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Istênio Fernandes Pascoal Mulher
branca, agora com 23 anos de idade, me foi encaminhada há três
anos para avaliação de hematúria e proteinúria
não-nefrótica identificadas 18 meses antes, com uma investigação
laboratorial preliminar virtualmente excluindo nefropatia secundária,
mas ainda sem esclarecimento etiológico (evolução
clínico-laboratorial prévia).
Com
uma ultrassonografia revelando discreto a moderado aumento da ecogenicidade
do parênquima renal, com volume normal dos rins (RD 110x39x43 mm
e RE 105x50x53 mm) e um coagulograma normal, fiz uma biópsia renal,
cujo diagnóstico foi nefropatia por IgA (laudo
histopatológico).Discuti
aspectos prognósticos e terapêuticos com a paciente e os pais
e prescrevi Lisinopril 5 mg/dia + AAS/Dipiridamol, orientei dieta com 0.8
g/kg/dia de proteínas e programei reavaliações trimestrais. A
paciente só retornou 8 meses depois. Não havia tomado a medicação,
mas estava assintomática e continuava normotensa. Novos exames mostraram:
EAS - Densidade 1020, pH 6,0, proteína (+), hemoglobina vestígios,
leucócitos 3 p/c, hemácias 4 p/c, proteinúria 2.745
mg/24h; hematócrito 35,2%, hemoglobina 12,2 g/dl, leucócitos
5.400, plaquetas 265.000; uréia 38 mg/dl, creatinina 1,1 mg/dl,
depuração de creatinina 85 ml/min, sódio 142 mEq/l,
potássio 4,6 mEq/l, cálcio 9,2 mg/dl; fosfato 3,7 mg/dl,
ácido úrico 3,8 mg/dl.Insisti
na orientação anterior (Lisinopril 5 mg/dia, AAS/Dipiridamol
e dieta hipoproteica). Trinta
dias depois, tendo tomado apenas o Lisinopril regularmente (sic), a PA
era ~100x64 mmHg e a proteinúria 2.700 mg/24h.A
dose do Lisinopril foi aumentada para 10 mg/dia. Ao
final dos próximos dois meses a PA era 100x68 (deitada), 90x60 (sentada)
e 90x60 mmHg (de pé) e a proteinúria 1.834 mg/24.Nessa
época passou a usar também contracepivo oral.Uma
tentativa de aumentar a dose de Lisinopril para 20 mg/dia foi mal tolerada
pela paciente (tontura e mal-estar por possível hipotensão
arterial), tendo retornado à dose original de 10 mg/dia.Dois
meses depois, a depuração de creatinina era 70 ml/min e a
proteinúria 1.450 mg/24h. Na
consulta seguinte, seis meses depois, novos exames foram realizados: EAS
-Densidade 1020, pH 6,0, proteína
vestígios, hemoglobina vestígios, leucócitos 3 p/c,
hemácias 2 p/c; proteinúria 1.382 mg/24h; hematócrito
39,5%, hemoglobina 13,5 g/l, leucócitos 6.800, plaquetas 285.000,
uréia 58 mg/dl, creatinina 1,2 mg/dl, depuração de
creatinina 76 ml/min; ácido úrico 4,4 mg/dl, sódio
135 mEq/l, potássio 4,3 mEq/l, cálcio 8,9 mg/dl, fósforo
4,0mg/dl; albuminemia 4,0 g/dl,
colesterol total 215 mg/dl (HDL 58, LDL 144), triglicérides 67 mg/dl. Um
mês depois, sob uso regular do Lisinopril, mas tendo suspendido o
anticoncepcional oral, teve o diagnóstico de gravidez já
na sexta semana, implicando que a avaliação laboratorial
acima fora realizada no curso da segunda semana de gestação.O
Lisinopril foi suspenso e o acompanhamento pré-natal conjunto (obstetra
+ nefrologista) então iniciado, com a prescrição de
suplementos vitamínicos e sais minerais. Na
10a semana de gestação a PA era 110x70 (deitada),
100x72 (sentada) e 102x60 mmHg (de pé) e o peso 68,3 Kg.A
primeira avaliação laboratorial na gestação
foi, então, realizada (aproximadamente 40 dias após a suspensão
do Lisinopril): EAS -Densidade 1025,
pH 6,0, proteína (+), hemoglobina (++), leucócitos 10 p/c
(23.000/ml), hemácias 15 p/c (38.000/ml); urocultura negativa, proteinúria
3.570 mg/24h;hematócrito
38,3%, hemoglobina 13 mg/l, leucócitos 9.600, plaquetas 323.000;
uréia 42 mg/dl, creatinina 0,7 mg/dl, depuração de
creatinina 126 ml/min; ácido úrico 4,8 mg/dl; glicemia 80
mg/dl, colesterol total 244 mg/dl (HDL 46, LDL 162), triglicérides
181 mg/dl, TGO 22 UI/L, TGP 17 UI/l, DHL 156 UI/l; sorologia rotineira
