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Luiz
Carlos Ferreira de Andrade¹
Trabalho
realizado no Serviço de Nefrologia do Hospital Universitário
(HU)
1 - Professor Adjunto da Disciplina de Nefrologia – FM - UFJF
2
- Médico do Serviço de NefrologiaHU-
UFJF
3-
Professor Adjunto de Nefrologia –FM
- UFJF
4-
Professor Adjunto da Disciplina de Nefrologia -FM
- UFJF
Correspondência:
Dr. Luiz Carlos Ferreira de Andrade, Fundação IMEPEN – Rua
Tiradentes no 75; Bairro Santa Helena – Juiz de Fora
MG. CEP 36.015-360lcandrade@terra.com.br Resumo:Os
autores apresentam um caso de insuficiência cardíaca (IC)
crônica que evoluiu com insuficiência renal aguda (IRA). Analisam
aspectos fisiopatogênicos da IC que contribuem para adeterioração
da função renal.Esta
complicação poderá ser atenuada pela adequadaintervenção
medicamentosa baseada no conhecimento da fisiopatologia da IRA na IC.Discutem
especialmente a questão do uso de inibidores da enzima de conversão
da angiotensina II (IECA) e/ou diuréticos como causas de insuficiência
renal em portadores de IC grave. Introdução: A
insuficiência cardíaca (IC) é um estado patológico
no qual o coração é ineficaz para a manutenção
do débito cardíaco necessário para suprir as exigências
metabólicas dos órgãos e tecidos¹. É responsável
por 1 milhão de admissões hospitalares por ano, sendo o procedimento
que mais consome recursos no Sistema de Saúde Americano ².
A mortalidade por IC é elevada, situando-se em tornode
30-50% ao ano nos casos deIC avançada
3,
O
objetivo desta comunicação é rever a interrelação
entre coração e rim na insuficência cardíaca,
à luz da discussão de um caso clínico. Caso
Clínico: Paciente
de 60 anos, masculino, branco, lavrador, internado pela primeira vez há
5 anos com quadro de infarto agudo do miocárdio (parede anterior)
tendo evoluído com IC classe II de Killip-Kimball e recebido
alta emuso de captopril, furosemida
e de AAS. Evoluiu com IC de difícil controle, tendo sido admitido
no setor de emergência por diversas ocasiões com descompensação
da IC. Na última internação, relatava dispnéiaaos
mínimos esforços, ortopnéia, edema de MMII, tosse
noturna, ganho de peso (±
6 Kg) e redução do volume urinário nos dias anteriores
à admissão. Ao exame físico, apresentava-se dispnéico,
com freqüência respiratória de 25 ipm, estertores finos
inspiratórios em bases e terço médio de ambos os pulmões,
pressão arterial igual a 120 x 76 mmHg, ictus propulsivo, deslocado
para a esquerda, bulhas hipofonéticas, ritmo irregular tipo fibrilação
atrial, freqüência cardíaca de 100 bpm, abdome ascítico,
fígado palpável a 11 cm do rebordo costal direito, borda
romba, doloroso, com refluxo hepato-jugular presente, edema de MMII +++/4+.
Paciente permaneceu no setor de emergência por um período
de 24 horas, onde foi iniciada furosemida endovenosa (100 mg/dia) e digitálico
(deslanatosídio C) tendo sido mantido o IECA. No dia seguinte evoluiu
com queda do nível de consciência, pressão arterial
de 92 x 58 mmHg, cianose de extremidades, sendo transferido para a unidade
de terapia intensiva (UTI). Os exames realizados à admissão
na UTI evidenciaram uréia plasmática igual a 180mg/dl, creatinina
igual a 4,5 mg/dl, glicemia de 80 mg/dl, albumina plasmática de
3,4 g/dl, ácido úrico de 7,5 mg/dl, sódio plasmático
de 129 mEq/l, potássio de 3,9 mEq/l. À gasometria arterial
foi observada acidose metabólica e hipoxemia ( pH = 7,28HCO3-
= 20 mEq/l, PaO2 = 56mmHg ) com
saturação de oxigênio igual a 89%. O eletrocardiograma
mostrava ritmo de fibrilação atrial, freqüência
cardíaca de 120bpm, presença
de ondas Q nas derivações V2, V3 e V4 compatíveis
com infarto antigo. A radiografia de tórax evidenciava cardiomegalia,
sinais de congestão passiva, hipertensão no território
venocapilar pulmonar e opacificação do seio costofrênico
direito. Os dados positivos do ecocardiograma eram compatíveis com
os achados acima, com fração de ejeção igual
a 30 % e presença de área de hipocinesia em parede anterior
de VE.Paciente foi medicado com
oxigenioterapia,furosemida por via
intravenosa continuamente, na dose de 200 mg/dia, drogas inotrópicas
positivas (dobutamina e dopamina) e nitroprussiato de sódio. Este,
administrado com base apenas na pressão venosa central, devido a
problemas técnicos com o catéter deSwan-Ganz.
