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Volume 1- Número 1- Ano I (Jan/Fev/Mar de 1998)

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Medicina baseada em evidências: na hora da prática médica

Prof. Dr. Abrahão Salomão
Prof. Titular da Universidade Federal de 
Minas Gerais, UFMG, Belo Horizonte

O que é medicina embasada em evidências?

Convivendo com enormes avanços tecnológicos, envolvidos com a criação  de tantas drogas, quantas mudanças ocorreram no exercício da medicina  nas últimas décadas! Será que tais mudanças tornaram esta medicina mais científica também mais efetiva? Fica claro, antes de mais nada, que só há sentido na Medicina Embasada  em Evidência, se relacionar adequadamente a metodologia da pesquisa clínica e a da epidemiológica: surge a Epidemiologia Clínica, fascinante área das Ciências Biológicas. Ela, por exemplo, define a precisão dos critérios  metodológicos utilizados na pesquisa, só então permitindo avaliar corretamente o impacto do trabalho na mudança, ou inovação, de decisões clínicas. Portanto, na Medicina Embasada em Evidência , aceita-se que há  incerteza em decisões  clínicas; que algumas ações são tomadas sem se conhecer o seu real impacto; que por melhor que seja a experiência clínica existe incerteza em certas decisões; devem-se buscar  evidências clínico-epidemiológicas para a tomada de decisões.

Sendo tão importante o conceito de evidência clínico-epidemiológica como se pode caracterizá-lo?
Para Ducan e Schmidt, valorizando desfechos clínicos, permitindo definir graus de evidência cientifica para condutas clínicas e apresentando dados para análise objetiva do potencial impacto das condutas clínicas. Ocorre, porém, que se há alguns desfechos claros ( morte, doença, custo, perda de função, hospitalizações), outros são medidos por parâmetros que não demonstram evidencias que justifiquem  intervenções de risco, ou dispendiosas.

Assim sendo, cada médico precisa desenvolver sua estratégia para  acessar adequadamente a evidencia clínico-epidemiologica. Perceberá, então, que as evidencias cientificas para intervenções podem ser graduadas e para cada tipo de evidencia foi utilizada uma fonte, dai se decidindo pela justificativa para a intervenção.

A Medicina Embasada em Evidência , passou a oferecer uma nova abordagem para o ensino da pratica médica, permitiu a criação de grupos de trabalho ( que auxiliam avaliar validade de um trabalho, se os resultados apresentados exigem novas condutas com o paciente), forneceu guias para acesso à literatura médica, e influiu, decisivamente,  na redação de artigos originais. O que fica claro, para os iniciantes, é que , bem aplicada, a Medicina Embasada em Evidência  viabiliza um exercício médico mais eficaz.

Medicina Embasada em Evidência - No Exercício da Prática Médica :
Os comentários introdutórios neste rápido artigo - é tão amplo o universo da  Medicina Embasada em Evidência  que parece um atrevimento ser abordado por  um especialista clínico despretensioso - permitem que se façam alguns  comentários desambiciosos para responder algumas questões específicas,  principalmente dirigidas por nefrologistas. Com a pletora de comunicações  cientificas devem-se identificar, ou se tentar, fontes de melhor abrangencia. Citem-se , entre elas, ensaios clínicos randomizados, metanálises, artigos de revisão, editoriais e publicações que resumem, melhor ainda se comentando , artigos publicados em periódicos dirigidos a áreas especificas de interesse.
Em 1997 o Dr. Marvin Moser publicou um interessante ensaio sobre a história do  tratamento da hipertensão.  Quantas evidências foram necessárias para se  rejeitar o conceito de Paul Dudley White de que  “ hypertension may be an  important compensatory mechanism which should not tampered with ... “ estabelecido em 1931, ano em que no BMJ Hay escreveu o seguinte:  O maior  risco que corre um homem é ter sua hipertensão detectada, porque, então, aparece algum idiota que certamente vai tentar reduzi-la” . Um típico caso de  hipertensão não tratada, por falta não só dos conhecimentos da Medicina  Embasada em Evidência ,  como de drogas adequadas, foi o de Franklin Delano  Roosevelt, nos anos 40, que acabou falecendo de hemorragia cerebral. É difícil apontar outra situação onde a Medicina Embasada em Evidência  tenha demorado tanto a alterar o nihilismo terapêutico como na hipertensão arterial. Hoje a Medicina Embasada em Evidência  visa apenas chamar a atenção para os benefícios em se reduzir a pressão a uma meta razoável ( 140 / 90 ) já que isto reduz muito o risco cardiovascular.  Na escolha  inicial das drogas recomenda-se, baseando-se em dados fiéis obtidos com acompanhamento prolongado, o uso de diuréticos e beta-bloqueadores.
Um exemplo de evidencia cientifica preliminar do tipo pesquisa clinica  observacional com desfechos clínicos  cuja fonte são estudos de caso controle, é o  uso de ciclosporina no tratamento de glomerulosclerose segmentar e focal, situação que dá margem a favoráveis e anedóticos relatos. Eis uma intervenção que, ainda que eficaz (reduzindo hiperfiltração glomerular) não é custo-efetiva: uso de inibidores da ECA em pacientes com diabete tipo I  sem hipertensão, nem microalbuminúria.
Inúmeras outras evidencias demonstrariam a definitiva e ampla superioridade no  exercício da medicina utilizando-se as informações fornecidas pela Medicina Embasada em Evidência . Tomara que a simples menção do modelo torne mais crítica a leitura de artigos e estimule o profissional a buscar sempre evidencias que contribuam para aprimorar o cuidado com o paciente.


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