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Andrezza
Sanches Garófalo(1);
(2)
Prof. Dr. Professor Adjunto Livre Docente da Disciplina de Nefrologia Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (1)
Doutoranda da Disciplina de Nefrologia Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina Agentes
de contraste a base de iodo são utilizados para angiografia, urografia
ou tomografia computadorizada. Esses compostos absorvem radiação
(em escala proporcional à concentração de iodo na
solução) e, em tese, não deveriam interagir com o
organismo. Porém, na prática clínica, tem sido constatado
que os agentes de contraste não são totalmente inertes e
mostram um certo grau de interação e, apesar de serem usualmente
seguros, o seu uso não é livre de efeitos colaterais incluindo
reações de hipersensibilidade sistêmica, reações
adversas cardíacas (hipertensão, taquicardia, arritmia),
efeitos vasculares (agregação plaquetária, vasoconstrição,
trombose) e efeitos adversos renais (1). A severidade dos efeitos colaterais
depende basicamente de três fatores: a quantidade de agente utilizada,
a natureza do composto e a pré-existência de fatores de riscos,
que será discutida adiante. A
probabilidade de efeitos colaterais mais severos aumenta proporcionalmente
à quantidade de agente de contraste que é utilizada nos procedimentos
clínicos. São consideradas altas as doses de mais de 100
g de substância, que equivale a aproximadamente 50 g de iodo. As
propriedades fisico-químicas do agente estão estreitamente
relacionadas com os possíveis efeitos colaterais. Compostos monoméricos
com carga iônica, como o diatrizoato, são automaticamente
agentes de contraste de alta osmolaridade e são diluídos
mais rapidamente do que os compostos de baixa osmolaridade ou isotônicos.
Porém, a carga iônica é responsável por um aumento
da interação do composto com biomacromoléculas, que
é medido pelatendência
desses compostos de se ligarem a proteínas, o que torna os agentes
de contraste iônicos mais lesivos (2). Adicionalmente, compostos
iônicos (de alta ou baixa osmolaridade) interferem na cascata de
coagulação. A
osmolaridade está relacionada com o número de moléculas
independentes na solução. A osmolaridade é dada em
mosm/kg e é proporcional à concentração do
agente de contraste. Para 300 mg I/ml, a concentração varia
de aproximadamente 300 mosm/kg para dímeros isotônicos até
mais de 1500 mosm/kg para monômeros iônicos. A alta osmolaridade
está claramente relacionada com efeitos como dor, vasodilatação
e bradicardia. Em humanos, agentes de contraste de alta osmolaridade provocam
redução significante do fluxo sanguíneo renal em comparação
a agentes de contraste de baixa osmolaridade (3). A
hidrofilicidade é determinada usualmente pelo coeficiente de partição
no sistema n-butanol/água ou n-octanol/água. Tem sido postulado
que quanto maior a hidrofilicidade do composto, menor a chance de interação
deste com biomacromoléculas. A baixa hidrofilicidade de alguns agentes
de contraste tem sido apontada como responsável pelo aumento da
incidência de efeitos colaterais neurais (4), ainda que esse mecanismo
ainda não seja totalmente conhecido. 1.2
Nefropatia induzida pelos agentes de contraste O
rim, como responsável pela maior parte da excreção
de substâncias, é alvo de componentes tóxicos, incluindo
o agente de contraste (que já é o segundo maior agente nefrotóxico
na prática clínica). A nefropatia induzida pelos agentes
de contraste pode ser definida de várias maneiras. As mais comuns
são: aumentos absolutos nas concentrações séricas
de creatinina (de 0.5 a 1mg/ml) ou aumentos proporcionais de creatinina
de 25% a 50%. Normalmente, esse aumento ocorre de 48 a 72 horas após
a administração do radiocontraste e a situação
é normalizada de 7 a 10 dias. Entretanto, a insuficiência
renal aguda pode se desenvolver e durar até 4 semanas. O
radiocontraste é livremente filtrado pelo glomérulo, e não
é secretado nem reabsorvido nos túbulos. O “clearence” dos
agentes de contraste é semelhante ao da cretinina e a meia-vida
é de 30 a 60 minutos. A
