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Nefropatia Diabética:
Hemodinâmica Renal, Hipertensão Arterial e Efeitos da Terapêutica
com Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina
Maria Victoria Perez
Cavalcanti
Mestrado em Nefrologia pela
Universidade Federal de São Paulo (EPM)
Nefrologista do Hospital
de Base do DF
1 - Nefropatia diabética
1.1 - Considerações
gerais:
A nefropatia diabética
é uma das complicações microvasculares mais sérias
do diabetes mellitus dependente de insulina (tipo 1), sendo importante
causa de mortalidade e morbidade nestes pacientes. Cerca de 30 - 35% destes
pacientes desenvolvem insuficiência renal e necessitam de tratamento
dialítico ou transplante para sobreviverem (Consensus Statement, 1993).
No diabetes tipo1, a doença
renal tem um curso previsível. Inicia-se por uma sindrome caracterizada
por microalbuminúria, geralmente associada a hipertensão,
evolui para sindrome nefrótica, e termina em insuficiência
renal ou morte. A proteinúria
persistente é o maior sinal clínico da nefropatia diabética,
sendo detectável 14 a 19 anos após o início do diabetes.
A azotemia ocorre quatro a seis anos mais tarde, sendo então seguida
de insuficiência renal terminal dentro de um ano (Reddi, A.S., 1990).
Entre os pacientes diabéticos
tipo 1 que desenvolvem proteinúria persistente, 66% morrem por uremia
e 23% de doenças cardiovasculares (Borch-Johnsen, K., 1985). Em
vista destes achados, torna-se essencial a compreensão da fisiopatologia
da nefropatia diabética para uma prevenção e terapeutica
adequadas. Desde as observações de Kimmelstiel &
Wilson em 1936, o rim tornou-se uma importante área de investigação,
tendo contribuido para o melhor entendimento da fisiopatologia das
lesões microvasculares diabéticas.
1.2 - Patogênese das
alterações funcionais e estruturais
Alterações
funcionais
Nos últimos anos,
a glomerulopatia diabética tem sido exaustivamente estudada, sendo
algumas alterações funcionais e hemodinâmicas,
detectadas antes das alterações morfológicas e clínicas.
A microalbuminúria
definida como taxa de excreção urinária de albumina
entre 20 a 200µg/min, é a marca registrada da nefropatia incipiente
(Wiseman, M., 1984). Como a microalbuminúria representa a etapa
inicial para o desenvolvimento da nefropatia diabética estabelecida,
tornou-se indispensável o estudo dos principais fatores responsáveis
pelo controle do fluxo transglomerular de proteinas. Alterações
na permeabilidade da membrana basal dos capilares glomerulares tem sido
responsabilizadas pelo estabelecimento da proteinúria. Anormalidades
nos poros da membrana, alterando a barreira "carga-seletividade" e "tamanho-seletividade",
associada a rarefação de poros levariam à proteinúria
maciça que caracteriza a sindrome nefrótica do diabetes (Deen,
W.M.,1985).
Alterações
metabólicas próprias do diabetes mellitus podem modificar
a síntese dos glicosaminoglicans ricos em sulfato de heparan. Estas
substâncias são responsáveis pela carga negativa da
membrana basal, e portanto impedem a passagem de pequenas moléculas
como a albumina carregada negativamente (Myers, B.D., 1982).
Em 1983 Viberti observou
que em pacientes diabéticos com microalbuminúria inferior
a 60µg/min, havia um aumento proporcional nos clearances de albumina
e de IgG, e que o índice de seletividade mantinha-se inalterado.
Estes dados indicavam que, as propriedades restritivas da barreira glomerular
(número, tamanho e carga dos poros) permaneciam intactas. Portanto,
nesta fase a nefropatia incipiente poderia dever-se a um aumento no gradiente
pressórico transcapilar, que seria responsável pelo aumento
na filtração de proteínas em proporções mantidas.
