| PARALISIA PERIÓDICA
HIPOPOTASSÊMICA TIREOTÓXICA
Ivan Carlos Ferreira Antonello
Resumo
Paralisia periódica
hipopotassêmica (PPH) é uma síndrome incomum que pode
gerar risco de vida potencialmente tratável, quando reconhecida
e apropriadamente abordada. Hipopotassemia representa um grande e heterogêneo
grupo de situações caracterizadas clinicamente por fraqueza
sistêmica. Uma das causas possíveis de hipopotassemia e paralisia
periódica é tireotoxicose relatada neste artigo.
Esta síndrome,
relacionada à tireotoxicose, é descrita em populações
asiáticas, sendo incomum em brancos e negros. Caracterizada por
episódios súbitos e recorrentes de paralisia flácida,
geralmente afeta de forma simétrica grupos musculares proximais
dos membros inferiores. Os episódios são mais comuns após
exercícios físicos intensos e ingestão de grandes
quantidades de carbohidratos. A hipopotassemia resulta da alteração
na distribuição transcelular de potássio e não
na quantidade corporal deste íon.
Neste artigo descreve-se
um caso de PPH tireotóxica em um jovem caucasiano, sulamericano,
com diagnóstico de hipertireoidismo por doença de Graves.
A revisão apresenta diagnõsticos diferenciais e discute o
manejo da situação.
Introdução
Fraqueza muscular
é queixa freqüente em serviços de emergência e
o seu diagnóstico diferencial inclui causas neurológicas,
metabólicas e infecciosas (quadro 1). Paralisia hipopotassêmica,
síndrome clínica caracterizada por fraqueza aguda sistêmica
e baixo potássio sérico, é etiologia rara porém
tratável de fraqueza aguda. Mortes por insuficiência respiratória
e arritmias têm sido relatadas, denotando a importância do
diagnóstico desta situação(1).
Paralisia periódica
hipopotassêmica é situação incomum, potencialmente
letal e que, também, pode ser provocada por tireotoxicose (2). A
literatura demonstra que o diagnóstico de PPH tireotóxica
(PPHT) em seus primeiros episódios é, frequentemente, não
lembrado(1) (2) (3).(4). Isto ocorre, entre outras causas, pela pouca familiaridade
dos médicos com esta desordem.
Nas populações
asiáticas PPHT é relatada em 1,9% dos casos de hipertireoidismo,
sendo bastante rara entre negros e caucasianos (3). Predomina no sexo masculino,
iniciando entre a segunda e quarta década de vida (1) (4). Em mulheres,
episódios podem ocorrer mais frequentemente durante a gravidez.
(5) (6).
Sabe-se, há
várias décadas, que embora as muitas as causas de hipopotassemia
(quadro 2) certos casos são resultado de disbalanço entre
influxo e efluxo celular. Há anormalidades nos aspectos moleculares
do fluxo transcelular de potássio que podem esclarecer algumas formas
de diminuição da concentração sérica
deste íon, além das já bem conhecidas que se justificam
pela habilidade da secreção de potássio na urina pelo
segmento distal do nefron. Entre as anormalidades de fluxo de membrana
celular temos a Paralisia periódica hipocalêmica familiar
(PPHF), a intoxicação por bário e a PPHT(5) (7).
| Quadro 1. Diagnóstico
diferencial de fraqueza sistêmica aguda (mod (3)
1. Neurológico
Myastenia gravis
Síndrome de Lambert-Eaton
Catalepsia
Paralisia do sono associada
com narcolepsia
Esclerose múltipla
Episódio isquêmico
transitório
Síndrome de hiperventilação
2. Metabólico/tóxico
Porfiria
Botulismo
Alcoolismo
Episódio hipoglicêmico
Hiper/Hipotireoidismo
Insuficiência adrenal
Medicações
Anormalidade eletrolítica
3. Infeccioso/inflamatório
Poliomielite
Difteria
Guillain-Barré
Polimiosite
Dermatomiosite
Miopatia inflamatória
aguda
|
Quadro 2. Causas de hipopotassemia
1. Perda renal
Hiperaldosteronismo
Doenças tubulares
Depleção de
magnésio
Diuréticos
Inibidores da anidrase carbonônica
2. Perda extra-renal
3.