importância do estudo do impacto no rim pelo radiocontraste aumenta
à medida em que aumenta a frequência dos procedimentos clínicos
que utilizam esse composto e os pacientes submetidos a esses procedimentos
apresentam cada vez mais fatores de risco associados. 1.2.1
Fatores de Risco O
principal fator de risco para o desenvolvimento da nefropatia induzida
pelo agente de contraste é a insuficiência renal pré-existente,
sendo que quanto menor a taxa basal de filtração glomerular,
mais alta a incidência da nefropatia. Problemas
cardíacos também predispõe o paciente ao desenvolvimento
da nefropatia e a desidratação secundária à
terapia diurética em associação com a vasoconstrição
renal que ocorre nesses pacientes pode desempenhar papel fundamental nesse
processo. Diabetes
aumenta o risco de desenvolvimento da nefropatia induzida pelos agentes
de contraste quando associada a insuficiência renal; ou seja, pacientes
diabéticos correm risco de apresentar nefropatia após procedimentos
clínicos com radiocontraste igual a pacientes não-diabéticos,
exceto quando a diabetes é acompanhada de insuficiência renal,
que significa um risco maior que o dos pacientes que apresentam apenas
insuficiência renal. Além disso, os pacientes diabéticos
afetados pela nefropatia induzida por contraste desenvolvem oliguria e
precisam de diálise com maior frequência. A
desidratação é um importante fator de risco para o
desenvolvimento da nefropatia após uso de radiocontraste e, hidratar
o paciente antes do procedimento clínico é uma das formas
mais aceitas e usadas de evitá-la, como será discutido adiante. 1.2.2
Patogênese O
uso de agentes de contraste desencadeia uma resposta hemodinâmica
renal bifásica, onde um período de vasodilatação
inicial, que dura alguns segundos, é seguido de um período
de vasoconstrição, que diminui o fluxo sanguíneo renal
e a taxa de filtração glomerular (5-7). Em animais desidratados,
a vasoconstrição pode prolongar-se por até 24 horas
(8). Um
período inicial exagerado de vasodilatação pode refletir
uma distribuição anômala do fluxo sanguíneo
intra-renal. A hipótese mais aceita atualmente é que a diminuição
da resistência vascular no córtex renal, não acompanhado
de uma paralela diminuição da resistência vascular
na medula renal,causaria evasão
de sangue da medula. Essa
hipótese é embasada por experimentos com vasodilatadores
(dopamina, manitol, peptídeo natriurético atrial) administrados
imediatamente antes da injeção do radiocontraste. O aumento
do fluxo renal sanguíneo após a injeção dos
vasodilatadores foi incrementado após a injeção do
contraste (9,10). Surpreendentemente, a resposta hiperêmica foi associada
ao aumento da incidência da nefropatia induzida por contraste e os
pacientes que apresentavam fluxo renal sanguíneo basal menor, foram
os que tiveram os maiores aumentos da fração de filtração.
Esses resultados corroboram a hipótese de uma distribuição
anômala do fluxo sanguíneo causada por vasoconstrição
arteriolar eferente (11). A
diminuição do fluxo sanguíneo e da tensão de
oxigênio causam necrose nos ramos espessos ascendentes medulares
e aumentam a creatinina sérica nos dias subsequentes à administração
dos agentes de contraste. Após injeção de radiocontraste,
a tensão de oxigênio medular é significantemente menor
do que a tensão de oxigênio cortical (12). Essa diferença
poderia ser resultado da filtração de uma alta carga de solutos
do agente de contraste, aumentando a entrega de sódio e cloro na
alça de Henle, e consequentemente, aumentando também o consumo
de oxigênio necessário para o transporte iônico. Porém,a
diminuição da tensão de oxigênio intersticial
medular é maior do que seria causada apenas pelo aumento do consumo
de oxigênio e a diminuição da chegada de oxigênio
à medula (diminuição do fluxo sanguíneo) é
apontada como co-responsável nesse mecanismo. A desestabilização
do equilíbrio entre forças vasodilatatórias e vasoconstritivas
possui gênese multifatorial. A
endotelina é um peptídeo vasoconstritor de 21 aminoácidos
sintetizado por células renais endoteliais e células mesangiais.