Segundo exames laboratoriais realizados ambulatorialmente o valor de creatinina
plasmática era de 1,6 mg/dl, razão pela qual o IECA foi suspenso
quando constatada creatinina de 4,5 mg/dl. Com esta abordagem, o paciente
evoluiu com diurese média de 2.000 ml/dia nos dois primeiros dias,
com recuperação do nível de consciência, mantendo-se
confortável ao decúbito e com estertores apenas em bases
pulmonares. A PA era igual a 100 x 70 mmHg e afreqüência
cardíaca 80 bpm. Os exames laboratoriais mostraram uréia
de 120 mg/dl e creatinina plasmática de 2,8 mg/dl. A conduta foi
mantida porém após 48 horas de internação na
UTI, o paciente apresentou quadro de confusão mental, agitação,
sudorese de extremidades, cianose e palidez. A pressão arterial
média reduziu de 90 mmHg para 40 mmHg secundariamente a quadro de
fibrilação ventricular. A evolução para óbito
foi rápida apesar das tentativas de reanimação. A
necropsia não foi autorizada pelos familiares. Discussão: O
paciente em questão apresentava IC sistólica secundária
ainfarto agudo do miocárdio,
fato indicativo de doença cardíaca isquêmica. A
resposta hemodinâmica renal ao coração cronicamente
insuficiente é caracterizada pelo baixo fluxo sangüíneo
renal, com preservação relativa do ritmo de filtração
glomerular (RFG) através do aumento compensatório da fração
de filtração glomerular (FF).Esta
característica fisiológica é mantida às custas
de vasoconstricção da arteríola eferente glomerular
e pela elevação da pressão hidrostática no
capilar glomerular. Ocorre também aumento da reabsorção
tubular de sódio ao nível da alça de Henle 9
, e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona,
do sistema nervoso simpático e davasopressina
5,10. Além destes, os mecanismos vasorreguladores locais
têm papel importante em modular o fluxo sangüíneo regional.
A endotelina, substância com intensa potência vasoconstritora,
é liberada em grande quantidade. Dentre os estímulos para
sua liberação incluem-se: a norepinefrina, a vasopressina
e a interleucina I. Em pacientes com IC, os níveis de endotelina
estão significativamente aumentados contribuindo para a vasoconstrição
e para o aumento da resistência periférica 30.
Por outro lado, em IC grave ocorre estimulação dos sistemas
natriuréticos e vasodilatadores, tais como: prostraglandinas, óxido
nítrico, fatores natriuréticos (atrial, encefálico
e vascular) e urodilatina renal 12 (tabela-1). Estas alterações
neuro-hormonais geram retenção renal de sódio e água,
vasoconstrição arteriolar e venosa, aumento da contractilidade
miocárdica e elevação do índice cardíaco.Como
conseqüência, pode ocorrer agravamento da isquemia miocárdica
e geração de arritmias complexas. Além disso, o aumento
da pós-carga causado pela vasoconstrição periférica,
leva a redução adicional dafração
de ejeção do ventrículo esquerdo. Finalmente, o aumento
dos níveis plasmáticos da angiotensina II e das catecolaminas
age como estímulo arritmogênico, prejudicando ainda mais a
funçãoventricular14.Considerando-se
que o rim recebe 25 % do débito cardíaco, estas alterações
são de fundamental importância para o entendimento do estado
crônico de baixo débito ao qual o rim do paciente portador
de IC é submetido , ou seja, o rim na IC grave é um rim cronicamente
isquêmico11, 12, 15. Portanto reduções mínimas
do débito cardíaco (DC) agravam a isquemia renal e induzem
insuficiência renal aguda.
O
paciente em discussão, inquestionavelmente era um cardiopata crônico,
portador de IC sistólica secundária a infarto agudo do miocárdio.
O conhecimento da importância dos fatores neuro-hormonais na IC permitiu
o desenvolvimento de terapêuticas mais racionais, através
do uso de drogas que atuam em diferentes níveis (figura - 1).Neste
sentido, há décadas o tratamento da IC envolve o uso de digitais
e diuréticos, drogasque agem
ao nível cardíaco, aumentando a força de contração
e ao nível renal, com aumento da excreção de sódio
e água. À partir da década de 80, o tratamento da
IC sofreu grande impacto com o advento dos IECA, medicação
indispensável para a abordagem do paciente portador de disfunção
sistólica do VE. Esta classe de drogas atua tanto na pré-carga
ao causar venodilatação como também na pós-carga,
ao causar arteríolodilatação. Além disso, os
IECA estão comprovadamente associados à redução
da morbi-mortalidade em pacientes portadores de IC especialmente no pós-infarto
(³² ³³ ³4 35). Mais
recentemente, tem sido preconizado o uso de betabloqueadores para o alívio
dos sintomas decorrentes da hiperestimulação do SNS (³¹).