Entretanto em diabéticos com microalbuminúria acima de 60µg/min
ou com macroproteinúria, porém sem redução
na função renal, a albumina seria preferentemente filtrada,
denotando alteração na carga-seletividade. No entanto, quando
havia evolução para nefropatia diabética estabelecida
evidenciava-se uma perda na seletividade dos poros tanto para carga quanto
para tamanho. Esta anormalidade era identificada já que, a filtração
de IgG era relativamente maior que a de albumina, embora fosse uma proteína
grande com carga neutra.
Em resumo, a filtração
glomerular de proteínas pode ser governada por diferentes determinantes,
específicos para cada estágio da doença. Entretanto,
pelo menos na fase de síndrome nefrótica, as alterações
observadas na membrana são semelhantes àquelas encontradas
em outras nefroses não diabéticas (Nakamura, Y., 1988).
Estudos com técnica
de micropunção em nefron isolado de ratos diabéticos
evidenciaram aumento da taxa de filtração glomerular
e do fluxo plasmático renal, assim como, aumento da pressão
capilar intraglomerular. O aumento na taxa de filtração glomerular
parece ser devida ao aumento no fluxo plasmático renal, causado
por maior redução na resistência da arteriola aferente
que na eferente com conseqüente aumento no gradiente de pressão hidráulica
transcapilar glomerular (Hostetter, T.H., 1981). Desta forma,
a hiperfiltração que ocorre precocemente no rim diabético
é devido ao aumento no fluxo plasmático renal.
Em 1986 Zatz e Brenner demonstraram
que alterações hemodinâmicas renais desempenhavam
importante papel no desenvolvimento da nefropatia diabética. Com
o evoluir do diabetes, tais alterações conduziriam à
injúria celular, resultando em aumento da matriz mesangial e finalmente
glomeruloesclerose.
Os mesmos autores observaram
que, o bloqueio farmacológico do sistema renina-angiotensina com
um inibidor da enzima de conversão, atenuava o desenvolvimento
da hiperfiltração glomerular e portanto da nefropatia diabética.
O sistema renina-angiotensina teria papel relevante, ao manter a arteríola
eferente glomerular mais constrita que a arteríola aferente, acarretando
um aumento pressórico transcapilar e conseqüente hiperfiltração.
No entanto, este conceito,
de forma pura e isolada tem sido questionado (Bank, N., 1987), parecendo
estar a hiperfiltração glomerular na dependência de
processos bioquímicos e hormonais bem mais complexos.
Tem-se observado que as
alterações hemodinâmicas da fase inicial do diabetes
tipo 1, podem ser causadas por vários fatores, incluindo o hormônio
de crescimento e/ou o fatores hormonais de crescimento.
Assim, no modelo animal
rato diabético induzido por streptozotocina, foi demonstrado que
as alterações hemodinâmicas renais observadas na fase
inicial, eram precedidas por acúmulo do peptídeo “insulin-like
growth factor I” (IGF-I) no rim destes animais (Werner, H., 1990). E que
a infusão de IGF-I recombinante humano, reproduzia em ratos normais
as alterações hemodinâmicas que caracterizam a fase
de hiperfiltração do diabetes incipiente (LeRoith, D., 1993).
Estes estudos fortalecem
a noção que o sistema IGF-I também tem participação
nas manifestações hemodinâmicas da fase inicial do
rim diabético.
Paralelamente, também
foi evidenciado que no modelo rato diabético por streptozotocina,
9-10 dias após a indução do diabetes, havia um acúmulo
de prostaglandinas vasodilatadoras a nível renal, concomitante ao
aumento da taxa de filtração glomerular, sendo este efeito,
revertido com uso de insulina (Craven, P.,1987), e que o uso de inibidores
da cicloxigenase, atenuava a hiperfiltração e suprimia a síntese glomerular, e/ou excreção urinária de prostanóides
vasodilatadores em ratos diabéticos.