Radiocontraste provoca a liberação de endotelina por células
endoteliais in vivo e in vitro(13); in vivo, tanto
a endotelina circulante quanto a endotelina urinária aumentam após
a exposição ao radiocontraste (14). Quando o antagonista
do receptor de endotelina é administrado antes do agente de contraste,
a diminuição do fluxo renal sanguíneo e o aumento
da creatinina sérica são ambos inibidos (15). A
adenosina produz vasoconstrição através de receptores
A1, embora também possa causar vasodilatação
medular através de receptores A2 (16). A administração
de radiocontraste aumenta a adenosina urinária (17) e a administração
de teofilina (antagonista do receptor de adenosina) antes do radiocontraste
atenua a diminuição do fluxo sanguíneo renal e da
taxa de filtração glomerular em pacientes com função
renal normal ou previamente prejudicada (17,18). A
infusão de angiotensina II aumenta a hipóxia medular em ratos
(19) e o bloqueio dos receptores específicos de angiotensina diminui
parcialmente a resposta vasoconstritiva ao radiocontraste em animais (6).
Adicionalmente, células mesangiais de ratos Wistar cultivadas na
presença de radiocontraste liberam mais epinefrina e angiotensina
II e menos vasopressina, num mecanismo que parece ser mediado por canais
de cálcio. Em humanos, bloqueadores de canais de cálcio já
mostraram ter efeito protetor renal dos danos causados pelo radiocontraste
(3). As
espécies reativas de oxigênio (reactive oxygen species - ROS)
têm sido muito estudadas na patogênese da nefropatia induzida
pelo contraste e serão discutidas detalhadamente a seguir. O
desequilíbrio dos sistemas vasodilatatórios também
tem sido apontado como uma das causas para a disfunção renal
induzida pelo radiocontraste. A inibição da produção
de prostaglandinas (substância vasodilatatória) e a inibição
da síntese de óxido nítrico por L-NAME aumentam a
nefrotoxicidade do contraste (20). A liberação de substâncias
vasodilatatórias diminui com o dano endotelial, assim como em pacientes
portadores de disfunção endotelial decorrente de diabetes,
hipertensão ou doença arterioesclerótica vascular,
que apresentam maior risco de desenvolver a nefropatia induzida por contraste. Além
da isquemia produzida pelas mudanças hemodinâmicas, existem
fortes evidências de que o radiocontraste apresenta uma citotoxicidade
celular direta nos túbulos renais. Foi demonstrado in vitro
que células de túbulo proximal cultivadas na presença
de contraste apresentavam distúrbios de metabolismo, com a liberação
de enzimas intracelulares e mudanças histológicas compatíveis
com toxicidade (21). A enzima lisossomal N-acetil-b-D-glucosaminidase
(NAG) e a aminopeptidase alanina (AAP), que são enzimas intracelulares
do túbulo proximal (22-25), e proteínas de baixa peso molecular
como a-1-microglobulina
e b-2-microglobulina
(26), que são normalmente filtradas e reabsorvidas no túbulo
proximal, foram detectadas na urina de pacientes após a exposição
ao radiocontraste. Nas
horas que se seguem à exposição aos agentes de contraste,
há um aumento da excreção de urato (27,28), que em
pacientes desidratados pode aumentar a precipitação dessa
substância e causar obstrução tubular. Esse seria também
um mecanismo patofisiológico da nefropatia induzida por contraste. A
figura 1 (1) resume os mecanismos aqui discutidos da patofisiologia da
nefropatia induzida pelo contraste. Os agentes de contraste podem causar
danos renais ou por nefrotoxicidade direta ou por causarem desequilíbrio
nos fatores vasoativos causando isquemia renal, num processo agravado pelos
fatores de risco que vulnerabilizam o rim.
Figura
1. Patofisiologia da nefropatia
induzida pelo agente de contraste 1.2.3
Prevenção Muitas
estratégias têm sido propostas para prevenir a nefrotoxicidade
induzida pelo agente de contraste. É importante evitar a exposição
desnecessária de pacientes de alto risco aos procedimentos clínicos
que utilizam o radiocontraste. Novas tecnologias têm sido desenvolvidas
e o médico deve avaliar todas as possibilidades antes de se decidir
pelo uso do agente de contraste. Por outro lado, caso seja realmente necessária
a exposição do paciente ao radiocontraste, a dose utilizada
deve ser a menor possível. Apesar
de alguns experimentos in vitro sugerirem que a hiperosmolaridade
seja um fator mais importante de citotoxicidade do que a força iônica
do radiocontraste, agentes de baixa osmolaridade não têm apresentado
nenhuma vantagem para pacientes diabéticos e não-diabéticos
com função renal normal. Entretanto, esses estudos têm
usado pacientes bem hidratados em um amplo ensaio prospectivo randômico.