do pré-natal (HIV, rubéola, toxoplasmose, monoclueose, citomegalovirose)
negativa. Com
15 semanas, a PA era 108x70 (deitada), 90x68 (sentada) e 100x68 mmHg (de
pé), o peso 70,1 Kg e a proteinúria 2.180mg/24h. Na
consulta seguinte, com 20 semanas, a PA era 110x70 (deitada), 106x68 (sentada)
e 100x66 mmHg (de pé), o peso 72,8 Kg, a proteinúria2.152
mg/24h; hematócrito 35 %, hemoglobina 11,9 g/l, leucócitos
8.300, plaquetas 266.000; uréia 36 mg/dl, creatinina 1,0 mg/dl,
depuração de creatinina 87 ml/min, ácido úrico
4,9 mg/dl; colesterol total 283 mg/dl (HDL 55; LDL 180), triglicérides
238 mg/dl, albuminemia 3,2 g/dl, TGO 19 U/l e TGP 16 U/l. Na
28a semana, prosseguia sem intercorrências clínicas.A
PA era 110x70 (deitada), 108x70 (sentada) e 100x70 mmHg (de pé)
e o peso 77,3 Kg.Novos exames mostraram:
proteinúria 3.140 mg/24h, hematócrito 36%, hemoglobina 12,4
g/l, leucócitos 9.900, plaquetas 230.000; uréia 45 mg/dl,
creatinina 1,0 mg/dl, depuração de creatinina 97 ml/min,
ácido úrico 4,9 mg/dl, glicemia 72 mg/dl e albuminemia 3,3
g/dl. Com
33 semanas, a PA foi 108x78 (deitada), 106x78 (sentada) e 100x74 mmHg (de
pé), o peso 79,8 Kg e apresentava discreto edema de MMII. A protienúria
foi 2.920 mg/24h.O hematócrito
36,6%, hemoglobina 12,6 g/l, leucócitos 9.800, plaquetas 283.000;
uréia 27 mg/dl, creatinina 1,1 mg/dl, depuração de
creatinina 96 ml/min, ácido úrico 5,0 mg/dl; colesterol total
322 mg/dl (HDL 55; LDL 180), triglicérides 498 mg/dl, albuminemia
3,6 g/dl, TGO 18 U/l, TGP 19 U/l e DHL 212 U/l. Na
37ª semana permanecia normotensa e apresentava apenas moderado
edema de membros inferiores.Então,
a última avaliação laboratorial na gestação
mostrou proteinúria 2.940 mg/24h; hematócrito 36,2%, hemoglobina
12,6 g/l, leucócitos 8.500, plaquetas 275.000; creatinina 1,0 mg/dl,
depuração de creatinina 94 ml/min, ácido úrico
4,5 mg/dl; colesterol total 432 mg/dl, triglicérides 643 mg/dl,
TGO 17 UI/L e TGP 18 UI/l. Com
41 semanas, submeteu-se a operação cesariana por parada de
progressão do trabalho de parto, porém sem complicações.À
luz, feto do sexo masculino, pesando 3,5 Kg e com 49 cm de comprimento,
tendo, mãe e filho, recebido alta hospitalar 48 horas após
o parto. A
mãe evoluiu assintomática, amamentando regularmente e sem
uso de qualquer medicação nos dois meses seguintes.Ao
final deste período, a PA era 120x80 (deitada), 110x80 (sentada)
e 108x76 mmHg (de pé), o peso 74,4 Kg, mas uma nova avaliação
laboratorial mostrou proteinúria 6.475 mg/24h; hematócrito
39,7%, hemoglobina 13,4 mg/l, leucócitos 6.100, plaquetas 302.000;
uréia 42 mg/dl, creatinina 1,1 mg/dl, depuração de
creatinina 75 ml/min, ácido úrico 4,7 mg/dl, potássio
3,7 mEq/l, colesterol total 320 mg/dl (HDL 54; LDL 245), triglicérides
103 mg/dl, cálcio 9,2 mg/dl, fosfato 5,3 mg/dl e albuminemia 3,3
g/dl.A amamentação
foi, então, suspensa, o Lisinopril 10mg/dia foi reintroduzido e
um DIU foi colocado. Dois
meses depois do uso regular de Lisinopril, a proteinúria foi 2.495
mg/24h, o hematócrito 35,7%, hemoglobina 12,2 g/l, leucócitos
5.000, plaquetas 305.000; uréia 37 mg/dl, creatinina 1,2 mg/dl,
depuração de creatinina 63 ml/min, ácido úrico
5,1 mg/dl, potássio 3,7 mEq/l, colesterol total 191 mg/dl (HDL 32,
LDL 131), triglicérides 140 mg/dl e albuminemia 3,9 g/dl.O
desenvolvimento do feto aos 6 meses de idade está normal.O
Lisinopril 10 mg/dia foi mantido e foram reprogramadas visitas médicas
trimestrais. DISCUSSÃO Hematúria
e proteinúria estão entre as mais comuns anormalidades urinárias
e, isolada ou associadamente, podem sinalizar virtualmente todas as afecções
renais.Por outro lado, elevação
dos níveis séricos de creatinina revela considerável
prejuízo da função renal, independentemente da causa.As
doenças renais se expressam, portanto, por duas vias distintas e,
em boa parte das vezes, simultaneamente.Assim,
normalmente silencioso, quando lesado o rim se torna duplamente eloquente,
