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Aprendizado baseado
em problemas aplicado ao curso de Medicina
Prof. Dr.
Vítor A. Soares
Livre Docente
Disciplina de Nefrologia
Faculdade de
Medicina-Botucatu, UNESP
O aprendizado
de medicina no nosso país vem desde longo tempo necessitando ser
melhorado. Alguns dos problemas que identifico como mais importantes são:
-
falta
de motivação do estudante;
-
enfraquecimento
do ensino das cadeiras básicas;
-
ausência
de avaliação rigorosa na qual se julgue a capacidade do aluno
raciocinar usando seus conhecimentos e não sua memória;
-
ensino
descartável - o aluno não é cobrado pelos conhecimentos
que ele deveria ter adquirido durante os seus cursos anteriores;
-
ensino
baseado em diagnóstico e conduta e não em entendimento dos
mecanismos básicos das diferentes doenças e das alterações
por elas provocadas;
-
despreparo
dos docentes;
-
ausência
de mecanismos que facilitem e obriguem o médico já formado
a participar de programas de educação continuada;
Estes problemas são estruturais
e enquanto não forem resolvidos irão contaminar qualquer
método de ensino impedindo que este atinja bons resultados, portanto
deveriam serem atacados prioritariamente . Neste artigo pretendo
expor opiniões resultantes de 20 anos do exercício de ensino
de Nefrologia em uma faculdade estadual do Estado de S. Paulo (Faculdade
de Medicina de Botucatu- UNESP) onde em torno de 95% dos docentes são
tempo integral e dedicação exclusiva, pelo menos 80% tem
o título mínimo de Mestre e mais de 50% tem o título
de Doutor. Esta é uma situação bastante particular
sendo possível que alguns dos conceitos aqui expostos não
se apliquem universalmente.
Nos últimos 2 -3 anos
vem ganhando força a idéia de utilizar o método de
aprendizado baseado em problemas (“Problem Based Learning”-PBL) com o objetivo
de melhorar o aprendizadomédico. O PBL na verdade traz no seu bojo
2 mudanças importantes, uma relacionada ao método de aprendizado
e outra relacionado ao currículo médico.
A primeira pretende fazer
com que o aluno assuma a responsabilidade do seu aprendizado. O método
proposto para esta modificação seria basicamente dar um problema
para o aluno resolver a partir de seu conhecimentos anteriores ou seja
pressupõe um bom conhecimento prévio.
A McMaster University , um
dos berços do PBL, exige como pré requisito absoluto “a minimum
of 3 years of university undergraduate degree level work”. A seleção
é feita através de 2 entrevistas diferentes: “Simulated Tutorial”
e “Personal Interview”. Na primeira é avaliada a capacidade do grupo
de discutir um problema ou situação de saúde e na
segunda dentre vários itens avalia-se a capacidade de adaptação
do indivíduo ao programa da McMaster1
Na “Harvard Medical School”,
atualmente, existem 3 programas diferentes de medicina: o Curso Clássico,
o “The New Pathway” e o “HST”. O “New Pathway Program” adota um sistema
muito parecido com o PBL. Para admissão nesse curso exige-se além
de 3 anos de curso universitário (como no curso tradicional), no
mínimo mais 16 créditos em cursos “não científico”,
porém “students are rarely accept to the New Pathway Program
without a bachelor’s degree”2
Ao se analisar estes dados
pode se deduzir que a McMaster considera que nem todos os alunos
se amoldam a este tipo de aprendizado, uma vez que um dos objetivos
explicito da entrevista pessoal é o de avaliar se o futuro aluno
tem condições de se adaptar ao PBL. A Harvard Medical School
é mais exigente em termos de seleção para os alunos
do “New Pathway Program” do que para o programa clássico.
Pelo exposto podemos ver
que a população que é exposta ao PBL difere muito
daquela que entra na escola de medicina no Brasil.
Em relação
ao método de ensino propriamente dito tenho algumas dúvidas.
Pelo que eu entendi no PBL, as aulas clássicas são substituídas
por discussão em grupo, dos problemas apresentados. Teoricamente
isso é muito bom, porém se o indivíduo que coordena
o grupo não tiver experiência, e os alunos não estiverem
muito motivados, a aula clássica vai ser substituída por
um seminário dado por um aluno com pouco conhecimento da matéria,
sem experiência pedagógica e sem material didático
previamente preparado.