O efeito das prostaglandinas
na taxa de filtração glomerular do diabetes é conseqüente ao aumento no fluxo sanguineo renal, e ocorre provavelmente por uma ação
vasodilatadora preferencial na arteríola aferente, resultando em
elevação da pressão intraglomerular (Hayashi, K.,1992).
Este aumento na síntese
de prostaglandinas do diabetes inicial contribuiria para a hiperfiltração,
sendo que, numa etapa mais tardia, a produção preferencial
de tromboxane participaria da fase de proteinúria estabelecida,
assim como das mudanças estruturais glomerulares (DeRubertis, F.R.,
1993)
Ainda no sentido de tentar
explicar o fenômeno da hiperfiltração, algumas evidências
também apontam para a participação de fatores relaxantes
derivados do endotélio. Utilizando o modelo animal do rato diabético
por streptozotocina, verificou-se um aumento na síntese de óxido
nítrico, presumivelmente liberado do endotélio vascular.
Este aumento de produção poderia ter papel significante na
fase de hiperfiltração do diabetes inicial (Bank, N., 1993).
Entretanto, independente
do mecanismo pelo qual se estabelece a hiperfiltração, fato
é que, a incapacidade de auto-regulação desenvolve-se
nos capilares glomerulares renais, tornando o fluxo sangüíneo renal vulnerável
às flutuações que ocorrem na pressão arterial
sistêmica. Estes achados, podem explicar as conseqüências adversas
da hipertensão arterial sistêmica na progressão da
nefropatia diabética.
Alterações
estruturais
As lesões estruturais
da glomerulopatia diabética desenvolvem-se lentamente através
dos anos.
Apesar de extensivos estudos
têm-se encontrado muita dificuldade para diferenciar a nível
de estrutura glomerular quais os pacientes diabéticos
normoalbuminúricos que desenvolverão nefropatia (Chavers,
B.M.,1989). Isto ocorre principalmente porque os pacientes normoalbuminúricos
são formados por um subgrupo que não desenvolverá
nefropatia e que constitui cerca de 60 a 70% dos pacientes com diabetes
tipo 1 (Borch-Johnsen, K., 1985).
No entanto, na transição
da fase de normo para microalbuminúria, alterações
sutis têm sido observadas à nível de membrana basal
e mesângio (Walker, J.D., 1992), demonstrando morfologicamente a
ligação da microalbuminúria com a progressão
da glomerulopatia diabética.
Já a nefropatia diabética
estabelecida é caracterizada por hipertrofia glomerular e tubular,
espessamento da membrana basal glomerular e tubular, e pelo acúmulo
progressivo dos componentes da matriz extracelular, principalmente em mesângio.
A nível glomerular
quatro lesões distintas podem ser reconhecidas pela microscopia
óptica; Forma nodular e forma difusa da glomeruloesclerose intercapilar,
aderência da cápsula e forma exudativa (Heptinstall, RH., 1983).
Nos túbulos, a lesão
de Armanni-Ebstein apresentando inúmeros vacúolos contendo
glicogênio é bastante caracteristica, principalmente na porção
contornada proximal (Heptinstall, RH., 1983).
A glomeruloesclerose nodular
que é considerada uma das lesões mais caracteristica da nefropatia
diabética, porém, não é tão freqüentemente vista como a forma difusa. (Ditscherlein, G., 1985).
O espessamento da membrana
basal glomerular é uma característica marcante da glomeruloesclerose
diabética. Parece ser um processo lento e gradual, que na fase inicial
pode ser demonstrado pela microscopia eletrônica e posteriormente
pela microscopia de luz.
Na fase inicial da doença,
a nefromegalia ocorre devido à hipertrofia tanto glomerular como
túbulo intersticial, associado com aumento da massa da membrana
basal glomerular e tubular ( aumento de superfície, porém,
sem espessamento). Estas alterações seriam uma conseqüência
do estímulo agudo na síntese dos constituintes da membrana;
colágeno IV, proteoglicans (heparan-sulfato), assim como nas glicoproteinas
(laminina e fibronectina) ( Østerby, R., 1990).