com uma linguagem urinária e outra sistêmica. No
presente caso, os vestígios de hematúria e proteinúria
no exame sumário de urina inicial constituíam indícios
de doença renal parenquimatosa.Nos
18 meses seguintes, a hematúria se mostrou variável, mas
a proteinúria teve caráter progressivo, atingindo valores
de 1.620 mg/24horas no momento da realização da biópsia
renal, época em que também já havia redução
da filtração glomerular. Coletivamente, estes achados quase
sempre traduzem uma glomerulopatia crônica subjacente. Glomerulopatia
crônica é um termo que engloba uma variedade de doenças
renais, com envolvimento predominantemente glomerular, caracterizado por
alterações exsudativas, proliferativas e/ou escleróticas.Independentemente
da etiologia, as manifestações clínicas das glomerulopatias
são semelhantes, variando, apenas em intensidade, suas manifestações
cardinais: proteinúria, diminuição da função
renal e hipertensão arterial.Embora
se pudesse antecipar com boa probabilidade de acerto a forma histológica
desta glomerulopatia a partir dos dados clínicos disponíveis,
a biópsia renal confirmou o diagnóstico de nefropatia por
IgA, com apreciável proporção de glomérulos
já hialinizados, mas com razoável preservação
do interstício e dos vasos, indicando um prognóstico intermediário
de progressão para a cronicidade terminal. A
nefropatia por IgA é a forma de glomerulopatia mais frequente em
todas as partes do mundo onde biópsia renal tem sido mais amplamente
praticada, mas a apresentação clínica é bastante
diversa.Apenas 5% dos pacientes
apresentam síndrome nefrótica na ocasião do diagnóstico,
em alguns casos com o substrato histológico de lesão renal
mínima.Insuficiência
renal aguda é a forma de apresentação de outros 5%
dos pacientes, podendo ser meramente decorrente de episódios autolimitados
de hematúria macroscópica intensa ou corresponder a uma forma
grave de glomerulopatia crescentérica.Entre
40 a 50% dos pacientes apresentam apenas hematúria macroscópica
recorrente, frequentemente associada a IVAS e de evolução
geralmente benigna.Por outro lado,
hematúria microscópica, isolada ou associada a proteinúria,
representa 30 a 50% dos casos.Finalmente,
cerca de 10 a 20% dos pacientes com nefropatia por IgA se apresentam já
com insuficiência renal crônica estabelecida, possivelmente
representando o produto final de alguma das formas clássicas de
apresentação não diagnosticada previamente. À
época do diagnóstico histológico a proteinúria
era moderada, havia discreta diminuição da função
renal e a pressão arterial era normal.A
opção terapêutica inicial pelo inibidor da ECA reduziu
a proteinúria em aproximadamente 50% e este efeito se manteve estável
nos dois anos seguintes, com adequada preservação da função
renal.Então, a paciente engravidou
inadvertidamente e a droga foi temporariamente suspensa, uma posição
de cautela baseada na observação de que o uso de inibidores
da ECA durante a gravidez tem sido associado a malformações
fetais em animais de experimentação e a insuficiência
renal aguda em neonatos humanos, efeitos provavelmente compartilhados pelos
bloqueadores dos receptores da angiotensina II. A
maioria das mulheres com insuficiência renal avançada tem
amenorréia ou ciclos menstruais anovulatórios.Porém,
quando a função está apenas discretamente comprometida
(creatinina sérica < 1,5 mg/dl) a fertilidade é comparável
à de mulheres normais.O aconselhamento
sobre as chances e os riscos de concepção ou de continuidade
de uma gravidez em mulheres com doença renal preexistente constitui
um dilema clínico considerável, que deve ser compartilhado
entre paciente, nefrologista e obstetra. Até
25 anos atrás filhos de mães nefropatas nasciam em condições
críticas ou nem nasciam.Nem
nasciam, se a decisão fosse exclusivamente do médico.A