Ingesta deficitária
Diarréia
Adenoma viloso retal
Fístula intestinal
Ureterodigmoidostomia
Laxativo
4. Redistribuição/Transferência
para o espaço intracelular
Alcalose
Hiperinsulinemia
Paralisia hipopotassêmica
periódica familiar
Paralisia hipopotassêmica
periódica tireotóxica
Intoxicação
por bário
|
Os achados clínicos
mais freqüentes de depleção de potássio (K) são
neuromusculares, embora outros sistemas como cardiovascular e gastrointestinal
possam ser afetados. Fraqueza global e acentuada, especialmente dos Membros
inferiores (MsIs), tem sido encontrada, podendo a severidade desta fraqueza
se estender para musculatura respiratória, bulbar e cranial. A manifestação
laboratorial mais proeminente desta situação é o potássio
sérico menor do que 3,5 miliequivalentes (mEq) por Litro (L) (1).
Em humanos no estado de
repouso, o K sérico permanece constante entre 3,8 e 4,8 miliequivalentes
(mEq) por litro (L). Dois aspectos são dignos de menção
quando se discute estabilidade da concentração plasmática
de potássio. Primeiro, após a ingestão de 30 a 40
mEq de potássio, ou seja uma quantidade aproximadamente igual a
metade de todo conteúdo extra celular normal, a concentração
de potássio sérico aumenta menos do que 1 mEq/L. Segundo,
98 por cento do potássio está localizado dentro da célula,
numa concentração de 140 a 150 mEq/L. Assim, existe um grande
gradiente de concentração para que o potássio se difunda
da célula para o fluido extra celular, no entanto há uma
permeabilidade limitada. A saída do íon através dos
canais de potássio da membrana celular é compensada
pela entrada mediada pela atividade da bomba de sódio e potássio,
mantendo o equilíbrio (5).
Neste relato descrevemos
um caso de PPHT em paciente caucasiano, descendente de portugueses, com
diagnóstico de hipertireoidismo por doença de Graves
Relato de Caso
R. O.C., branco, descendente
de portugueses, 33 anos, solteiro, comerciário, procurou o setor
de emergência do Hospital São Lucas da PUCRS, com queixa de
fraqueza em membros superiores (MsSs) e inferiores (MsIs). O quadro iniciou
dois dias antes, após exercício físico vigoroso –
havia jogado futebol – e progrediu com piora progressiva dos sintomas até
paralisia dos MsIs. Referia que há quatro anos tinha episódios
de “cansaço e travamento dos membros” que são periódicos
e pareciam se acentuar com o esforço. A história médica
pregressa não evidenciava nada digno de nota. Exame físico
mostrava paciente com sobrepeso que apresentava tetraparesia com comprometimento
predominantemente proximal, reflexos profundos diminuídos em MsSs
e abolidos em MsIs. Os exames laboratoriais sangüíneos evidenciaram
sódio 138 mEq/L, cloretos 98 mEq/L, potássio 1,9 mEq/L, bicarbonato
22,9 mEq/L, magnésio 1,7 mg/dL, cálcio 9 mg/dL, fósforo
1,4 mg/dL, creatinina 0,8 mg/dL e VSG 34 mm. Hemograma, glicemia de jejum,
CPK, TGO, TGP, GGT, colesterol, triglicerídeos, albumina e exame
qualitativo de urina foram normais. As hipóteses iniciais foram
Miastenia gravis, Síndrome de Guillain-Barré e Hiperaldosteronismo
primário. O paciente foi hospitalizado e acompanhado pelo Serviço
de Neurologia que iniciou com solução glicosada a 5% e aproximadamente
52 mEq de potássio para correr em 12 horas. Solicitada nova bioquímica
sérica 6 horas após os resultados foram: sódio 139
mEq/L, potássio 4 mEq/L, cloretos 99 mEq/L, bicarbonato 22,4 mEq/L,
magnésio e fósforo séricos foram normais. O paciente
estava sem queixas e com exame físico normal. Recebeu alta para
controle em ambulatório, após avaliação do
nefrologista que concordou com a conduta.