Estudos em cultura de tecidos mostram que meios com elevada quantidade
de glicose exercem importante influência no crescimento celular
renal e metabolismo da matriz extracelular. Assim, a hiperglicemia estimularia
a biossíntese de colágeno e outras moléculas da matriz
extracelular, levando à expansão do mesângio glomerular
(Ziyadeh, FN., 1993; Larkins, R.G., 1992).
Concomitante às alterações
estruturais causadas pela hiperglicemia, a associação de
hipertensão arterial parece ser um fator de relevante importância
no desenvolvimento da nefrosclerose diabética.
O modelo com hipertensão
arterial genética-SHR, tornado diabético com STZ, desenvolve
um quadro compatível com nefropatia acelerada. Este quadro é
evidenciado por aumento importante da albuminúria e espessamento
da membrana basal glomerular, sugerindo que a pré existência
de hipertensão pode ser de fundamental importância na progressão
da doença renal diabética (Cooper, ME., 1988).
1.3 - História natural
da nefropatia diabética
As alterações
funcionais e estruturais que ocorrem no rim, determinam a história
natural da nefropatia diabética. Mogensen, CE. e col, em 1983,
dividiram o curso evolutivo da doença renal diabética em
cinco estágios.
O primeiro é caracterizado
por nefromegalia com hiperfunção. Estas alterações
são encontradas na época do diagnóstico, antes do
inicio da insulinoterapia. Podem persistir por vários anos se o
diabetes não for bem controlado.
O segundo estágio
desenvolve-se silenciosamente por vários anos, e é representado
por lesões morfológicas, porém, sem sinais clínico-laboratoriais
da doença. Observa-se um aumento na taxa de filtração
glomerular. Durante o controle adequado do diabetes, a excreção
de albumina é normal, entretanto, o exercício físico
revela elevação da albuminúria, não demonstrável em repouso (Christensen, K., 1984). Se o controle do diabetes é
ineficiente, a albuminúria eleva-se tanto no exercício como
no repouso. Um grande número de pacientes permanece neste estágio,
porém, naqueles que são susceptíveis e tem tratamento
inadequado, pode desenvolver-se microalbuminúria.
Uma vez estabelecida a microalbuminúria,
inicia-se o terceiro estágio, também chamado de nefropatia
diabética incipiente. Esta fase ocorre mais provavelmente nos pacientes
que apresentavam hiperfiltração glomerular (Viberti, GC.,
1982), e tem forte valor preditivo para o desenvolvimento da nefropatia
diabética clínica.
Um lento e gradual aumento
nos níveis pressóricos, mesmo que, dentro dos limites da
normalidade, é um dado marcante desta fase decisiva da doença
renal.
Com o progredir da nefropatia
diabética incipiente, inicia-se o quarto estágio, que é
a nefropatia diabética estabelecida, com proteinúria persistentemente
maior que 0.5g/24h.
Uma vez instalada a síndrome
nefrótica, a presença de hipertensão arterial não
tratada, determina um declínio na função renal, diminuindo
a taxa de filtração glomerular em aproximadamente 10ml/min/ano
(Parving H-H., 1983). Este nível é muito superior a redução
natural encontrada entre os 20 e 60 anos que é em média de
1ml/min/ano (Slack, TK., 1976).
Finalmente, desenvolve-se
azotemia, uremia e insuficiência renal terminal, com necessidade
de diálise ou transplante renal, constituindo o último
estágio da nefropatia diabética.
Diferentemente da retinopatia
e de outras complicações tardias do diabetes tipo 1, a prevalência
da nefropatia não é linear ao tempo de doença. Se
a proteinúria constante não se desenvolver até 25-30
anos de diabetes, o risco de nefropatia tende a diminuir (Krolewski, AS.,
1985; Nathan, DM., 1993).
