| MICROHEMATÚRIA
ASSINTOMÁTICA NA INFÂNCIA: ABORDAGEM E CONDUTA
1. MARIA GORETTI M. G. PENIDO
3. MARIA LÚCIA S.
F. MOREIRA
4. ANA LUIZA F. TUPINAMBÁ
5. ANDERSON FRANÇA
6. MARCELO F. O. SOUTO
1. Mestre e Doutora em Medicina
(Pediatria) – Faculdade de Medicina - UFMG
2. Professora Adjunta -
Mestre em Medicina (Pediatria) - Faculdade de Medicina - UFMG
3. Acadêmica da Faculdade
de Medicina - UFMG
4. Acadêmico da Faculdade
de Medicina - UFMG
5. Acadêmico da Faculdade
de Medicina - UFMG
INSTITUIÇÃO:
UNIDADE DE NEFROLOGIA PEDIÁTRICA
- HOSPITAL DAS CLÍNICAS - FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE MINAS GERAIS – BELO HORIZONTE – MINAS GERAIS
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA:
MARIA GORETTI M. G. PENIDO
RUA TOMÉ DE SOUZA,
1292 APTO 101,
LOURDES, CEP: 30 140 131,
BELO HORIZONTE,
MINAS GERAIS, BRAZIL
E-MAIL: gabrielp@gold.com.br
TELEFAX: (031) 241 4466
TELEFONE: (031) 225 2885
– 2843451
RESUMO EM PORTUGUÊS:
OBJETIVOS: Abordagem de
alguns aspectos epidemiológicos relacionados à microhematúria
assintomática em crianças e adolescentes.
MÉTODOS: Foram avaliados
680 pacientes pediátricos durante 8m período médio
de 12 anos. Todos foram submetidos ao protocolo: exame clínico completo,
com ênfase nos dados relacionados à hematúria: seu
início, apresentação, sintomatologia associada. Foi
abordado o uso de medicamentos, alimentação, relação
com exercício ou trauma renal, história familiar de doença
renal. Após isso a hematúria foi confirmada no exame de urina
(5 hemácias por campo microscópico - 400x - em 3 amostras
diferentes). Foram medidos cálcio, proteína e creatinina
nessas amostras. O aspecto morfológico dos eritrócitos na
urina foi avaliado por microscopia de contraste de fase.
RESULTADOS: Eram 51% de
pacientes masculinos e 49% femininos, sendo 62% brancos, 39% morenos, 4%
pretos e em 5% cor não relatada. De acordo com a etiologia da hematúria
65% tinham alterações metabólicas, 9,5% nefropatia
por IgA, 3% doença de Alport, 8% tinham outras nefropatias e 14,5%
outros diagnósticos. A apresentação inicial foi macroscópica
em 63% e microscópica em 37%. A faixa etária do primeiro
aparecimento da hematúria foi pré-escolar em 49% dos pacientes,
escolar em 30%, lactentes em 15% e adolescentes 6%. Quanto à morfologia
das hemácias observou-se dismorfismo menor que 20% em 57% dos pacientes,
maior que 80% em 25% dos pacientes, entre 20 e 80% em 10% deles e em 8%
o estudo morfológico não foi feito. 57% tinham história
familiar positiva para doenças renais.
CONCLUSÕES: Na abordagem
da criança com hematúria, um diagnóstico comum em
pediatria, é importante classificá-la como glomerular ou
não-glomerular para guiar a propedêutica. O pediatra deve
estar atento quanto a evolução do paciente e agir corretamente
para evitar o aparecimento de complicações.
DESCRITORES: hematúria,
dismorfismo eritrocitário, hipercalciúria, nefropatia por
IgA
RESUMO EM INGLÊS (ABSTRACT):
OBJECTIVE: To assess some
epidemiological aspects related to asymptomatic hematuria in children.
METHODS: In this study,
680 pediatric patients with hematuria were followed over a mean period
of 12 years. The protocol followed by all of them was: clinical exam emphasizing
data related to the erythrocyturia: presentation, associated symptoms,
family history of nephropathy, relation to exercise, food, kidney trauma,
use of medicine. After this the erythrocyturia was confirmed by urinalysis
(at least 5 erythrocytes per microscopic field in three different samples).
The morphology of the urine erythrocytes was assessed with phase contrast
microscopy. Calcium, protein and creatinine in the urine were measured.