associação de gravidez e nefropatia foi por muito tempo considerada
arriscada e muitas gestações foram interrompidas seguindo
a orientação de literatura pobremente documentada.Nas
últimas duas décadas, inúmeros estudos foram realizados
e, embora retrospectivos em sua maior parte, incluem centenas de pacientes
cujo diagnóstico da doença renal foi feito por meio de biópsia
renal.Uma análise crítica
desses trabalhos nos permite concluir que a) mulheres com nefropatia pré-existente
à gravidez, mas com função renal preservada ou apenas
discretamente alterada e com pressão arterial normal ou satisfatoriamente
controlada, apresentam boa evolução obstétrica e a
gravidez não parece afetar adversamente o curso da doença
renal; b) o prognóstico é mais reservado se a função
renal estiver moderadamente comprometida (creatinina sérica > 1,5
mg/dl e < 3,0 mg/dl) ou se existir hipertensão antes da concepção.Uma
proporção significativa (cerca de um terço) de tais
pacientes experimentará deterioração da função
renal durante a gravidez e uma progressão mais rápida da
nefropatia após o parto; c) mulheres com insuficiência renal
avançada (creatinina > 3,0 mg/dl) são frequentemente inférteis.Quando
elas concebem, a probabilidade de boa evolução obstétrica
é baixa e a gestação se caracteriza por alta morbidade
materna – duas fortes razões para desencorajar a gravidez em tais
pacientes. As
observações acima se aplicam uniformemente à maioria
das doenças renais, porém nefropatia por IgA, glomeruloesclerose
focal e nefropatia de refluxo constituem possíveis exceções
à regra, uma vez que as influências recíprocas entre
a gravidez e estas formas específicas de glomerulopatia ainda não
estão suficientemente esclarecidas. Kincaid-Smith
and Fairley revisaram 102 gestações em 65 pacientes com nefropatia
por IgA e observaram que proteinúria se desenvolveu ou piorou em
77%, enquanto a função renal declinou em 22%; este declínio
persistiu após a gravidez em 2 pacientes.A
hipertensão foi a mais importante manifestação destas
pacientes, ocorrendo em 63% e persistindo após a gravidez em 16.A
incidência de perda fetal foi de 27%, em parte relacionada interrupção
precoce das gestações.Este
mesmo grupo já havia reportado que lesões renais vistas à
biópsia eram mais intensas em mulheres com nefropatia por IgA que
tinham engravidado previamente, quando comparadas com aquelas que não
tinham.Suas experiências mais
recentes foram similares.Contrastando
com a experiência acima, Jungers et al não encontraram qualquer
efeito adverso da gravidez sobre a história natural da nefropatia
por IgA.Estes investigadores, bem
como Surian et al, notaram uma tendência à exacerbação
da hipertensão durante a gravidez em alguns pacientes, mas atribuíram
isto à história natural da própria doença renal.Perda
fetal de 15% (10 de 66 gestações) incluíram 5 casos
onde havia hipertensão preexistente.Pacientes
normotensas à concepção evoluiram bem nestas séries.Mais
recentemente, Abe et al revisaram 168 gestações em 118 mulheres
japonesas com nefropatia por IgA que conceberam entre 1970 e 1988.A
evolução materna e fetal se assemelhou àquela de mulheres
normais, não havendo morte perinatal após 1980.Em
um estudo caso-controle menor, no qual 36 destas mulheres foram seguidas
por 5 anos em média, os autores não observaram efeitos adversos
da gravidez, quer sobre a pressão arterial quer sobre a depuração
de creatinina.Assim, apesar das
controvérsias, as observações da maioria dos investigadores
é de que em mulheres com nefropatia por IgA, que são normotensas
e têm função renal preservada, pode-se antecipar poucas
complicações na gravidez, uma vez que não há
dados convincentes vinculando a gestação com a progressão
da doença renal. Houve
significativa elevação da filtração glomerular
durante a gravidez e umaelevação
paralela e proporcional nos níveis de proteinúria.Esta
