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| Insuficiência Renal
Crônica e Função Tireoidiana
Guilherme M. Santos, Ralff C J Ribeiro e Francisco A R Neves
A insuficiência renal
crônica (IRC) é uma patologia relacionada a perda progressiva
e irreversível da função renal. Em sua fase
final a IRC é caracterizada pelo desenvolvimento de uremia, um distúrbio
metabólico causado pela presença de inúmeras toxinas
que se acumulam no organismo e modificam as funções de vários
sistemas entre os quais o endócrino e metabólico.1
Nesta situação, além do transplante renal, o único
tratamento disponível é a diálise peritoneal ou hemodiálise.
Os pacientes com IRC apresentam
com frequência alguns sinais e sintomas como astenia, intolerância
ao frio, pele seca, sonolência excessiva, letargia e hipercolesterolemia
sintomas estes que também são frequentemente encontrados
em indivíduos com hipotireoidismo.2 Esta superposição
de sintomas entre hipotiroidismo e a síndrome urêmica sugere
a possibilidade da existência de um quadro de hipotireoidismo nos
pacientes com IRC. Vários distúrbios
da função tireoideana foram descritos nestes pacientes.
Assim, a frequência de bócio é consideravelmente maior
nas fases finais da doença.3-5 Em relação aos
hormônios tireoideanos, a maioria dos pacientes com uremia apresenta
uma diminuição nos níveis de triiodotironina (T3),
refletindo uma diminuição da conversão de tiroxina
(T4) em T3.3-7 Apesar desta redução, não se
observa um aumento da conversão de T4 em T3 reverso (rT3), porque
os níveis de rT3 estão normais.4,6,8 Estas alterações
são diferentes das observadas nas maioria das doenças crônicas,
onde a diminuição na conversão de T4 em T3 é
acompanhada por um aumento nos níveis de rT3 gerados a partir de
T4.3
O rim normalmente regula
o clearance de iodo, primariamente por filtração glomerular.
Na IRC, a excreção de iodo está diminuída e
este distúrbio cursa com elevação nos níveis
plasmáticos de iodo inorgânico.14 Consequentemente,
o pool de iodo tireoideano está aumentado levando a uma diminuição
da captação de iodo pela tireóide. O aumento do iodo
inorgânico total pode potencialmente bloquear a síntese de
hormônio tireoideano (efeito Wolff-Chaikoff). Esta alteração
pode explicar a maior prevalência de bócio e hipotiroidismo
em pacientes com IRC.4
A diminuição
de T3 circulante também pode ser secundária a uma redução
na ligação do T3 à tireoglobulina (TBG - proteína
transportadora de hormônio tireoideano) ou mesmo de albumina. Já
foi demonstrado que algumas toxinas urêmicas como a creatinina, indol
e fenol podem reduzir a ligação de T4 à TBG.15
Esta inibição pode explicar porque alguns pacientes com IRC
apresentam baixos níveis de T4.
Receptor de Hormônio
Tireoideano
Os hormônios
tireoideanos exercem um papel determinante na diferenciação
e desenvolvimento de organismos vertebrados. Uma vez produzidos e secretados
pela glândula tireóide, os hormônios tireoideanos T3
e T4, dentre os quais o T3 se destaca como o principal hormônio ativo,
são transportados no sangue por proteínas circulantes e levados
aos tecidos onde exercerão o seu efeito final.2,17 Sua ação
ao nível celular é mediada pela ligação a receptores
intranucleares, os quais se ligam a sequências específicas
do promotor de genes-alvo, regulando assim a transcrição
gênica.17
Os receptores do hormônio
tireoideano (TR) fazem parte da superfamília dos receptores nucleares,
da qual também se destacam como membros os receptores dos hormônios
esteróides, do ácido retinóico, da vitamina D, e os
receptores “órfãos” cujos ligantes ainda não foram
identificados. Estes receptores nucleares agem como fatores reguladores
da transcrição favorecendo a acetilação das histona.17-21 A acetilação das histonas desfaz a compactação
do DNA facilitando o acesso de outras proteínas envolvidas no processo
de transcrição. Outra característica destes receptores
é a formação de dímeros quando em contato com
a sequência de DNA alvo para sua ação. Podem formar
tanto homodímeros (duas moléculas de TR) ou heterodímeros
