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Noemia
Perli Goldraich1·Angélica
Manfroi2 1
Professora-adjunta do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina
da UFRGS. Chefe da Unidade de Nefrologia Pediátrica do Hospital
de Clínicas de Porto Alegre. 2
Aluna de graduação (doutoranda) da Faculdade de Medicina
da UFRGS. Bolsista de iniciação científica daFAPERGS
Unidade
de Nefrologia Pediátrica, Hospital de Clínicas de Porto Alegre,
Porto Alegre, RS, Brasil
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Tabela
1: Uroculturas analisadas, estratificadas por faixa etária e
por período de estudo.
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Procedimentos
laboratoriais: Todas as
uroculturas foram executadas na Unidade de Microbiologia do HCPA. As amostras
de urina foram semeadas em placas com meio de cultura de agar apropriado.
Após24 horas de incubação,
avaliou-se o crescimento bacteriano nas placas, estendendo-se para 48 horas
de incubação em casos de dúvidas quanto ao crescimento
bacteriano. As técnicas de identificação bacteriana
através de provas bioquímicas convencionais foram realizadas
conforme procedimentos-padrões utilizados na Unidade de Microbiologia
do HCPA (6).Considerou-se o teste positivo quando houve crescimento de
qualquer contagem de bactérias, e negativo o teste com ausência
de crescimento bacteriano.
O
teste de sensibilidade aos antimicrobianos foi realizado pelo método
de disco difusão, adaptado de Kirby-Bauer27, conforme
o National Committee for Clinical Laboratory Standards (NCCLS)(6).
Os
antimicrobianos analisados, nos três períodos, nas uroculturas
positivas foram a nitrofurantoína, o ácido nalidíxico,
a cefalotina e a combinação sulfametoxazol –trimetoprim.
Cada antimicrobiano foi estudado individualmente ao longo dos três
períodos.
Análise
estatística: Os dados
foram analisados através do teste do qui-quadrado, utilizando-se
o programa SPSS for Windows Student Version. O nível de significância
estabelecido foi de 5%.
Considerando-se
a alta prevalência da Escherichia coli, nossa análise
referente à sensibilidade aos antimicrobianos restringiu-se apenas
a esse microrganismo.
Os
resultados da sensibilidade da Escherichia coli aos antimicrobianos
aparecem na Tabela 2. Não houve diferenças estatisticamente
significativas (p>0,05), ao longo do tempo, na sensibilidade à nitrofurantoína
e à cefalotina. Entretanto, a sensibilidade desta bactéria
ao ácido nalidíxico, e à sulfametoxazol-trimetoprim
apresentou variações significativas (p<0,05) nos três
períodos do estudo.
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Tabela
2: Sensibilidade da Escherichia coli aos antimicrobianos nos
3 períodos |
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Antimicrobianos |
Período
I |
Período
II |
Período
III |
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|
|
Sensibilidade |
|
Sensibilidade |
|
Sensibilidade |
p |
||||||
|
|
N |
n |
% |
N |
n |
% |
N |
n |
% |
|
||
|
Nitrofurantoína |
79 |
73 |
92 |
64 |
61 |
95 |
82 |
77 |
94 |
0,913 |
||
|
Ácido
Nalidíxico |
79 |
67 |
85 |
64 |
59 |
92 |
85 |
81 |
95 |
0,005 |
||
|
Cefalotina |
79 |
52 |
65 |
64 |
35 |
54 |
63 |
51 |
81 |
0,072 |
||
|
Sulfametoxazol-trimetoprim |
79 |
32 |
40 |
64 |
54 |
85 |
84 |
34 |
40 |
0,025 |
||
|
N:
número total de Escherichia coli testado para cada antimicrobiano
|
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Baseados
em nossos resultados, concluímos que não houve modificação
na prevalência dos germes causadores de IU ao longo dos três
períodos estudados (V.Fig.1). A Escherichia coli permaneceu
como o germe predominante, concordando com dados da literatura, razão
pela qual nos limitamos a analisar apenas as variações na
sua sensibilidade.Os antimicrobianos
avaliados foram a nitrofurantoína, o ácido nalidíxico,
a cefalotina e a combinação sulfametoxazol-trimetoprim. Escolhemos
esses fármacos porque eles são usualmente indicados no tratamento
de IU em crianças. Além da sua eficácia, afacilidade
de administração e o custo reforçam ainda mais o seu
emprego.
Em
nosso estudo, a sensibilidade da Escherichia coli aos antimicrobianosapresentou
variações ao longo do tempo. Não houve modificação
na sua sensibilidade à nitrofurantoína. Dyer e colaboradores
estudaram mulheres adultas e demonstraram a inexistência de desenvolvimento
de resistência da Escherichia coli à nitrofurantoína
nos períodos de 1991-1994-1997 (7). Gupta e colaboradores estudaram
mulheres com cistite aguda, encontrando resistências da Escherichia
coli a esse antimicrobiano de 0% a 2%, respectivamente, em um período
de cinco anos (1992-1996) (8). Berdichevski e colaboradores, em estudo
realizado em outro hospital universitário de Porto Alegre, em 1996
(julho e dezembro) e em 1997 (janeiro), observaram que a sensibilidadeda
Escherichia coli à nitrofurantoína foi de 89% e 97,5%
em uroculturas de pacientes da Emergência e do Ambulatório,
respectivamente (9). Os autores não especificaram as idades dos
pacientes analisados.