Em pacientes com insuficiência renal, agentes de contraste de baixa
osmolaridade reduzem significantemente a incidência da nefropatia
induzida pelo radiocontraste, tanto pacientes diabéticos como pacientes
não-diabéticos. A
estratégia mais consistente e usada para prevenir a nefropatia induzida
por agentes de contraste é a hidratação com fluido
intravenoso. O pré-tratamento com solução salina é
efetivo em prevenir a nefrotoxicidade do contraste, como sugerido por muitos
estudos clínicos (29-31). Deve ser iniciado horas antes da exposição
ao contraste e deve ser mantido por algumas horas após a infusão
do contraste. Tem sido demonstrado que pacientes que recebem solução
de 0,45% de NaCl a uma taxa de 1ml/kg por minuto, 12 horas antes e 12 horas
após a administração do radiocontraste têm menor
incidência de nefropatia quando comparados com pacientes que recebem
furosemida ou manitol. Em outro ensaio prospectivo, pacientes que receberam
furosemida apresentaram um aumento nos níveis de creatinina sérica
após a infusão do radiocontraste quando comparados com o
grupo tratado com solução salina, sugerindo que ocorre desidratação
como resultado do tratamento com furosemida. Portanto, a administração
de diuréticos deve sempre ser interrompida antes da exposição
ao agente de contraste, a fim de prevenir a desidratação.
Metformin é outra droga que deve ser descontinuada 48 horas antes
ou depois da administração do radiocontraste, porque a acidose
láctica tem sido constatada principalmente em pacientes com alterações
moderadas a severas da função renal. Muitas
outras drogas vasodilatadoras têm sido amplamente utilizadas para
prevenir a vasoconstrição renal causada pelos agentes de
contraste. Tanto dopamina (3.0 mg/kg
por minuto, 24 horas antes e após a infusão do agente de
contraste) como teofilina (5.0 mg/kg, 45 minutos antes da infusão
do radiocontraste) foram eficazes em prevenir a redução da
taxa de filtração glomerular (32,18). Entretanto, não
deve ser esquecido que drogas vasodilatadoras também podem causar
uma redução da pressão sanguínea ou uma vasodilatação
preferencial do córtex renal e piorar ainda mais a circulação
medular. É importante frisar que a hemodiálise efetivamente
elimina o radiocontraste; entretanto, este procedimento não influencia
na incidência e/ou nas consequências da insuficiência
renal aguda relacionada com o agente de contraste. A
prevenção da nefropatia induzida pelo radiocontraste pode
também ser feita pela administração oral dos agentes
para evitar a admissão hospitalar e as terapias intravenosas antes
do procedimento clínico. Teofilina oral e bloqueadores dos canais
de cálcio (33) foram usados antes da exposição ao
agente de contraste e atenuaram a diminuição da função
renal de acordo com estudos feitos em animais e humanos. Atualmente
têm sido muito estudadas as estratégias de prevenção
de danos renais pelos agentes de contraste por agentes antioxidantes, como
a N-acetilcisteína (34). Esse campo de pesquisa relativamente novo
mostra-se bastante promissor e será discutido em maiores detalhes
adiante. As
principais formas de prevenir a nefropatia induzida pelos agentes de contraste
estão resumidas na tabela 1 (1).
2.
Espécies reativas de oxigênio O
oxigênio normalmente aceita 4 elétrons e é, então,
convertido em água. Porém, a redução parcial
de oxigênio ocorre nos sistemas biológicos gerando as espécies
reativas de oxigênio, que são potencialmente lesivas a proteínas,
ácidos nuclêicos e lipídios. A redução
sequencial do oxigênio é a seguinte: oxigênio Þ
ânion superóxido Þ
peróxido de hidrogênio Þ
radical hidroxil O
ânion superóxido e o peróxido de hidrogênio,
as primeiras espécies a serem geradas, são compostos relativamente
não-danosos por não serem altamente reativos, sendo que o
peróxido de hidrogênio é o produto final mais comum
dos sistemas geradores das espécies reativas de oxigênio.