(uma molécula de TR com outra molécula diferente).20-22
Estruturalmente, estes
receptores são proteínas nas quais se identificam três
regiões funcionalmente distintas: o módulo amino-terminal
(N-terminal), envolvido na função de transativação
(transcrição do DNA); o módulo de ligação
ao DNA (DBD - “DNA binding domain”) o qual é responsável
pela ligação do receptor a uma região específica
do DNA e também se encontra envolvido na dimerização
dos receptores; o módulo carboxi-terminal (C-terminal) o qual, além
de estar envolvido na dimerização, permite a associação
dos receptores nucleares com seus respectivos ligantes (LBD - “ligand
binding domain”) e com outras proteínas que agem como fatores promotores
ou repressores da transcrição mediada pelo receptor.17-24 Figura
1
Conforme referido
anteriormente, a ação do receptor do hormônio tireoideano
ocorre através de sua associação como homodímeros
ou principalmente como heterodímeros quando se dimerização
com os receptores do ácido 9-cis retinóico (RXR - “retinoid
X receptor”). As regiões do DNA nas quais os TRs se ligam
especificamente são conhecidas como elementos responsivos do receptor
do hormônio tireoideano (TRE - “thyroid hormone response element”).17,20,25
O receptor de hormônio tireoideano exerce sua função
quando ligado a estes TREs localizados no promotor dos genes regulados
pelo TR. (Vide Figura 1) Os TREs consistem de sequências consensuais
de 6 nucleotídeos (AGGTCA), que se repetem ao longo do DNA na forma
de repetições diretas (DR - AGGTCA”n”AGGTCA) ou inversa (palindromos
- AGGTCA”n”TGACCT ou palindromos invertidos - TGACCT”n”AGGTCA), estando
separadas por um número variável de nucleotídeos (“n”),
podendo partir de 0 a 6, de acordo com a orientação das sequências. Uma vez ligados ao hormônio
tireoideano e situados sobre os respectivos TREs, os TRs regulam indiretamente
a transcrição dos genes-alvo alterando a estrutura da cromatina
ou modificando a conformação do DNA, facilitando o acesso
de outros fatores de transcrição que participam de todo o
complexo transcricional da RNA polimerase II os quais se ligam a elementos
regulatórios na região promotora do DNA influenciando a transcrição
positiva ou negativamente. 20-25
Em resumo, o mecanismo
de ação dos receptores tireoideanos envolve inúmeras
etapas que podem estar comprometidas na insuficiência renal crônica.
Já foi demonstrado anteriormente que um outro receptor nuclear,
o receptor de vitamina D (VDR), pode ter sua função diminuída
pela presença de toxinas urêmicas. Assim, Patel e cols
observaram que toxinas urêmicas inibem a ligação do
VDR com o DNA por modificar quimicamente os resíduos de lisina no
módulo de ligação ao DNA (DBD) do VDR.27-28
É interessante observar
que este distúrbio não ocorre em todos os pacientes com uremia
em programa de hemodiálise. Alguns pacientes apresentam a
ligação do TR ao DNA normal. 30 Ou seja, este não
é um fenômeno homogêneo e este distúrbio pode
explicar algumas diferenças metabólicas presentes nos paciente
com IRC.
Ests resultados não
comprovam definitivamente se a toxina urêmica está impedindo
a ligação dos complexos TR-RXR ou VDR-RXR ao DNA por modificar
a estrutura do DBD impedindo sua ligação com o DNA ou por
afetar a capacidade de heterodimerização destes receptores
que também poderia prejudicar a ligação do complexo
heterodimérico ao DNA. Ou seja novos estudos são necessário
para esclarecermos os mecanismos moleculares envolvidos. Além disto,
estes achados foram obtidos "in vitro", ou seja, não sabemos se
estas toxinas são capazes de inibir "in vivo" a ação
do hormônio tireoideano. Se estas observações
forem confirmadas in vivo poderíamos investigar se a reposição
de hormônio tireoidiano poderia corrigir alguns sinais e sintomas
de pacientes urêmicos em hemodiálise. O desenvolvimento de
análogos de hormônio tireoidiano que melhoram alguns distúrbios
metabólicos, como a hipercolesterolemia, sem causar taquicardia
31 poderia se tornar uma opção terapêutica para estes
pacientes.
Bibliografia
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