A evolução
da nefropatia pode ser influenciada por vários fatores que determinam
seu inicio e progressão.
Coonrod, BA e col. em 1993,
estudando vários fatores preditivos independentes, no desenvolvimento
da microalbuminúria, observaram que, em ordem decrescente de importância
encontravam-se: hemoglobina glicosilada elevada; aumento nas lipoproteínas de baixa densidade; maior duração do diabetes e elevação
da pressão arterial sistólica.
Desta forma, nos pacientes
diabéticos, o controle glicêmico efetivo(HbA1c menor que 8,5%)
e por longo período tem influência clara na instalação
das lesões renais (Bennett,PH., 1995). Sua principal atuação
ocorre na fase de pré e microalbuminúria (DCCT Research Group,
1993; Gilbert, RE., 1993; DCCT Research Group, 2000), podendo eventualmente
reverter lesões já estabelecidas da nefropatia diabética
( Fioreto, PS., 1998).
Uma vez iniciado o quarto
estágio, com proteinúria estabelecida e síndrome nefrótica,
o controle metabólico tem menor efeito na evolução
para insuficiência renal. No entanto, nesta fase o controle eficaz
da pressão arterial leva a uma diminuição da albuminúria
e do declínio da função renal, adquirindo importante
valor no desenvolvimento da insuficiência renal crônica (Mogensen,
CE., 1982; Hasslacher, C., 1985; Walker, W.G., 1988).
2.0 - Hipertensão
arterial e diabetes mellitus
2.1 - Efeito da hipertensão
no diabetes
Atualmente, sabe-se que
a hipertensão arterial (HA) é aproximadamente duas vezes
mais frequente em diabéticos que na população não
diabética (Mogensen, C.E.,1979; Sowers, J.R.,1988; Teuscher,
A., 1989 ).
Em 1990, Nørgaard
estudando uma população normal, e de diabéticos normoalbuminúricos,
microalbuminúricos e proteinúricos observou que a prevalência
de hipertensão nas mulheres (30 a 39 anos) era da ordem de: 1.7
; 2.2; 26.7; 86.5%, e nos homens de mesma faixa etária era de: 3.1;
3.1; 15.4 e 77.8% respectivamente. Portanto, a prevalência de HA
nos diabéticos é particularmente aumentada quando há
indícios de alterações renais (micro ou macroproteinúria),
porém é normal nos pacientes normoalbuminúricos.
Por outro lado, estima-se
que 35-75% das complicações diabéticas sejam devidas
à hipertensão (Christlieb, A.R.,1981 ; Krolewski, A.S.,1985
; Bild, D.,1987). Assim, a sua presença acarreta um aumento
no risco de iniciar e/ou acelerar o curso da nefropatia diabética,
aterosclerose, retinopatia, acidente vascular cerebral e doença
cardiovascular (Mogensen, CE.,1976; Mogensen, CE.1979; Stout,
RW.,1990; Borch-Johnsen, K.,1987; Hasslacher, C.,1988).
A história natural
e o curso temporal da hipertensão entre os indivíduos
com diabete tipo I é bastante caracteristica. Inicialmente
estes pacientes são normotensos e assim permanecem por aproximadamente
5 a 10 anos (Jarret, R.J.,1989). Nesta ocasião, a albuminúria
frequentemente permanece dentro dos limites da normalidade (<20µg/min).
Entretanto, na época da nefropatia diabética incipiente
(taxa de excreção de albumina de 20-200µg/min), já
é possível detectar elevação nos níveis
pressóricos, embora ainda dentro dos limites da normalidade. Porém,
com o progredir na intensidade da microalbuminúria estes níveis
tendem a aumentar (Viberti, G.,1988; Parving, H-H.,1988; Wiseman, M.,1984;
Parving, H-H.,1989).
Um aumento expressivo na
pressão arterial sistólica durante o exercício, desproporcional
aquele observado em indivíduos normais, parece ser um aspecto
característico da nefropatia incipiente (Christensen, C.K.,1984
). Porém, após o aparecimento de proteinúria persistente,
a pressão arterial sistólica eleva-se numa média aproximada
de 1 mmHg por mes (Parving, H-H.,1981).