Seis dias mais tarde,
o paciente, o paciente procurou novamente o setor de emergência do
Hospital São Lucas da PUCRS com as mesmas queixas que motivaram
a internação anterior. Informou, quando questionado,
que tinha palpitações intermitentes há algum tempo
e pouca tolerância ao calor. Referia, nesta oportunidade, alimentação
copiosa no dia precedente e não lembrava ter realizado nenhum esforço
físico significativo. Soube-se, também, que uma prima de
primeiro grau teve hipertireoidismo e foi tratada com iodo. O exame físico
mostrava paresia e reflexos abolidos nos MsIS, frequência cardíaca
de 108 batimentos por minuto e pressão arterial de 150/100 mm de
Hg. Eletrocardiograma de repouso mostrava taquicardia sinusal, prolongamento
de QT e alterações inespecíficas da repolarização
ventricular. Exames laboratoriais evidenciaram os seguintes resultados
na análise do plasma: sódio 141 mEq/L, potássio 2,2
mEq/L, cloreto 99 mEq/L, bicarbonato 24,2 mEq/L, magnésio 1,8 mg/dL,
cálcio 9,2 mEq/L, fósforo 3 mEq/L, creatinina 0,9 mEq/L e
exame qualitativo de urina normal. Hospitalizou sob os cuidados do Serviço
de Nefrologia e recebeu reposição endovenosa de potássio
para correr em tono de 60 mEq/L em 24 horas. Dezesseis horas após,
melhorou das queixas de fraqueza, relatou episódios de palpitações,
desaparecendo a paresia de MsIs e com reflexos profundos normais. O potássio
sérico foi de 4,1 mEq/L e o restante da bioquímica do sangue
normal. A hipótese diagnóstica passou a ser Paralisia periódica
hipocalêmica familiar ou Paralisia periódica hipocalêmica
tireotóxica, tendo iniciado com beta bloquedor (propranolol 20mg
três vezes ao dia). A investigação laboratorial confirmou
a hipótese de hipertireoidismo: T4 total 18,1 µg/dL (normal
4,5-12,5), T3 301 µg/dL (normal 94 –170) e TSH menor que 0,01 ?UI/mL
(0,4 – 4,0). Passou a usar propilturacil 100 mg, 2 cp 2 vezes ao
dia e teve alta hospitalar. Nos controles ambulatorial tem estado assintomático,
com exames de laboratório evidenciando eutireoidismo e K sérico
normal.
Discussão
Hipótese de
paralisia hipopotassêmica poderia ser considerada em pacientes que
apresentam início súbito de fraqueza motora envolvendo um
ou mais membros, arreflexia, sem alteração do nível
de consciência ou de função esfincteriana e evidência
laboratorial de hipopotassemia (1) (2) (3) . A maioria dos casos de paralisia
hipopotassêmica incluem Paralisia periódica familiar, Paralisia
periódica tireotóxica e intoxicação por bário
(1) (6)
PPHF é mais encontrada
em indivívuos caucasianos. PPHT é uma situação
incomum de PPH, que ocorre primariamente em homens de descendência
asiática - em torno de 90% de todos casos relatados na literatura
- , incluindo japoneses, chineses, vietnamitas, coreanos, filipinos e índios
americanos (1) (2). Em nosso caso, o paciente era caucasiano, descendente
de portugueses e, diferente da maioria dos relatos(2), os episódios
de paralisia não ocorreram à noite. Acima de 80% dos casos
iniciam entre 20 e 40 anos de idade e menos do que um terço têm
uma história familiar de PPH (6). Em R.O.C., como nos sete casos
relatados por Ober (3), a paralisia foi precedida de exercício físico
ou ingesta de grande quantidades de carbohidrato.
Hipopotassemia é
a anormalidade eletrolítica mais consistente (1) (2) (3) (5) (6)
(7), entretanto pequena hipofosfatemia e hipomagnesemia costumam estar
presentes na PPHT (1) (2) (8). O diagnóstico foi possível
a partir de evidências da correção demasiadamente rápida
de hipopotassemia e das manifestações clínicas de
fraqueza e paralisia. Embora o potássio houvesse sido reposto nas
duas internações hospitalares, a quantidade aministrada não
bastaria para o aumento de quase 2 mEq/L no soro. Não parecia haver
depleção total de potássio e sim movimento do íon
para o espaço intracelular. Desta maneira, a hipótese de
que o defeito que levava à hipopotassemia pudesse ser de distribuição
entre os compartimentos foi a mais plausível.
A literatura ao tratar
de PPH relata associações ao uso ácido p-aminosalicílico,
de tiazídicos, ureterosigmoidostomias bilaterais, acidose tubular
renal, síndrome de Fanconi, nefropatia perdedora de potássio,
hiperaldosteronismo primário e, mais raramente, tireotoxicose(6).
R.O.C. tinha história de palpitação, pouca tolerância
ao calor, antecedente familiar de doença tireoidiana se apresentava
taquicárdico, com níveis pressóricos aumentados permitindo
a hipótese diagnóstica de hipertireoidismo e Doença
de Graves. Os sintomas de decompensação tireoidéia
destes pacientes podem ser discretos, o que talvez tenha contribuído
para o não diagnóstico na primeira internação
hospitalar. Em aproximadamente 90% dos casos relatados de PPHT, tireotoxicose
foi precedida ou aconteceu simultaneamente à paralisia. A paralisia
não é relacionada à severidade ou duração
da tireotoxicose (5) (6) (7).