RESULTS: The patients were
51% male, 49% female. 62% of them were white, 43% non-white, 5% unknown.
The etiologies of the hematuria were: metabolic disorders (65%), IgA nephropathy
(9.5%), Alport disease (3.0%), other nephropathy (8.0%) and other diagnoses
(14.5%). The presentation of erythrocyturia was macroscopic in 63%, microscopic
in 37%. According to age of hematuria appearance, we had 49% in preschool
age, 30% in elementary school age, 15% infants and 6% teenagers. In 57%
of the patients, the erythrocyte dysmorphism were less than 20%, in 25%
it were more than 80%, 10% had dysmorphism between 10 and 80% and in 8%
the morphologic study wasn’t made. 57% of the patients had family history
of nephropathy.
CONCLUSIONS: In the approach
of a child with hematuria, a common pediatric diagnosis, it is important
to classify it as glomerular or non-glomerular to guide the etiologic studies.
The pediatrician must be aware of the patient’s evolution and act correctly
to avoid the appearance of complications.
KEY WORDS: hematuria, erythrocyte
dysmorphism, hypercalciuria, IgA nephropathy
Introdução
A hematúria assintomática
configura alteração do trato urinário e merece especial
atenção pela freqüência cada vez maior entre os diagnósticos
nefrológicos pediátricos. Na prática diária
elas aparecem como a segunda causa de consultas nefrológicas entre
crianças e adolescente. Caracteristicamente, provocam grande ansiedade
nos pais ou responsáveis, levando-os quase sempre à procura
imediata de atenção médica para esclarecimentos diagnósticos.
A prevalência da hematúria
assintomática em escolares sadios é de 4,0 a 6,0%1 porém,
repetindo-se o exame de urina após seis meses, a incidência
cai para 0,5 a 2,0%1. Também no paciente adulto a prevalência
de hematúria microscópica assintomática é significativa
sendo relatada em até 20% dos indivíduos2. Na Unidade de
Nefrologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da UFMG são
acompanhados atualmente 680 pacientes portadores de hematúria.
Hematúria é
definida como a eliminação de um número anormal de
hemácias na urina que deve ser quantificado posto que, pequena quantidade
delas é eliminada diariamente na urina de indivíduos normais.3
O limite de normalidade para a microhematúria depende da técnica
utilizada. Alguns autores consideram esse limite como a presença
de 5 ou mais hemácias por campo de grande aumento, após centrifugação
da amostra urinária.4,5,6,7 Outros preferem avaliar a presença
de hemácias por ml de urina após centrifugação,
em microscópio com contraste de fase, considerando hematúria
um número superior a 10000 hemácias por ml de urina.4,7,8
Sabe-se que as hematúrias
podem ter origem glomerular e não glomerular 9 (Quadro
I). Identificar
uma ou outra origem é necessário e apropriado para que os
exames complementares consecutivos sejam bem direcionados, livrando os
pacientes de procedimentos invasivos e onerosos.10 Entretanto, essa diferenciação
não é tão simples e freqüentemente o médico
examinador encontra dúvidas. Diante disso, os objetivos desse estudo
foram: analisar e descrever a apresentação e a evolução
clínicas da microhematúria assintomática em crianças
e adolescentes; ressaltar as peculiaridades próprias desses pacientes
e indicar o direcionamento para o diagnóstico etiológico
impedindo exames complementares desnecessários.
População estudada
e métodos
Estudou-se 680 pacientes
pediátricos portadores de hematúria originários do
Ambulatório de Nefrologia Pediátrica do Hospital das Clínicas
de Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, durante
um período médio de 12 anos. Todos eles foram submetidos
a um protocolo específico descrito no Quadro II.
Foi feito um bom exame clínico
dando ênfase à data do início da hematúria e
o tipo de sua apresentação. Se macro ou microscópica,
se intermitente ou persistente e se era acompanhada de outros sinais ou
sintomas como: dor abdominal, febre, edema, disúria, erupções
cutâneas, púrpura, artralgia, dispnéia e outros. Investigou-se
também se era precedida ou precipitada por outros fatores como:
exercícios físicos e/ou traumatismo renal. Com relação
ao fluxo urinário avaliou-se se era inicial, terminal ou total (durante
todo o ato da micção) e se havia coágulos sanguíneos.