Outra diferença básica
do PBL é o modo como as diferentes matérias são distribuídas
durante o curso. Assim por exemplo no Módulo Sobre Gripe”
(vide entrevista do Dr. Pedro Gordon - neste número), o aluno
vai aprender anatomia do sistema respiratório, dados básicos
sobre virologia, fisiopatologia , quadro clínico e tratamento da
gripe. Qualquer indivíduo que conviva com o estudante e professores
de medicina sabe que, numa situação dessas, tanto os professores
como os alunos vão dar muito mais importância para os temas
ligados a diagnóstico e tratamento do que para os temas básicos.
Isso vai levar, ao longo do tempo, a menor ênfase no estudo das cadeiras
básicas fazendo com que falte ao aluno o substrato do conhecimento
necessário ao raciocínio clínico. Se quisermos formar
o indivíduo que pensa e tem senso crítico um bom conhecimento
das cadeiras básicas é fundamental.
Assim , por exemplo, no meu
entender é impossível alguém ler um trabalho científico
com algum senso crítico, sem conhecimento mínimo de estatística
e de delineamento científico. A “Stanford Medical School” adota
o PBL apenas no curso, que grosseiramente corresponderia ao nosso curso
Semiologia, quando o aluno já adquiriu conhecimentos básicos
que lhe permitem formar uma linha de raciocínio.
Em resumo, na minha opinião,
o nosso aluno quando entra na faculdade não tem a base suficiente,
para desde o inicio, ser submetido a um programa semelhante ao PBL. Outro
fator complicador é formação dos nossos docentes.
Quando se escolhe qualquer assunto em Medicina geralmente existe mais de
uma opinião. Assim dependendo do artigo consultado você pode
chegar a conclusão que a conduta A é melhor, pior ou igual
a conduta B. Caso o orientador do grupo não tenha uma boa experiência
científica. será muito difícil ele comparar os resultados
dos vários trabalhos.
Quando falo em experiência
científica estou falando em título de Doutor e um certo número
de trabalhos publicados. Pessoas sem experiência científica
tendem a aceitar como verdade o último trabalho publicado, um dos
principais mecanismos de geração de modismos. Por outro lado
os temas publicados em livros textos geralmente são mais abrangentes
discutindo os prós e contras de determinado assunto, dando visão
muito mais ampla do que a leitura de 1 ou 2 artigos. Os artigos científicos
devem serem usados pelo aluno como complementação de
aprendizado, e pelo docente como atualização.
Ainda em relação
ao docente, o preparo das aulas dos temas básicos é ou deveria
ser instrumento poderoso de aprendizado de um determinado tema, que corre
o risco de ser perdido no PBL.
A estrutura da universidade
é fundamental. para o desenvolvimento do PBL. Assim nas faculdades
onde ele é implementado as aulas básicas estão a disposição
dos alunos, sob a forma de videoteipe , textos , slides etc., além
de extenso acervo da biblioteca.
Outra dificuldade é
o número de docentes existentes nas nossas faculdades de medicina.
Há aproximadamente 4 anos atrás em conversa com Dr.
Helmut Renke, um dos coordenadores do “New Pathway Program” da Harvard
Medical School, a opinião dele era de que o programa parecia
ser interessante, mas que ele tinha dúvida quanto a capacidade da
Harvard, de conseguir mantê-lo devido ao dispêndio de tempo
dos docentes.
Em Botucatu, no Departamento
de Clínica Médica há aproximadamente 25 anos houve
uma reforma de ensino e as disciplinas de cardiologia, nefrologia e gastroenterologia
passaram a ser ministradas baseada em discussões de caso padrão
e casos de enfermaria. Os alunos do 40 ano médico (grupos
de 10) recebiam os casos anteriormente com várias questões
que os orientava no estudo prévio. Além disso passaram
a fazer , sob orientação de um docente, evolução
e prescrição dos pacientes internados nessas enfermarias
e visitas aos leitos onde era discutido diagnóstico e conduta de
cada paciente seguido pelas alunos. Pessoalmente vivi esse esquema intensamente,
primeiro como aluno e depois como coordenador do curso, durante aproximadamente
10 anos.