Porém, na presença de metais de transição como
Fe(II) e Cu(I) eles são convertidos no radical hidroxil, que é
extremamente lesivo por ser capaz de reagir com quase todas as substâncias
orgânicas. Essa reação, que é chamada de oxidação
catalisada por metais e está ilustrada abaixo (reação
1), não é a única forma de geração de
radicais hidroxil, já que a radiação ionizante também
é capaz de formar esses radicais. H2O2
+ Fe(II)/Cu(I) ®
HO·
+ OH- + Fe(III)/Cu(I)(1) Quando
o peróxido de hidrogênio combina-se com ferro ou cobre, o
dano seria limitado à modificação de resíduos
de aminoácidos nos sítios de ligação de metais
das proteínas, onde estariam concentrados esses íons. Porém,
essa combinação inicial pode resultar em uma reação
em cadeia. Após a oxidação sítio-específica
das proteínas, a ligação de ferro ou cobre nesses
sítios de ligação com metais é seguida de uma
reação com peróxidos que irá gerar mais espécies
reativas de oxigênio, que, por sua vez, irão preferencialmente
oxidar resíduos de aminoácidos de sítios de ligação
com metais de outras proteínas (35-38). Esse fenômeno gera
perda de atividade catalítica das células (39). O
ânion superóxido pode reagir com o óxido nítrico
(reação 2), dando origem ao peroxinitrito, que é capaz
de modificar resíduos de tirosina, triptofano, cisteína e
metionina. NO·
+ O2-®
ONOO - (2) Além
disso, o peroxinitrito pode comprometer seriamente a transdução
de sinais intracelulares por interferir no ciclo de interconversão
de tirosina de proteínas regulatórias, que afeta a conversão
entre a formas fosforilada e não-fosforilada das proteínas-alvo. A
oxidação mediada pelas espécies reativas de oxigênio
de alguns resíduos de aminoácidos como a lisina, argenina
e prolina, leva à formação de grupos carbonil (40-42).
Grupos carbonil também podem ser formados como consequência
de reações secundárias de cadeias laterais de alguns
aminoácidos com produtos de oxidação lipídica,
ou açúcares reduzidos ou seus produtos de oxidação
(43,44). Alguns grupos carbonil contribuem para o acúmulo de formas
oxidadas de proteína, pois não só são resistentes
à degradação proteolítica por proteasomas,
como também inibem sua habilidade de degradar proteínas em
sua forma oxidada (45,46). Como os grupos carbonil são os principais
produtos de reações de oxidação mediada pelas
espécies reativas de oxigênio, foram desenvolvidos métodos
muito sensíveis para a quantificação desses grupos
carbonil, que se tornaram marcadores para a modificação oxidativa
de proteínas (47). A peroxidação lipídica das
membranas celulares e lipídios plasmáticos induz a formação
de moléculas similares a prostaglandina (como F2-isoprostanato)
e grupos carbonil reativos como malondialdeído (MDA), que é
capaz de interagir com resíduos de lisina de proteínas-alvo
com consequente dano celular (48,49). Portanto, os métodos de dosagem
da molécula MDA são parâmetros para medir a peroxidação
lipídica dos sistemas biológicos. A
oxidação de proteínas (medida pela formação
dos grupos carbonil) está associada a situações de
estresse oxidativo, como isquemia-reperfusão (50,51), hiperóxia
(52,53), tabagismo (54), administração de estrógeno
(53,55), ventilação artificial (56), exercícios forçados
(52,57), deficiência de magnésio (58) e em células
de cultura expostas a peróxido de hidrogênio (59) ou xantina-oxidase/xantina
(60). Níveis elevados de grupos carbonil também estão
associados com várias doenças relacionadas com a idade, e
frequentemente a formação desses grupos está intimamente
ligada à progressão da doença. Podemos citar a doença
de Alzheimer (61), a doença de Parkinson (62), diabetes (63), artrite
reumatóide (64), distrofia muscular (65), indução
de tumores renais (66) e displasia broncopulmonar (56). Algumas dessas
doenças não só estão relacionadas com o aumento
dos grupos carbonil como também com aumento de sulfóxido
de metionina e de derivados nitrados de tirosina. O
envelhecimento é acompanhado por perda da capacidade proteolítica
e acúmulo de formas de enzimas cataliticamente menos ativas e termicamente
mais sensíveis (67). Foi proposto que a modificação
oxidativa de proteínas que acompanha normalmente o envelhecimento
seria responsável pela diminuição do “turnover” das
enzimas, o que possibilitaria mudanças conformacionais espontâneas
que tornassem as enzimas menos ativas e mais sensíveis à
desnaturação pelo calor (68). Algumas proteínas são
mais suscetíveis ao dano oxidativo causado pelo envelhecimento.