Outra importante informação colhida foi se havia uso de medicamentos
como analgésicos, ciclofosfamida e anticoagulantes e uso de alimentos
que pudessem modificar a cor da urina. No exame físico esteve-se
atento ao peso, estatura, pressão arterial, presença de edema,
palidez, equimoses, petéquias, hemangiomas, massas e sopros abdominais.
Ao examinar a genitália era essencial a observação
de sangramentos, infecções, traumatismos e, nas púberes,
verificar a coincidência com o fluxo menstrual. A história
familiar era também importante e procurou-se informações
sobre doenças renais como: litíase, insuficiência renal,
diálise, transplantes renais, surdez e anemias.
Após o exame clínico
fez-se a confirmação da hematúria através do
exame de urina rotina ou urinálise. Para inclusão no estudo
os pacientes deveriam ser portadores de hematúria confirmada em
3 exames de urina em dias diferentes, considerando a presença de
mais de 5 hemácias por campo de grande aumento (400x) após
centrifugação ou considerou-se hematúria um número
superior a 10000 hemácias por ml de urina. O padrão morfológico
das hemácias foi analisado à microscopia de contraste de
fase.
Os pacientes foram orientados
por carta para fazerem o esvaziamento vesical logo ao despertar e comparecerem
ao laboratório em jejum absoluto. O período de jejum variou
com a idade e foi mais prolongado naqueles com maior idade. O material
foi colhido dentro das normas técnicas de coleta de urina, no laboratório,
após antissepsia com água e sabão e os pacientes foram
acompanhados por técnicos especializados. Pacientes femininas em
períodos menstruais foram excluídas do estudo temporariamente,
e orientadas a repetir o exame em outro período. Imediatamente após
a coleta do material processava-se a centrifugação de 10ml
da urina por 5 minutos a 2500rpm.11,12,13 Após a centrifugação
desprezava-se 9,5ml do sobrenadante e utilizava-se o restante 0,5ml da
urina colocando-o numa câmara de contagem do tipo Fuchs-Rosenthal,12
para análise sob microscopia de contraste de fase.
Todos os pacientes realizaram
também dosagem de cálcio, proteína e creatinina na
amostra colhida e foram avaliadas os resultados dos quocientes proteína/creatinina
e cálcio/creatinina.
O estudo foi aprovado pelo
Departamento de Pediatria e pelo Comitê de Ética da Faculdade
de Medicina de UFMG. Os responsáveis pelos pacientes foram
informados sobre os procedimentos propostos no estudo e assinaram um termo
de consentimento livre e esclarecido concordando com a sua realização.
Resultados
Foram avaliados 680 pacientes,
sendo 347 (51%) masculinos e 333 (49%) femininos. De acordo com a etiologia
da hematúria 442 (65%) pacientes tinham alterações
metabólicas, 65 (9,5%) eram portadores de nefropatia por IgA, 20
(3,0%) eram portadores de nefropatia de Alport, 54 (8,0%) tinham outras
nefropatias variadas e 99 (14,5%) dos pacientes tinham outros diagnósticos
(Figura I).
Em relação
à cor da pele foram encontrados 442 (62%) pacientes brancos, 197
(39%) morenos, 27 (4,0%) pretos e em 34 (5,0%) a cor da pele não
estava relatada (Figura I).
A apresentação
inicial da hematúria foi macroscópica em 428 (63%) dos pacientes
e microscópica em 252 (37%). De acordo com a idade do primeiro aparecimento
da hematúria 333 (49%) dos pacientes eram pré-escolares,
204 (30%) escolares, 102 (15%) lactentes e 41 (6,0%) adolescentes (Figura
II).
A morfologia foi avaliada
em percentual dismórfico e número de linhagens diferentes
de hemácias. Em 368 (57%) dos pacientes o dismorfismo eritrocitário
era menor do que 20% e tinham um número de linhagens de hemácias
menor do que 4; em 170 (25%) o percentual de dismorfismo era maior que
80% e o número de linhagens de hemácias estava acima de 4;
em 68 (10%) o percentual de hemácias dismóficas estava entre
20 e 80% e o número de linhagens eritrocitárias era 4. Em
54 (8,0%) pacientes não havia estudo da morfologia das hemácias
(Figura III).
Em relação
à presença de história familiar de doença renal,
245 (36%) pacientes relataram litíase renal; 68 (10%) relataram
outros casos de hematúria; 34 (5,0%) relataram outras nefropatias;
20 (3,0%) relataram surdez, outros 20 (3,0%) relataram insuficiência
renal crônica, e 82 (12%) pacientes fizeram relato de outras doenças
renais. Em 292 (43%) pacientes não houve referências a doenças
renais na família (Figura IV).