Quando a nefropatia diabética
progride e instala-se a insuficiência renal, praticamente 100% destes
pacientes tornam-se hipertensos. Assim, cerca de 30
a 50% dos pacientes que tem diabetes tipo 1 por mais de 30 anos apresentarão
hipertensão, sendo este sub grupo representado pela grande maioria
que desenvolve nefropatia diabética. Por outro lado, os diabéticos
com mais de 30 anos de doença , e que não desenvolveram nefropatia,
raramente cursarão com hipertensão (Mogensen, CE.,1991; Consensus
statement, 1993).
2.2 - Predisposição
genética
Não está suficientemente
esclarecido até o momento porque somente alguns pacientes portadores
de diabetes tipo 1 desenvolvem nefropatia diabética. Entretanto
a presença de níveis pressóricos elevados aponta para
um possível acometimento renal subjacente (Parving, H-H., 1981).
Alguns autores têm
observado elevações da pressão arterial antes que
algum dano a função renal seja detectado (Wiseman, M., 1984;
Hasslacher, C., 1985; ramos 1988).
Estas observações
indicam que o aumento da tensão arterial pode ser responsável
pelo desenvolvimento da nefropatia diabética. Neste caso a história
familiar de hipertensão também poderia ser um fator de risco
para nefropatia no diabetes tipo I (Krolewski, A.S., 1988; Barzilay, J.,
1992). No entanto, este aspecto permanece controverso na literatura (Christensen,
C.K., 1987). Na população com diabetes tipo I, uma
prevalência de hipertensão arterial essencial associada a
normoalbuminúria, semelhante a população normal. Considerando
portanto, improvável que a hipertensão arterial essencial
fosse a causa da nefropatia diabética ( Nørgaard, K., 1990).
Estudos epidemiológicos
têm sugerido que pelo menos parte dos níveis pressóricos
de um indivíduo seja decorrente de sua carga genética (Ayman,
D.,1934; Kurtz, TW., 1993), e que a prevalência de hipertensão
arterial (HA) é maior nos filhos de pais hipertensos, diminuindo
naqueles com apenas um deles hipertenso e atingindo menores índices
nos filhos de pais normotensos (Hayes, CG.,1971).
Estudando famílias
portadoras de hipertensão arterial essencial, foi demonstrado que
o elevado contratransporte sódio-lítio (Na-Li) em eritrócitos
podia ser um marcador de predisposição para hipertensão
(Carr, S., 1989).
Por outro lado, parece que
não só os níveis pressóricos têm uma
decorrência genética, mais também certas alterações
metabólicas e endócrinas que acompanham o síndrome
de hipertensão arterial.
Foi assim verificado que
pacientes com história familiar de HA, exibiam alterações
clínico laboratoriais que predizem maiores riscos cardiovasculares,
tais como; elevação nos níveis de colesterol, de insulina
plasmática, de norepinefrina e da atividade de renina plasmática
(van Hooft, I., 1991; Neutel, JM., 1993). Da mesma forma, a predisposição
familiar para hipertensão arterial essencial foi sugerida
como um fator de risco para o desenvolvimento da nefropatia diabética
(Seaquist, E.R., 1989).
Viberti e col. em 1987,
levantaram a hipótese da hipertensão essencial ser um fator
hereditário que colocava em risco alguns pacientes diabéticos
de desenvolverem complicações renais. Estes autores aferiram
a pressão sanguinea nos pais de pacientes diabéticos com
e sem proteinúria, e encontraram uma percentagem significantemente
mais elevada de hipertensão nos pais dos pacientes com nefropatia.
Concluiram assim, que a presença de hipertensão arterial
em pais não diabéticos poderia ser um marcador de susceptibilidade
à nefropatia diabética para seus descendentes que adquirissem
diabetes tipo 1I.