Por exemplo, a enzima aconitase (que é uma enzima chave no ciclo
do ácido cítrico) de moscas domésticas aumenta distintamente
mais os grupos carbonil do que outras proteínas (69), mostrando
ser alvo preferencial do dano oxidativo. A perda da atividade da aconitase
pode bloquear o fluxo normal de elétrons para o seu aceptor final
normal, o oxigênio. Consequentemente, metabólitos reduzidos
como NADH serão acumulados, o que aumenta a taxa de auto-oxidação
e oxidação catalisada por metais. Portanto, a oxidação
de enzimas-chave, como a aconitase, pode iniciar uma cascata auto-amplificante
com o potencial de gerar um aumento dramático das formas oxidadas
de proteínas celulares. 2.1
Espécies reativas de oxigênio e agentes nefrotóxicos Várias
evidências indicam que as espécies reativas de oxigênio
são importantes mediadoras de lesões teciduais isquêmicas,
tóxicas e mediadas pelo sistema imune. Experimentos indicam que
as espécies reativas de oxigênio estão intimamente
relacionadas com nefropatia induzida por agentes de contraste (70,71) e
são conhecidas por causarem dano glomerular em vários modelos
de isquemia renal e inflamação (72-80). Bloqueadores
de canais de cálcio e teofilina, que inibe a adenosina, atenuam
a redução da taxa de filtração glomerular,
que normalmente segue a administração de radiocontraste (81,82)
e tanto o cálcio quanto a adenosina estão envolvidos em reações
que liberam espécies reativas de oxigênio. Agentes
nefrotóxicos aumentam a geração de peróxido
de hidrogênio, ânion superóxido e radical hidroxil nas
mitocôndrias do córtex renal (83,84), como acontece na administração
da gentamicina, um antibiótico aminoglicosídio que é
usado no combate a infecções causadas por bactérias
gram-negativas. Os aminoglicosídios são os maiores agentes
nefrotóxicos usados na prática médica, responsáveis
por 15% de todos os casos de insuficiência renal aguda e o seu efeito
deletério nas membranas celulares parece ser fundamental na patogênese
da nefrotoxicidade causada por essa substância. O
ânion superóxido é capaz de liberar ferro do estoque
da proteína ferritina, que normalmente equilibra a quantidade de
ferro celular convertendo-o em sua forma inerte. Se o agente nefrotóxico
aumenta a produção de ânion superóxido, consequentemente
há o aumento do ferro liberado do estoque celular, que irá
aumentar as reações de oxidação catalisada
por metais (responsáveis pela geração de mais espécies
reativas de oxigênio) e iniciar a peroxidação lipídica.
O citocromo P-450, que é encontrado especialmente em grandes quantidades
nas células do túbulo proximal, também é uma
fonte de ferro catalítico. Inibidores do citocromo P-450 (cimetidina
e butóxido piperonil) mostraram ser protetores emmodelos
de insuficiência renal aguda causada pela administração
de glicerol. A
glutationa é um tripeptídio presente em altas concentrações
em todas as células mamíferas (85-87) e, dentre as suas diversas
funções, protege as células do estresse oxidativo.
Agentes nefrotóxicos podem causar depleção da glutationa,
situação que dura até 16 horas após administração
do agente (88). A depleção experimental de glutationa por
L-butationa-(S,R)-sulfoximina (BSO) aumenta o dano tecidual causado por
estresse oxidativo (89-92), assim como a administração de
glutationa juntamente com o agente nefrotóxico, atenua os efeitos
renais deletérios do último. Agentes
nefrotóxicos também podem causar contração
glomerular, resultando em importante diminuição da taxa do
filtrado glomerular. A administração de catalase ou superóxido
dismutase, dois agentes importantes de neutralização das
espécies reativas, pode reverter essa situação (93).