Discussão
A hematúria microscópica
assintomática representa sempre um desafio. Definir a etiologia
das hematúrias em glomerular e não glomerular é fundamental
e conveniente para que a propedêutica seguinte seja bem orientada
e otimizada.10 O exame do sedimento urinário feito por um examinador
treinado é simples, de baixo custo, não invasivo e que pode
ser repetido quantas vezes forem necessárias.14 É o método
através do qual confirma-se o diagnóstico e estuda-se a morfologia
das hemácias. Para que se obtenha êxito na localização
da hematúria é necessário sistematizar a avaliação
do paciente de acordo com o Quadro II.
O padrão morfológico
das hemácias analisado à microscopia de contraste de fase
e o número de linhagens diferentes encontrado,9 aliados a presença
de proteinúria, microalbuminúria e cilindrúria hemática
delinearam o caminho a seguir na propedêutica e direcionou a investigação
para hematúria glomerular ou não glomerular. O Quadro III
esquematiza a conduta diagnóstica e a propedêutica a ser seguida
diante das hematúrias.
Estabelecido o diagnóstico
de hematúria glomerular, o primeiro passo é acalmar os pais
ou responsáveis e sensibilizá-los para a necessidade de controles
ambulatoriais periódicos. Esses controles são indispensáveis
para que se possa fazer o acompanhamento da patologia durante sua história
natural. Habitualmente as hematúrias monossintomáticas evoluem
sem complicações e com bom prognóstico. No entanto,
algumas delas poderão evoluir com hipertensão e/ou proteinúria,
chegando até a deterioração da função
renal. Assim sendo, a observação do desenvolvimento pondero-estatural,
da pressão arterial, a história de edema, proteinúria,
alterações na complementenemia e outros sinais e sintomas
menores, podem implicar em propedêutica mais apurada como por exemplo
a biópsia renal percutânea.
Para a indicação
da biópsia renal nos pacientes com hematúria glomerular são
consideradas basicamente, três situações diferentes.
Naqueles pacientes nos quais já existem hipertensão arterial,
proteinúria persistente, complemento sérico persistentemente
baixo ou um déficit de função renal, não há
dúvidas sobre a indicação desse procedimento. Entretanto,
naqueles pacientes nos quais a hematúria é isolada, sem alteração
da pressão arterial, sem proteinúria ou alteração
de função renal, a biópsia renal será indicada
naqueles com história familiar de doença renal glomerular,
insuficiência renal crônica, diálise ou transplante
renal. Os pacientes com hematúria isolada sem história familiar
das patologias renais citadas poderão ser acompanhados ambulatorialmente.
Na condução
clínica das crianças e adolescentes com hematúria
glomerular é importante enfatizar que eles devem manter suas atividades
físicas habituais. Nenhuma restrição é feita
desde que o paciente esteja sendo devidamente acompanhado. A dieta é
liberada e na medida do possível adequada às necessidades
específicas para o sexo e faixa etária correspondentes. Desse
modo o paciente pode levar vida normal.
Até há algum
tempo o diagnóstico de hematúria estava ligado às
doenças neoplásicas do rim, infecções urinárias,
anormalidades anatômicas ou à desordens túbulointersticiais
e glomerulares. As chamadas alterações metabólicas
e os cálculos urinários não figuravam como causa de
hematúria não glomerular. Hoje, a hipercalciúria5,15,16,17
e a hiperuricosúria5,15 idiopáticas têm sido aceitas
amplamente como uma causas de hematúria macro e microscópica
em crianças, ainda que não associadas à doença
litiásica renal. Assim sendo, diante de uma criança com hematúria,
acompanhada ou não de infecção do trato urinário
ou dor abdominal, o pediatra deve sempre aventar a possibilidade de hipercalciúria
e hiperuricosúria idiopáticas ou de litíase do trato
urinário. A Hipercalciúria Idiopática é definida
como uma excreção urinária de cálcio igual
ou maior que 4mg/kg/24h para ambos sexos e qualquer faixa etária.18,19,20
Outro critério adotado para definição de hipercalciúria
seria um valor acima de 0,25 para a relação cálcio(mg/dl)/creatinina(mg/dl)
em urina de amostra única colhida com jejum.22,23 Este quociente
é utilizado especialmente para crianças muito pequenas ou
para aquelas maiores sem controle esfincteriano vesical noturno.