Nossos resultados demonstram que houve aumento significativo (p<0,05)
na sensibilidade da Escherichia coli ao ácido nalidíxico,
o que indica que este antimicrobiano se mantém como uma excelente
opção terapêutica em crianças com IU. Berdichevski
e colaboradores também relataram sensibilidade da Escherichia
coli ao ácido nalidíxico que variou entre 92% e 93,5%
(9).
A
sensibilidade da Escherichia coli à sulfametoxazol-trimetoprim
comportou-se de maneira diversa: houveelevação
significativa (p<0,05) no período II e decréscimo significativo
(p<0,05) no período III. Em estudo realizado por Gur e colaboradores
(10), analisou-se a resistência dos germes causadores de IU em crianças,
obtendo-se a sensibilidade de 48% para a combinação sulfametoxazol-trimetoprm,
quando analisadas as sensibilidades de todos os germes em conjunto. Nesse
estudo, a Escherichia colifoi
o germe mais prevalente (67%). Esse resultado está de acordo com
os encontrados em nosso estudo nos períodos I e III, em que os valores
de sensibilidade da Escherichia coli foram igualmente baixos (40%
em ambos). Dyer e colaboradores relataram sensibilidades de 85,4%, 68,1%
e 84,6% da Escherichia coli a sulfametoxazol-trimetoprim entre 1991-1994-1997
(7). Maartens e Oliverestudaram
mulheres ehomensadultos
e verificaram que a sensibilidade da Escherichia coli a sulfametoxazol-trimetoprim
variou entre 60% e 37%, entre 1985 a 1991 (11). Esses dois estudos incluíram
uma população diferente da nossa (adultos), mas os achados
confirmam a característica da Escherichia coli em desenvolver
resistência à combinação sulfametoxazol-trimetoprim.
O estudo realizado por Berdichevski e colaboradores, na mesma cidade de
nosso estudo, mas em outro hospital, evidenciou uma sensibilidade da Escherichia
colia sulfametoxazol-trimetoprim
entre 60% e 65%, dependendo da origem dos pacientes, nos anos de 1996 e
1997 (9). Esses valores diferem significativamente do observado em nosso
estudo (40%),no mesmo período
(1997).
Pode-se
especular que as variações observadas na sensibilidade a
sulfametoxazol-trimetoprimsão
decorrentes do amplo emprego deste antimicrobiano nos períodos em
que a sensibilidade a ele foi pequena, demonstrando aumento na resistência
da Escherichia coli. No momento em que seu uso foi restringido (período
II), cepas resistentes pararam de ser selecionadas, possibilitando um aumento
na sensibilidade. No período III, houve, provavelmente, umretorno
a seu uso, refletido na baixa proporção de microorganismos
sensíveis. Sugere-se que novamente restrinja-se seu uso para que
esse antimicrobiano possa voltar a ser mais uma opção terapêutica
adequada paratratamento de IU em
crianças.
Não
observamos em nosso estudo modificação significativa (p>0,05),
na sensibilidade da Escherichia coli à cefalotina, tal como
relatado por Dyer e colaboradores (7) e Gupta e colaboradores (8). No período
III, a sensibilidade da Escherichia coli à cefalotina foi
de 81%. Em período superponível ao do nosso estudo, Berdichevski
e colaboradores relataram sensibilidade da Escherichia coli à
celalotina de 93,5% (9).
É importante salientar que, apesar de o estudo de Berdichevski e
associados (9) ter sido realizado em outro hospital universitário
da mesma cidade que o HCPA e de seu ano de estudo coincidir com o nosso
período III (1997), nem todos os seus resultados de sensibilidade
da Escherichia coli aos antimicrobianos assemelharam-se aos nossos.
Tais diferenças podem ser devidas às características
peculiares a cada uma das populações atendidas nos dois hospitais,
o que reforça ainda mais a necessidade de cada serviço dispor
de dados próprios, para cada faixa etária.
2.Turnidge
JD, Jorgensen JH (1999). Antimicrobial susceptibility testing: general
considerations. In: Murray PR, Baron EJ, Pfaller MA, Tenover FC,Yolken
RH (eds) Manual of clinical microbiology. 7.ed,ASM
Press, Washington, p.1469-1473.
3.Schaeffer
AJ (2000) Urinary tract infections: antimicrobial resistance. Curr Opin
Urol 10:23-24. 4.Rushton
HG(1997)The
evaluation of acute pyelonephritis and renal scarring with technetium 99m-dimercatosuccinic
acid renal scintigraphy: evolving concepts and future directions. Pediatr
Nephrol 11:108-120.
8.Gupta
K, Scholes D, Stamm WE (1999) Increasing prevalence of antimicrobial resistance
among uropathogens causing acute uncomplicated cystitis in women. JAMA
281:736-738.
9.Berdichevski
RH, Zanardo JC, Soibelman M, Antonello I (1998) Prevalência de uropatógenos
e sua resistência aos antimicrobianos em uroculturas realizadas no
Hospital São Lucas da PUCRS. RevAMRIGS
42: 137-142.
10.Gur D, Kanra G, Ceyhan M, Secmeer G, Kanra B, Kaymakoglu I (1999) Epidemiology and antibiotic resistance of gram-negative urinary pathogens in pediatric patients. Turk J Pediatr 41:37-42.
11.Maartens
G, Oliver SP (1994). Antibiotic resistance in community-acquired urinary
tract infections. SAMJ 84: 600-602.
Agradecimento: ao Dr Afonso Luís Barth, chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicasde Porto Alegre,pela revisão deste manuscrito.