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papel de Pierre-Charles-Alexandre Louis na indicação médica
de sangrias Flávio Dantas* A terapêutica médica baseada em evidências está em evidência nos dias atuais e necessita bem mais de números confiáveis do que do relato de experiências pessoais de respeitados e eminentes médicos. As revisões sistemáticas e meta-análises, que se valem de procedimentos estatísticos, estão na moda para guiar decisões terapêuticas.Onde estão, porém, as origens modernas do uso de procedimentos numéricos para definir a efetividade de uma terapêutica? 1830. Em Paris François Broussais (1772-1838) ainda reinava absoluto na indicação de sangrias para o tratamento dos mais diversos problemas de saúde, precedido de John Brown (1735-1788) na Inglaterra e de John Rush (1745-1813) nos Estados Unidos.Recomendada por Hipócrates para pacientes com processos febris ou inflamatórios graves, ou sintomaticamente para melhorar síndromes dispnéicas e aliviar a dor, a sangria teve defensores de vulto como Boerhaave (1668-1738) e Cullen (1710-1790) os quais entretanto divergiam apenas na explicação de como elas agiam.Por outro lado, médicos como Samuel Hahnemann (1755-1843), criador da homeopatia, criticavam abertamente o procedimento e negavam sua eficácia.Meras palavras e narrativas, discussões acadêmicas que não mudavam a prática médica.Numa posição intermediária, Clutterbuck escrevia em 1829 que “Nós não sabemos como as sangrias agem, nem porque agem em alguns casos e em outros não”, recomendando o uso moderado e criterioso do procedimento baseado no fato “irrefutável” de que a sangria ajudava o paciente. 1835. Pierre-Charles-Alexandre Louis (1787-1872) publica um livro sobre os efeitos da sangria em algumas doenças inflamatórias[1] que ajudou a diminuir a indicação de sangrias pelos médicos (estima-se que em 1800, na França, foram retirados 85.000 litros de sangue nos hospitais parisienses e foram importadas 33 milhões de sanguessugas em 1824 e 42 milhões em 1833).Para (re)provar a eficácia das sangrias, Louis escolheu 77 pacientes que estavam num estado de saúde perfeito antes da instalação de pneumonia, registrou suas idades e outras causas que poderiam alterar a duração média da doença, definiu previamente critérios para identificar o início e término da doença e documentou os resultados em termos de duração e evolução da doença a partir do número de dias após a instalação da doença em que foi realizada a primeira sangria (a partir daí elas eram realizadas diariamente até a resolução do problema). Os seus resultados estão expressos na tabela abaixo:
Dos 77 pacientes, 27 morreram. A duração média da doença foi menor entre os pacientes sangrados no início da doença mas 44% deles morreram, quase duas vezes mais do que aqueles submetidos a sangrias a partir do 5o. dia (25%).As sangrias precoces pareciam, assim, fazer mais mal do que bem.“Resultado assustador, aparentemente absurdo” escreveu Louis na conclusão, possivelmente antevendo a série de críticas que lhe seriam dirigidas pelos clínicos da época, ameaçados de perda de um dos seus maiores recursos terapêuticos e de um ato classicamente médico que lhes rendia bons dividendos financeiros. Apesar de haver sido o primeiro a aplicar métodos de pesquisa quantitativa à medicina clínica, e de haver influenciado e sido elogiado por clínicos famosos como Osler e Bowditch, Louis foi muito pouco lembrado pelos iniciadores do movimento da epidemiologia clínica e da sua seqüência – a medicina baseada em evidências.A defesa da medicina como uma arte racional de curar, projeto pessoal de Hahnemann, foi realizada de modo concreto e direto por Louis. Contrariando os interesses dos médicos e comerciantes de artigos de sangria da sua época, ele instituiu um novo método – numérico - para testar procedimentos terapêuticos. Suficientes evidências estão disponíveis, pois, para lhe dar o merecido destaque na história recente da arte racional de cuidar de pessoas, qualquer que seja o rótulo que a ela se aplique.
*
Professor Titular e Chefe do Departamento de Clínica Médica,
Universidade Federal de Uberlândia.
[1]Louis
PCA. Recherches sur les effets de la saignée dans quelques maladies
inflammatoires et sur l’action de l’émétique et des vésicatoires
dans la pneumonie. Paris:
Librairie de l’Académie Royale de Médecine, 1835.
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