era uma resposta esperada, mesmo considerando o comprometimento funcional
renal pré-gestacional.A suspensão
do inibidor da ECA no início da gravidez contribuiu para ambas as
alterações, mas as repercussões renais da gestação
se fazem na mesma direção e os efeitos provavelmente se somaram
aqui.Colateralmente, os níveis
plasmáticos de triglicérides e de todas as frações
do colesterol aumentaram exponencialmente, um efeito habitual da gravidez,
mas certamente agravado pela exacerbação da proteinúria
e consequente hipoalbuminemia. A
excreção urinária de proteína aumenta normalmente
no curso da gravidez, provavelmente em decorrência da elevação
do fluxo plasmático glomerular, alterações da permeabilidade
da barreira de filtração e/ou diminuição da
reabsorção tubular, sendo 300 mg/24 horas considerado o limite
superior da normalidade.Por analogia,
o aumento da proteinúria no curso da gestação em pacientes
com doença renal prévia não constitui, obrigatoriamente,
indício de progressão da mesma.Efetivamente,
a proteinúria aumenta durante a gestação em cerca
de metade das mulheres com nefropatia preexistente, frequentemente para
níveis nefróticos.Como
esperado, a proteinúria está associada mais a doenças
glomerulares do que tubulointersticiais, mas cuidados são necessários
para não confundir “alterações fisiológicas”
da gravidez com exacerbação da doença renal.Por
exemplo, aumento na excreção urinária de proteínas
pode ser consequência da elevação na hemodinâmica
renal que acompanha a gravidez, ou talvez a aumento da pressão na
veia renal (à medida que o conteúdo abdominal se avoluma),
ou ambos.Ademais, o nível
de albumina sérica diminui 0.5 a 1 g/dl na gravidez normal e quando
isto ocorre em pacientes com doença renal o edema pode se formar
(ou piorar, se já presente).Estas
modificações costumam reverter progressivamente e desaparecer
completamente até o terceiro mês após o parto. Surpreendentemente,
dois meses após o parto a proteinúria estava ainda mais elevada
do que na ultima avaliação durante a gestação
(37a. semana).Isto poderia
significar um agravamento estrutural da lesão glomerular, mas uma
alternativa plausível é a de que na ocasião do parto
(41a. semana) a proteinúria já fosse superior
à aferida 4 semanas antes e a hiperprolactinemia do período
de lactação estivesse perpetuando as alterações
na permeseletividade da membrana basal glomerular iniciadas na gravidez,
uma vez que as alterações hemodinâmicas, refletidas
no valor da depuração de creatinina, já haviam retornado
aos níveis pré-gestacionais.Consistente
com essa hipótese foi a expressiva redução da proteinúria,
e consequente correção da hipoalbuminemia e da dislipidemia,
com a reintridução do inibidor da ECA. Este
caso é bastante ilustrativo da relativa inofensividade da gravidez
em uma paciente com nefropatia preexistente, desde que a função
renal esteja normal ou apenas discretamente diminuída e não
haja hipertensão arterial sistêmica.Nestas
circunstâncias, o maior risco, tanto para a mãe quanto para
o feto, é o do desenvolvimento de pré-eclâmpsia, uma
complicação queocorre
em cerca de 30% dos casos, sem que seja possível preve-la nem preveni-la.Afortunadamente,
nossa paciente não teve pré-eclâmpsia, nem qualquer
outra intercorrência clínica durante a gravidez.Quatro
meses após o parto a proteinúria está um pouco maior
(2,4 vs. 1,4 g/24h) e a filtração glomerular um pouco menor
(63 vs. 70 ml/min) do que antes da gravidez, mas esta aparente piora, se
confirmada em avaliações posteriores, poderá ser atribuída
à mera evolução natural da nefropatia.Isto
é, a gravidez per se não terá necessariamente afetado
o curso da doença renal, mas, ao obrigar a suspensão do inibidor
da ECA durante quase um ano, terá impedido a reconhecida nefroproteção
conferida pela droga. BIBLIOGRAFIA
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