamente avaliadas quanto à presença de ressecamento vaginal, uma vez que este problema pode ser remediado pelo uso de agentes lubrificantes comercialmente disponíveis.

          Se a disfunção sexual se desenvolve ou se agrava após o início da terapia anti-hipertensiva, a droga deve ser suspensa ou substituída.  
 

Bibliografia Consultada

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