Isso prova que a contração glomerular causada pelos agentes
nefrotóxicos é mediada pelas espécies reativas de
oxigênio. Finalmente,
as espécies reativas de oxigênio, que são geradas em
grandes quantidades após administração de agentes
nefrotóxicos, são capazes de induzir a apoptose de células
epiteliais do túbulo renal pela clivagem de DNA devido a ativação
de endonucleases (94). 3.
Antioxidantes A
formação de espécies reativas de oxigênio é
um processo comum que pode decorrer de processos metabólicos normais
como a auto-oxidação de formas reduzidas de carreadores de
elétrons (como o NADPH), flavinas reduzidas, citocromo P-450, reações
inflamatórias, síntese de óxido nítrico, reações
catalisadas pelas oxidases, peroxidação lipídica,
reações de glicação/glicoxidação,
e reações catalisadas por metais. Fatores ambientais podem
aumentar a atividade dos sistemas geradores de espécies reativas
de oxigênio, como irradiação (raios-x, raios-g,
luz ultravioleta) e poluentes na atmosfera (ozônio, N2O2,
NO2, fumaça de cigarro). Para
evitar o dano celular por todos esses processos, os sistemas biológicos
desenvolveram uma bateria de antioxidantes que podem converter as espécies
reativas em derivados inativos. Os antioxidantes mais importantes são
as enzimas superóxido dismutase (SOD), catalase, glutationa peroxidase
(GPx), glutationa-S-transferase (GST), peroxidases tiol-específicas,
metionina sulfóxido redutase, tioredoxina redutase, glutationa redutase;
proteínas ligantes de metal como ceruloplasmina, ferritina, transferina;
metabólitos e co-fatores como NADP+/NAPH, NAD+/NADH,
ácido lipóico, ácido úrico, bilirrubina; componentes
da dieta como vitamina A,C e E; íons de metal como Mg2+,
Mn2+, Zn2+. O
interesse em antioxidantes radioprotetores vem aumentando vertiginosamente
de 1950 até os dias atuais, tanto pela possibilidade de acidentes
nucleares quanto pela necessidade de radioterapia no tratamento de tumores,
onde se deve tentar o máximo de proteção aos tecidos
normais, mas não aos tecidos tumorais (que seriam destruídos
pela radiação). Foram estudadas substâncias radioprotetoras
como os fosforotioatos (WR-2721, WR-151327, WR-3689), que são compostos
precursores de aminotióis livres ativos. A ação dessas
drogas é uma combinação de efeitos: neutralização
de radicais livres induzidos pela radiação antes que eles
interajam com biomoléculas, hipóxia induzida, formação
de disulfídios, neutralização de metais, reparo do
DNA e estabilização do genoma. 3.1
N-acetil-L-cisteína Dentre
os antioxidantes tióis, a N-acetil-L-cisteína (NAC) é
um dos compostos menos tóxicos. Sua toxicidade letal é comparável
a da glutationa, e a toxicidade comportamental (que é medida por
alterações na atividade locomotora) é praticamente
nula (95). A
N-acetilcisteína tem sido usada na terapia experimental de diversas
doenças, incluindo a toxicidade do paracetamol e AIDS (96). A diversidade
de aplicações de NAC deve-se às propriedades farmacológicas
do grupo tiol cisteinil, que reage principalmente com radicais hidroxil
e ácido hipoclórico e, em menor escala, com peróxido
de hidrogênio e ânion superóxido. A
N-acetilcisteína tem sido testada em estudos que procuram uma terapia
capaz de amenizar o impacto de danos teciduais no rim. Estudos com NAC
mostram sua ação vasodilatatória que amenizaria os
efeitos do radiocontraste (97,98). Aumento
dos níveis intracelulares de glutationa protege os túbulos
proximais renais de anóxia in vitro (99), e um dos efeitos
antioxidantes indiretos de NAC é aumentar a biossíntese de
glutationa. Após a administração de NAC, verifica-se
um aumento de glutationa intracelular renal (100). O
endotélio vascular desempenha um papel importante no controle das
funções renais e atualmente já é conhecido
que o óxido nítrico (NO) participa do mecanismo regulatório
do fluxo sanguíneo renal, da taxa de filtração glomerular
e da excreção de sódio e água. Disfunções