Anormalidades no
fluxo de potássio através da membrana celular podem justificar
a diminuição deste íon no soro (figura 1). O hormônio
tireoideo altera a permeabilidade da membrana plasmática ao sódio
e potássio, já que aumenta a atividade da Na+-K+-ATPase resultando
numa maior atividade da bomba de sódio e transferência de
K para dentro da célula (3) (4) (5). A maior atividade da Na+-K+-ATPase
nos pacientes com hipertireoidismo e PPHT do que em pacientes com hipertireoidismo
sem PPHT sugere um papel da bomba de sódio fisiopatologia da PPHT.
(4).
Fig. 1 *Aumento e
**diminuição de atividade da Na-K-ATPase com transferência
de potássio através da membrana celular
Estimulação
beta adrenérgica também é capaz de aumentar a atividade
da Na+-K+-ATPase o que ocorre no hipertireoidismo, quando está aumentada
a resposta tecidual à ação beta adrenérgica
(3) (4) . Isto pode sugerir uma explicação para a paralisia
após descarga adrenérgica motivada pelo esforço, como
ocorreu na primeira internação hospitalar de R.O.C. Na paralisia
ocorrida após grande ingesta de carbohidratos, o mecanismo que pode
ser aventado, em paciente já predisposto à situação,
é de que o desafio hiperglicêmico alimentar leva a um aumento
na produção de insulina que, como é conhecido, aumenta
a atividade da Na+-K+-ATPase, favorecendo a entrada de K no meio intracelular
(9). É possível que estes acontecimentos sejam possíveis
em indivíduos geneticamente predispostos à PPH (5) (10).
A hipopotassemia pode não
ser causa única dos problemas neuromusculares da PPHT. Alguns pacientes
recuperam da paralisia antes mesmo de corrigir a hipopotassemia. Outros
mecanismos, como hipofosfatemia e hipomagnesemia – também presentes
nas avaliações de R.O.C., podem contribuir para a situação.
O fósforo é o ânion intracelular mais importante e
seu influxo e efluxo celular, mais comumente, ocorre em conjunção
com transporte de K (2) (8). Enfim, os eventos que levam à paralisia
com hipopotassemia nos pacientes com com PPHT são complexos. Envolvem
hipertireoidismo, predisposição racial e genética,
resposta exagerada à insulina, estado hiperadrenérgico e
provavelmente outros mecanismos levando ao movimento de K e outros íons,
como o fósforo e magnésio, para dentro da célula.
Correção do
hipertireoidismo é o mais definitivo tratamento do PPHT. Uma vez
que o paciente se torne eutireoideo, episódios de paralisia periódica
podem ceder e não deveriam ser provocados pelos estímulos
já citados (2). A reposição durante a situação
de hipopotassemia deve ser incentivada, pelo risco de arritmias fatais.
Ao administrar K, lembrar que a correção não é
para o déficit total, já que a diminuição de
K sérico é apenas relativa. Não há relação
entre a dose administrada de cloreto de potássio e o tempo de recuperação
da hipopotassemia(3) (8). Para o tratamento de paralisia, tem sido recomendado
que 27 mEq sejam dados a cada 2 horas via oral por 6 horas e após
cada 4 horas com monitorização cuidadosa de K sérico..
Há estudos com reposição endovenosa em que mais do
que 40% dos pacientes faziam hiperpotassemia de rebote. Baseado neste e
em outros resultados é prudente não exceder a reposição
de 90 mEq de K por dia, exceto quando houver uma razão para perda
de K, como diarréia, vômitos ou uso de diuréticos (3).
Na prevenção
de novos episódios deve ser evitado fatores precipitantes como exercício
extremo, ingesta pesada de carbohidratos e ingestão de álcool
(1). Desde que o K sérico é normal entre os episódios
de paralisia, o racional para suplementar cloreto de potássio de
rotina é questionável (2) (3) e a profilaxia com suplementação
de K poderia ser excluída. Nesta mesma linha de pensamento, discute-se
o uso de espironolactona, sem evidências de melhora na maioria dos
pacientes (3). Baseada em observações de dramática
melhora em pacientes com PPHF que se submeteram ao uso de acetazolamida,
esta droga também têm sido usada para prevenir PPHT, no entanto
não parece ser útil nesta última situação,
e há evidências de piora do quadro na PPHT com o uso deste
inibidor da anidrase carbônica (1) (3). Beta bloqueadores não
seletivos, como o propranolol, podem ser útilizados para prevenir
o ataque de paralisia, com benefício inquestionável, uma
vez que diminuem a atividade da Na+-K+-ATPase e da bomba de sódio,
em especial, no paciente que ainda não está eutireoideo (3)
(11). A completa resolução do problema, entretanto, ainda
depende do tratamento definitivo do estado tireotóxico.
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