A Hiperuricosúria
é definida como uma excreção de ácido úrico
em urina de 24 horas maior ou igual a 300mg para os pré-escolares,
450mg para os escolares e 600mg para os adolescentes.21 Outro critério
utilizado é a excreção de ácido úrico
em urina de amostra única matinal colhida com jejum, corrigida pelo
clearance de creatinina (em mg/100ml do ritmo de filtração
glomerular - RFG), isto é, excreção de ácido
úrico por decilitro do ritmo de filtração glomerular
de creatinina. É calculada do seguinte modo segundo Simkin et al.,
em 197923 e pode ser utilizada em crianças sem controle esfincteriano
vesical noturno:
Uau x Scr
(mg/dl) onde:
Ucr
Uau: concentração
de ácido úrico na urina em mg/dl
Scr: concentração
de creatinina sérica em mg/dl
Ucr: concentração
de creatinina na urina em mg/dl
Valores maiores ou iguais
a 0,47 para qualquer faixa etária são considerados hiperexcreção
de ácido úrico.21 Este critério é hoje considerado
mais fidedigno.
Os objetivos do tratamento
das alterações metabólicas são: o desaparecimento
da hematúria, a prevenção da formação
de cálculos, a redução da morbidade, a redução
dos índices de intervenção cirúrgica e a correção
das manifestações extra-renais da doença
O prognóstico das
crianças assintomáticas portadoras de alterações
metabólicas ainda é desconhecido. Provavelmente, parte delas
nunca formará cálculos, entretanto, outra parte significativa
evoluirá para a formação de litos em espaço
de tempo ainda também desconhecido.24 Estes fatos, sugerem que o
acompanhamento desses pacientes é essencial, como também,
o conhecimento íntimo das alterações metabólicas,
para que se possa atuar de maneira objetiva na prevenção
da formação lítica e de todas as outras manifestações
extrarrenais.
No estudo observou-se predominância
absoluta das alterações metabólicas como causa de
microhematúria assintomática. Em seguida, a nefropatia por
IgA aparece como a principal causa de hematúria glomerular (Figura
V). De acordo com o citado, na maioria dos casos o percentual de alterações
morfológicas das hemácias era menor do que 20% ou havia menos
de 4 linhagens diferentes delas à microscopia de contraste de fase.
Isso é de extrema importância na prática pediátrica
pois orienta o clínico, direcionando sua conduta. Em relação
ao sexo não observou-se diferenças.
Pode-se dizer que a hematúria
é uma doença que aparece em pacientes de pele branca e morena.
O percentual de pacientes pretos é insignificante (Figura II).
A hematúria tinha
seu início principalmente em pacientes pré-escolares e escolares
(Figura III) e nesse primeiro episódio a hematúria era macroscópica
(63%), na maioria dos casos.
A história familiar
para alguma doença renal esteve presente na maioria dos casos estudados,
demonstrando um envolvimento genético nessas patologias. Destaca-se
a história de litíase renal na família em 36% dos
casos (Figura V).
Após o que foi citado,
conclui-se que realmente as hematúrias têm presença
marcante na lista de diagnósticos de pacientes pediátricos
e que a definição da origem do sangramento é vital
para que se possa avaliar seu modo de evolução, bem como
as abordagens cabíveis a cada caso.
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QUADRO
I PRICIPAIS CAUSAS DE HEMATÚRIA
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GLOMERULARES:
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GN
PROLIFERATIVA:
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PÓS-INFECCIOSA
( GNDA)
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NEFROPATIA
IgA (DOENÇA DE BERGER)
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MEMBRANOPROLIFERATIVA
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PROLIFERATIVAMESANGIAL
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GN.
LÚPICA
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NEFRITEDAPÚRPURADEHENOCH-SCHÖNLEIN
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GN.