Paralelamente, Krolewski
e col em 1988 observaram que pacientes diabéticos com microalbuminúria
apresentavam maior frequência de história familiar para hipertensão,
que aqueles com excreção normal de albumina. Quando estes
pacientes foram avaliados para a presença de um marcador de risco
para hipertensão (contratransporte Na-Li em hemáceas), um
significante aumento foi observado nos pacientes diabéticos com
microalbuminúria. Observações semelhantes também
foram relatadas por outros investigadores corroborando com a mesma hipótese
(Mangili, R., 1988; Carr, S., 1990; Nosadini, R., 1991).
Portanto embora não
esteja suficientemente esclarecida sua interrelação, e a
influência dos fatores ambientais não possa ser eliminada,
os conhecimentos atuais sugerem que a predisposição genética
é importante no desenvolvimento da nefropatia diabética (
DCCT Research Group 1997).
2.3 - Efeito da terapeutica
antihipertensiva na nefropatia diabética
Embora várias drogas
tenham mostrado sua eficácia na redução da pressão
arterial em pacientes diabéticos, não se conhece até
o momento, nenhum agente antihipertensivo específico para o controle
da hipertensão arterial neste grupo de pacientes.
Na última década,
inúmeros estudos têm ressaltado o efeito benéfico dos
inibidores da ECA (principalmente captopril e enalapril), na redução
da albuminuria no diabetes tipo 1, inferindo certa especificidade
a este grupo de drogas (Parving H-H,. 1988; Björck, S., 1992; Wiegmann,
TB., 1992). Entretanto, outros pesquisadores não encontraram
alterações nos níveis de proteinúria, com a
utilização dos inibidores da ECA (Björck, S., 1986;
Abu-Rometh, SH., 1989; Melbourne, DNSG.,1991).
Um estudo de meta-análise
de regressão, extraindo dados de 101 trabalhos e atingindo um total
de 2494 pacientes, evidenciaram que os inibidores da ECA diminuem a proteinúria
e preservam a taxa de filtração glomerular em pacientes diabéticos.
Sendo estes efeitos independentes de mudanças na pressão
arterial sistêmica (Kasiske, BL., 1993).
No mesmo sentido, foi realizado
um estudo prospectivo e colaborativo, em 30 centros com 409 pacientes diabéticos
e com pressão arterial previamente controlada. A adição
de captopril neste grupo protegeu contra a deterioração da
função renal, independente de seus efeitos na pressão
sanguínea (Lewis, EJ., 1993).
Recentemente, 530 pacientes
diabéticos tipo1, com pressão sanguinea normal, e com microalbuminúria
ou normoalbuminúria, foram randomizados para receber lisinopril
ou placebo, objetivando atingir pressão diastólica ótima
de 75mmHg. Após 2 anos o nível de excreção
urinária de albumina reduziu-se com o uso de lisinopril e aumentou
com o placebo numa média de 50mg/dia nos micralbuminúricos.
Nos normoalbuminúricos não houve diferença significante
(EUCLID study Group, 1997).
Corroborando com estes dados
foi observado que em pacientes não diabéticos e normotensos,
com sindrome nefrótica de outras etiologias, o uso dos inibidores
da ECA determinavam efeitos hemodinâmicos renais máximos em
algumas horas, enquanto o efeito antiproteinúrico era máximo
somente várias semanas após o início da terapia. Isto
sugeria claramente uma dissociação entre o curso hemodinâmico
renal e os efeitos antiproteinúricos dos inibidores da ECA (Gansevoort,
RT., 1993).
Os inibidores da ECA, perecem
ter várias ações distintas no desenvolvimento
da doença renal diabética. Estes efeitos incluem: ação
na hipertensão sistêmica (Mogensen, CE., 1991; Jerums, G.,
1992 ); ação na hemodinâmica renal (Zatz, R., 1986;
Mogensen, CE., 1991; ); atuação na membrana glomerular (Morelli,
E., 1990), e possivel influência nas características de crescimento
dos tecidos vascular e glomerular, que podem ser relevantes na patogênese
da nefropatia diabética (Ichikawa, I., 1991; Yoshida, Y., 1989 ;
Mulvany, MJ.,1992).