No entanto ainda são necessários estudos epidemiológicos
que confirmem sua eficácia na redução de eventos cardiovasculares
fatais. Quanto ao uso de antagonistas de endotelina e dos receptores V1
e V2 da vasopressina, faltam dados convincentes de sua eficácia
na prática clínica1. No
caso apresentado, o exame físico do paciente demonstrou a presença
de anasarca, cardiomegalia, congestão pulmonar e hemodiluição
com hiponatremia. Indivíduos com IC crônica e hiponatremia
constituemum grupo específico
de pacientes que apresenta maior atividade da renina plasmática,aumento
da norepinefrina, do cortisol, da dopamina e de vasopressina. O mecanismo
da hiponatremia émultifatorial
e resulta principalmente da retenção renal de água
livre e do uso de diuréticos em altas doses 16,17,18,19.
A
avaliação eletrocardiográfica e radiológica
do paciente confirmaram a gravidade da IC, com presença de taquiarritmia
e cardiomegalia acentuada, associada a significativa congestão passiva
pulmonar. No presente caso cabe a crítica pela não monitorização
da pressão capilar pulmonar. Como opção terapêutica,
além das drogas inotrópicas positivas, optou-se por diurético
de alça administrado por infusão intravenosa contínua.
Nos últimos 40 anos, os diuréticos têm sido o suporte
do tratamento para a IC, aliviando os sintomas e melhorando as condiçõeshemodinâmicas
20. No entanto, quando utilizados em altas doses, estes poderão
induzir distúrbios eletrolíticos, aumentando a incidência
de arritmias cardíacas e depleção acentuada do volume
intravascular1,12,17. Após 24 horas de tratamento, o
paciente mantinha diurese de 2.000 ml, acompanhada de manutenção
de altas concentrações de uréia e de creatinina. À
partir das alterações hemodinâmicas supracitadas e
como conseqüência do uso associadode
IECA, o próximo evento seria o agravamento adicional da disfunção
renal. Certamente esta intercorrência se fez presente no paciente
em questão. Após a suspensão do captopril, a creatinina
plasmática regrediu de 4,5 mg/dl para 2,8 mg/dl em 48 hs.Assim,
a possibilidade de maiorvasodilatação
da arteríola eferente com “ruptura” do equilíbrio hidrostático
glomerular deve ser considerada neste caso. Finalmente, vale ressaltar
a utilidade dos antagonistas do receptor ATI da angiotensina II (ARAs)
no tratamento coadjuvante da IC, especialmente nos casos em que os IECA
induziram tosse. Com relação à estas drogas, os mesmos
cuidados dispensados aos IECA, tais como monitorização da
creatinina plasmática, são recomendados
13. Além
da terapêutica instituída, outra alternativa seria o uso da
Terapia Substitutiva Renal Contínua (TSRC), seja a hemofiltração
veno-venosa continua1,26 (CVVH) ou a ultrafiltração
com diálise peritonealintermitente27.
No Serviço de Nefrologia do HU-UFJF a nossa preferência recai
sobre a hemodiálise lenta. A hemodiálise intermitente convencional
não é recomendada devido às complicações
hemodinâmicas27. A TSRC remove o excesso de água
e sódio, diminuindo os níveis de norepinefrina, renina, aldosterona
e outros marcadores da hiper-atividade neuro-hormonal 28, 29.
No entanto, no paciente apresentado, não havia indicação
para esta modalidade de terapia uma vez que suas condições
clínicas e hemodinâmicas haviam melhorado significativamente. No
presente caso o óbito foi secundário à arritmia cardíaca
fatal que pode ter tido relação com a depleção
eletrolítica e/ou a isquemia coronariana. Além disso, a piora
rápida da filtração glomerular parece ter sido devida
à hipovolemia (uso de diuréticos em altas doses) e à
ruptura do equilíbrio de filtração glomerular devida
à vasodilatação preferencial do IECA ao nível
da arteríola eferente. Conclusão: Em
pacientes portadores de IC grave, a piora da filtração glomerular
é freqüente e clinicamente significante. O conhecimento de
sua fisiopatogenia faz-se necessário para a indicação
da terapêutica adequada a cada caso, através do uso dedrogas
que antagonizem a hiperatividade dos sistemas vasoconstritores bem como
através da administração criteriosa de diuréticos.
Destaca-se a necessidade de monitorização da creatinina e
do potássio plasmáticos nos pacientes que estejam recebendo
drogas que interfiram no sistema renina-angiotensina-aldosterona. O uso
da TSRC não pode deixar de ser considerado principalmente nos casos
cuja resposta farmacológica não tenha sido eficaz. Referências
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