CRESCÊNTICA
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MEMBRANABASAL:
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SÍNDROMEDEALPORT
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GN
NÃO PROLIFERATIVA:
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NEFRITEHEREDITÁRIAPROGRESSIVA
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NEFROPATIAMEMBRANOSA
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NEFROESCLEROSE
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ALTERAÇÕESVASCULARES
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NÃO
GLOMERULARES:
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INFECÇÃO
DO TRATO URINÁRIO
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ALTERAÇÕES
METABÓLICAS:
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HIPERCALCIÚRIA
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HIPERURICOSÚRIA
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LITÍASE
RENAL
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HEMATÚRIA
DE EXERCÍCIO
|
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HEMANGIOMA
RENAL
|
|
MALFORMAÇÕES
RENAIS (CISTOS)
|
OBSTRUÇÃO
DO TRATO URINÁRIO
|
|
CAUSASHEMATOLÓGICAS
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TUMORES
|
|
OUTRAS:
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|
TUBERCULOSE
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TRAUMA
ABDOMINAL
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|
QUEIMADURAS
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FÍSTULA
ARTERIOVENOSA
|
|
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TROMBOSE
VEIA RENAL
|
|
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HEMANGIOMA
VESICAL
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|
CORPO
ESTRANHO
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MEDICAMENTOSA
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__________________________________________________________________________________________
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QUADRO II AVALIAÇÃO
DO PACIENTE COM HISTÓRIA DE HEMATÚRIA
*ANAMNESE :
· INÍCIO
DA HEMATÚRIA
· APRESENTAÇÃO
MACRO E/OU MICROSCÓPICA
· SINAIS E SINTOMAS
ASSOCIADOS (DOR ABDOMINAL, FEBRE, DOENÇAS RESPIRATÓRIAS,
EDEMA, ESFORÇO, OUTROS)
· RELAÇÃO
COM TRAUMA RENAL OU EXERCÍCIO
· USO DE MEDICAMENTOS,
ALIMENTAÇÃO
*HISTÓRIA
FAMILIAR
*EXAME FÍSICO
*EXAMES LABORATORIAIS
INICIAIS:
· URINA:
· ROTINA
· GRAM DE GOTA DE
URINA NÃO CENTRIFUGADA
· SEDIMENTOSCOPIA
POR CONTRASTE DE FASE: DISMORFISMO DE HEMÁCIAS E NÚMERO DE
LINHAGENS DIFERENTES DE HEMÁCIAS NA URINA
· RELAÇÃO
PROTEÍNA/CREATININA EM AMOSTRA URINÁRIA ÚNICA
· SANGUE:
· HEMOGRAMA
QUADRO III AVALIAÇÃO
DO PACIENTE COM HEMATÚRIA
HEMATÚRIA CONFIRMADA:
· LOCALIZAÇÃO
DA HEMATÚRIA
· MORFOLOGIA
DE HEMÁCIAS
· N° LINHAGENS
DIFERENTES (MICROSCOPIA DE FASE)
· CILINDRÚRIA
HEMÁTICA
· RELAÇÃO
PROTEÍNA/CREATININA
| Características |
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| GLOMERULAR |
|
NÃO GLOMERULAR |
| HEMÁCIAS DISMÓRFICAS |
|
HEMÁCIAS ISOMÓRFICAS |
| ³ 4 LINHAGENS |
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£ 3 LINHAGENS |
| CILINDRÚRIA HEMÁTICA PRESENTE |
|
CILINDRÚRIA HEMÁTICA AUSENTE |
| Exames: |
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| GLOMERULAR |
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NÃO GLOMERULAR |
| URÉIA |
|
URÉIA |
| CREATININA |
|
CREATININA |
| HEMOGRAMA |
|
HEMOGRAMA |
| COAGULOGRAMA |
|
ULTRASSOM |
| COMPLEMENTO C3 C4 |
|
CALCIÚRIA 24H |
| PESQUISA DREPANÓCIOS |
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URICOSÚRIA 24H |
| HbsAg, FAN, HIV, PPD |
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| PROTEINÚRIA 24 HORAS |
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| URINA PAIS E IRMÃOS |
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FIGURA I
DISTRIBUIÇÃO
POR SEXO E COR DA PELE (n=680)
FIGURA II
FAIXA ETÁRIA DE
APARECIMENTO DOS PRIMEIROS SINTOMAS (n=680)
FIGURA III
DISMORFISMO ERITROCITÁRIO
(n=680)
FIGURA IV
HISTÓRIA FAMILIAR
DE DOENÇA RENAL (n=680)
FIGURA V
DISTRIBUIÇÃO
DAS HEMATÚRIAS ENTRE OS PACIENTES DO AMBULATÓRIO DE NEFROLOGIA
PEDIÁTRICA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA
DA UFMG (n=680)
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