endoteliais estão intimamente relacionadas com os danos teciduais
após isquemia/reperfusão (101) e nesse modelo experimental,
a inibição de NO afetou a recuperação do fluxo
sanguíneo renal (102), mostrando que é um importante fator
de manutenção do fluxo após o dano causado pela isquemia/reperfusão
no leito vascular. Adicionalmente, a inibição da atividade
da enzima óxido nítrico sintetase (NOS) exacerba a perda
da função renal durante a hipóxia/reperfusão
(103). NAC previne a tolerância aos efeitos vasodilatatórios
dos nitratos (104) e potencializa a resposta anti-hipertensiva ao captopril
e enalaprilat em ratos espontaneamente hipertensivos num mecanismo dependente
de NO (105). A hipótese sugerida é que o grupo tiol de NAC
combina-se com o NO formando S-nitrosotiol, que é uma forma mais
estável de NO e um potente ativador de guanilato-ciclase (105-107). Estresse
oxidativo renal causado por isquemia ativa a via das quinases Jun NH2-terminal
(108-110), ativando a expressão de genes como c-fos e c-jun
(111-114) e, consequentemente, afetando fatores de transcrição
que interferem na taxa de filtração glomerular. A administração
de NAC antes e imediatamente após a isquemia renal inibe a expressão
dos genes c-fos e
c-jun e diminui a perda da função
renal induzida após a reperfusão (115). Se NAC diminui a
expressão desses genes pelas suas propriedades antioxidantes ou
por outro mecanismo ainda não é conhecido. A
ativação de macrófagos e a deposição
de imunocomplexos em modelo murino de glomerulonefrite autoimune (116),
o desafio intravenoso com endotoxina (117) e a exposição
in vitro a interleucina-1b
e fator de necrose tumoral a
(118) induzem a expressão na superfície de células
mesangiais da molécula de adesão da superfamília das
imunoglobulinas, VCAM-1. Para tanto, o fator nuclear kB
(NF-kB)
é induzido por agentes que, nas células mesangiais, geram
peróxido de hidrogênio e ânion superóxido intracelulares
(80). A expressão de VCAM-1 traz como consequência a atração
de linfócitos polimorfonucleares.NAC
bloqueia a expressão de VCAM-1 na superfície de células
mesangiais e o fator nuclear kB,
provavelmente por inibir a geração de espécies reativas
de oxigênio intracelularmente (119). Ainda,
NAC abranda os efeitos deletérios da isquemia renal provocada pela
oclusão da artéria renal durante 50 minutos (115) e pela
oclusão da veia cava inferior durante 90 minutos (120), melhora
a função renal na síndrome hepatorenal (121) e previne
a redução da função renal induzida por radiocontraste
(34). 4.
LinfócitosTCD4+ Modelos
murinos de artrite reumatóide e o lupus eritrematoso têm sido
úteis no estudo das manifestações clínicas
de inflamações (122,123), linfoproliferação
e glomerulonefrite. Nesses modelos, o tratamento com anticorpos monoclonais
anti-TCD4+ amenizam essas manifestações clínicas
(124). Em modelo murino de lupus, verificou-se que a depleção
de clones TCD4+ suprimia a autoimunidade (125) e pacientes com
artrite reumatóide têm sido tratados adicionalmente com anticorpos
monoclonais que reduzem substancialmente a população de linfócitos
TCD4+ (126-130). Muitos
estudos histológicos de glomerolunefrite humana têm associado
o acúmulo glomerular de células T com o dano renal (131-135),
mesmo na ausência de depósito de imunocomplexos (136). Em
biópsias, as células T predominantes são as TCD4+,
ainda que haja um número razoável de células TCD8+.
Células T também são observadas em modelos experimentais
de glomerulonefrite em ratos (137-139) e camundongos (140,141). Ratos tratados
com anticorpo contra membrana basal glomerular desenvolvem uma severa glomerulonefrite
proliferativa, que é amenizada com a depleção de células
TCD4+ (138). Camundongos deficientes em células TCD4+
não apresentam glomerulonefrite após administração
de antígeno nefritogênico, ao contrário de camundongos
normais e camundongos deficientes em células TCD8+ (142). Referências 1.Santos,
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