Nós procuramos avaliar
a nível experimental os efeitos da predisposição genética
para hipertensão arterial sobre o desenvolvimento da nefropatia
diabética. Analisamos também os efeitos de um inibidor da
ECA – cilazapril sobre a hipertensão arterial, proteinúria
e hemodinâmica renal.
Utilizamos para tanto, ratos
com carga genética para hipertensão arterial Bordeline
Hypertensive Rats (BHR), descendentes da 1ª geração
do cruzamento de machos da cepa Spontaneos Hypertensive Rats
(SHR), com fêmeas Wistar Kyoto (WK) normotensos, sendo estudados
por 12 semanas após torná-los diabéticos com uso de
streptozotocina.
Observamos que os animais
normotensos tonados diabéticos (WK+DM) apresentavam níveis
pressóricos progressivamente elevados a partir da 3ª semana,
em relação aos controles não diabéticos. Hipertensão
comprovada pelo aumento significante do peso de ventrículo esquerdo
ao final do estudo. Já nos animais com carga genética para
hipertensão, a indução do diabetes (BHR+DM) antecipou
o desenvolvimento do estado hipertensivo para a 1ª semana.
Os níveis de albuminúria
tiveram aumento significativo no grupo (BHR+DM) em comparação
com os normotensos diabéticos (WK+DM) ( 3,28±0,4 vs 0,61±0,08mg/24h).
Os animais (BHR+DM) tratados com inibidor ECA tiveram os níveis
de excreção urinária de albumina reduzidos de 3,28±0,4
para 1,46±0,10mg/24h (p<0,001).
A taxa de filtração
glomerular (TFG) foi avaliada através da depuração
de inulina e o fluxo plasmático renal (FPR) pela depuração
de ácido para amino hipúrico. O grupo com hipertensão
leve tornado diabético (BHR+DM) teve aumento significante da TFG
e FPR quando comparados com seus controles não diabéticos
(BHR), sendo este aumento revertido pelo uso do inibidor da ECA . Já
no grupo normotenso diabético (WK+DM) não houve aumento na
TFG e FPR.
A indução
do diabetes levou a um aumento no peso do ventrículo esquerdo nos
animais normotensos. Os animais hipertensos que já apresentavam
hipertrofia ventricular não tiveram aumento adicional com
a indução do diabetes. O uso do cilazapril reverteu a hipertrofia
ventricular dos grupos hipertenso (BHR) e hipertenso diabético (BHR+DM).
Vários trabalhos na literatura sinalizam para os efeitos da angiotensina
II na hipertrofia do músculo cardíaco (Kojima,M.,1994).
Não observamos à
microscopia óptica lesões glomerulares em nenhum grupo estudado.
As lesões vasculares foram agravadas no grupo (BHR+DM), sendo tais
lesões revertidas pelo uso do cilazapril.
Portanto, a presença
de diabetes melittus em animais com hipertensão arterial genética
limítrofe, antecipou o estado hipertensivo, acelerou o desenvolvimento
da nefropatia diabética e intensificou a vasculopatia hipertensiva.
O uso do inibidor da ECA – cilazapril atenuou a hipertensão , a
vasculopatia hipertensiva e a velocidade de desenvolvimento
e progressão da nefropatia diabética, por reverter as
alterações hemodinâmicas renais.
Assim, não
parece existirem dúvidas quanto a associação
de hipertensão arterial, evolução da nefropatia
diabética, e efeitos benéficos do tratamento da hipertensão
com inibidores da ECA. No entanto, são necessárias
terapias adicionais mais efetivas para prevenção desta
grave complicação diabética.
VIII - REFERÊNCIAS
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