Com o passar dos anos foi
observado que as discussões cada vez mais se dirigiram para
diagnóstico e tratamento e cada vez menos para fisiopatologia, etiopatogênia,
etc, o que nos levou a, gradualmente, reintroduzir as aulas clássicas
de temas básicos.
Finalmente outro dado me
deixa bastante preocupado. Normalmente as mudanças, em medicina,
que se comprovam eficazes, geralmente têm rápida difusão,
e passam a serem aceitas em questão de alguns anos, em todo
mundo. Por exemplo a introdução do transplante renal e da
hemodiálise crônica data do fim da década de
50, início da década de 60, e hoje estes métodos estão
difundidos por todo o mundo. O PBL foi criado na McMaster na
década de 60 e até agora permanece restrito a apenas
algumas escolas médicas.
De qualquer jeito gostaria
de dizer que a discussão do PBL tem o grande mérito de levantar
o debate sobre ensino médico no país, e que na minha
opinião qualquer método desde que bem aplicado pode
trazer bom resultados , porém a aplicação pura e simples
de um método não resolverá de per si os problemas
básicos citados anteriormente.
Referencias:
1: http://www-fhs.mcmaster.ca/mdprog/process.htm
2: http://www.hms.harvard.edu/admissions/requirements.html
Comentários
enviados sobre este artigo:
-
Prezado Prof.Vitor,
Seu artigo sobre PBL ( Aprendizado
Baseado em Problemas) esta muito bem escrito e sua bibliografia é
correta. Tenho, porém, que discordar dos seus conceitos sobre
com será o aprendizado nas áreas básicas. No PBL jamais
uma área poderá receber mais ênfase do que outra, pois
há um roteiro a ser obedecido que é ditado pelos objetivos
educacionais do módulo. Portanto ano há maneira de se dar
mais ênfase à este ou aquele tópico. E mais: os professores
do chamado curso básico são os coordenadores de módulos
no primeiro ano para não haver nenhuma tendência a prejudicar
involuntariamente alguma área.
Eu reconheço perfeitamente
os riscos e os eventuais problemas a serem enfrentados, mas também
sei o quanto o atual ensino médico é ruim e como os estudantes
estão despreparados para enfrentar os desafios éticos, sociais
e de comunicação que a profissão exige. A "compartimentalização"
do ensino em disciplinas leva ao "loteamento" do paciente que vemos no
dia dia. Não me conformo com isto. Nós vamos mudar, porque
é preciso.
Os seus dados sobre Mc Master
e Harvard estão corretos mas levam a um viés de seleção,
porque você não comenta nada sobre Sherbrooke no Canadá,
Albuquerque,Southern Illinois, Cornell nos Estados Unidos, Transkey na
Africa do Sul, Newcastle na Austrália, Maastricht na Holanda, Glasgow
e Dundee na Escocia e Marilia no Brasil... E centenas de outras escolas
pelo mundo .
Caro Vítor, nos estamos
absolutamente convencidos que é preciso mudar, mas também
sabemos os riscos que uma mudança radical encerra. Acabar com as
disciplinas, tirar o poder do professor que não vai mais ensinar
o que quiser, usar seus velhos slides para dar a "sua" aula, mostrar a
sua experiência sem estar baseado em evidências, não
poder mais avaliar o aluno segundo os seus critérios, tudo isto
é demais para a nossa habitual complacência... Alguém
vai ter que correr estes riscos e ousar. Junte-se a nós . Ajude
a melhorar o Ensino em Botucatu e no Brasil.
Atenciosamente
Prof.
Pedro Gordan - UEL
-
Caro Pedro:
Citei a McMaster e a Harvard
como exemplo. Nos EEUU com certeza qualquer escola medica exige pelo menos
3 anos de College ( que e um curso universitario)e acho que na Europa o
preparo do aluno e parecido. Gostaria de frisar nos EEUU o curso de Medicina
e considerado curso de pos graduacao. O titulo de Medical Doctor _ MD tem
o mesmo valor academico que o de PhD(Philosofical Doctor)
Um abraco
Vitor
Soares-Botucatu
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